Publicidade

Correio Braziliense ESOECIAL

Um universo chamado veganismo

Não se trata apenas de abolir a carne da alimentação. Tornar-se vegano significa uma mudança de estilo de vida. Conheça um pouco desse movimento que ganha cada vez mais adeptos


postado em 26/08/2018 08:00 / atualizado em 24/08/2018 18:39

Paul e Stella McCartney, Miley Cyrus, Anne Hathaway, Ariana Grande, Brad Pitt… A lista de famosos veganos é extensa e só tende a crescer. Mais do que deixar de comer carne animal, ser adepto do veganismo significa seguir uma filosofia e um estilo de vida.

Longe do estereótipo de hippies ou comedores de alface, quem segue essa filosofia mostra que é possível, a cada dia, inovar no cardápio. Os adeptos da alimentação vegetariana, por exemplo, somam 30 milhões — segundo dados de uma pesquisa realizada pelo Ibope e encomendada pela Sociedade Vegetariana Brasileira, realizada em 102 municípios brasileiros.

Os resultados mostraram o interesse da população por mais itens veganos (livres de qualquer ingrediente de origem animal): mais da metade dos entrevistados (55%) disse que consumiria mais produtos se eles tivessem informações mais claras na embalagem. Nas capitais, o índice de interessados nesse tipo de alimentação sobe para 65%.

Já o O Mapa Veg, um projeto independente que, entre outros serviços voltados para o veganismo, disponibiliza um censo on-line, calcula que no Distrito Federal há quase 1,5 mil adeptos do movimento. São Paulo lidera o ranking com 10 mil seguidores.

Aliás, o aumento de influenciadores banindo o uso de produtos que exploram os animais forçou vários setores da indústria a mudarem e se adaptarem. “Esses grupos (veganos) atuam, por exemplo, no boicote a marcas de roupas e sapatos de origem animal, ou cosméticos e remédios que tenham testes utilizando animais”, justifica Fabrício Monteiro Neves, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB).
No início, Luísa Ferrai até resistiu, mas desde 2016 aderiu de vez ao modo de vida vegano (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
No início, Luísa Ferrai até resistiu, mas desde 2016 aderiu de vez ao modo de vida vegano (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

Crítica à sociedade

Segundo Fabrício, a Organização das Nações Unidas (ONU) tem indicado, em relatórios, a necessidade de se diminuir o consumo de carne, temendo um cataclismo ambiental sem precedentes. Para o professor, embora ainda seja minoria nos movimentos ambientalistas, o veganismo oferece uma crítica à sociedade industrial capitalista, ao modo de vida baseado na exploração intensa de recursos naturais, principalmente, a pecuária.

“Nesse sentido, o movimento oferece formas alternativas de organizar a sociedade, de compreender as relações sociedade-natureza e de experimentar formas mais sustentáveis de vida.” O sociólogo ressalta que o veganismo é uma tendência que está se expandindo, principalmente porque o consumo de carne nos padrões atuais tem se mostrado insustentável para o sistema planetário.

A expansão, porém, encontra barreiras, principalmente, no lobby agropecuário, nos hábitos arraigados, nas práticas religiosas e nas comunidades tradicionais. “Como impedir o sacrifício animal em rituais religiosos? Como exigir por parte dos indígenas o fim da caça? Essas indagações sempre aparecem quando se advoga o veganismo como modo de vida universal.”

O que é?

O termo vegan (vegano traduzido para o português) foi criado em 1944 pelo britânico Donald Watson e, desde então, transformou-se em um movimento político, ético e de estilo de vida, ganhando muitos adeptos no calor das revoluções contraculturais da década de 1960. O veganismo procura excluir todas as formas de exploração animal — na alimentação, no vestuário ou em qualquer outra finalidade.

