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Correio Braziliense

Ervas e plantas retomam espaço na medicina, na estética e na cosmética

O uso de plantas e ervas para preparar cosméticos, produtos de higiene e até medicamentos tem ganhado cada vez mais adeptos. Saiba como aderir aos produtos de forma segura


postado em 21/10/2018 10:49 / atualizado em 24/10/2018 14:41

Colheita da camomila (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Colheita da camomila (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Nos tempos antigos, a humanidade descobriu que o poder das plantas ia além da alimentação. Propriedades curativas, higienizadoras e cosméticas fascinaram os sábios e, assim, surgiram curandeiros, herbolários e até mesmo “bruxas”, como eram julgadas as mulheres que trabalhavam com as peculiaridades da natureza, realizando feitos considerados mágicos.

Durante milhares de anos, folhas, raízes, extratos, óleos e seivas eram explorados, trabalhados, aplicados como emplastros e consumidos como chás e remédios. As plantas se tornaram as principais fontes para os produtos de cuidados pessoais e de saúde.

A industrialização trouxe uma infinidade de avanços aos setores farmacêutico e cosmético. Mas, se os produtos se tornaram mais seguros, também se apresentam com mais substâncias sintéticas. Conforme a tecnologia avança, porém, empresas e consumidores, cada vez mais preocupados com o que ingerem e consomem, voltam a apostar no poder dos ativos naturais.

Foi essa preocupação que aproximou a nutricionista Fernanda Vargas da cosmetologia natural. “Queria reduzir ao máximo a exposição a contaminantes e aditivos químicos presentes em cosméticos”, justifica.

Os hidratantes e sabonetes corporais usados hoje por ela são exclusivamente naturais, mas Fernanda ainda encontra dificuldade em substituir alguns produtos que, muitas vezes, não oferecem os mesmos efeitos dos industrializados ou são pouco acessíveis, como as pastas de dente, que costumam ser bem mais caras que as tradicionais.

Os hidratantes e sabonetes usados por Fernanda Vargas são exclusivamente naturais (foto: Arquivo pessoal )
Os hidratantes e sabonetes usados por Fernanda Vargas são exclusivamente naturais (foto: Arquivo pessoal )

No caso dos desodorantes, apesar de fáceis de encontrar, Fernanda não sente que têm o mesmo poder antitranspirante. “Gosto de intercalar desodorante natural com tradicional, sempre observando os níveis de alumínio presentes nos industrializados”, explica.

A nutricionista também evita ao máximo o uso de medicamentos alopáticos. Quando começa a ficar doente, já aposta nos chás. O consumo de gengibre, própolis e cúrcuma — orgânicos, de preferência — já faz parte dos seus cuidados com a saúde.

Fernanda comemora o crescimento da demanda por esse tipo de produto. “Além de reduzir a exposição a substâncias potencialmente tóxicas para nosso organismo, diminuímos o impacto no meio ambiente”, afirma. Ela acredita que quanto maior a procura, maior será a oferta, o que vai permitir que os produtos se tornem mais acessíveis para a população de uma forma geral.

Mudança na pele

Laís Guedes, 25 anos, justifica que prefere produtos naturais por uma questão de cuidado consigo mesma. “Eu comecei a perceber que tudo que eu utilizava na pele faria parte do meu corpo. Com esses produtos, sinto segurança de que estou tendo contato com materiais muito menos agressivos e que meu organismo recebe o que deve receber. Nada além disso.”

Há quatro anos, a educadora só utiliza desodorantes, filtro solar e batons feitos com base em ervas e plantas, e notou a diferença. “Eu sinto que a minha pele respira mais, tem mais saúde. Tenho a sensação de estar completamente limpa e fresca.”

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Laís aprecia a individualidade que os produtos naturais têm. “Eu comecei a identificar que aquele era o meu cheiro, e não de um produto químico”, conta. Para ela, a preferência por produtos não industrializados é uma questão de “saúde pública, bem-estar e autoconhecimento”.

