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Correio Braziliense ESPECIAL

Por trás daquela roupa

Eles são peças fundamentais na cadeia produtiva têxtil, mas quase nunca recebem a valorização merecida. Conheça a trajetória de alguns costureiros da cidade


postado em 05/08/2018 07:00

Stella de Oliveira: %u201CO problema é que muitos não entendem que uma peça comprada pronta foi feita por alguém. As pessoas não têm essa consciência.%u201D(foto: Minervino Junior/CB)
Stella de Oliveira: %u201CO problema é que muitos não entendem que uma peça comprada pronta foi feita por alguém. As pessoas não têm essa consciência.%u201D (foto: Minervino Junior/CB)

Uma coisa é certa: para cada criador, há um exército de trabalhadores por trás da cortina. As costureiras fazem parte desse batalhão. Por muitos anos, foram operárias escondidas. Mas, sem elas, nada ganha vida. São a alma do negócio, profissionais indispensáveis para transformar um simples tecido em obra-prima. Entre linhas e agulhas, constroem reconhecimento e valor pelo trabalho que fazem.

 

Se alguma vez ficaram em segundo plano, é hora de reluzirem, porque a costura, acostumada a ser escondida no avesso, agora ganha o mérito do show. Nesta edição, fomos atrás de costureiros da cidade que trabalham por paixão e vocação. Em meio a máquinas e fios, os modistas se mantêm firmes e produtivos. E em cada alfinetada, dão toques de afeto.

 

A indústria da moda tem adquirido um caráter mais afetivo ao longo do tempo. A desvalorização humana e laboral na cadeia produtiva — que já causou catástrofes ao redor do mundo — é uma preocupação global que incomoda as gerações atuais. Rafaella de Castro Lacerda, professora de design de moda do Iesb, percebeu que, há cerca de dois anos, os alunos têm se engajado e se interessado pelo consumo consciente e pela moda que valoriza o trabalho local.

 

“Acredito que grande parte disso vem da informação. Movimentos como o Fashion Revolution e documentários que expõem os problemas da cadeia têxtil são fundamentais.”

 

Ainda não existem dados expressivos que comprovem que a população está, aos poucos, mudando a forma de consumir, mas Rafaella observa que os consumidores têm evitado comprar em lojas suspeitas de trabalho escravo, por exemplo, e optam pelas que oferecem mais transparência nos processos produtivos. Assim, ela observa que muitas pessoas resgatam técnicas artesanais como válvulas de escape e economia, o que acaba fazendo com que a produção local cresça e se valorize.

 

Tradição familiar

Ao lado da tradicional máquina de costura Princeza, que tem mais de 100 anos e pertenceu à avó, a estilista Stella de Oliveira, 51 anos, lembra de como começou a se encantar pelo mundo da costura.

 

Quando criança, visitava os avós na fazenda onde moravam, no Piauí, e observava que sempre tinha uma peça de roupa modelada e cortada para chulear — dar pontos na borda do tecido para não desfiar. “Hoje, isso é feito na máquina. Na época, era tudo feito à mão. Quando eu tinha 11 anos, minha avó me deixava fazer.”

 

Ao perceber o interesse, a mãe da estilista, que também costurava, começou a comprar retalhos para a filha, que passou a criar roupas para si, para as amigas e até para as professoras. Stella chegou a fazer faculdade de enfermagem, mas não conseguiu abandonar a costura. Aos 22 anos, se mudou para Brasília e começou a trabalhar no ateliê de uma loja de tecidos. Conquistou clientes, que, ao chegar ao espaço, só queriam ser atendidas por ela.

 

Quando o estabelecimento fechou, assumiu o ateliê e não parou mais. Autodidata, criou o próprio método de trabalho, fazia até vestidos de noiva. Mas queria melhorar e, em 2007, começou um curso superior de moda, ao qual se seguiram diversas especializações.

 

“Amei estudar a história da moda, isso traz uma bagagem muito grande que acaba sendo transmitida às minhas peças. A anatomia, por exemplo, é um estudo fundamental para quem cria peças sob medida, é necessário conhecer bem o corpo humano”, afirma.

 

Preocupada em estudar e se especializar para oferecer um serviço de qualidade e do qual possa se orgulhar, Stella observa que a mão de obra da costura ainda é muito desvalorizada, o que desestimula as pessoas. Ela nunca se interessou em trabalhar para lojas ou corporações, pois acredita que, além de seu trabalho não receber a devida valorização monetária, perderia a autonomia que sempre teve em suas criações e na relação com as clientes.

