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Correio Braziliense ESPECIAL

Amor além do peito: a maternidade e o câncer de mama

No mês em que todas as atenções se voltam para a prevenção do câncer de mama, conheça a história de duas mulheres que não só venceram a doença como realizaram o sonho da maternidade


postado em 14/10/2018 08:00 / atualizado em 14/10/2018 17:57

(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
 
Há 10 anos, assistimos ao Brasil se colorir de rosa para promover a conscientização sobre a importância do diagnóstico precoce e tratamento adequado do câncer de mama, promovendo, assim, maior acesso à assistência médica e reduzindo índices de mortalidade. Um tema tão delicado torna-se drama na vida de milhares de mulheres. Felizmente, hoje, em muitos casos, a história tem um final feliz. A descoberta da doença no início tem potencial de cura de 90%, e torna pessoas como Leila Cristina Republicano e Raquel Cordeiro inspirações para quem não quer desistir de sonhos, inclusive o de ser mãe.
 
A Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama) foi a responsável por trazer o Outubro Rosa para o Brasil. “Ter acesso a dados referentes ao câncer de mama, sabendo de seus direitos e possibilidades, também é parte do combate à doença. Com pacientes amparadas, ampliamos sua visão política e social sobre a doença — assim, cada indivíduo torna-se um potencial agente transformador da realidade brasileira de assistência oncológica”, reforça Maira Caleffi, presidente voluntária da Femama.
 
O câncer de mama é o mais comum entre as mulheres no Brasil e no mundo, respondendo por cerca de 28% dos casos novos a cada ano. De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), estimam-se 59.700 casos novos no país para cada ano do biênio 2018-2019, com um risco estimado de 56,33 casos a cada 100 mil mulheres.
 
 

A anunciação

“O Gabriel se chama assim porque é o anjo que veio anunciar a minha doença a tempo de eu conseguir me curar”, orgulha-se Leila Cristina Republicano, 46 anos. A economista descobriu o câncer de mama no terceiro mês de gravidez do segundo filho, aos 28 anos. “Foi um choque. Nós tivemos de correr contra o tempo”, conta. Grávida e com uma filha de 2 anos e meio, descobrir um câncer altamente agressivo e que estaria sendo potencializado pela gravidez foi uma surpresa.
 
Os cuidados precisaram ser dobrados para proteger tanto Leila quanto o bebê. Três semanas depois da descoberta, ela fez uma mastectomia completa da mama, uma vez que não poderia se submeter à radioterapia. A retirada da mama foi uma medida para que o câncer não se tornasse metastático — quando as células cancerígenas alcançam outros órgãos por meio da corrente sanguínea.
 
A preocupação é ainda maior durante a gestação porque o estrogênio, hormônio liberado em grande quantidade na gravidez, tem relação direta com o câncer de mama, explica Ana Carolina Salles, oncologista clínica e especialista em câncer de mama. Esse é um dos fatores base para o tratamento por meio da hormonioterapia, que funciona inibindo a produção ou a ação do hormônio na região afetada.
 
Essa forma de terapia sistêmica, porém, funciona apenas para os subtipos de câncer que expressam receptores hormonais positivos. Ela atua tanto no tratamento da doença localizada quanto em casos de quadro metastático. Medicamentos como o Tamoxifeno e o Teremifeno são administrados de forma oral e impedem que o estrogênio atue nas células do câncer de mama. “Inibir a produção do hormônio é importante para não alimentar possíveis células cancerígenas”, explica Ana Carolina.
 

O tratamento

No caso de Leila, a quimioterapia foi o tratamento necessário, processo mais drástico que só pôde ser colocado em prática depois que o bebê chegou ao mundo. “Nós seguramos o máximo possível o nascimento do Gabriel, que nasceu com seis semanas a menos que o período normal. Apesar de ter vivido todas as emoções e vindo ao mundo de forma prematura, o meu lindo menino chegou forte e saudável”, conta Leila. Logo depois, a bancária deu início aos seis meses de quimioterapia.
 
