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Correio Braziliense

Não diferenciar brinquedos de meninos e meninas é ferramenta para igualdade

Especialistas mostram que a verdadeira construção da igualdade de gêneros começa na infância. Conheça a história de pais que constroem isso desde cedo


postado em 08/10/2018 17:07

Jackeline Santos fez questão de comprar uma boneca para o filho, Dan Suaid(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Jackeline Santos fez questão de comprar uma boneca para o filho, Dan Suaid (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

 
Quarto azul para o menino que vai nascer; rosa para a menina. Para elas, bonecas e brinquedos de cozinha; para eles, carros e armas. Os estereótipos vêm se repetindo há gerações, mas, para especialistas, eles podem — e devem — ser mudados.

“Os pais constroem o primeiro ambiente de brinquedos da criança, antes mesmo que ela comece a fazer suas escolhas”, afirma a educadora Andréia Tiemi Ono. Na visão dela, da construção de papéis masculinos e femininos surgem preconceitos que se refletem no uso dos brinquedos.

É o que chamam de estereótipos de gênero: a crença de que certos comportamentos e certos objetos são naturalmente “de meninas” e outros, “de meninos”. Segundo a psicóloga Valeska Zanello, professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília, estudos comparativos com períodos diversos na história e com outras culturas mostram, no entanto, que essas representações são variáveis, e tudo pode ser tanto de menina quanto de menino.

Para Zanello, a diferenciação entre os sexos é ruim, porque limita as potencialidades das crianças. “Como ser humano, temos um potencial infinito e acabamos banindo as possibilidades dele. Um menino que gosta de dançar e é um excelente bailarino não vai desenvolver isso porque balé é considerado coisa de menina. Ou uma menina que poderia ser uma grande corredora de carro será repreendia”, explica.

Essas representações são o que a escritora e professora de história da consciência na Universidade da Califórnia, cita Valeska Zanello, chama de tecnologia de gênero: produtos culturais que não só representam diferenças e estereótipos em relação ao gênero como incitam essas diferenças e criam realidade.

Professora titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, Tizuko Morchida Kishimoto, com pesquisa e docência em educação infantil, formação de professor e brinquedo, explica que a educação de busca de valores deve conduzir a uma política voltada para a desconstrução de tais práticas históricas. Começar a desconstrução, oferecendo um irrestrito acesso aos brinquedos e brincadeiras, faz parte do processo.

Não se trata de obrigar ninguém a nada, mas de dar liberdade para que façam escolhas de acordo com a própria personalidade. “Ser pai é aprender a lidar com a alteridade. Freud fala que um filho desperta o narcisismo dos pais, e eles entendem a criança como um prolongamento de si. Ter filho é entender que, apesar de vir de você, ele não é você. É preciso aprender a lidar com essa alteridade e respeitá-la”, afirma Zanello.

Brincando de cuidar

No quarto de Dan Suaid, 1 ano e meio, há carrinhos, livros, instrumentos musicais e boneca. Sim, uma boneca, que a mãe do garoto, a advogada Jackeline Santos, 35 anos, decidiu incluir nas brincadeiras do filho. Para ela, não existe essa de brinquedos masculinos e femininos. Afinal, mulheres dirigem carros, homens também cozinham e cuidam dos filhos.

Brincar é uma das atividades preferidas das crianças. Nelas, elas podem ser médicos, policiais, músicos, donos de casa, cozinheiros, entre inúmeras possibilidades. Assim, seja para imitar a realidade, seja como uma forma de se preparar para o futuro, as brincadeiras fazem parte do dia a dia dos pequenos.

Diante disso, Jackeline afirma que tenta incluir várias atividades nas brincadeiras do filho. A advogada conta que a ideia inicial era criar Dan com poucos brinquedos, para motivar a criatividade do garoto. Porém, ele acaba ganhando muitos presentes e, por ser menino, a maioria deles são carrinhos.

Para contrabalancear, Jackeline passou a comprar outros tipos de brinquedos. “Entre eles, uma bicicleta, porque acho importante incentivar o esporte, e uma boneca, que tem estetoscópio, seringa, essas coisas que a gente faz com ele e ele imita com a boneca”, diz.

