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Correio Braziliense MEDICINA

Um novo olhar sobre o diabético

Conviver com a doença que afeta mais de 14 milhões de brasileiros não é fácil. Por meio de uma rede de ajuda, pacientes tentam tornam a vida mais fácil


postado em 09/09/2018 08:00 / atualizado em 06/09/2018 12:04


Entre o diagnóstico e a aceitação da doença, Vanessa Pirolo precisou passar por um longo processo(foto: Arquivo Pessoal)
Entre o diagnóstico e a aceitação da doença, Vanessa Pirolo precisou passar por um longo processo (foto: Arquivo Pessoal)
 
Picadinha nos dedos para o teste da glicemia, aplicação de insulina algumas vezes por dia, procura por um estilo de vida mais saudável. Essa é a rotina de uma pessoa diabética que, diariamente, busca a melhor maneira de lidar naturalmente com sua condição. Influenciadores, ativistas e especialistas têm usado as redes sociais como ferramenta para falar sobre o diabetes de forma franca e direta.

O início, porém, nem sempre é fácil. O diagnóstico assusta e, geralmente, faz as pessoas negarem a doença, dificultando o tratamento. É preciso, então, empoderar o paciente, ou seja, capacitá-lo para que tenha o direito de fazer as próprias escolhas sobre sua saúde.

E a família tem um papel importante nesse processo. “Ela deve adquirir hábitos saudáveis para promover uma melhor qualidade de vida a todos, além de ser solidária com as pessoas com diabetes”, diz Vanessa Pirolo, coordenadora de advocacy da ADJ Diabetes Brasil, associação formada por pais de crianças e adolescentes com a doença.

Após o diagnóstico, a procura por informação é sempre o melhor caminho. A endocrinologista Denise Franco acredita que, para ter sucesso, o tratamento precisa seguir várias frentes, o que nem sempre ocorre. Ela exemplifica que, geralmente, o primeiro medicamento receitado após a descoberta da doença é o metmorfina. Mas, por falta de um diálogo mais aberto entre médico e paciente, muito deixam de tomá-lo no primeiro mês. “Na faculdade, não somos ensinados a ter um contato mais humano, e isso dificulta o entendimento do paciente”, explica.

E, como o automonitoramento fará parte da rotina do diabético, o melhor remédio é ensiná-lo adequadamente. “O profissional de saúde precisa explicar, de forma didática, a doença, a medicação e a sua aplicação”, detalha a médica.

Ativismo


A notícia do diagnóstico é um impacto na vida de qualquer pessoa. Alguns, porém, buscam dar um sentido ao problema, como foi o caso da jornalista Vanessa Pirolo, 37 anos, ativista da ADJ Diabetes Brasil. Na época da graduação, ao participar de uma campanha de verificação de glicemia feita por estudantes de nutrição, descobriu que o seu índice estava em 432mg/dL, muito acima do considerado normal.

Após procurar um médico e com a confirmação do diabetes em mãos, a reação inicial de Vanessa foi de negação, seguida de pena, raiva e ódio. Ela achava que a julgariam como doente e, durante meses, não contou nem aos mais próximos. Foi um longo processo até entender que, se quisesse viver bem e com qualidade, precisaria se cuidar.

Nesse período, começou a frequentar a ADJ Diabetes Brasil e tornou-se voluntária. Depois, virou conselheira, assessora de imprensa e hoje é consultora de projetos da instituição. “Então, aceitei o diagnóstico. Comecei a me tratar, falei com minha médica, pesquisei e estudei muito sobre o assunto.”

No caso de Vanessa, ela tem o tipo 1 (leia quadro), ou seja, por ser uma condição autoimune, a alimentação e o estilo de vida não interferem no diagnóstico. “Sempre tive uma dieta balanceada. Mas comecei a prestar ainda mais atenção aos rótulos”, relembra. Além disso, atividades físicas se tornaram usuais na vida dela.



