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Correio Braziliense ESPECIAL

Trilhando aventuras: mulheres explorando trilhas do cerrado

Conheça a história de mulheres que não se intimidam com possíveis perigos e, sozinhas ou em grupo, curtem momentos de paz e de autoconhecimento junto à natureza


postado em 09/09/2018 08:00


 
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Fazer trilhas e conhecer recantos escondidos na natureza é uma experiência que fascina muita gente, independentemente dos possíveis perigos inerentes à exploração. Para as mulheres, a aventura pode trazer alguns dissabores a mais. As trilheiras costumam ser vistas como mais vulneráveis, o que exige atenção redobrada. Os riscos, no entanto, não são o bastante para desanimá-las.

Para as trilheiras que se aventuram sozinhas ou somente acompanhadas de outras mulheres, a experiência vem acompanhada de um certo desafio e resistência contra a violência que tolhe a liberdade feminina. Mas o contato com a natureza, o autoconhecimento e o espírito de aventura superam qualiquer percalços.

Conheça as histórias das Calangas do Cerrado, de Ju Trekker e de Fernanda Pacini Valls, aproveite suas dicas de locais a serem explorados com segurança e se inspire para também embarcar nessa aventura.



Seis mulheres, um amor comum


Aos 25 anos, seis mulheres se destacam em Brasília como um grupo de viajantes e trilheiras. Amigas há 13 anos, as cientistas ambientais Bárbara Carrara Gerth, Hanna Beatriz de Moura e Taís Taurisano Tajes, a fotógrafa Beatriz Macedo, a empreendedora Giovanna Paglia e a gestora de políticas públicas Gabriela Canova adoram desbravar os mistérios do cerrado e compartilhar suas vivências.

Elas se conheceram ainda na escola, com 12 anos, e cresceram juntas. Com o passar do tempo, descobriram que compartilhavam o amor por viagens e aventuras. Em 2017, resolveram criar o blog Calangas Trip. 

No caso das trilhas, os posts giram em torno dos panoramas de dificuldade, de acesso e de instruções sobre acampamento seguro e respeito ao meio ambiente. Além disso, as meninas fazem avaliações de equipamentos de camping e trekking, levando em consideração custo-benefício.

“Acreditamos que conseguimos tocar as pessoas, principalmente as mulheres, que se sentem motivadas, empoderadas e confiantes para seguir o caminho das viagens e trilhas sem medo”, comemora Taís.

A forma como cada uma se envolveu é diferente, mas elas se entrelaçam nas aventuras em comum. Giovanna lembra que demorou a pegar gosto. Quando era mais nova, fazia trilhas com os pais, mas não era muito fã. Aos 20, conheceu a Chapada dos Veadeiros com as amigas e se apaixonou. “Vou para lá pelo menos cinco vezes por ano”, conta.

A primeira trilha solo veio durante um mochilão para Ilha Grande, no Rio de Janeiro. O medo de se perder ou de ter dificuldades deixaram a moça ansiosa, mas a coragem falou mais alto. “Eu me senti corajosa, empoderada e confiante, capaz de desbravar o mundo só com a minha companhia.”

Além de Giovanna, Beatriz é a única das calangas que já se aventurou sozinha. Ela morava em uma chácara e, desde pequena, fazia trilhas para visitar a Cachoeira do Córrego do Urubu, no Lago Norte. Ela lembra que foi ali, por volta dos 2 anos de idade, que o amor pela natureza despertou. “Aos 13, minha diversão era ir fazer expedições em busca de novas paisagens com meus irmãos, amigos e tio.”

Para a jovem, desbravar lugares é o que preenche o corpo e a alma. A primeira trilha sozinha, no entanto, veio apenas quando ela morava do outro lado do mundo, na Austrália. O caminho levava a uma praia vizinha ao seu bairro. “No começo, ficamos tensas de irmos sozinhas, mas, depois que você vê que consegue, deixa o medo de lado”, conta Beatriz.


De berço


Taís, Hanna, Gabriela e Bárbara nunca se aventuraram a trilhar caminhos completamente sozinhas, mas também compartilham histórias de amor com a natureza. Os pais de Taís são apaixonados por viagens e ela herdou a paixão. Desde pequena, fazia trilhas em Pirenópolis e lembra até hoje do primeiro morro que subiu, o do Pai Inácio. Desde então, coleciona trilhas. Há cerca de sete anos, a prática se tornou mais frequente.

Apesar de nunca ter se aventurado sozinha, Taís se permite momentos de solidão. “Às vezes, gosto de me afastar um pouco. Paro, escuto a natureza e lembro porque gosto tanto disso.”

