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Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Todas as formas de amamentar

Fundamental para a saúde do bebê, o leite materno ainda é alvo de discussões e polêmicas


postado em 19/08/2018 08:00 / atualizado em 17/08/2018 14:46

Márcia França sempre dá o peito à filha, Helena, independentemente do local onde esteja(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Márcia França sempre dá o peito à filha, Helena, independentemente do local onde esteja (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Carinho, cuidado, vínculo. Mais do que isso, o ato da amamentação traz responsabilidades, críticas e opiniões divergentes. No peito ou na mamadeira? Em público ou em um espaço reservado? Essas são questões que perturbam mães e levantam debates. Ainda assim, constantemente, histórias compartilhadas nas redes sociais mostram que a união e a solidariedade podem mudar percepções.

Basta uma simples pergunta em um grupo de mães de Brasília para que, em poucos minutos, surjam incontáveis comentários — dicas, recomendações de especialistas, histórias de vida e até críticas. “Meu filho tomou mamadeira desde o primeiro dia que chegou em casa”, relata uma. “Amamento em qualquer lugar, sem vergonha nenhuma, os incomodados que desviem o olhar”, diz outra, enquanto a publicação se torna ponto de discussão.

O mês de agosto é dedicado ao aleitamento materno, que pode reduzir em até 13% a mortalidade infantil por causas evitáveis, como diarreia e hipertensão. E falar sobre o assunto é questão essencial. “A amamentação tem uma importância muito grande para as crianças, para as famílias e para a saúde pública”, afirma a pediatra Sandra Lúcia Andrade, neonatologista e coordenadora do Centro de Medicina Fetal e Gestação de Alto Risco do Hospital Santa Lúcia.

De acordo com ela, o leite materno é um alimento completo e equilibrado, por atender a todas as necessidades de nutrientes e sais minerais das crianças até os seis primeiros meses de vida. Entretanto, a especialista acredita que há muita pressão com questões que rodeiam a amamentação e que cada situação deve ser avaliada com atenção, em parceria com as necessidades tanto da mãe quanto da criança.

“Existem contextos diferentes, e eles precisam ser respeitados. Algumas situações clínicas e sociais impedem a amamentação da maneira tradicional e, nem por isso, esses bebês serão menos amados ou protegidos”, garante.

O vínculo, estabelecido no dia a dia, acontece independentemente do momento de alimentação. “Amamentar no peito com sofrimento, sem entrega, não estabelece nenhum vínculo. Usar a mamadeira e durante esse momento estar entregue àquela situação, olhar no olho, cantar para o bebê, terá uma construção de vínculo e simbiose imensa”, completa a pediatra.

Quem concorda com isso é a psicóloga Lia Clerot, especialista em terapia familiar sistêmica. Para ela, é necessário incentivar a amamentação, mas, por outro lado, é preciso pensar em como isso está sendo feito. “Mães que não conseguem amamentar são julgadas e responsabilizadas como se fosse apenas uma questão de opção. Acabam absorvendo e internalizando essa carga.”

A dica, então, é entender que cada caso é um caso e procurar apoio da família e de profissionais da saúde quando a situação fica pesada para o dia a dia. “O que uma mãe decide para seu filho é uma escolha que fez baseada em crenças e experiências. É claro que não estamos falando de situações de exposição a riscos e negligências, mas sabemos que decisões simples, como usar ou não a chupeta, por exemplo, tornam-se problemas enormes de julgamento.”

Em público, sim!

Recentemente, uma história viralizou nas redes sociais. Carol Lockwood publicou uma foto de uma mulher que foi orientada a %u201Cse cobrir%u201D enquanto amamentava o filho, em um restaurante nos Estados Unidos. Em resposta ao pedido, a moça colocou o pano no rosto, surpreendendo clientes e funcionários do local. A foto já ultrapassou 188 mil compartilhamentos e 105 mil curtidas no Facebook e levantou debates sobre o assunto.(foto: Carol Lockwood/Divulgação)
Recentemente, uma história viralizou nas redes sociais. Carol Lockwood publicou uma foto de uma mulher que foi orientada a %u201Cse cobrir%u201D enquanto amamentava o filho, em um restaurante nos Estados Unidos. Em resposta ao pedido, a moça colocou o pano no rosto, surpreendendo clientes e funcionários do local. A foto já ultrapassou 188 mil compartilhamentos e 105 mil curtidas no Facebook e levantou debates sobre o assunto. (foto: Carol Lockwood/Divulgação)
“Se minha bebê tem fome, por que não amamentar?”, afirma prontamente Márcia França, 26 anos, quando questionada sobre a amamentação no dia a dia. A estudante é uma das muitas mães que lutam contra o tabu que rodeia o ato quando feito em público. Desde que engravidou, já sabia como agiria em determinadas situações. “Optei pela livre demanda e não tive dificuldades para a introdução da amamentação. Tudo foi bem tranquilo.”