 

Valorização

 

O perfil das clientes varia, mas Stella percebe que as jovens são filhas e netas das mais antigas. A estilista acredita que as novas gerações priorizam a praticidade e os preços baixos. “O problema é que muitos não entendem que uma peça comprada pronta foi feita por alguém. As pessoas não têm essa consciência.”

 

A estilista acredita que existe uma maior preocupação social, que vem crescendo aos poucos, mas nota que esse ainda não é o principal motivador de quem procura uma costureira. “Acredito que a roupa de qualidade e sob medida ainda é o que as pessoas mais buscam.”

 

Stella, que tem funcionárias que a auxiliam no trabalho de costura, acrescenta o quanto é importante poder participar de todo o processo de criação e o quanto é gratificante trabalhar com prazer, sabendo que não está sendo explorada ou explorando a mão de obra alheia. “Sinto orgulho de ajudar a manter essa tradição que vem desde as agulhas feitas com lascas de pedra.”

 

Ofício e terapia

Sócias, Eleni (e) e Lúcia comandam o Espaço Mulher, ateliê especializado em consertos e criações sob medida(foto: Marcelo Ferreira/CB)
Sócias, Eleni (e) e Lúcia comandam o Espaço Mulher, ateliê especializado em consertos e criações sob medida (foto: Marcelo Ferreira/CB)

Dos 59 anos de vida de Maria Eleni Mendes, 30 deles foram — e ainda são — dedicados à costura. Cearense, ela se mudou para Brasília ainda adolescente. A habilidade com as agulhas vem desde a infância e hoje é mais um prazer do que uma fonte de renda.

 

Ela e a sócia, Maria Lúcia Rodrigues, 48, fazem do ofício um hobby. “Aqui é uma sessão de terapia. A gente entra com a cabeça cheia e sai com ela vazia. A gente senta para costurar e todos os problemas do mundo acabam”, diz Lúcia.

 

Já Eleni confessa que viver entre os carretéis a tirou da depressão. “A profissão me serviu de terapia. Tive problemas sérios de saúde, estava infeliz onde trabalhava, fui me deprimindo. Voltei a costurar e não larguei mais.”

 

Eleni se autointitula uma “faz-tudo”: corta, costura, modela, conserta, desenha, cria e até opina no que veste melhor na cliente. Quando não está no ateliê, dá aulas particulares de corte e costura em domicílio, com o próprio método de ensino. Na variedade de clientes, há mulheres que sempre sonharam em conseguir fazer a própria roupa — o que Eleni torna realidade.

 

Novo rumo

 

Formada em nutrição, trabalhou em escritórios de contabilidade e lojas brasilienses. Mas decidiu seguir carreira e se especializar como costureira. Fornecia seus serviços durante as semanas de moda na cidade e era presença assídua nos backstages dos desfiles. Depois de anos nessa área, decidiu se desvincular das marcas e montar o próprio ateliê com Lúcia. “A gente trabalhava muito, tinha muita demanda, mas não dava retorno financeiro”, lembra Eleni.

 

O reconhecimento pessoal no trabalho, porém, ela sempre teve. Costurava, acompanhava a produção, mas ainda se sentia limitada. “Aqui no ateliê é diferente. O leque de serviços é muito maior.”

 

Hoje, as sócias confirmam que metade dos atendimentos é de reforma de peças. “As pessoas têm valorizado o seminovo. Elas compram usado e pedem para a gente reformar. As compras na internet também dão mais serviço, porque nossas clientes compram on-line e vêm aqui ajustar. Desse jeito é a gente que leva vantagem”, aponta Eleni.


Costura por vocação

"Eu não gostava tanto de dar aulas e resolvi me dedicar mais à casa e aos filhos, o que também me deu tempo de continuar na costura." Walkyria Siqueira Andrade Mendes (foto: Marcelo Ferreira/CB)

A relação com a costura começou cedo. Ainda criança, com 6 anos, Walkyria Siqueira Andrade Mendes, 43, ficava curiosa, observando a mãe costureira trabalhar. “Quando fui crescendo, ela me deixou ajudar e, conforme o tempo passava, eu ganhava mais responsabilidade e liberdade.”, lembra.