Taís fala ainda sobre os cuidados a serem tomados. De modo geral, eles devem ser os mesmos dos homens, mas acrescenta: “Para nós, tem de haver o cuidado com quem possa cruzar o caminho. Manter atenção e ficar ligada sempre, mas isso já temos que fazer o tempo todo, né? Inclusive na cidade”.

Hanna conhece Taís desde os 2 anos e foi com ela que começou a explorar o mundo das trilhas. A família da amiga e o irmão mais velho incentivaram o amor da jovem pelos caminhos da natureza. Hanna garante nunca ter tido vontade de embarcar em uma aventura solo, mas acompanha os relatos de mulheres que se sentem empoderadas ao trilhar sozinhas.

Bárbara também herdou o hábito da família e começou a fazer trilhas aos 2 anos. Aos 9, fez a de Indaiá e Itiquira, em Formosa, com o pai; aos 12, descobriu a Chapada dos Veadeiros com a madrinha e viu a imensidão do mundo de trilhas e cachoeiras. Apesar de não ter feito nenhuma trilha inteiramente sozinha, viveu a experiência de subir até Machu Picchu, no Peru, sem conhecidos por perto. “Foi uma experiência transcendental subir toda a montanha. Era só eu, minha superação, minha fé no que estava por vir e a natureza”, lembra.

Assim como as amigas, a história de Gabriela começou na infância. Aos 4 anos, conheceu a Chapada Diamantina. Depois, começou a viajar para Pirenópolis e, aos 13, conheceu a Chapada dos Veadeiros. Há seis anos, as trilhas se tornaram um hábito. “Para mim, tem que ter uma pessoa do lado para passar um pouco de confiança e segurança. Se ocorrer um imprevisto, como me machucar ou ser picada por um bicho, terei alguém para ajudar.”

"Foi uma experiência transcendental subir toda a montanha. Era só eu, minha superação, minha fé no que estava por vir e a natureza"
Bárbara Carrara Gerth, cientista ambiental

"Às  vezes, gosto de me afastar um pouco. Paro e escuto a natureza"
Taís Taurisano Tajes, cientista ambiental 



Trilhas urbanas

(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

Desde pequena, a produtora cultural e diretora teatral Fernanda Pacini Valls, 35 anos, sempre gostou de acampar e visitar cachoeiras. O pai,  pesquisador e botânico, compartilhava o amor pelo meio ambiente com a família. E as irmãs levavam Fernanda para acampamentos e aventuras.

“Sempre que começo uma trilha, é como se carregasse comigo todas as trilhas que fiz, todas as pessoas que já me acompanharam em uma caminhada e me ensinaram tanto nos locais que percorremos juntos”, reflete.

Em 2015, aos 32 anos, Fernanda fez a primeira caminhada sozinha. Percorreu a Estrada Colonial, em direção a Pirenópolis. Durante três dias, trilhou cerca de 75km, em uma jornada de autoconhecimento. “Foi a experiência mais incrível que pude viver. Foi muito importante ir sozinha e descobrir o tanto de coisas que sou capaz e não sabia de mim”, afirma.

Para ela, os grandes diferenciais em trilhar sozinha estão no silêncio, na atenção e meditação. “Você depende só de você pra tudo, seja para compreender o caminho, seja pra passar por partes mais difíceis, em que, às vezes, precisaria de uma mão.”

Ali do lado


Para mulheres que trilham sozinhas, Fernanda acredita que os perigos são os mesmos existentes na sociedade em que vivemos. “Neste mundo machista, é difícil ter que lidar com o medo de abusos. Tendo a achar que as pessoas que estão em um espaço da natureza têm uma energia diferente. Tenho mais medo dos espaços urbanos do que da floresta”, afirma.

Apaixonada pela orla do Lago Paranoá, a produtora cultural, no início do ano, criou um projeto de trilhas urbanas, no qual mapeia os melhores lugares para ver a lua nascer, nadar no lago, caminhar ou pedalar. As descobertas são compartilhadas no Instagram, @andantedosventos.

Fernanda já percorreu praticamente toda a orla desobstruída — falta apenas um último trecho no Lago Sul. E convida a população a explorar mais os espaços públicos, que têm muita diversidade a oferecer e estão logo ali, do seu lado.