A advogada comenta que a atitude dela ainda causa muita estranheza para algumas pessoas. Os olhares tortos sempre surgem quando o pequeno decide sair com a boneca. “A sexta-feira é o dia do brinquedo na escola e tem dia que ele escolhe levá-la. O pessoal comenta, e eu respondo apenas que ele vai ser um bom pai”, afirma.

Apesar de não ser muito comum, Jackeline não abre mão da posição. Apoiada pelo marido, ela destaca que o respeito e a igualdade devem partir do berço. “Eu acredito que, para termos uma igualdade de gênero, precisamos começar na infância. Tudo acontece na educação básica”, frisa.

Além dos brinquedos, o pequeno faz balé e tem, dentro de casa, o exemplo do pai. De acordo com Jackeline, na residência da família, todas as tarefas são divididas entre ela e o marido.

Igualdade que vem do berço

Os irmãos Miguel e Sophia brincam com os mesmos brinquedos: igualdade(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Os irmãos Miguel e Sophia brincam com os mesmos brinquedos: igualdade (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
 

 

Desde pequenos, Sophia, 4, e Miguel, 1, aprendem a dividir tudo igualmente. Os dois compartilham o amor dos pais, o espaço da casa e também os brinquedos, sejam carrinhos, sejam bonecas.

Frente a frente, eles brincam de igual para igual, longe de preconceito e de qualquer estereótipo de gênero. “A gente nunca falou que esse brinquedo aqui é masculino e esse aqui, feminino. São brinquedos e pronto. Eles brincam à vontade juntos. Ele sempre foi companheiro dela”, conta a fisioterapeuta Sandra Tavares, 34, mãe das crianças.

Assim, Sophia brinca com os carrinhos e Miguel, com as bonecas — o que muitas vezes causa estranheza nas pessoas ao redor — o que nunca intimidou Sandra. “Eu acho que ainda existe um tabu. Meus próprios pais e os mais velhos comentam que ele está brincando de boneca, mas acredito que, aos poucos, isso está sendo desconstruído”, ressalta.

A mãe dos garotos frisa que, apesar de alguns comentários, ela e o marido permanecem com a mesma postura. Sandra destaca que respeita a opinião dos outros; porém, em casa, eles educam os filhos da forma como acham correto. E as brincadeiras fazem parte desse processo. Para a fisioterapeuta, as crianças aprendem muito sobre a vida brincando. “Eu prefiro dar uma boneca, para ele ser um bom pai, do que dar uma arma de brinquedo, por exemplo”, comenta.

Sandra ainda afirma que não tem problemas com a escola, pois a instituição que ela escolheu já tem uma linha de ensino parecida com o que ela acredita. Sobre a igualdade entre homens e mulheres, a fisioterapeuta garante que está esperançosa. Para ela, a sociedade já tem dado alguns passos rumo ao fim da desigualdade de gênero. “Hoje em dia, os pais ajudam bem mais as mães em casa. Então, a criança acaba vendo isso e reproduzindo”.

Ela pode tudo

 

 

Yara Flor, 10 anos, recorda-se bem de quando fazia judô. Ela era a única menina na turma e havia um menino que se incomodava com isso. “Quando ele perdia de mim, ficava muito bravo. Quando perdia dos outros, achava normal”, conta. Essa foi só uma das vezes em que Yara e sua família, a mãe Elis Gonçalves, 42, e o pai Oséias Gonçalves, 54, ambos servidores públicos, se depararam com crianças que tiveram uma criação completamente diferente da dela.

Em um aniversário dela com o tema sereia, as meninas ganharam caudas e os meninos, máscaras de peixe. As caudas não eram lá tão confortáveis, portanto, as meninas desistiram de brincar com ela. Alguns meninos, ao verem as caudas de lado, foram experimentar. Quase todos eles foram repreendidos pelos pais. Em outra ocasião, Yara convidou um amigo de quem gostava muito para ir à casa dela. Muitos colegas tinham costume de ir lá brincar, mas os pais desse menino não deixaram porque era casa de menina. “Talvez, para eles, seja ainda pior. Acho que eles recebem ainda mais ‘não’”, opina Oséias.