Curiosidade

Existe registro da doença datado de 1500 anos antes de Cristo. O nome diabetes vem desde o século 2 e significa sifão, pelo fato de o paciente ingerir muita água e urinar sem parar. Muito tempo depois, por causa do gosto doce da urina, acrescentou-se mellitus, que significa mel. Daí, o nome diabetes mellitus. Hoje, em vez de tipicar como diabetes tipo 1 ou tipo 2, é comum dizer DM1 ou DM2.


Doce desafio


Diabetes é uma condição que exige atendimento multiprofissional. Na Universidade de Brasília (UnB), desde de 2007, o Instituto Doce Desafio atende a diversos diabéticos do Distrito Federal a fim de informá-los sobre a doença.

O educador físico Rafael França de Medeiros Dantas, 35 anos, diretor administrativo do instituto, explica que o Doce Desafio propõe uma educação em diabetes diferenciada, por meio de dinâmicas como debates, vídeos e outros meios para prender o interesse dos frequentadores.

Lá, o diabético obtém informações valiosas para o bom desempenho do tratamento, como calcular a resistência à insulina, conhecer o fator de correção (para saber ao certo a quantidade de insulina que deve injetar) e aprender a contagem de carboidratos. “Depois de passar pelo treinamento, o paciente começa a fazer todo o processo sozinho em casa”, garante.

Rafael defende o empoderamento do diabético como peça-chave do tratamento. Ele garante que, como  conversa abertamente sobre a doença com os frequentadores do instituto, constrói um forte elo de confiança. “A capacitação dos profissionais de todas as áreas que atuam especificamente com diabetes deveria ser obrigatória, principalmente a médica”, acredita.

Para ele, muitas vezes, o problema é que o médico não tem tempo suficiente com o paciente para ensiná-lo a conviver com a doença. No Doce Desafio, na lida diária com os diabéticos, Rafael ouve muitas reclamações da dificuldade em receber essa orientação. “Um dos grandes desafios é adaptar as informações técnicas de forma que o atendido seja compreendido.” Qualquer pessoa com a doença pode participar gratuitamente das atividades do programa.
 
Rafael Dantas constrói diariamente um forte elo com o diabético:orientação necessária(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Rafael Dantas constrói diariamente um forte elo com o diabético:orientação necessária (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
 

A doença em números

O Brasil ocupa o 3º lugar em números de crianças e adolescentes com diabetes tipo 1.
No mundo, 16,2% é a proporção de nascidos vivos afetados pela hiperglicemia.
O Brasil é o 5º país em número de indivíduos acima de 65 anos com diabetes. 

Entre o diagnóstico e a aceitação da doença, Vanessa Pirolo precisou passar por um longo processo
Rafael Dantas constrói diariamente um forte elo com o diabético: orientação necessária


(foto: Divabética/Divulgação)
(foto: Divabética/Divulgação)

Influenciar é preciso


Diagnosticada aos 13 anos com diabetes tipo 1, Fabiana Couto, hoje com 38, dedica a vida a ajudar outras pessoas a entenderem e aceitarem a doença. À frente do Movimento Divabética, há 10 anos, ela criou um blog para falar, especialmente às mulheres, sobre a autoaceitação e a questão da autoestima que, muitas vezes, fica prejudicada.

“Decidi levar minha palavra e minha experiência para essas pessoas, por meio do Divabética, de uma forma mais leve e acessível, como uma pessoa em formação em psicanálise e coach”, conta.

Fabiana descobriu a doença por acaso. Como estava emagrecendo muito, tinha muita fome e sede, a mãe, que é médica, logo suspeitou de se tratar de diabetes. Comprou na farmácia um teste de glicose e descobriu que a taxa estava altíssima. “Meus pais me levaram ao endocrinologista, que confirmou a suspeita”, relembra.

Mesmo com o suporte dos pais na questão prática, o emocional acabou por muito tempo esquecido. Apesar do diagnóstico aos 13, Fabiana só foi conhecer outra pessoa com diabetes aos 27 anos. Assim, passou anos sem ter uma referência sobre a doença. “Na época, não era comum a existência de comunidades de pais para dar e buscar informações sobre a condição e para entender e dar esse acolhimento inicial, que é muito importante.”