Fluindo naturalmente

Camila resume o veganismo: %u201CNão se trata de uma dieta, mas, sim, de uma questão de respeito pelos animais(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Camila resume o veganismo: %u201CNão se trata de uma dieta, mas, sim, de uma questão de respeito pelos animais (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Desde que ingressou no curso de psicologia, Luísa Ferrari, 26 anos, sentiu-se picada pelo bichinho do vegetarianismo. Antes, porém, houve muita relutância em se entregar ao estilo de vida. As influências vieram, primeiro, de uma professora, adepta do veganismo, e, depois, do namorado, que comentava sobre a vontade de ser vegetariano.
O estopim, porém, ocorreu após se sensibilizar com um vídeo na internet, em que um garotinho não queria comer um prato de polvo preparado pela mãe, por pena do animal. De início, Luísa parou de comer frango; depois, a carne vermelha. Por último, largou o peixe. “Sushi, para mim, foi o mais difícil. Mas lembro que comi meu último hambúrguer e me senti enjoada”, conta.
Mesmo abdicando da alimentação à base de carne animal, Luísa consumia os derivados, como leite, ovo e mel. Por ser apaixonada por maquiagem, acompanhava blogueiras e youtubers, mas não encontrava quem falasse de empresas cosméticas que não faziam testes em animais. Por conta disso e, também, para informar o seu estilo de vida, decidiu abrir um canal no YouTube e um blog.

Cobrança


O público passou, então, a nortear os horizontes das decisões da moça. As pessoas cobravam dela o fato de que buscava produtos não testados em animais, mas continuava a consumir alimentos de origem animal. “Resisti muito no começo. Eu falava: ‘Não vou dar conta!’”

A psicóloga pensava que não seria aceita no convívio social por conta dessa nova filosofia de vida. “Achava que seria excluída pelos amigos.” Luísa, então, assistiu a vários documentários, passou a seguir youtubers veganos gringos e viu que não seria tão difícil assim se tornar vegana. “Percebi que não ia ficar sem comer, nem ia morrer.”

Em 2016, ela, finalmente, se declarou vegana. A mudança foi radical e sentida em todos os lados da vida social. Quando era apenas vegetariana, os amigos sabiam que podiam sair para comer um pastel, porque Luísa escolheria um de queijo. Mas, depois da decisão, todos precisaram se adaptar ao estilo de vida dela.

Até a mãe entrou na jogada com a filha e se tornou vegana. À época, recorda-se, não havia muito restaurante para o público vegano. Foram surgindo aos poucos. Assim, teve um lampejo de criar um guia de lugares e estabelecimentos veganos.

Recentemente, a brasiliense trocou a capital por São Paulo. Lá, acredita que terá mais facilidade de acesso ao universo vegano.

Levantamento

O DF conta com pelo menos 12 estabelecimentos que não vendem nenhum produto com ingredientes animais. E outras empresas que fazem produtos e eventos sob encomenda. “Há dois anos, não encontrava tanta opção. Nesses lugares, os veganos podem comer sem se preocupar”, garante Luísa Ferrari.


(foto: Reproduçao)
(foto: Reproduçao)



De paixão a estilo de vida


Em poucos minutos de conversa, é possível notar a naturalidade — e seriedade — com que Camila Amantéa, 35 anos, leva o estilo de vida vegano. O prazer em dar dicas e repassar receitas deixa qualquer resistente, no mínimo, curioso. “Você conhece coxinha de jaca? Quando verde e temperada, o resultado é maravilhoso”, indica ela, logo nos primeiros minutos de entrevista. “Sigo essa filosofia e como comidas bastante comuns”, completa, enquanto serve um pedaço de torta alemã vegana em um prato.

Tudo começou há alguns anos. Primeiro, veio o vegetarianismo, quando a empresária e professora de dança tinha apenas 19 anos. As restrições dos outros alimentos chegaram com o tempo e com a necessidade. “Sempre fui apaixonada pelos animais. Quando criança, comia de tudo. Um dia, vi um vídeo sobre o processo dos alimentos até chegar aos nossos pratos. Aquilo me abriu os olhos de uma forma tão intensa e dolorosa que não consegui mais ignorar.”

A partir daí, as carnes não eram mais bem-vindas. Algum tempo depois, após assistir a outro documentário, a necessidade do veganismo falou mais forte. “Pesquisei formas de preparar pratos, substituir proteínas, buscar novas opções e aceitar novos sabores.” Logo, as compras no mercado viraram rotina, assim como a leitura dos rótulos e dos ingredientes. Além da restrição na alimentação, Camila compra produtos de limpeza e de beleza que não fazem teste em animais e, para os tecidos das roupas, sempre confere as etiquetas.

