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Correio Braziliense ENTREVISTA

Juliana Paes fala sobre ONU Mulheres, igualdade de gênero e carreira

Defensora para a prevenção e a eliminação da violência contra as mulheres da ONU Brasil, atriz defende que as mães ensinem aos filhos, desde cedo, a equidade entre os gêneros


postado em 16/09/2018 08:00 / atualizado em 13/09/2018 18:55


 
(foto: Sergio Baia/Divulgação)
(foto: Sergio Baia/Divulgação)
 
“Simples”.  É a palavra que a atriz Juliana Paes, 39 anos, escolheu para se definir ao ser questionada por uma fã durante um evento que participou neste mês em Brasília. E não era modéstia. Essa é uma das características que exala da carioca e pôde ser comprovada quando ela esteve na capital.

Na ocasião, se emocionou ao ver a mãe e a tia que apareceram de surpresa na plateia. A matriarca, coincidentemente, estava em Brasília para visitar a irmã, moradora da cidade. Juliana fez questão de atender a todos os admiradores até o shopping fechar e conversou com o público e a reportagem da Revista do Correio sem rodeios, sempre com um sorriso largo no rosto, nos momentos de descontração, e com muita seriedade, quando o assunto era mais delicado.

Com 18 anos de carreira, Juliana Paes hoje integra o time de grandes atores e atrizes da Globo, é uma das celebridades mais famosas do Brasil (no ano passado, ficou em sexto lugar entre as personalidades mais influentes do país, segundo o Google), dá nome a uma linha de perfumes e, desde o ano passado, também tem o título de defensora para a prevenção e eliminação da violência contra as mulheres da ONU Mulheres Brasil.

Mesmo com tantas atribuições, ela não dispensa a vida cotidiana ao lado dos dois filhos, Pedro e Antônio, frutos do casamento de 10 anos com Carlos Eduardo Baptista, e diz que aprendeu recentemente que “é importante ter tempo para se cuidar”. A lição veio quando descobriu um cisto nas cordais vocais, o que fará com que desacelere a agenda neste fim de ano para fazer o tratamento de dois meses e possa assumir o compromisso com uma minissérie da Globo em janeiro, o primeiro após o fenômeno da personagem Bibi Perigosa, em A força do querer.

De uma beleza estonteante e bem brasileira, Juliana Paes admite que, após o nascimento dos filhos, mudou bastante a rotina de cuidados com a pele, mas não dispensa itens como filtro solar e técnicas com colágeno. Sobre a ditadura da beleza, acredita que estamos dando os primeiros passos para o lado oposto. Esses foram apenas alguns dos assuntos comentados pela atriz ao Correio. Juliana Paes falou ainda sobre maternidade, violência contra a mulher e trajetória na tevê. Confira!
"Personagem é que nem filho, é difícil falar que prefere algum deles. Você vai criando com tanto amor e carinho" Na pele de Bibi, grande sucesso do ano passado (foto: Estevam Avellar/TV Globo)


Como consegue, como mãe, profissional e empresária, conciliar tudo?
Não posso dizer que é simples. Às vezes, eu me sinto como aquela atração de circo em que o cara fica equilibrando pratos. Você gira um, depois o outro. Eu sofro, como toda mulher, com angústias de vez em quando, com ansiedade, achando que não vou dar conta de tudo. Tem dias que estou mais confiante, achando que tudo está equilibrado; outros, mais difíceis. Mas, assim eu vou vivendo. O que me mantém com esse jeito, que as pessoas têm a impressão de que estou sempre alegre, alto-astral, são duas coisas. Uma, credito muito à minha espiritualidade. Vivencio muito isso, procuro meditar, manter uma postura positiva mesmo diante das adversidades. E a segunda é a confiança de que estou sempre dando o meu melhor em tudo. Nós mulheres, que temos filhos, batalhamos a vida, trabalhamos fora, cuidamos de casa, família, compramos meia de criança e, ao mesmo tempo, têm que falar na tevê, temos que ter a certeza de que estamos dando o nosso melhor. A certeza de que você está dando o seu melhor tem de bastar de vez em quando. Vão ter alguns furos, você dará um furo com alguém em algum momento, mas saber que está bem-intencionada em todas as suas missões tem de bastar.