 

Cuidado e eficácia

Para Grazielle de Castro Carneiro, farmacêutica da Farmacotécnica, na evolução da cosmética, o que a indústria busca fazer é criar produtos capazes de realçar, manter e preservar a pele — ou prevenir e até mesmo reverter danos — a partir de insumos oferecidos pela natureza. “Temos buscado usar cada vez menos substâncias fabricadas.”

No entanto, em tempos de internet, nos quais receitas caseiras se multiplicam, Grazielle alerta que usar plantas ou princípios ativos no organismo sem a devida orientação tem seus riscos. Reações alérgicas, dosagens equivocadas, vencimento dos ativos e armazenação incorreta são alguns dos problemas que podem surgir a partir da manipulação incorreta. Por isso, é importante se informar corretamente e buscar orientação profissional.

“O uso indiscriminado dessas plantas pode, muitas vezes, agravar outros problemas de saúde. Isso porque todo medicamento oferece alguma reação adversa. Por outro lado, plantas usadas como condimentos ou alimentos há séculos podem ser consumidos no dia a dia para oferecer pitadas de saúde”, pondera.

Poderes comprovados

Apesar dos cuidados necessários, algumas plantas podem ser usadas livremente pela população, pois não oferecem efeitos colaterais ou contraindicações elevadas. Em termos cosméticos, por exemplo, é ressaltado o uso do pepino gelado na região dos olhos. Ele é vasoconstritor e tem ação clareadora da pele, ajudando a diminuir as olheiras e a aparência de cansaço.

O óleo de coco e a babosa também podem ser aplicados na pele e no cabelo com o intuito de restauração e hidratação. Já para pequenos desconfortos de saúde, os profissionais indicam a camomila, o guaco e a espinheira-santa sem maiores problemas.

Pérola Magalhães, professora doutora e uma das coordenadoras do Laboratório de Produtos Naturais da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB), acrescenta também os produtos para os cabelos feitos à base de camomila. “Há cerca de 30, 40 anos, o xampu de camomila (Matricaria chamomilla) era muito utilizado, devido à alegada propriedade de clarear os cabelos.”

A professora e suas colegas coordenadoras, Dâmaris Silveira e Yris Fonseca Bazzo, afirmam que a utilização de ativos derivados de plantas — em especial as nativas — em produtos de cosmética e higiene agrega um grande valor ao produto.

Elas explicam que os ativos à base de extratos vegetais contêm uma diversidade de compostos químicos com propriedades que vão desde atividade antioxidante, auxiliando na prevenção do envelhecimento devido à ação de radicais livres, passando por propriedades de clareamento da pele, nutrição, etc.

“Quando as plantas são obtidas de forma sustentável, esse valor agregado auxilia na preservação da biodiversidade. Hoje, com empresas investindo em espécies nativas, a diversidade de produtos de alta qualidade no mercado é muito grande”, acrescenta Pérola.

 

Reconectando-se com o corpo

A bióloga e terapeuta integrativa/holística Christielle Rezende, 34 anos, busca levar a vida da forma mais natural possível. A procura por uma rotina mais distante do industrializado a impeliu a se formar em cosmetologia vegana e floral e em fazer diversos cursos que a permitissem produzir os próprios cosméticos, itens de higiene e medicamentos.

A preocupação por cada elemento que ingeria e colocava no corpo se tornou prioridade. “Foi uma busca de autoconhecimento e amor por mim mesma, no sentido de prestar atenção às coisas que eu coloco no meu organismo”, conta.

Entre os cosméticos naturais que produz e usa, ela destaca o desodorante — feito de manteiga e óleo vegetais, óleo essencial e bicarbonato —, o protetor solar oleoso e o batom, à base de manteiga de cacau e tintura natural de hibisco.

"Foi uma busca de autoconhecimento e amor por mim mesma, no sentido de prestar atenção às coisas que eu coloco no meu organismo" Christielle Rezende, bióloga e terapeuta integrativa/holística (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)

Apesar de preferir cosméticos naturais, ela admite sentir falta da maquiagem. “Parei de usar no dia a dia, mas, quando vou sair, acabo aplicando rímel e lápis normais, por exemplo. Ainda não encontrei alternativas naturais que me atendam”, lamenta.