O momento entre mãe e filha, Helena, 2 anos, é cheio de amor e simplicidade. Sem paninho ou fraldinha, com bastante naturalidade. “Amamento do jeito que estou. Quero ter contato e acho que essas coisas podem incomodar. Não julgo quem usa, mas não gosto.”

Esse processo, segundo Márcia, é uma escolha e, falar sobre o assunto é essencial para encorajar outras mulheres que se sentem constrangidas com a questão. E histórias inconvenientes não faltam. “Uma vez, amamentando em um mercado, notei olhares maldosos de um homem. Foi aí que me liguei na sociedade em que vivemos. Mesmo assim, não quis deixar que esse padrão me fosse imposto e não me preocupei com algo que, para mim, é comum”, garante.

Para Lia Clerot, o machismo vem de questões culturais e o primeiro passo para rompê-lo seria desenvolver mais empatia pelo próximo. “Precisamos lembrar que, muitas vezes, o julgamento vem de outras mulheres, inclusive mães. Quem precisa estar confortável é a mulher e a criança, não terceiros. Se uma pessoa acha sensual ou vulgar uma mãe alimentar o filho, o problema está nela”, pontua a psicóloga.


 
Há amor na mamadeira

Apesar de não poder mais dar o peito a Tony, Caroline faz questão de criar vínculos durante a mamada(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Apesar de não poder mais dar o peito a Tony, Caroline faz questão de criar vínculos durante a mamada (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Hepatite autoimune. O diagnóstico era uma desesperança para quem sonhava em ter um bebê. Depois do tratamento, a gravidez foi uma surpresa, mas a empresária Caroline Ferreira, 27, já tinha em mente que não poderia amamentar o filho mais do que cinco dias, tempo em que faria uma pausa com as medicações. Logo, a mamadeira virou a principal parceira da nova mamãe e do pequeno Tony.

“A oportunidade de amamentá-lo, mesmo que por pouco tempo, foi muito especial. Quando tivemos que passar para a mamadeira, o processo foi complicado e cheio de sofrimento”, conta. Caroline lembra que, enquanto retirava o leite que não poderia ser aproveitado, o marido dava a mamadeira para o pequeno. “Foram momentos difíceis, mas engrandecedores. Foi um processo até entender que cada um tem seu limite físico e emocional.”

Logo nos primeiros dias, quando buscou apoio em um grupo de mães, ela lembra que foi crucificada por pedir recomendações de uma mamadeira que seria semelhante ao bico materno. “Sofri preconceito por todos os lados. Muitas pessoas falavam que não teria vínculo com o Tony, mas vejo que isso não aconteceu.”

O momento da amamentação, para os dois, vai além do uso da mamadeira: mãos dadas, olho no olho. Quem vê entende a cumplicidade e amor entre mãe e filho. “O vínculo é criado dessa forma, não com o peito ou uma mamadeira. Todas somos mais do que isso.”
 
Mitos e verdades sobre o aleitamento

• O leite industrializado é quase como um leite materno? 
Mito. O leite materno é singular. Tanto que o colostro, que sai na primeira mamada, pode ser considerado a primeira vacina do bebê.

• O leite materno pode ser congelado? 
Verdade. Por até 15 dias, sem a perda das características e qualidade nutricional.

• A alimentação da mãe reflete no leite? 
Verdade. Por isso, o recomendado é que a mãe tenha uma alimentação saudável. Ela também não deve ingerir bebida alcoólica.

• Compressa de água quente ajuda com o leite empedrado? 
Mito. Na verdade, a compressa de água quente piora a situação, pois aumenta a quantidade de leite retido na mama. O empedramento acontece quando o volume de leite é maior do que o bebê necessita. Nesse caso, a indicação é massagem e extração do leite, o qual pode ser doado a um Banco de Leite.
Fonte: Secretaria de Saúde do Distrito Federal

 

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