Antes mesmo de a filha do casal nascer, Elis e Oséias já entraram no consenso de que não dariam a ela nada que estimulasse a adultização: maquiagem, salto. Não furaram a orelha da bebê, o quarto tinha cores neutras. “Nós queríamos que ela crescesse e pudesse fazer as próprias escolhas, sem pressão”, explica Elis.

Oséias ainda se incomodava com outra coisa: reparava que as roupas para meninas eram cheias de detalhes incômodos. “Eu percebia que, nas festas, os meninos iam preparados para brincar: de tênis, short, camiseta, e as meninas iam como princesas, de vestido com renda e tule, que pinica”, lamenta. Ele não queria isso para a filha dele. Aliás, “princesa” não é um elogio usado na casa da família. “Os elogios são sempre reforçando a força dela: você é corajosa, você é forte, inteligente”, relata Elis. Mas admite e brinca: “Também a chamo de linda, porque eu sou mãe e não sou de ferro”.

Influências externas

Mesmo evitando os estereótipos de menina, as influências de fora aparecem. É quando os pais mostram que o importante para eles é que a filha tenha liberdade para escolher. Elis conta que Yara costumava ir à casa de amigas e brincava de se maquiar. Começou, então, a pedir um kit para ela. Os pais deram, mas explicaram que aquilo se tratava de um brinquedo apenas e não algo para deixá-la mais bonita, que ela deveria passar sempre antes de ir a uma festa ou sair de casa.

Os filmes de princesa também jamais foram vetados. Toda criança assiste, toda criança conhece e não seria diferente com Yara. Mas sempre houve diálogos. “Depois conversávamos sobre o que ela achava de um estranho beijar a princesa enquanto ela dormia”, exemplifica Elis. Com mais ou menos uns 5 anos, ela pediu um vestido da Cinderela para os pais e uma amiga trouxe da Disney. Assim que vestiu e sentiu que era desconfortável, desistiu. “O importante para a criança tem que ser estar confortável”, afirma Oséias. No fim, ela gostava mesmo era de ser super-heroína.

Há quem ache que Elis e Oséias vetam os brinquedos da filha e desafie o casal: “Vou dar uma Barbie. Quero ver se ela não vai gostar”. Eles não se incomodam com a provocação nem com os presentes. Eles mesmo deram para Yara uma casinha, dessas que ficam em árvore, e ela veio nas cores rosa e branca. A filha pediu para trocar o rosa por azul-turquesa. É uma das duas cores preferidas dela, além de roxo.

O casal atravessa a cidade diariamente para deixar Yara em uma escola com os mesmos valores deles. Para eles, tudo isso tem a ver com criar o filho com apego, carinho e também deixar a criança se desenvolver. A filha é uma feminista em construção.

As princesas modernas

Coragem, liberdade, vontade de conhecer o mundo são algumas das características delas. As princesas das Disney conquistam não só as crianças, mas também os adultos. Com novas histórias que incluem lutas e superpoderes, algumas personagens vieram mostrar que elas podem ser princesas e guerreiras, independentemente de ter um príncipe ou não.

Elas quebraram o paradigma da princesa que precisa ser salva por um príncipe, que é beijada por um estranho, que se casa com aquele que prendeu o pai dela e depois a manteve refém. “As mídias são a principal forma de tecnologia de gênero: elas interpelam performances diferenciadas para meninos e meninas e punem performances que não sejam prescritas para cada sexo”, afirma Valeska Zanello, psicóloga e professora do Departamento de Psicologia Clínica da Universidade de Brasília.

Além disso, vendem a ideia do príncipe encantado. No livro Saúde mental, gênero e dispositivos, Zanello observa que um dos maiores fatores de desempoderamento da mulher é o dispositivo amoroso. “Na nossa cultura, os homens aprendem a amar muitas coisas. As mulheres são ensinadas a amar os homens. Em 20 anos de clínica, nunca conheci uma mulher cujo principal sofrimento não fosse por questões amorosas”, lamenta.

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