Saúde

“Hoje digo que é fácil ser vegano, muito mais que há alguns anos. Temos acesso a muitas receitas e opções deliciosas na internet. Há produtos industrializados, restaurantes, empórios e muitos autônomos que vendem comidinhas deliciosas”, garante. Como resultado do estilo de vida, a saúde respondeu de forma positiva: a rinite, que era fiel companheira, resolveu dar uma trégua, e a disposição só aumentou.

No entanto, comer fora ainda é um desafio. Segundo a empresária, quando os restaurantes não são específicos, há uma certa dificuldade. “É comum escutarmos piadinhas de amigos ou pessoas falando que somos radicais demais.” Mesmo assim, levar pequenas marmitas com preparados veganos para o churrasco dos amigos é mais que comum. Em casa, o leite de aveia é preparado por ela mesma, que utiliza o ingrediente para inovar nas receitas.

“Veganismo não se trata de uma dieta, mas, sim, de uma questão de respeito e ética pelos animais”, reforça. A filosofia é tão forte na vida de Camila que a família também entrou na onda. Até na empresa que comanda, o veganismo está em alta — a lanchonete serve produtos específicos e deliciosos. “Comece! Abra a mente! Lembre-se que um estrogonofe vegano terá seu próprio sabor, que um leite de aveia terá gosto de leite de aveia. E, se um dia bater a dúvida, pense se é preciso realmente colocar na boca algo que vem através de tanta dor.”

Rastreamento 

O Mapa Veg é um projeto independente criado em julho de 2012. Além de disseminar o Veganismo, o site disponibiliza um Censo Brasileiro On-line para quantificar o número de pessoas vegetarianas, veganas e simpatizantes. Em 2016, o Mapa Veg se tornou um portal, passando a publicar notícias, artigos e receitas relacionados ao tema. Atualmente, conta com mais de 28 mil cadastrados. Em dezembro de 2017, lançou o Guia Vegano Brasileiro, plataforma para encontrar opções de produtos ou serviços veganos em todo o país. Segundo o site, o estado que tem mais adeptos é São Paulo, com pouco mais de 10 mil, seguido do Rio de Janeiro, com quase 3 mil. O Distrito Federal ocupa a sétima posição, com quase 1,5 mil adeptos. Para saber mais, acesse: mapaveg.com.br/censo/estatisticas

É seguro?

De acordo com Allan Ferreira, nutrólogo do Hospital Santa Lúcia e membro titular da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), organicamente, o veganismo, quando feito sem acompanhamento, oferece riscos à saúde. “Se não houver orientação, pode resultar em uma dieta pobre em nutrientes essenciais, como vitamina B12, ferro, ômega 3 e, menos comumente, iodo, cálcio e vitamina D”, alerta.

Logo, é importante procurar um especialista com experiência nesse tipo de dieta, que acompanhe a reposição vitamínica, peça exames regulares para investigar possíveis deficiências nutricionais e esteja atento na hora da substituição de proteínas e nutrientes.

O especialista garante que, se bem acompanhado, o veganismo, como qualquer outro modelo de alimentação balanceada, seguido de um estilo de vida saudável, tende a ser bastante positivo. “Sabe-se que a redução do consumo de carne vermelha e industrializados e o aumento da ingestão de frutas e verduras reduzem o risco de cânceres e doenças cardiovasculares, por exemplo.”

Para os que desejam introduzir o veganismo ainda na infância, porém, o assunto merece mais atenção. “Os veganos correm mais risco de desnutrição. Deve-se entender que, na infância, ela funciona de forma diferente do que ocorre em um corpo adulto”, aponta o nutrólogo. Segundo ele, caso ocorra algum quadro desse tipo, ele pode resultar em deficit no crescimento físico e até mesmo de desenvolvimento mental.

Você sabia?

- 70 bilhões de animais terrestres são mortos, anualmente, para consumo humano

- Por segundo, 193 animais são mortos pela pecuária brasileira

- A Climate Focus revelou que as emissões anuais de CO² na atmosfera seriam reduzidas de 50% a 90% até o ano de 2030, caso o mundo adotasse uma dieta vegetariana.

Flor de Sal

(foto: Gabi Mahamud/Divulgacao)
(foto: Gabi Mahamud/Divulgacao)

Gabi Mahamud é arquiteta de formação, cozinheira por paixão e ativista por convicção. Vegetariana há cinco anos e vegana há três, ela é a criadora do blog Flor de Sal, no qual compartilha receitas para uma alimentação natural e consciente, sem produtos de origem animal, preparadas com ingredientes locais e orgânicos.

