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Correio Braziliense

Mesmo após os 70, mulheres de Brasília se mantêm ativas e estilosas

Conheça as histórias de brasilienses que, mesmo na terceira idade, continuam saudáveis, conectadas e atentas à modernidade


postado em 29/07/2018 07:00 / atualizado em 30/07/2018 09:53

(foto: Marcelo Ferreira/CB)
(foto: Marcelo Ferreira/CB)

Não importa a idade: elas são empoderadas, contemporâneas e cheias de estilo. A maturidade é só um detalhe. Superativas e charmosas, cada uma exala personalidade no falar, no ser e no vestir. Atentas à modernidade, estão conectadas ao que há de mais atual. Jovens na alma, são donas do tempo: vivem o presente e planejam o futuro, sem se preocupar se a pele vai envelhecer ou não.

 

Elas são pleasure growers — termo em inglês que caracteriza um grupo de pessoas que desejam aproveitar a vida ao máximo. E Brasília tem suas representantes. Antenadas com o agora, mulheres como Moema Leão, Mercedes Urquiza e Maria José Janot são a personificação da contemporaneidade e ensinam como se manter atual aos 70.

 

Para Claudia May, psicóloga e professora do Centro Universitário UniCeub, o empoderamento das mulheres, das mais variadas idades, é uma tendência positiva. “Elas foram ganhando espaço social e, hoje, seguem modelos de guerreiras que ocupam diferentes papéis na sociedade.” Segundo Cláudia, é preciso buscar se sentir bem, sem se espelhar no outro, reconhecendo o próprio estilo, potencialidades e fragilidades.

Quando a vida começa

Outro conselho da especialista é buscar qualidade de vida, tão difícil nos dias atuais. “Estar exposto a estímulos é algo que contribui para o processo de aprendizagem e atenção, provocando a curiosidade e a vontade do novo.”

 

Assim como Claudia, Isabelle Chariglione, psicóloga e professora da Universidade Católica de Brasília, acredita que, a depender do ponto de vista, é nesta fase que a vida realmente começa — ela observa que a qualidade e a expectativa de vida do brasileiro aumentaram significativamente e ressalta que a longevidade é uma verdadeira conquista.

 

“O Brasil tem um número significativo de octogenários e centenários. Então, a pergunta para os que chegam aos 60 anos seria: ‘O que você pensa em fazer nos próximos 10, 20, 30 anos?’ Com certeza, é algo que podemos planejar. São períodos de finalização de alguns ciclos, mas também de descobertas de outros.”

As cores de Moema

 

 

(foto: Marcelo Ferreira/CB)
(foto: Marcelo Ferreira/CB)
 

Era uma tarde de quarta-feira quando Moema Leão recebeu a equipe da Revista vestida de si. O caftan Roberto Cavalli multicolorido, enfeitado por pérolas envoltas no pescoço, é reflexo da personalidade cheia de humor e cor de uma das empresárias e anfitriãs mais respeitadas da cidade.

 

Mãe, avó e bisavó, Moema confessa ser amante do tempo presente. “Talvez era para eu sofrer com esse negócio de amadurecimento. Pelo contrário, não sofro nada. Eu vivo a vida no presente. Hoje me arrumei, coloquei meus colares que eu amo, estou vivendo. É outro momento.”

 

Plugada ao mundo digital, ela dá uma aula de como se manter atual aos 70. “O mundo está muito conectado, logo a gente também tem que estar. Se já não temos o físico maravilhoso de antes, porque essa fase já passou, o segredo é se tornar uma pessoa interessante com sua experiência de vida, mas dentro de uma realidade moderna.”

 

Nascida em Rio Verde, em Goiás, Moema chegou a Brasília aos 24 anos, já com os quatro filhos. Nos anos 1970 e 1980, organizava festas deslumbrantes em sua mansão no Park Way. Agora, morando com o marido na antiga e aconchegante casa de hóspedes da mansão Flamboyant, ainda assume ser festeira, mas gosta mesmo do silêncio e da calmaria.

 

Os bailes memoráveis, segundo ela, ficaram no passado. “Não sei se enjoei ou algo assim, mas aqui se tornou meu refúgio. E gosto muito, me dá prazer. Nos fins de semana, fico em casa, sossegada. Amo não fazer nada.”

 

O ócio, para Moema, é espaço para criatividade. Sua curiosidade é o que a mantém viva. Aos 72 anos, está à frente da CasaCor Brasília há 19, atenta com o que há de mais moderno na área da decoração. Quanto à mostra, ela antecipa: “A Semana de Design de Milão estava numa fase muito sóbria, muito cinza. Este ano, foi uma explosão de cores. E eu estou achando ótimo!”, brinca.

 

Apesar das dezenas revistas de moda empilhadas ao lado do sofá na sala de visitas e do acervo de roupas e acessórios enormes, Moema não é vítima da moda. Muito menos do pretinho básico. Não desce do salto e gosta de investir em peças atemporais e marcantes, assim como ela.

