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Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Tatuagem conquista o público mais velho

Seja para contar uma história, seja para homenagear um amor ou relembrar um momento, as tattoos estão fazendo sucesso; confira algumas das histórias por trás dos desenhos


postado em 16/09/2018 08:00 / atualizado em 17/09/2018 13:35


A tatuagem está há muito tempo na sociedade e tem conquistado os mais diversos públicos. Se antes era considerada um ato de rebeldia e se restringia a certas culturas, atualmente, ela está presente na dia a dia de milhares de pessoas e, acredite, não é coisa só de jovem.

O tempo pode até trazer as rugas, mas há quem prefira marcar o corpo por meio de desenhos. Mais do que contar o que já se viveu, eles expõem amores, momentos e personalidade.

“Com a tatuagem, você transfere sentimentos, emoções, acontecimentos. Tem muito a ver com identidade, pois significa que a pessoa quer expor aquele modo de ser”, afirma a antropóloga e socióloga da Universidade de Brasília (UnB) Mariza Veloso.

Para ela, o fato de a tatuagem ter ganhado novos públicos está muito ligado à forma como as pessoas estão lidando com o corpo. “O corpo se torna objeto de identificação, de subjetivação, pode ter relação com as múltiplas identidades. As pessoas querem se diferenciar, e a tatuagem é uma forma de fazer isso”, ressalta Mariza.

Assim, as tatuagens foram além da juventude e hoje têm se misturado às rugas e aos cabelos grisalhos, sejam elas feitas atualmente ou há anos.


Nunca é tarde


Epifânia fez a primeira tatuagem aos 98 anos e aos 101 voltou ao estúdio para fazer um novo desenho(foto: Arquivo pessoal )
Epifânia fez a primeira tatuagem aos 98 anos e aos 101 voltou ao estúdio para fazer um novo desenho (foto: Arquivo pessoal )
Engana-se mesmo quem pensa que tatuagem é coisa de jovem. A poetisa dona Epifânia Maria de Jesus, conhecida como vó Pifa, está aí para provar o contrário. Recentemente, ela encarou a agulha e a tinta e, aos 101 anos, desenhou uma rosa na perna. E isso não é uma novidade para ela. Quando tinha 98 anos, fez a primeira tatuagem na perna esquerda. Na época, Epifânia virou notícia e até iniciou um processo para entrar no livro dos recordes como a pessoa mais velha a se tatuar.
 
Com uma taça de vinho na mão e uma rosa na outra, ela mostra sorridente o novo desenho. Agora, a tatuagem foi feita na perna direita — uma flor, assim como a primeira, que fez tanto sucesso. “Meu quintal é cheio de planta. Eu gosto muito, porque elas têm boas energias”, diz a poetisa sobre as figuras escolhidas.
 
Se a energia vem das plantas ou não, isso ninguém sabe, mas a realidade é que é impossível não se contagiar com a jovialidade dela. Ela lembra bem dos tempos em que nem podia imaginar em fazer uma tatuagem. “Meu pai era um coroa muito ciumento, mas depois que eu cheguei à minha idade, que eu mando no meu nariz, eu faço o que eu quero.”

Aprovação


Enquanto no passado o pai não aprovava, hoje, o músico Engels Espirito, 45, neto de Epifânia, dá apoio total às atitudes da avó. “No aniversário dela, eu perguntei o que ela queria de presente. Imaginei uma viagem, qualquer coisa, mas ela me surpreendeu com a tatuagem. De início, pensei que, quando ela visse a maquininha, desistiria. Mas não. Ela quis fazer e fez”, lembra.

Engels conta que ficou com medo de a família não aprovar, mas todos amaram a ideia. E olha que é bastante gente. Segundo o neto, são cerca de 100 pessoas, entre filhos, netos, bisnetos e até tataranetos.

Dona Epifânia ainda segue com o objetivo de entrar no Guiness. Engels explica que já foi enviada a certidão da avó, provando a idade dela, e um vídeo, além de outros materiais. Porém, a empresa responsável pela edição do livro afirma que precisa se certificar de que não há outra pessoa mais velha que tenha feito uma tatuagem — pesquisa que pode durar um longo período. Dona Epifânia segue confiante. “Uma velha da minha idade colorindo o corpo não é para qualquer um”, brinca.

Para marcar o amor


Adélio Fonseca tatuou no braço o retrado da mulher, Norma: mais de 60 anos de amor(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Adélio Fonseca tatuou no braço o retrado da mulher, Norma: mais de 60 anos de amor (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Há quem ache loucura tatuar o nome ou o rosto de um namorado ou namorada. Mas e se essa pessoa fosse sua companheira há mais de 60 anos? Não tem mesmo como não achar um ato romântico, ainda mais se essa imagem for feita aos 80 anos de idade.