Além da medicação quimioterápica, a paciente tomou inibidores de lactose. Leila não pôde amamentar para proteger a saúde de Gabriel. Isso acontece porque, na maioria dos casos do câncer de mama, substâncias presentes no tratamento são transmitidas pelo leite materno. As alternativas para quem está em período lactante são procurar o banco de leite ou os leites de fórmula.
 
“O que tem de ser feito é discutir com o pediatra a melhor estratégia para o bebê. Adiar o tratamento da mãe em função da amamentação não é seguro nem recomendado, porque piora o prognóstico da mulher”, garante a oncologista. Para Leila, não poder amamentar foi um dos momentos mais difíceis do tratamento. “Mas essa falta foi suprida por muito amor, carinho e atenção”, conta.
 
Durante o tratamento, a economista sentiu os efeitos da quimioterapia – exaustão, ressecamento dos olhos e da boca e enjoos. “Para mim, as questões da vaidade feminina foram colocadas em segundo plano. O importante era ficar completamente saudável de novo.” No entanto, muitas mulheres sofrem muito com as implicações, especialmente a queda dos cabelos.
 

A autoestima

Além do uso de lenços e perucas, um método tem ajudado na questão da perda de cabelo: a crioterapia. Com auxílio de uma touca, a temperatura do  couro cabeludo é reduzida para -4ºC, reduzindo, assim, o alcance da quimioterapia nos fios e, consequentemente, a queda. “Não é 100% garantido que dará certo, porque depende de fatores como o tipo de medicação e de cabelo da paciente. Mas é uma estratégia que tem surtido resultados positivos”, explica Ana Carolina Sales.
 
“Esse é um período que afeta muito a autoestima e a confiança das mulheres. O apoio da família é essencial para o tratamento da paciente”, relata a especialista. Além dos amigos e da família, recomenda-se que, após o diagnóstico, a mulher procure um psico-oncologista. O psicólogo especialista auxiliará a paciente a lidar com as mudanças e os efeitos da doença de forma mais equilibrada. “O trabalho de tratamento é multiprofissional. A protagonista é a paciente, mas ela precisa muito de suporte”, pondera a oncologista.
 
A força para resistir aos efeitos do tratamento vinha da fé e do apoio da família e dos amigos de Leila.“As pessoas falam muito mal da quimioterapia, mas eu tinha plena consciência de que aquele era o medicamento que estava me curando”, relata. “O câncer é capaz de fazer você ressignificar muito a sua vida, e eu entendi que existem coisas muito maiores que a aparência física. A luta pela vida era maior que tudo isso”, diz.
 

A cura

A boa notícia veio depois de seis meses de tratamento. O câncer havia ido embora e Leila sentiu que ganhou de presente uma nova vida. “Comecei a pensar em novos projetos, em novos propósitos, sempre com o intuito de ser uma pessoa melhor, de me cuidar mais e de cuidar dos outros” alegra-se.
 
Para a economista, como a experiência será tratada é uma questão de escolha. “Eu vejo que o objetivo é o aprendizado. O que aconteceu deixa uma história a ser contada que te permite evoluir como pessoa. Espero que as pessoas que passam por isso consigam evoluir, sair dessa experiência muito melhor do que começaram e que deem mais valor às pequenas coisas da vida. A simplicidade é o que traz felicidade”, ensina.
 
Durante os cinco anos seguintes à cura, o acompanhamento tem que ser ainda mais de perto. De seis em seis meses, Leila voltou ao consultório médico para garantir que estava tudo bem com os exames. Passados 17 anos, o cuidado persiste. “Assim como qualquer mulher deve fazer, eu continuo realizando a mamografia anualmente, assim como faço o checape médico.”

Emoção em dobro

“Eu fiquei desnorteada, foi muito forte.” É assim que Raquel Cordeiro, 43 anos, descreve o turbilhão de sentimentos que tomou conta dela no momento em que descobriu um câncer de mama, em agosto de 2010. Como três tias maternas haviam tido o mesmo diagnóstico, Raquel sempre esteve alerta e se consultava regularmente. Até que resolveu fazer a primeira mamografia, aos 35 anos.
 