 

No início da adolescência, mexia na máquina de costura, cortava moldes, fazia acabamentos e até tirava medidas das clientes, marcando os tecidos com alfinetes. A vida inteira Walkyria esteve inserida no universo das linhas e tesouras, mas, por um tempo, seguiu outro caminho.

 

Na faculdade de ciências biológicas, conheceu o namorado, que se tornaria marido, e, depois de formada, começou a dar aulas. Quando teve os dois filhos, que vieram com pouco tempo de diferença, optou por não trabalhar fora. “Eu não gostava tanto de dar aulas e resolvi me dedicar mais à casa e aos filhos, o que também me deu tempo de continuar na costura.”

 

Mineira de Sete Lagoas, mudou-se com o marido militar para a fronteira, em Rondônia, e lá costurava para a comunidade carente ajudada pela igreja que frequentava. Quando chegou a Brasília, em 2007, percebeu a grande demanda e começou a investir na profissão.

 

Atendendo em casa, onde recebe clientes até hoje, comprou uma nova máquina de costura e, de boca em boca, fez com que a base de clientes crescesse rapidamente. “Comecei fazendo muitos ajustes nos uniformes do Colégio Militar e, quando vi, as clientes já pediam para eu criar as roupas do zero. Hoje, faço de tudo.”

 

Walkyria nunca trabalhou em lojas e afirma que prefere administrar a carga de trabalho e os horários de forma independente, além de receber de maneira adequada pelo serviço que presta. “Nas produções de lojas, existe uma exploração muito grande. A costura é um serviço que desgasta fisicamente e são muitas horas em uma mesma posição, recebendo um valor que não condiz.”

 

A costureira acredita que um dos motivos da exploração é a grande desvalorização da profissão. As pessoas sempre querem pagar mais barato, mas não enxergam o esforço empregado por quem produz a peça. “Não sei como é nesse mundo da alta moda, mas a gente sabe que, para fazer e acontecer, tem que ter a costureira.”

 

Autenticidade e valor

(foto: Marcelo Ferreira/CB)
(foto: Marcelo Ferreira/CB)

O estilista Bernardo Rostand, além de ser a mente criativa por trás de suas marcas, a Rostand e a Witch It Up, é quem costura a grande maioria de suas peças. Inserido no mercado de moda e costura da cidade, comenta sobre como as boas costureiras de Brasília quase nunca têm horários disponíveis e, ao mesmo tempo, não recebem o devido reconhecimento.

 

“A costureira é uma figura esquecida na cadeia produtiva da moda. O ídolo acaba sendo sempre o estilista ou dono da marca. E as pessoas não se dão conta de que sem a costureira não existe a roupa”, destaca.

 

Levando em consideração que o comprador está se tornando mais consciente do processo que envolve a cadeia produtiva, o rapaz acredita que esse é um momento para olhar para quem realmente faz suas roupas.

 

Como eventual contratante — e em constante contato com costureiras —, percebeu um aumento na procura dos profissionais por parte dos consumidores finais. “Como era antigamente, muitas pessoas têm optado por mandar fazer as próprias roupas, e isso é positivo.” Apesar desse aumento na preocupação com o que acontece em grandes fábricas e com as condições de trabalho análogas à escravidão, Bernardo acredita que o principal motivo é a vontade de ter peças exclusivas e réplicas de grifes.

 

Porém, mesmo não tendo o impacto social como principal motivador, buscando costureiras, o consumidor escapa da responsabilidade de comprar em redes que exploram os trabalhadores e, muitas vezes, encontra valores até mais acessíveis. A desvantagem se apresenta exatamente na desvalorização e, consequentemente, na diminuição do número de costureiras, ainda mais escassas em cidades que não são polos de moda, como Brasília.

 

O despertar da consciência e a mudança no fast fashion são processos lentos. Surge uma questão dúbia para o consumidor, ele não quer comprar de marcas associadas a condições de trabalho escravo ou que notoriamente exploram os funcionários, mas, ao mesmo tempo, tem resistência na hora de pagar valores mais altos aos produtores locais.

 

“É uma certa falta de visão. Não querem apoiar o trabalho escravo, mas, na hora de comprar, não querem valorizar esse mesmo trabalho com o pagamento justo por ele”, observa Bernardo.

 

 

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 

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