A partir de então, muitas outras portas se abriram, inclusive as de um food truck cheio de boas intenções, o Good Truck. O projeto — apadrinhado pela renomada chef paranaense Manu Buffara — recolhe frutas, legumes e verduras que seriam descartados por fornecedores e prepara refeições saudáveis para pessoas carentes.

Em agosto de 2017, a blogueira foi convidada a apresentar o projeto no Unleash Lab, iniciativa da ONU voltada para o desenvolvimento de projetos na área da sustentabilidade, realizado em Copenhague, na Dinamarca. Gabi também é membro do Global Shapers e do movimento Slow Food. “Comer é um ato político, social, histórico, geográfico, religioso, econômico e cultural e, portanto, revolucionário, sim (e muito).”

Como surgiu o veganismo na sua vida?
Parei de comer carne porque descobri que sua produção gerava um impacto ambiental enorme. Há algum tempo, em uma consulta, descobri que era intolerante a lactose. Pensei: “ferrou”, porque, como boa mineira, comia queijo todos os dias. Foi aí que descobri o veganismo e me apaixonei. Percebi que o movimento tinha muito a ver com os valores que eu carregava e admirava, e que fazia muito sentido adotar uma alimentação vegetariana estrita.

Como foi fazer toda a mudança de hábitos? 
Veganismo não é um rótulo que gosto de usar. Abracei muitas causas desde que decidi parar de consumir derivados animais. Hoje, sou muito mais guiada pelo consumo consciente, que, a meu ver, é conhecer todo o processo e verificar se estão de acordo com o que eu acredito. Para mim, isso engloba produção de lixo, produção local e inúmeros outros fatores socioambientais.

Quais são as dicas que você dá para quem quer se engajar nessa causa?
A primeira coisa é se informar. É impossível ter acesso a certas informações e continuar “cúmplice” desse sistema. E a segundo é ir no seu tempo. Se você não é dessas pessoas que tomam uma decisão de um dia para o outro, está tudo bem. Quando rolar uma recaída, é só retomar no dia seguinte. O importante é se manter firme e alinhado com aquilo em que acredita.

Guia Vegano de Brasília

O DF conta com 12 estabelecimentos que não vendem nenhum produto com ingredientes animais. E ainda mais empresas que fazem produtos e eventos sob encomenda. Nesses lugares, os veganos podem comer sem se preocupar.

Restaurantes  veganos


- Apetit Natural Restaurante, Foodtruck & Not Dog Foodtruck – Comercializa comida vegana de três formas diferentes: o food truck, o restaurante e o truck de cachorro-quente.
Onde: 913/914 Norte, com loja na 407 Norte.

- Café Oyá – O Oyá Cozinha Vegana funciona no almoço e à noite. Sempre conta com cardápios deliciosos, lanches, com direito a coxinhas de jaca e chocolate quente com leite de baru. Veja no Facebook.
Onde: 109 Norte

- Buriti Zen – Funciona todos os dias no almoço, com cardápio variado e sazonal. A culinária é vegana e orgânica. Oferece workshops e também trabalham com eventos. 
Onde: 307 Norte

- Catioro Food – Hot dog 100% vegano. Serve diversas opções — uma excelente comida de rua para os veganos.
Onde: 208 Norte, com truck em Águas Claras

- Vegan-se – Entrega marmitas, tem salgados e pratos congelados, pães, queijos e leites vegetais de fabricação própria. 
Onde: 204 Norte

Restaurantes que oferecem opções veganas


- Cannelle – É um café com croissant, tapiocas (doce e salgada), coxinha de jaca e de milho, tortas, bolos, petit gateau… Parada obrigatória em Brasília.
Onde: 213 Norte

- Castália – Padaria/café com muitas opções veganas: a grande maioria dos pães é vegana (com exceção apenas dos folhados), tem geleias e pasta de castanhas, além de hommus. Para completar, cappuccino com opção de leite de castanha de caju.
Onde: 102 Norte

- Girassol – tem opções ovolacto e veganas, também tem um empório para comprar produtos orgânicos e diferentes.
Onde: 409 Sul
 
 
*Estagiário sob supervisão de Sibele Negromonte
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade