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Correio Braziliense CAPA

Em defesa do amor-próprio

O movimento não é exatamente novo, mas tem ganhado adeptos em todo o mundo. O body positive busca quebrar essa ideia de que existe um corpo perfeito


postado em 02/09/2018 08:00 / atualizado em 31/08/2018 12:55

Sacrificar-se em busca de um objetivo estético pode ser perda de tempo. Não existe corpo errado, todos podem ser incríveis. É isso que o body positive defende. Pelas lentes desse movimento, o corpo vai para além do físico, é mais do que uma abordagem pautada no peso, na medida, na dobra cutânea, na cor ou no percentual de gordura. É a ideia de que a saúde vai além da forma física.

Apesar de ter sido criado em 1996, pela escritora e educadora norte-americana Connie Sobczak, o movimento nunca esteve tão popular. Famosas como Alicia Keys, Cameron Diaz e Gwyneth Paltrow já se manifestaram contra a necessidade imposta às mulheres de estarem sempre maquiadas e perfeitas.

A modelo plus size norte-americana Ashley Graham, em texto publicado em 2016, afirrmou: “Eu aceito meu corpo como ele é hoje. Eu me exercito, não para perder peso, mas para manter a minha saúde. O ciclo de body-shaming (vergonha do corpo, em livre tradução) precisa acabar”.  

Nas redes sociais, também pipocam perfis de gente que milita por essa ideia. São pessoas magras e gordas que já viveram em guerra contra o próprio corpo, mas que passaram por uma longa jornada até a aceitação. Livraram-se de estereótipos, conquistaram o amor-próprio e encorajam os seguidores a seguirem a mesma jornada.

Estereótipos


Para o psicólogo Paulo Lira, a imagem corporal está ligada a dois aspectos: à figura que temos em mente quando pensamos no tamanho e na forma do nosso corpo e ao sentimento em relação a nossas características físicas. O profissional ressalta que temos alimentado culturalmente essa associação de felicidade com o corpo magro.

“As pessoas têm sido ensinadas a construir os relacionamentos a partir dessa imagem corporal. Provavelmente, isso ocorre porque nossa cultura tem produzido estereótipos de felicidade relacionados a corpos magros, planificados e bronzeados”, declara.

A aparência é vista, na sociedade, como um atributo de poder. Os padrões de beleza inalcançáveis são reforçados todos os dias, e a onda fitness reafirma os modelos já estabelecidos. “As redes sociais talvez sejam a maneira mais caricaturada que temos de ver o quanto a imagem tende a ser mais valorizada do que as pessoas em si”, explica Paulo.

Pessoas de diversas nacionalidades, idades, gênero e aparência física têm lutado para quebrar esse padrão. Para tanto, vêm usando as próprias redes sociais para propagar as ideias. Conheça algumas delas.



Apoio na amizade


No processo de autoaceitação, estar em contato com outras vivências pode ser um aliado. A empatia e o olhar positivo sobre o outro são exercícios para alcançar a liberdade. As universitárias Yasmim Ibrahim, Nadja Caldeira e Mariana Araújo, todas com 19 anos, que o digam. Elas descobriram na amizade a força que precisavam para superar a falta de aceitação do corpo.

Para Mariana, a positividade e o amor-próprio não são alcançados da noite para o dia, mas o apoio dos amigos faz a busca ser mais leve. “É um processo, uma construção. Ter o apoio das pessoas que convivem comigo, só me motiva a cada vez mais parar de pensar coisas tão negativas sobre meu corpo. Vê-las sendo tão empoderadas com elas mesmas me dá muito mais força para continuar me amando”, constata.

Yasmim conta como a convivência com mulheres “reais” mudou sua perspectiva a respeito do seu corpo e de quem ela é. O foco não está mais nas modelos e musas da televisão. Sua inspiração está em ser alguém como pessoas que estão à sua volta. “Antes, eu não tinha pessoas que me representavam. Eu tinha um modelo e o seguia. Tê-las ao meu redor, maravilhosas do jeito que são, me inspira. Elas são minha representatividade”, diz.

A aceitação é uma parte importantíssima na busca de uma identidade positiva. Nadja conta como a reflexão a respeito dos sentimentos, quando o assunto é o corpo, se mostra indispensável no processo. “As mulheres sofrem pressão estética a todo momento. Por todos os lados, você está cercada por isso. A questão na aceitação é você entender os processos que te levaram a odiar seu corpo. Quando você os entende e vê que não vem de você, fica muito mais fácil romper com isso”, explica.