Viver bem


A brasiliense Carol Magalhães, 23 anos, é estudante de nutrição e foi diagnosticada com o tipo 1 da doença aos 11 anos. Há pouco tempo, abriu uma página no Instagram para ajudar pessoas no processo de autoaceitação e de boa convivência com o diabetes.

Ela lembra que o diagnóstico nunca é fácil. Mesmo com alguns familiares diabéticos, Carol conta que a família não soube lidar com a descoberta da sua condição. Na época, era uma criança gordinha que emagreceu muito por consequência da doença. “Como era muito nova, não tinha discernimento para saber que teria que viver com uma doença crônica para sempre.”

Embora a aceitação não seja fácil, Carol aconselha as pessoas a verem o diabetes como uma forma de mudar o estilo de vida e de autoaceitação. “Veja a doença como uma sentença de vida, uma oportunidade de mudar hábitos nocivos para sua saúde e uma chance de conhecer seus próprios limites.”

(foto: Carol Dicabética/Divulgação)
(foto: Carol Dicabética/Divulgação)

Por dentro da doença


Confira os diferentes tipos de diabetes. O ideal é que o nível de glicose no sangue, quando em jejum, fique entre 100mg/dL e 125mg/dL.

Pré-diabetes
Condição em que o açúcar no sangue está elevado, mas não o suficiente para ser classificado como diabetes do tipo 2.

Diabetes tipo 1
É uma doença autoimune, na qual o pâncreas para de produzir o hormônio insulina. O diagnóstico ocorre em crianças e adolescentes, mas pessoas adultas também podem ser diagnosticados com esse tipo da doença.
Tratamento: desde o início, é necessária a aplicação de insulina para manter o índice de glicemia, ou seja, controlar o açúcar no sangue.
Sintomas: muita sede e vontade constante de fazer xixi; aumento do apetite e, mesmo assim, há perda de peso; cansaço; vista embaçada e infecções frequentes.

Diabetes tipo 2
É o tipo mais frequente. Nele, a insulina produzida pelo pâncreas não é suficiente ou não age de forma adequada para controlar a glicemia.
Tratamento: mudança de estilo de vida, medicamentos orais ou injetáveis.
Fatores de risco: obesidade, gordura abdominal e sedentarismo são sinais de alerta. Outros fatores também precisam ser levados em conta, como histórico familiar, idade acima dos 45 anos, evidência de tolerância à glicose diminuída, antecedente de diabetes gestacional, histórico de ovário policístico.

Diabetes gestacional
Como o próprio nome diz, ocorre no período da gravidez. Afeta entre 2% e 4% das gestantes e aumenta o risco de diabete do tipo 2.
Fatores de risco: idade materna avançada, ganho de peso excessivo durante a gestação, sobrepeso ou obesidade, síndrome dos ovários policísticos, histórico de bebês grande (acima dos 4kg), histórico familiar de diabetes em parentes de 1º grau, hipertensão arterial na gestação, gestação múltipla.

Fonte: ADJ Diabetes Brasil 

Alerta

A Federação Internacional do Diabetes (IDF) estima que há mais de 415 milhões de diabéticos no mundo — no Brasil, são mais de 14 milhões, o que coloca o país em 4º lugar no ranking de incidência. E a perspectiva não é nada animadora. A expectativa é de que esse número aumente para 23 milhões até 2040. Atualmente, o Brasil é responsável por quase metade de todas as mortes relacionadas a diabetes na América Latina. É importante estar atento aos sintomas da doença, além de saber os tipos de diabetes — tipo 1, 2, gestacional e pré-diabetes. De acordo com a endocrinologista Denise Franco, cerca de 90% a 95% dos casos são do tipo 2. Entre os fatores de risco estão a obesidade e o sedentarismo.

Principais complicações

Doença cardiovascular (DCV)
Retinopatia diabética
Doença renal
Pé diabético
 
 
*Estagiário sob supervisão de Sibele Negromonte

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