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Correio Braziliense SAÚDE

Doenças cardiovasculares atingem tanto mulheres quanto homens

Negligenciadas por muitas mulheres, as doenças cardiovasculares as atingem praticamente na mesma proporção que os homens, sobretudo depois qu elas entram na menopausa


postado em 16/09/2018 08:00 / atualizado em 14/09/2018 19:19

Sem os sintomas típicos, Sônia Moreira demorou a ser diagnosticada quando sofreu um infarto(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Sem os sintomas típicos, Sônia Moreira demorou a ser diagnosticada quando sofreu um infarto (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

 
Munique (Alemanha) — O próximo dia 29 foi escolhido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o Dia Mundial do Coração para alertar as pessoas sobre os cuidados com um dos órgãos mais importantes do nosso corpo. Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo. De acordo com a OMS, a cada 40 segundos, uma pessoa morre por conta de enfermidades que afetam o sistema cardiovascular.

Por muito tempo, eles eram as principais vítimas. O simples fato de ser homem já era um fator de risco. Há cerca de 10 anos, a proporção era por volta de quatro ou cinco homens para cada mulher. No entanto, o número de casos de mulheres que também são acometidas pelas doenças aumentou e hoje está em praticamente um para um.

As doenças cardiovasculares são responsáveis por 30% das mortes de mulheres com mais de 40 anos. A taxa é maior do que a dos óbitos pelo tão temido câncer de mama, em quinto lugar nas causas de óbito. Existem várias teorias para isso, mas a principal seria a mudança cultural. “As mulheres têm, naturalmente, um fator protetor, que são os hormônios, especialmente o estrogênio. Portanto, elas, antes da menopausa, tinham uma tendência menor a ter problemas cardiovasculares”, explica o cardiologista Thomas Osterne.

Antes, só essa proteção natural garantia a saúde cardiovascular das mulheres, pelo menos até a menopausa. No entanto, isso não tem sido suficiente. “Os hábitos mudaram. O tabagismo era encontrado predominantemente entre os homens, as mulheres tinham a tendência a se alimentar melhor, se cuidar mais. Elas ainda trabalham fora e em casa, com dupla jornada, o que favorece o estresse”, exemplifica o especialista.

É por causa da relação entre a doença e o estilo de vida que o cardiologista britânico e professor da Faculdade Imperial College London insiste que saúde cardiovascular é um investimento. “É preciso cuidar, desde hoje, do futuro”, afirma.

Há cerca de seis meses, a técnica de enfermagem Sônia Moreira Dda Silva, 60 anos, toma sete comprimidos por dia. Entre estatinas e aspirina, há também um antidepressivo, já que sua vida sofreu uma reviravolta da noite para o dia. Ela ainda perde o fôlego se caminha e fala ao mesmo tempo, tem episódios curtos de falta de ar, cortou o sal, o açúcar e a gordura do cotidiano.

Tudo começou depois de acordar não muito bem em 29 de março deste ano. Pulou o café da manhã, do qual, normalmente, não abre mão. “É a refeição que considero mais importante e sempre acordo com muita fome.” Comeu só um pedaço de queijo, por desencargo de consciência, e saiu de bicicleta. Depois de apenas dois minutos pedalando, em ritmo devagar, já que não era uma atleta, começou a se sentir mal.

Diante do mal-estar, pediu a uma mulher que estava em frente do portão de uma casa para entrar. Explicou a situação. Sentia uma dor no estômago insuportável, além de azia. A dor se estendia a toda a região abdominal e o busto. Foi acolhida. No banheiro, vomitou água. Muita água. Teve a impressão de que vomitara toda a água do corpo. Um amigo a buscou.

Infarto

Sônia achava que era algum problema gástrico, pediu uma água com limão. Mas o líquido mal entrou no corpo e já saiu. Só então, ela pediu para ser levada ao hospital. Na triagem dos pacientes, a pressão sanguínea foi medida e estava em um patamar bom. Ela deveria, portanto, esperar. A condição dela não foi considerada urgente. Sentindo-se melhor, ela preferia voltar para casa a aguardar atendimento.