Para o psicólogo Paulo Lira, a insatisfação com o corpo costuma ser algo projetado desde a infância. O ideal de beleza exerce uma pressão estética, e a indústria se aproveita disso para vender produtos que só reafirmam os padrões. Ele acredita que a resposta para esse problema está na educação. “A construção de uma identidade positiva pode ser obtida por meio de uma educação mais efetiva em oferecer aceitação, aprendizado em lidar com diferenças e desenvolvimento emocional”, afirma.
Mariana Araújo, Yasmin Ibrahin e Nadja Caldeira: ajuda mútua para se aceitarem como são (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Mariana Araújo, Yasmin Ibrahin e Nadja Caldeira: ajuda mútua para se aceitarem como são (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Quem ama cuida


A nutricionista Paola Altheia, 31 anos, foi bailarina e, por um bom tempo, dedicou-se exclusivamente à dança. Como tinha uma rotina de ensaios puxada, convivia muito com professores, coreógrafos e outros bailarinos. “E não é segredo para ninguém que a magreza é uma obsessão para eles.”

Até então, ela acreditava que a preocupação demasiada com o corpo era exclusividade do balé, já que eram importantes para o desempenho do bailarino e o julgamento dos juízes em competições. Quando começou a cursar nutrição, porém, percebeu que todo mundo sofria essa pressão. “Foi quando eu descobri que a insatisfação corporal e a prática crônica de dietas fazem parte da vida das pessoas de modo geral, que é cultural.”

Com essa nova compreensão, Paola buscou mais informações, se aprofundou em estudos sobre transtornos da oralidade e insatisfação corporal. As descobertas se uniram às reflexões e às experiências pessoais e deram origem a um blog: Não sou exposição. “O nome surgiu dessa sensação de que meu corpo não me pertencia, por causa da cobrança dos outros. Quis levar essa mensagem a outras mulheres para mostrar que elas não estavam sozinhas”, explica.

Formada, Paola passou a trabalhar com transtornos alimentares e, hoje, se considera uma apoiadora do movimento body positive. Grande parte dos pacientes são pessoas que têm problemas de relação com a comida.

A nutricionista explica que a abordagem positiva é o contrário do que é tão promovido e propagado: a relação negativa com o corpo. “Eu não acredito na mudança pela aversão. Quanto mais a pessoa se sente triste, envergonhada e marginalizada, menor a chance de ela se cuidar. Quem ama cuida. Se eu tenho respeito, carinho, uma visão positiva do meu corpo, isso desperta uma vontade de cuidar dele”, argumenta.

Na busca pela saúde, a vontade de mudar deve nascer do amor-próprio e do cuidado — e não pela imposição. “Todo profissional da saúde deveria abraçar o body positive para que a pessoa mude pela amorosidade e não pelo constrangimento. O meu papel é defender, promover e ensinar às pessoas a pensar o corpo de uma outra forma, que se cobre menos, se agrida menos, fisicamente ou verbalmente.”



Por uma postura positiva


A fotógrafa Milena Paulina, 23 anos, é autora do Eu, gorda, um projeto que nasceu há dois anos do desejo de ajudar mulheres pela representatividade. “É um grito que sai do fundo da minha alma e clama por mudança, arte, beleza, que grita pela humanização do corpo gordo.”

A jovem decidiu se tornar fotógrafa — e fazer as pazes com o próprio corpo — depois que viu fotos de uma modelo plus size. Ver um corpo parecido com o seu representado de forma artística fez com que Milena se sentisse completa. “Sentir-se representada, de uma forma humana e com muito amor, faz você se sentir ‘normal’, mesmo que o resto das pessoas tentem provar o contrário”, comemora.

Os ensaios do projeto são feitos em grupo, com até seis mulheres como modelo. Antes das fotos, Milena faz uma roda de conversa, em que todas as pessoas têm voz. É uma forma de quebrar o gelo. Nesse ambiente de empatia e compartilhamento de vivências, elas se sentem seguras e à vontade. “No final, viramos uma família, conhecemos os sentimentos umas das outras”, afirma Milena.
Milena Paulina criou um projeto fotográfico para representar as mulheres gordas(foto: Milena Paulina/Divulgacao)
Milena Paulina criou um projeto fotográfico para representar as mulheres gordas (foto: Milena Paulina/Divulgacao)

Aceitação


Ana Caroline Lima, 24, participou do projeto. Ela conta que as cobranças com o corpo começaram na infância e percorreram toda a adolescência. Só na vida adulta ela percebeu que, mesmo com o corpo magro, ela ainda não se sentia bem, isso porque sua saúde emocional estava aos pedaços.