 

“Tenho meu estilo próprio. Algumas mulheres acham prático vestir um pretinho básico. Eu não. A não ser que eu coloque um colar deslumbrante para enfeitar. Gosto muito de cor. Batom vermelho, por exemplo, usei a vida inteira.”

 

O closet é preenchido por peças simbólicas, que contam histórias. Como o vestido que usou na inauguração da mansão, feito sob medida por Markito, estilista que teve seu auge na década de 1980. Esses, o vestido e o amigo, ela guarda na memória com esmero.

 

Depois do câncer...

 

Em tom de voz alto, alternado com risadas contagiantes, Moema nunca deixou de transpirar disposição e alegria. Em 2017, ela lutou contra um câncer no útero e transformou as sessões de quimioterapia em praticamente um evento. “Era uma alegria. A gente ria tanto, a sala era lotada de enfermeiras e da minha família”, relembra.

 

Com a doença descoberta no início, Moema não teve dores. Em suas palavras, não sentiu nada. Teve o cabelo raspado, mas nada que a abalasse. Os fios mais curtos agora fazem parte do novo visual. “Acho que não vou sair dessa fase. É muito prático, fiquei até melhor”, brinca.

 

Os hábitos após a cura não são tão diferentes de antes. Os exercícios físicos continuam na rotina cinco vezes por semana, alternados por musculação e aulas de pilates. Quanto ao futuro, Moema não franze a testa. O que há de vir não é uma preocupação para ela: não é muito de fazer planos nem de criar expectativas. O que importa é viver intensamente o hoje, o agora e o já. 

 

Confira aqui o vídeo com Moema Leão  

 

De bem com a vida 

(foto: Minervino Junior/CB)
(foto: Minervino Junior/CB)
 

Com sotaque ainda puxado para o argentino, ela nos recebe no local onde mora há mais de 16 anos. Próximo a um deque do Lago Paranoá, a beleza de quem vê a vida com tanta leveza e tem tantas histórias para contar fica ainda mais deslumbrante. Cabelo bem arrumado, maquiagem no rosto e um estilo de deixar qualquer um boquiaberto, aos 79 anos, Mercedes Urquiza coleciona vivências e bom humor.

 

O ar fino e reservado no início da entrevista logo dá espaço a uma risada contagiante. Pioneira da capital, empresária, escritora, mãe e avó. Empoderada. Não há nada que ela não consiga fazer. E ela deixa claro que a ocupação é o que a mantém cheia de vida. Quando perguntada sobre como definiria seu estilo, logo questiona: “De vestir ou de viver?”. E prontamente responde: “Sou adaptável e ágil. Sempre aventureira. Não tenho só um estilo e posso mudar dependendo das ocasiões.”

 

Para o encontro, fez questão de levar diferentes estilos de roupa para as fotos e fazer algumas mudanças no visual. “A vaidade, depois de tanto tempo de vida, faz com que comecemos a nos olhar com mais carinho. Para mim, isso é comum! Como não tenho tempo, aposto em sobreposições. Às vezes, troco bolsa, sapato e uso poucas joias. Acho que, com a correria do dia a dia, menos pode ser mais”, explica.

 

Moradora da capital há mais de 60 anos, Mercedes ajudou no desenvolvimento e crescimento de Brasília: aos 18 anos e recém-casada, saiu de Buenos Aires com o então marido, Hugo Maschwitz. Os dois viajaram por 48 dias apenas com um baú de pertences e o pastor alemão Fleck, se aventurando em um Jeep Land Rover.

 

Ao chegarem por aqui, moraram em um local sem água quente, luz ou telefone e participaram ativamente na construção da nova capital, onde ela trabalhou como corretora oficial da Novacap e revendedora de material de construção para os primeiros prédios da cidade.

 

Em 1962, fundou a primeira agência de viagens da cidade, no recém-inaugurado Hotel Nacional, abraçando definitivamente o ramo do turismo, que segue hoje administrado pelas filhas. Além de duas filhas, Mercedes divide os dias com as novidades do mundo dos cinco netos.

 

“Sou muito feliz e realizada. Brasília só me deu coisas boas e tenho muito orgulho dessa cidade. Não só pela beleza e arquitetura, mas pela família linda que formei aqui. Eles, assim como eu, fazem parte da história dessa cidade.”

 

Segundo a pioneira, aprender com os netos e se manter atual é uma realização. Além disso, ela garante que, apesar de não ser nenhuma esportista, se arrisca na academia, na caminhada e em alguns exercícios na piscina. “Meus dias são muito ocupados e sempre estou com vários projetos em mente. Se eu não me cuidar, as coisas não funcionam”, brinca.

 

Divulgadora de Brasília

 

Dançar e viajar são algumas paixões de quem sorriu a todos os momentos ao falar da vida. “Há algum tempo me afastei do turismo de vender viagens e me dediquei a divulgar Brasília lá fora.” Com uma coleção de fotos — pessoais e de fotógrafos famosos que acompanharam a construção da capital —, Mercedes já fez exposições em mais de 60 países. “Isso tudo me deixa muito feliz. Eu me sinto grata por tudo o que fiz e continuo fazendo.”

 

E os projetos não pararam por aí: há poucos meses, lançou o livro A trilha do Jaguar: Na Alvorada de Brasília, em parceria com a Editora Senac, no qual conta a trajetória desde a saída da Argentina até a inauguração da capital, incluindo os primeiros dias das duas filhas brasilienses, Mercedes e Gabriela.

 

Os relatos abrangem os mil dias iniciais de Brasília, narrados, pela primeira vez, por uma protagonista feminina “É uma produção de vida, com fotos antigas minhas e de outros fotógrafos. São verdadeiras obras de arte e ver o resultado é emocionante. Confesso que escrevi algumas das páginas com lágrimas nos olhos.”

 

A popularidade do livro já é tanta que a autora foi convidada a participar da Bienal do Livro e da Leitura aqui em Brasília, em agosto, e do estande da Embaixada do Brasil na Feira do Livro de Gotemburgo, na Suécia. O convite veio do próprio embaixador do Brasil no país, Marcos Pinta Gama.

 

Em setembro, Mercedes tem planos de ir para lá, trabalhar na divulgação do livro. “Meu objetivo está dando certo e me sinto realizada e alegre em todos os aspectos da vida. Sou eu mesma que faço minha agenda e meus horários e tenho uma ótima memória! Também tenho ótimas pessoas por perto para contar.”

Vestindo o melhor sorriso

(foto: Carlos Vieira/CB)
(foto: Carlos Vieira/CB)
 

Se o sorriso fosse uma peça de roupa, sem dúvidas, essa seria a preferida da aposentada Maria José Janot. Aos 70 anos, a alegria complementa um estilo moderno, porém, reservado, que define bem o significado do menos é mais. Mãe, avó e bisavó, Zezé, como é conhecida, dispensa paetê, gloss e glitter e destaca o seu brilho próprio.

 

O misto de simplicidade e elegância vai desde o look à decoração da casa. Enquanto Zezé vestia um figurino básico azul e branco, a residência se enchia de cor, com peças de argila e quadros produzidos por ela mesma.

 

E a personalização não fica só no ambiente. A aposentada ama colocar a mão na massa para deixar as roupas com a cara dela. “Mudo o modelo da blusa, do decote. Não gosto de ficar igual, eu não sou de etiqueta! Gosto do diferente. Enquanto minha amigas estão comprando uma bolsa de marca, eu amo um artesanato”, conta.

 

Zezé afirma que preza pela vaidade na medida. Para ela, o importante é se sentir bem e, para isso, não é necessário estar com as unhas e o cabelo impecáveis a todo instante. “Nunca fui extremamente vaidosa. Nunca deixei de ir em um festa porque não deu para fazer a unha ou ir ao cabeleireiro. Vou sem esses aparatos e me divirto tanto quanto — ou mais — do que as que se preocupam tanto com esses detalhes. Falo que eu não preciso pintar as unhas, eu já tenho brilho próprio”, brinca.

 

Enquanto muitas se desesperam quando as rugas começam aparecer, Zezé nem se preocupa em esconder as marcas da experiência e muito menos a idade. Apesar de gostar de coisas diferentes, ela conta que escolhe as roupas e os penteados de acordo com a faixa etária. “A vida tem um ciclo e eu não posso disputar com ele. Vejo algumas amigas com o cabelo comprido, mas não gosto muito. Já tivemos a nossa época, mas se elas se sentem bem, ótimo.”

 

Para ela, o segredo está em uma bela amizade com o espelho. “É bom lembrar que todo mundo vai envelhecer e a gente tem que se acostumar com o espelho. Tem que rolar uma química com ele, se não fica difícil”, destaca.

 

De bem com o corpo 

 

Antes mesmo de pensar em roupa e maquiagem, Zezé destaca que se preocupa principalmente com o corpo. Mas se engana quem pensa que o foco está em perder as gordurinhas. O objetivo aqui é cuidar da saúde. “Primeiro, a gente tem a obrigação de estar bem com o próximo. Não precisa de exageros, eu acho que nessa faixa temos que nos cuidar, ter cuidado com a saúde”, diz.

 

A aposentada conta que desde a juventude sempre gostou de atividade física e hoje, para movimentar o corpo, vai à academia. Porém, Zezé optou por um exercício bem mais divertido: a dança. Acompanhada por outras mulheres com idade entre 50 e 85 anos, ela participa do grupo Divas Dance.

 

Como o nome já diz, o projeto é voltado para verdadeiras divas que não veem a idade como um motivo para ficar paradas. Nas aulas, elas dançam diferentes músicas, que vão do rock aos hits atuais, como Anitta e Wesley Safadão. “Meus netos acham o máximo eu saber a coreografia da Anitta. Isso me diverte muito e torna-se prazeroso ir para academia.”

 

Além da atividade física, Zezé não deixa de lado o jogo de baralho com as amigas e os encontros, sempre animados, com a família. Segundo ela, de nada vale um look espetacular e um cabelo impecável se por dentro ela não estiver de bem com ela mesma e com a vida. 

 

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

 

Confira a matéria na íntegra na edição impressa da Revista  

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