Esse é o caso do advogado aposentado Adélio Fonseca, 83. Com um sorriso aberto, ele mostra, com orgulho, o rosto da sua “musa”, como ele descreve, estampado no braço. Ousadia ou não, a tatuagem foi feita aos 80 anos como uma forma de marcar o amor que ainda vive com Norma Fonseca, 80.

A disposição já não é a mesma dos 17 anos, quando conheceu a mulher, porém o tom galanteador da juventude permanece. Seu Adélio lembra bem de como se encantou por dona Norma. “Ela é uma verdadeira gata, considerada a princesa do Leme”, comenta.

A companheira reconhece o carinho do marido, mas também brinca com a imagem, feita baseada em uma foto de quando ela tinha 18 anos. “Está bonita, mas agora ele devia fazer uma de mim coroa. Ia ficar bonitinho uma velhinha aí”, diz, sorrindo.

Adélio afirma que se inspirou nos filhos para tomar a iniciativa de homenagear a mulher. “Eu sempre paguei as tatuagens deles e nunca fiz uma. Então, peguei uma foto dela e coloquei no meu braço. É a marca de um amor que eu resolvi tatuar agora no final”, ressalta.

Os dois se conheceram no Rio de Janeiro. Dona Norma morava perto da casa de seu Adélio. O aposentado recorda que, na sua juventude, tatuagem era coisa de marinheiro, mas hoje os desenhos na pele ganharam um significado diferente e vêm conquistando cada vez mais espaço na sociedade.

A tatuagem feita para dona Norma não deve ser a única. Seu Adélio já está pensando na segunda. Dessa vez, do personagem que marcou a sua infância, o super-herói favorito, Fantasma, criado há mais de 80 anos.
 

História narrada na pele


Muitos dos acontecimentos deixam marcas na vida das pessoas, mas há quem faça questão de tatuá-los na pele, usando o corpo para expor histórias, momentos e amor pela família e pelos amigos. A professora de publicidade Selma Regina Oliveira, 56, é uma dessas. O corpo dela, repleto de tattoos, conta um pouco sobre ela mesma e sobre o que já viveu.

Ao falar sobre as suas tatuagens, a professora lembra do personagem Maui, do filme Moana. Na animação, cada tattoo no corpo do grandalhão tinha sido registrada a partir de um fato da vida dele. “Cada desenho que escolhi fala um pouco de mim. Eu acho que tatuagem são pequenas histórias que se juntam para contar uma grande história. Eu me narro para o mundo dessa forma”, destaca Selma.

A primeira tatuagem foi feita há alguns anos. Ela não se lembra da idade ao certo, mas acredita que tenha sido entre os 33 e 35 anos. Se a data é difícil recordar, o motivo do dragão desenhado no pescoço ela não se esquece. “O dragão tem o significado de poder, inteligência. Coloquei-o atrás do pescoço, porque eu trabalho com a minha cabeça.”

Essa foi apenas a primeira. Atualmente, a professora tem cerca 19 tatuagens. Entre elas, o desenho de um ramo de oliveira no braço, para a família; o signo de uma amiga, para tê-la por perto mesmo estando em outro país; e uma fênix no pé. “Eu estava em uma situação complicada, na qual precisava recomeçar minha vida. Então, tatuei uma fênix no pé porque ela ressurge e voa. Não tem lugar melhor lugar para voar do que no pé”, comenta.

A paixão pelos desenho não é de hoje. Selma conta que sempre gostou de tatuagens, mas o preconceito a impedia de fazê-las. A professora só começou a pintar o corpo depois dos 30, após sair da casa dos pais, passar pelo mercado de trabalho e ter estabilidade financeira.

A família de Selma demorou para aprovar a atitude da professora. Ela lembra que o pai já chegou a afirmar que não gostava das tatuagens dela. Porém, se enche de orgulho com as feitas para homenagear a família. Além do ramo de oliveira, Selma tem no corpo a assinatura dos pais e da irmã. “Quando eu fiz, ele saía mostrando para todo mundo e ficou perguntando o porquê da assinatura. Eu respondi: ‘Fez a obra, assina’”, diverte-se.