Apesar do já conhecido histórico familiar, a servidora pública não estava preparada para receber a notícia que a aguardava. O exame indicou microcalcificações agrupadas, um indicativo de câncer, e a médica a orientou a fazer biópsia e cirurgia.
 
Raquel afirma que sentiu um medo paralisante. “Medo do desconhecido, da morte, de ficar careca.” Ela reconhece que, no ínicio, recuou um pouco, mas percebeu que não tinha tempo para isso. “Tem que olhar, respirar e lutar de cabeça erguida.”
 
O câncer de mama de Raquel era do tipo in situ, estava dentro de um ducto mamário — categoria considerada não invasiva ou pré-invasiva. No mesmo mês, ela se submeteu à cirurgia, retirou um quadrante da mama e fez a reconstrução.
 
A quimioterapia não foi necessária — a servidora fez 28 sessões de radioterapia. “A gente conhece casos, mas, quando é com você, é diferente. No começo, neguei muito, eu tinha 35 anos, queria ser mãe. A minha vida teria que dar uma parada muito séria para eu cuidar de mim”, relata.
 

A reprodução assistida

Felizmente, o tratamento não foi um empecilho para Raquel realizar o sonho da maternidade. Ela optou por fazer o congelamento de óvulos durante o tratamento. Tudo aconteceu rapidamente. A servidora procurou uma clínica de reprodução assistida em uma segunda-feira e na sexta deu início ao tratamento hormonal.
 
O processo para congelar os óvulos também não foi uma etapa fácil. Raquel admite que sabia muito pouco a respeito. “Passei por todos os procedimentos sempre pensando que estava fazendo um seguro para salvaguardar a maternidade no meu futuro.”
 
A presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, Hitomi Nakagawa, ressalta que quanto mais jovem a mulher é no momento da descoberta da doença, maior a chance de conseguir engravidar de forma natural depois do tratamento. Porém, a busca pelo congelamento de óvulos é cada dia maior.
 
“As mulheres, não apenas as que estão com câncer, têm optado por planejar esse momento”, afirma. Dados do Sistema Nacional de Produção de Embriões (SisEmbrio/2017) mostram que 78.216 embriões foram congelados no Brasil — um aumento de 17% em relação ao ano de 2016, quando foram registrados 66.597 procedimentos.
 
A escolha pela vitrificação dos óvulos, sem dúvida, traz segurança para mulheres em geral, mas, para aquelas que estão combatendo um câncer, a ginecologista especializada na área de reprodução assistida destaca uma outra vantagem.
 
“Existem estudos da psicologia que mostram que, quando as pacientes têm essa perspectiva de engravidar, o prognóstico é melhor. O psicológico e o imunológico estão relacionados.” Hitomi comemora os avanços recentes, como o fato de alguns planos de saúde de tribunais já entenderem o congelamento como parte do tratamento oncológico.
 
Passado o procedimento cirúrgico e a radioterapia, Raquel ainda precisaria tomar o remédio Tamoxifeno por mais cinco anos. Só depois disso poderia colocar o plano de ser mãe em prática. Em 2014, ela se casou. Dois anos mais tarde, realizou a primeira fertilização in vitro. A primeira tentativa não vingou. O momento em que o exame de sangue não indicou gravidez foi de muita tristeza. A expectativa era alta. “Mas não tenho vocação para ser infeliz. Voltei a tocar meus planos e estudar para o mestrado.”
 

A maternidade

Alguns meses mais tarde, tentou de novo e implantou outros três embriões. O novo exame de sangue a surpreendeu, o hormônio Beta HCG estava altíssimo. Era hora de realizar o sonho. No ultrassom, a mãe de primeira viagem emocionou-se ao ouvir dois corações batendo. “Eu queria ser mãe de uma criança. Nem nas minhas preces mais generosas eu pedia gêmeas”, diz.
 
Ana Rayssa/Esp. CB/D.A. Press.
Ana Rayssa/Esp. CB/D.A. Press.
A gravidez gemelar aos 41 anos foi um misto de felicidade, expectativa e receio. Preferiu esperar até o quarto mês para contar à família. “Consegui ser mãe da Carolina e da Mariana, que hoje têm 1 ano e meio. São dois milagres de Deus na minha vida. Agradeço todos os dias.”
 