Segurança é tudo
  • Sempre avise aos  amigos e familiares sobre sua localização e com quem você estará.
  • Deixe avisado o dia provável do retorno.
  • Pesquise sobre o local e se é seguro o suficiente para que mulheres façam o trajeto desacompanhadas.
  • Se optar por fazer uma trilha sozinha, escolha as que já conhece.
  • Use GPS ou mapas.
  • Informe-se sobre o nível de dificuldade da trilha e quantos quilômetros serão percorridos.
  • Saiba o destino final e planeje o caminho a ser percorrido.
  • Se houver boatos de assaltos no local, evite levar bens de valor, como celular, carteira e chave do carro.
  • Se o local tiver a presença de cobras, escolha sempre sapatos que protejam os pés e os tornozelos.
  • Leve repelentes.
  • Leve roupas e equipamentos adequados para o tipo de trilha.
  • Tenha sempre um minikit de primeiros socorros, sobretudo se estiver sozinha.
  • Leve lanterna e boné.
  • Leve sempre água e alimentos que forneçam energia.
  • Use e leve sempre protetor solar.
  • Tenha o maior cuidado possível com seu lixo.
  • Se não tiver experiência, comece com trilhas curtas e fáceis. Vá se aprimorando, aprendendo aos poucos e elevando o grau de dificuldade, devagar e sempre.

Desbravando o mundo 

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)

A brasiliense Jussiara Ferreira, 27 anos, é tão apaixonada pelo trekking que, em 2015, adotou como pseudônimo o termo que define a prática de fazer trilhas. Ela se transformou em Ju Trekker. A servidora pública é fã de checklists e sempre viaja com objetivos. Hoje, busca conhecer o máximo de trilhas possíveis mundo afora.

O que começou como um hobby se tornou um projeto de vida e também uma forma de ajudar outras mulheres a realizarem os próprios sonhos que envolvem trilhas e viagens.

No ano passado, ao ler um livro, descobriu uma trilha que sonhava em fazer, a Tour du Mont Blanc, entre a França e a Itália, e chegou a abandonar um intercâmbio em favor da aventura. Apaixonada pela obra, resolveu que faria todas as trilhas contidas nela e, assim, o blog de dicas que já existia cresceu e se tornou o projeto Trilhas pelo Mundo (@jutrekker), no qual ela percorre os países fazendo as trilhas mais clássicas.

Quando não está explorando as trilhas clássicas do planeta, a servidora pública se aventura nos arredores de Brasília, onde, garante, há lindos caminhos a serem desbravados. As pessoas podem participar, acompanhando Jussiara e pagando taxas simbólicas, que a ajudam a manter as trilhas. Além disso, ela faz parcerias com a população local e, quanto mais gente participa, mais barato ficam as viagens.

Para ela, é importante envolver as mulheres em projetos como esse para que a ideia de que são mais frágeis ou que não são capazes de todo o tipo de aventura seja abandonada de vez.

Jussiara explica ainda que não busca o projeto como forma de lucro, mas sim um hobby no qual ela consegue envolver outras pessoas. “Realizo o meu sonho e ainda consigo ajudar as pessoas a realizarem o delas”, comemora. Um objetivo de vida? Chegar ao Everest.

Explorando o DF e o Entorno

Com a ajuda das trilheiras, mapeamos alguns caminhos a serem percorridos aqui por perto.
  • Parque do Tororó: localizado na Região Administrativa de Santa Maria, está a apenas 35km de Brasília. Conta com uma cachoeira com queda d’água de 18 metros de altura.
  • Chapada dos Veadeiros: paraíso para qualquer trilheiro, o parque nacional fica a 265km de Brasília e conta com diversas trilhas e cachoeiras. As Calangas do Cerrado destacam a Catarata dos Couros e a Cachoeira do Segredo.
  • Floresta Nacional de Brasília (Flona): foi criada em 1999 e protege uma área de cerrado de 9 mil hectares. Conta com trilhas completamente sinalizadas.
  • Terra Ronca: localizado nos municípios de São Domingos e Guarani de Goiás, na região nordeste de Goiás, o parque estadual tem uma área de 57 mil hectares e uma das maiores concentrações de cavernas da América Latina.
  • Cachoeiras do Indaiá: a microbacia do Rio Itiquira, localizada na região próxima a Formosa, em Goiás, conta com várias quedas d’água com alturas variadas.
  • Parque Nacional de Brasília: mais conhecido por Água Mineral, abrange uma área de 42.355,54 hectares, com território distribuído pelas regiões administrativas de Brazlândia, do Plano Piloto e de Sobradinho e pelo município goiano de Padre Bernardo.
  • Jardim Botânico: primeiro Jardim Botânico do Brasil com um ecossistema predominante de cerrado, tem uma área de cerca de 5 mil hectares, dos quais 526 são abertos à visitação. Conta com uma trilha ecológica com 4.500 metros.
  • Orla do Lago Paranoá: recentemente teve boa parte dos seus 38km de extensão desobstruídos.

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