Os desenhos e o tempo

As tattoos de Selma Oliveira contam um pouco da própria história(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
As tattoos de Selma Oliveira contam um pouco da própria história (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Selma frisa que ainda existe muito preconceito em torno da tatuagem. A mistura do cabelo grisalho com os desenhos na pele gera muita estranheza, principalmente diante do público mais velho. Ela enfatiza que não tem como não chamar a atenção ou evitar os olhares tortos, porém sabe lidar muito bem com essas reações. “Você aprende a fazer carão, e pronto. Na verdade, ninguém faz tatuagem achando que não vai chamar a atenção”, comenta.

Se tem uma pergunta que Selma já respondeu várias vezes é: “E quando você ficar mais velha?”. Para ela, isso não é motivo de preocupação. Muito pelo contrário. A resposta ela tem na ponta da língua: “Vou virar uma índia velha. O pessoal fica meio passado, porque eu tenho o cabelo grisalho e as tatuagens. Eu meio que estou a meio caminho da índia velha”, brinca.

A professora explica que, de fato, as tatuagens se transformam com o tempo. Segundo ela, as pretas já estão desbotadas e a tinta de algumas também se alargou. Outras já se fecharam, mas, para ela, isso faz parte. “Você tem dois caminhos: ou retoca ou mantém, porque elas estão envelhecendo com você. Eu prefiro deixá-las envelhecer comigo”, enfatiza.

Velhas ou não, as tatuagem de Selma são como um livro de figuras ou um álbum de fotos antigas que a faz voltar no passado. “Além de momentos estarem marcados, histórias estão sendo contadas, amigos e entes queridos lembrados”, assegura.


Homenagem eterna


As irmãs Marília (e) e Mariety decidiram homenagear os maridos quando já eram idosas (foto: Arquivo pessoal )
As irmãs Marília (e) e Mariety decidiram homenagear os maridos quando já eram idosas (foto: Arquivo pessoal )
A onda de marcar o amor na pele se espalhou mesmo entre os idosos. As irmãs Mariety de Freitas, 81 anos, e Marília Santos, 79, também encontraram na tatuagem uma forma de homenagear o amor da vida delas. Mariety foi a primeira. A aposentada fez um avião no peito para o falecido marido. “Ele sempre foi muito alto, grandalhão, os rapazes o chamavam de Zé Avião — até eu dentro de casa o tratava assim. Então, fiz um avião do lado do peito, perto do coração”, conta.

Mariety e o marido viveram juntos durante mais de 50 anos e tiveram cinco filhos. Para ela, o desenho foi só uma forma de homenagear o companheiro, porque, segundo a aposentada, mais que registrado na pele, o marido está no coração. “Lembro dele sempre, está gravado dentro de mim.”

A aposentada fez a tatuagem quando tinha 79 anos. Ela afirma que o desenho foi uma surpresa, que não avisou aos filhos. A família aprovou a iniciativa, tanto que inspirou a irmã Marília a se tatuar também. “Vi a da Mariety e falei: ‘Vou invejar e fazer também’”, brinca.

Passos seguidos


Marília desenhou uma pantera no braço, referência ao apelido do companheiro. “Quando ele era solteiro, todo mundo o chamava de pantera. Fiz uma para homenageá-lo em vida”, conta.

A atitude de se tatuar foi mesmo uma novidade para a idosa. Ela conta que, quando era jovem, nem pensava em fazer algo do tipo, mas o amor pelo marido e a atitude da irmã a motivaram. “Ele está sempre comigo e me ajuda muito. Ele merece, é um homem muito bom”, ressalta.

Se o marido aprovou? Marília conta que ele ficou muito alegre. “Gostou muito, falou que eu era doida, que isso doía, mas eu disse que não doeu. Todos pularam de alegria.”

Sobre outras tatuagens, as duas afirmam que, até o momento, não pretendem fazer um novo desenho.

A tatuagem na pele idosa


Não há dúvida de que a pele de um idoso não é a mesma de um jovem. De acordo com o tatuador Rogélio Paz Neto, porém, os cuidados são os mesmos. Ele trabalha com tatuagem há cerca de 40 anos e afirma que a população mais madura tem recorrido mais aos desenhos no corpo. “As pessoas que gostavam de tatuagem no meu tempo hoje já estão com mais de 50”, justifica.

Rogélio admite, porém, que fazer tatuagem na pele de um idoso é um pouco mais difícil. “A pele já não tem a mesma elasticidade. A falta de flexibilidade influencia no desenho”, justifica. Segundo o profissional, apesar de ser diferente, os cuidados após a tatuagem são os mesmos, como não praticar exercício depois de fazer o desenho, não abafar o local, entre outros.
 
 
 
 

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