Para Raquel, a lição mais importante em meio ao turbilhão foi a importância da fé e de olhar para a frente. “Não podemos deixar a doença ficar maior do que ela é. Temos que tentar nos manter positivas, acreditar no tratamento e na cura.” Usar exemplos positivos como espelho também lhe deu muita força ao longo da luta contra o câncer.
 

O futuro

Hoje, ela reconhece o papel fundamental do diagnóstico antecipado no seu tratamento. “Quando chega o Outubro Rosa, eu sempre agradeço pela bênção da detecção precoce. Se eu tivesse feito a mamografia aos 40 anos, certamente teria um protocolo muito mais radical”, observa.
 
Entretanto, destaca que o mês de conscientização é apenas mais um alerta e um instrumento para disseminação de informação. A prevenção deve ser feita o ano inteiro. Ela entendeu que o câncer é uma doença que mata, mas que pode ser combatida.
 
Já se passaram mais de cinco anos desde o diagnóstico e Raquel não tem sinais de recidiva da doença. Desde então, a ressonância e a mamografia se tornaram um ritual anual, além dos controles constantes com a médica que a acompanha. Pensando no futuro das filhas, ela afirma que a prevenção vai começar cedo e que o assunto sempre será abordado entre elas. “Quero que elas saibam que tem cura, a gente tem só que se cuidar.”
 

Avanço no diagnóstico

As inovações constantes da medicina têm possibilitado uma maior qualidade de vida. Uma novidade no quesito diagnóstico são os testes genéticos, feitos a partir de uma amostra de DNA, que pode ser coletada do sangue ou da saliva. A ferramenta se popularizou depois que a atriz Angelina Jolie retirou as duas mamas de maneira preventiva, em 2013. Por meio de um teste genético, ela descobriu ter 87% de chances de ter câncer de mama.
 
O biomédico Raphael Parmigiani destaca que uma parcela importante dos tumores, de 10% a 15%, tem um componente hereditário e que o estudo genético é a melhor forma de se preparar. Contudo, esclarece que nem todas as mulheres optam pelo caminho radical da atriz hollywoodiana. “Como não necessariamente aquele gene vai se manifestar, algumas preferem realizar exames preventivos com maior frequência”, conta.
 
Inicialmente conhecia-se apenas dois genes relacionados ao câncer de mama e de ovários: BRACA 1 e BRACA 2. Hoje, é possível estudar outros 28 genes. Além do espectro maior de estudo, o preço caiu ao longo dos últimos anos. “Quando o Brasil começou a oferecer o serviço, o exame custava R$ 15 mil. Agora, custa R$ 1,5 mil”, destaca o especialista e sócio-fundador do laboratório Indigene.
 
Além do valor ter diminuído consideravelmente, uma portaria da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), publicada este ano, obriga os planos de saúde a cobrirem o exame para pacientes que atendem critérios de elegibilidade específicos: idade jovem (abaixo de 45-50 anos), com mais de dois parentes que tiveram câncer, entre outros.
 

Inovação no tratamento

Os avanços das pesquisas nos últimos anos promovem a personalização de tratamentos e respeitam a individualidade de cada caso, como explica Fernando Maluf, oncologista chefe do Centro de Oncologia Santa Lúcia e fundador do Instituto Vencer o Câncer. “Agora, nós temos uma gama muito maior de tratamentos e conseguimos, com cirurgias minimamente invasivas, as mesmas taxas de cura em casos selecionados, com muito menos mutilação, além da preservação dos gânglios da axila”, garante.
 
No caso do câncer de mama, a análise do perfil imunohistoquímico molecular do tumor e também das proteínas confere a melhor escolha do tratamento, as melhores drogas e se realmente há a necessidade do tratamento quimioterápico.
 
Outro avanço importante é a opção de radioterapias intraoperatórias, para casos específicos, nas quais, em uma única sessão, a dose de radioterapia trata a mama, evitando que a paciente tenha que fazer o tratamento de cinco semanas.
 
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

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