O amigo decidiu, então, levá-la a um hospital particular, onde a assistência seria mais rápida. Lá, Sônia recebeu vários remédios para estômago e chegou a mentir que a dor passara: só para não receber mais medicamentos que não a ajudavam. Finalmente, uma médica começou a desconfiar e chamou um cardiologista, que concluiu: era um infarto.

A técnica de enfermagem nunca imaginou que, silenciosamente, o coração estava doente. Enquanto infartava, não desconfiou que era isso que provocava todo o incômodo. Ela não sentiu a típica dor no peito que irradia para o braço esquerdo: a angina, dor no peito causada pela redução do fluxo sanguíneo para o coração. Por sorte, a demora em diagnosticar o infarto não foi fatal.

Embora a angina seja o sintoma mais frequente, em grupos como idosos, mulheres e diabéticos, as reações são diferentes. Isso faz com que médicos demorem a identificar o problema. “O diagnóstico de infarto em mulheres é um desafio. Por isso, é importante que haja cardiologista no pronto-socorro, porque os outros médicos nem sempre estão preparados para identificá-lo sem os sintomas típicos”, diz o cardiologista Thomas Osterne.

Mas o problema não é só o diagnóstico no hospital. Muitas mulheres, por apresentarem sintomas que não costumam ser automaticamente relacionados a um infarto, demoram a procurar ajuda médica. Pensam que não é nada. Em geral, elas sentem um cansaço maior, começam a transpirar mesmo sem fazer esforço físico e sentem uma dor mais baixa, que parece ser gástrica. Costumam achar que se trata de gastrite ou refluxo.

Redução de colesterol

As estatinas são usadas para diminuir o colesterol daqueles que, mesmo com mudança de dieta e de hábitos, mantêm as taxas muito altas. O colesterol alto é um fator de risco para ataques cardíacos; por isso, é tão importante diminuí-lo. Sônia chegou a não se adaptar a uma das estatinas que usou. “Uma vez, senti um desconforto muito grande e até achei que era outro infarto. Eu me desesperei”, relembra. Por fim, dos males, o menor: era só uma reação ao remédio que estava tomando. Trocada a medicação, o mal-estar passou.

Mais que um analgésico

Uma medicação tão simples, conhecida de todos, tornou-se uma boa aliada de pessoas com um risco relativamente alto de ter um infarto. A aspirina é capaz de prevenir um infarto, na medida que funciona como um anticoagulante e evita que coágulos de sangue obstruam uma artéria. O uso, contudo, não deve ser indiscriminado: o médico deve avaliar a necessidade e a indicação.


Congresso em Brasília

Hoje é o último dia do Congresso Brasileiro de Cardiologia, maior evento médico voltado para a especialidade da América Latina e o terceiro maior no mundo. Mais de 8 mil médicos do Brasil e Exterior participam da 73ª edição,  sediada em Brasília. Na pauta, avanços e tecnologias na área cardiológica.

Doença arterial periférica 

Nem todo problema cardiovascular tem a ver diretamente com o coração. A doença arterial periférica atinge as artérias periféricas, que fornecem sangue para os membros. A circulação para os membros interrompida pode levar à gangrena e à amputação. Se progredir, pode causar complicações associadas à doença arterial coronariana, incluindo um ataque cardíaco. Estima-se que afeta mais de 202 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde.

Doença arterial coronariana

Causada por um acúmulo de placa nas artérias coronárias, que fornecem sangue para o coração, pode causar eventos sérios, como ataque cardíaco e acidente vascular cerebral. É o tipo mais comum de doença cardíaca e levou 8,8 milhões de pessoas a óbito em todo o mundo em 2015, segundo estudo publicado no Journal of the American Heart Association, em 2016.
 
A repórter viajou a convite da empresa farmacêutica Bayer para o Congresso Europeu de Cardiologia.  

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