Tivemos 21 casos de feminicídio no DF somente este ano. Você enxerga soluções a curto prazo para a diminuição da violência contra a mulher? E, como uma mulher formadora de opinião, qual acha que deve ser o seu papel nessa luta?
É difícil falar sobre isso. Não porque não tenhamos armas e informações para falar, mas tanto já foi dito e feito e a gente não deixa de ficar pasma, perplexa que, em pleno século 21, ainda esteja lidando com esses números. Acho que o que se tem para fazer de concreto é a aplicação das leis, como tem de ser. E acho que nossa grande missão, porque o que acontece agora é muito difícil de mudar, é com as gerações que vêm aí. Ainda conseguimos mexer nas cabecinhas dessa garotada. Se não for por aí, não tem mais caminho. Tenho uma missão como formadora de opinião e pessoa pública e tento passar essa mensagem através dos meus discursos e do meu trabalho com a ONU. As mães têm que criar crianças feministas sim, filhos que entendam a equidade entre homem e mulher. Temos esse compromisso com novas gerações, temos que criar uma geração com novo entendimento. Em um âmbito mais privado, tenho que criar dois meninos com essa cabeça. Se cada um fizer o seu, criando seus filhos, primos, irmãos, sobrinhos ensinando que esse comportamento com as mulheres é inaceitável, a próxima geração vai crescer entendendo que não é possível viver em um mundo onde se pode agredir e matar mulheres.

Sobre a questão da aceitação, da diversidade e do incentivo à beleza natural, acredita que a indústria tem avançado nesse sentido?
Acho que ainda temos um longo caminho a percorrer, mas tenho gostado do que tenho visto. Antigamente, quando abríamos uma revista ou ligávamos a tevê, só víamos um mesmo tipo de gente, meninas mais branquinhas e de cabelos lisos, que não são correspondentes com a média da população, que é negra, parda, misturada, com cabelo anelado, black power, afro. Tenho visto mais essa diversidade. Ainda temos uns bons passos para dar, mas acho que estamos seguindo um caminho bacana. Tenho visto mais meninas representadas.

%u201CÀs vezes, eu me sinto como aquela atração de circo em que o cara fica equilibrando pratos. Você gira um, depois o outro. Eu sofro, como toda mulher, com angústias de vez em quando, com ansiedade, achando que não vou dar conta de tudo
%u201CÀs vezes, eu me sinto como aquela atração de circo em que o cara fica equilibrando pratos. Você gira um, depois o outro. Eu sofro, como toda mulher, com angústias de vez em quando, com ansiedade, achando que não vou dar conta de tudo" (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)


Recentemente, saíram algumas notícias nas quais você afirmou ter se sentido esquisita ao fazer botox. Como é sua relação com os procedimentos estéticos?
Há uns dois anos, aos 37, achei que as linhas da testa estavam muito marcadas. Fui à dermatologista e pedi alguma coisa para suavizar, dar uma desacelerada nesse relógio. Fiz o que chamam de baby botox, que só paralisa um pouco a testa. Eu me senti um robô paralisado, com sensação de que não conseguia me expressar. Sorte que não tinha nenhuma novela em vista, porque não ia conseguir fazer personagens. Gosto de fazer caretas, me expressar. Hoje em dia, faço tudo que me ofereçam, desde que não me paralise. A tecnologia ajuda e tem muitas coisas novas e legais, como a estimulação de colágeno. Gosto de coisas que estimulam a pele de dentro para fora. Tenho me valido desses tipos de técnicas que ajudam a produzir colágeno e manter a pele viçosa.

Em que consiste a sua rotina de beleza?
Tinha uma rotina muito mais cheia de mimimi antes dos filhos, confesso. Era um creme para o dedão do pé e outro para a ponta da orelha. Mas, aí, a gente começa a perceber que não dá mais tempo de tudo, e simplifiquei para aproveitar meu tempo com eles. Depois dos 30, entendi que não tem como abrir mão do filtro solar. A gravidez também me ensinou isso. Mesmo em casa, porque até a luz do computador pode dar manchinhas. Então, a primeira coisa do dia é o filtro solar e o hidratante no rosto. No corpo, eu também não fico sem um hidratante. Começo o dia passando um hidratante no corpo inteiro. Meu cabelo cacheado é meu xodó. Como eu tenho fios brancos, preciso pintar. Então, de 15 em 15 dias estou no salão hidratando e cuidando com um profissional. É basicamente isso. Eu também gosto muito de maquiagem e de investir em bons produtos. Acho preferível economizar e comprar poucos produtos muito bons do que ter muitos de qualidade inferior.