A jovem conta que o corpo nunca foi, de fato, um problema para ela, o que a incomodava era a pressão estética que sofria. “Era muito mais sobre o que os outros esperam de mim do que o que eu mesma esperava”, conta.

A beleza e a autoestima são conceitos que quase sempre vêm atrelados ao padrão de beleza. Ana Caroline relata que, por muito tempo, acreditou que a mudança na autoestima estava ligada à transformação do seu corpo. “As pessoas têm muito essa ideia de que a autoestima vai ser conquistada se você se encaixar no padrão, mas, na verdade, ela está ligada a você se enxergar de forma positiva. Não é porque você não se encaixa, é porque as pessoas não querem te enxergar bonita por você não se encaixar” afirma.

Gordofobia

O termo define a aversão a pessoas gordas e é mais real do que se imagina. A gordofobia é o preconceito contra o corpo gordo e quase sempre vem disfarçado de piada ou de alerta para o cuidado com a saúde. Diferentemente da pressão estética, exercida sobre todas as pessoas, a gordofobia se restringe apenas a um grupo específico e está ligada à restrição de direitos.


Os homens no movimento


Criar representações reais para pessoas que têm um tipo de corpo que foge do padrão é uma forma de fazer com que elas se sintam valorizadas. É isso que o stylist e produtor de moda Caio Cal, 29 anos, um dos poucos homens militantes do body positive no Brasil procura fazer. Ele compartilha no YouTube e Instagram suas vivências, promovendo o amor-próprio e a aceitação corporal.

Caio lembra que a pressão estética é uma realidade para os homens também, apesar de ocorrer em menor proporção do que com as mulheres. Ser um meio de representação para esses homens é, para o rapaz, uma forma de evitar que outras pessoas tenham as mesmas experiências com distúrbios alimentares e baixa autoestima que ele teve.

“É muito bom o feedback que recebo dos meus seguidores. Boa parte deles são homens e se identificam com as coisas que eu falo. É muito bom você, como gordo, ver outro cara gordo falando sobre as vivências dele, que são suas também. A gente acaba criando uma rede de apoio”, conta.

Formado em moda, Caio usava todas as dicas aprendidas no curso para esconder o próprio corpo. Cresceu ouvindo que não podia usar listras horizontais, porque engordava; de que tinha que vestir preto, porque emagrecia. A partir do momento em que aceitou o corpo, desconstruiu tudo isso, experimentou novas coisas e não se preocupa mais em “parecer gordo”.
(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)

Distúrbio alimentar


Na infindável busca por um shape perfeito, Caio Cal já sofreu tanto com anorexia, na adolescência, quanto com ortorexia (obsessão em comer de forma saudável e só alimentos considerados limpos), durante quatro anos. Para ele, todo o empenho em prol do corpo perfeito era parte da busca pela saúde, mas a realidade foi bem mais complicada.

Com os pensamentos focados na alimentação, ele conta como desenvolveu o hábito de ler rótulos de produtos no mercado durante horas e horas e só consumir informações sobre dietas, exercícios e alimentos “milagrosos”. Hoje, ele se questiona: o que é um corpo perfeito?

“Esse momento (quando teve ortorexia) representou, na minha vida, a fase que eu me senti mais sozinho. Eu me tornei uma pessoa monotemática, só falava sobre isso e ficava tentando converter meus amigos para o lado fitness da força. Foi uma fase em que eu parei minha vida e não desenvolvi mais nada. Eu só vivia para manter a dieta perfeita, foi o momento em que estive mais solitário e que menos me desenvolvi como pessoa e profissionalmente também”, afirma.

Distante dos amigos e cansado da rotina extenuante de exercícios e de alimentação perfeita, Caio percebeu que precisava de ajuda. Adepto de dietas desde os 13 anos, Caio explica como o body positive transformou de forma significativa sua vida. Para ele, foi uma mudança de olhar sobre si mesmo. Percebeu que alimentava um sistema que só ganhava com a infelicidade dele.

Sobre a diferença entre aceitação e conformismo, Caio afirma que seu engajamento no movimento não tem relação com o fato de ter ganhado peso, e explica que a aceitação corporal não exclui os questionamentos. Pelo contrário, ela o faz se questionar ainda mais. “Aceitar-se não é tão simples, requer muito esforço para desconstruir ideias e se redescobrir.”

 
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 
 

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