Conforme fazia os produtos naturais para consumo próprio, Christielle percebeu o interesse de pessoas à sua volta, que pediam dicas e queriam aderir ao uso dos naturais. A partir disso, surgiu a ideia de produzir em uma escala um pouco maior.

Christielle se formou em fitoterapia chinesa e brasileira e afirma que todo tipo de enfermidade pode ser tratada naturalmente. Entre os chás e infusões que produz, os mais procurados são para doenças de pele — dermatite, psoríase —, queda de cabelo e problemas ginecológicos — cólica, TPM, candidíase e fluxo alterado.

A confiança no poder das plantas veio depois de uma experiência particular. Um problema de saúde a despertou para os benefícios de usar produtos naturais. Há três anos sem menstruar, buscava explicações e soluções na medicina tradicional. Ao perceber uma alteração nos hormônios — o nível de testosterona aumentou — se preocupou ainda mais.

Após meses de investigação, os médicos não conseguiam descobrir o que acontecia e ofereceram a ela um tratamento com medicação-teste. “Eu me senti uma cobaia, não queria que fosse na base de tentativa e erro. Comecei a pesquisar produtos naturais e, em oito meses fazendo o tratamento, voltei a menstruar naturalmente. Já fiz os exames e está tudo normal”, relata.

Utilizando chá de artemísia, comendo melão pela manhã — que ajuda a limpar o útero — e sálvia à noite, ela conta que o corpo parece ter despertado naturalmente. A partir daí, adotou a filosofia para a vida.

Christielle tem mais de 60 tipos de ervas em casa e trata todos os tipos de enfermidades naturalmente há um ano e meio. “Eu vi melhora em tudo: cabelo, pele. Você desenvolve um senso de autorresponsabilidade e passa a ter mais contato consigo mesma, porque você é responsável pelo que está usando no próprio corpo”, explica.

O poder das plantas

Entre as principais vantagens do que é produzido pela natureza, está a presença dos fitocomplexos, que tornam os produtos naturais mais eficazes que os sintéticos. Trata-se de um conjunto de substâncias, no qual pequenas doses de cada ativo presente potencializam o efeito do outro. Ou seja, cada substância funciona fortalecendo e intensificando o poder da outra.

“É praticamente impossível reproduzir em laboratório esses fitocomplexos. Isso traz para as plantas um diferencial gigantesco de atuação”, garante a farmacêutica Edna Almeida Branquinho, da Farmacotécnica.

Maria Behrens, chefe do Laboratório de Produtos Naturais do Instituto de Tecnologia em Fármacos Farmanguinhos, explica que o uso de insumos naturais em medicamentos e cosméticos é um reflexo da exploração sustentável da biodiversidade, quesito em que o país é extremamente rico.

Além dos impactos ambientais positivos, Maria ressalta que, com o maior aproveitamento das riquezas naturais brasileiras, ocorre uma diminuição na importação de insumos ativos, sendo uma vantagem também em termos econômicos.

Validação médica

O médico Marcos Freire, acupunturista, terapeuta corporal e especialista em medicina chinesa, explica que casos como os de Christielle são bastante comuns. Ele afirma que, muitas vezes, as mudanças na dieta e a ingestão de produtos naturais e saudáveis pode mudar completamente o funcionamento do organismo. Marcos acrescenta ainda que a artemísia é famosa nos cuidados com o útero e com todo o sistema reprodutor feminino.

O médico, adepto dos tratamentos naturais, explica que, além da praticidade e facilidade de encontrar as plantas usadas como medicamentos, existe toda a tradição milenar por trás daquele cuidado. “O aquecimento das mãos, a história e a cultura que carregamos dos nossos antepassados.”

Para ele, o cuidado de colher uma planta e preparar um chá para diminuir uma dor de cabeça é valioso demais para ser substituído por um comprimido. “Não digo que devemos tirar os medicamentos, eles têm muita importância no tratamento das doenças, mas podemos evitar quando não é necessário e combinar com os cuidados naturais”, explica.

 

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

 

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