Qual personagem mais marcou sua carreira?
Personagem é que nem filho, é difícil falar que prefere algum deles. Você vai criando com tanto amor e carinho. Mas tenho alguns personagens que foram muito importantes na minha carreira. A primeira que me deu visibilidade foi a Ritinha, de Laços de família. A primeira experiência, em que eu apareci de verdade. Depois, a Jaqueline Joy, de Celebridade, foi quando as pessoas começaram a me conhecer na rua pelo meu nome e não só da personagem. Depois, eu fiz a Maya (de Caminho das Índias), que foi um papel muito importante. Senti um reconhecimento artístico muito grande, amadureci como atriz de maneira irreversível. Gabriela foi um grande desafio, era uma expectativa enorme, uma cobrança — “meu Deus, você vai fazer um personagem que foi de Sônia Braga” —, e ela sempre foi minha musa inspiradora. A repercussão positiva foi incrível. Mas ninguém tira a Bibi (de A força do querer). Vai fazer um ano que a novela acabou e as pessoas continuam falando, me chamando de Bibi. Parei no sinal e um menino disse: “Coé Bibi Perigosa”, fazendo um gesto com as mãos. Depois de tanto tempo, ainda tem esse carinho das pessoas, essa relação de proximidade com a personagem.

Na semana passada, surgiram notícias de que você seria uma das apresentadoras de Os melhores anos das nossas vidas. Você estará mesmo no programa? Se sim, o que pode contar sobre a atração?
Estaria sim, mas, primeiro, tive alguns problemas de agenda; em segundo, vou precisar cuidar de um problema na corda vocal. Estou com um pequeno cisto. Para participar do programa, eu precisaria interromper o meu tratamento com fonoaudiólogo e, em janeiro, eu começo as gravações de uma minissérie. Só teria este fim de ano para me cuidar. Como a dramaturgia é minha prioridade, precisei abrir mão do programa. Ainda não sei quem vai me substituir. Se soubesse, contaria. Isso acabou sendo uma lição para mim. É importante ter tempo para se cuidar. Às vezes, a gente quer fazer tudo e, como gosto muito de trabalhar, estava dizendo sim para tudo. Não é nada grave, mas preciso de um tempo para fazer esse repouso vocal. Este ano foi de muito trabalho fora da tevê. Eu rodei dois filmes que serão lançados em 2019, estou envolvida na minissérie, tem também a preparação de uma novela, o carnaval. Então, realmente, precisei desse ano sabático da tevê. Adorei poder fazer cinema e coisas diferentes.

Tem alguma coisa profissional que ainda sonha em fazer?
Caramba, eu já fiz tanta coisa, mas tenho um sonho ainda. Mas só mais para frente, porque, para fazer isso, é preciso encontrar um baita texto, estar em um momento muito especial de vida. Não que eu não esteja, mas é algo diferente. Eu tenho vontade de fazer um monólogo. Tive uma única incursão no teatro, fiz o musical Os produtores, e ficamos um ano em cartaz. É um gênero diferente. O monólogo é mais denso, você tem que estar muito preparada para estar lá, sozinha no palco.
Juliana Paes se emociona ao ver a mãe chegar de surpresa em Brasília (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
Juliana Paes se emociona ao ver a mãe chegar de surpresa em Brasília (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Como foi a experiência de criar sua própria linha de perfumes?
Primeiro, nunca imaginei chegar tão longe na minha trajetória, na minha carreira, nesse lugar em que me encontro hoje. Nunca imaginei convidar as pessoas e estar essa galera toda me esperando (se referindo ao público do evento). Isso é demais para mim, é uma vitória. Depois, nunca imaginei que existiria um desejo, por parte das pessoas, de terem um perfume com meu nome. Isso é surpreendente e, até hoje, eu me admiro toda vez que lanço uma fragrância. Sempre tive paixão especial por cheiros, tenho uma coisa com memória emotiva. Cada personagem que eu faço tem um diferente. Ao criar uma memória para meus personagens, ela está ligada aos cheiros de infância. Eu penso: “Qual o cheiro que essa pessoa sentia quando era criança? Qual receita a mãe e a avó faziam?” As fragrâncias sempre estiveram presentes nas minhas composições, mas nunca imaginei que fosse ser convidada a ter meu próprio perfume, com meu nome.  Fiquei muito feliz e muito surpresa e lisonjeada por as pessoas terem algo que me aproximasse delas.



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