Publicidade

Correio Braziliense

Objetos compartilhados por gerações se tornam relíquias familiares

Conheça a história de pessoas que guardam %u2014 e usam %u2014 objetos herdados de pais, avós e até bisavós. Tudo com muito afeto envolvido


postado em 11/11/2018 08:00 / atualizado em 10/11/2018 12:42

Os objetos, sejam eles peças de roupa ou de decoração, sejam itens de uso diário, como joias, óculos e relógios, são, para muita gente, formas de manter vivo o passado.

Filhos usam ternos que pertenceram aos pais, filhas costumam herdar joias de avós e mães, irmãos compartilham objetos que relembram a infância. Com a moda cíclica, muitos millennials resgatam antigas jaquetas e jeans usados pelos pais nos anos 1990, alguns se aventuram com peças dos anos 1980 e existem mesmo aqueles que apostam nas tendências de 50 anos atrás.

Além do estilo vintage em alta, têm o sentimento de compartilhar aquela vivência com quem amam, como se revivessem memórias. Objetos com histórias ganham relevância, e muitos jovens que não encontram o acervo em casa recorrem a brechós e bazares buscando itens que, além de charme, tenham também um legado a ser compartilhado.

A Revista resgatou algumas dessas histórias de amor e memória e compartilha nas próximas páginas.

 

Um relógio, quatro gerações

Há cerca de 60 anos, a bisavó da dentista Poanka Faleiro, 22 anos, comprou um relógio de prata. Na época, a mulher não imaginava que mais de seis décadas depois a joia seria usada por uma bisneta com a qual nunca tinha sonhado a existência.

(foto: Marilia Lima/CB/D.A Press)
(foto: Marilia Lima/CB/D.A Press)

Geni Faleiro, avó paterna da moça, herdou o relógio da mãe e o usou durante muitos anos. Quando Geni morreu, cinco anos antes de Poanka nascer, Poank Faleiro de Morais, pai da dentista, guardou a peça pensando no dia em que poderia dá-la de presente aos próprios filhos.

Quando Poanka e a irmã mais velha, Enny Faleiro, 24, eram crianças, o pai se dedicava a contar histórias da família, aproximando as filhas das figuras da bisavó e da avó que elas não chegaram a conhecer. E o patriarca sempre mencionava o relógio, dizendo que, quando as filhas fossem mais velhas, ele daria a joia de presente.

“Ele dizia que ainda éramos muito novas, mas, assim que tivéssemos idade suficiente, poderíamos usar o relógio. Como era bem antigo, ele precisou passar por uma reforma. Meu pai fez questão de deixá-lo perfeito para nós”, lembra Poanka.

Poank, porém, morreu de câncer aos 50 anos, quando a caçula tinha apenas 12. A jovem lembra que a doença é comum na família e, como todos sempre foram muito unidos, as constantes lembranças fazem com que se sintam próximos mesmo de pessoas que não chegaram a conhecer. “Como muitas pessoas na minha família acabam falecendo cedo, temos esse hábito de contar histórias sobre os que não estão mais aqui, é uma forma de mantê-los vivos.”

 

União

Os pais de Poanka se separaram quando as filhas eram ainda crianças, mas a mãe guardou o relógio e chegou a usá-lo. A peça, porém, acabou ficando esquecida por um tempo. Há cinco anos, Poanka e a irmã estavam mexendo em coisas antigas da família e acabaram reencontrando a peça. “No dia em que vimos o relógio, todos esses sentimentos voltaram. Hoje, eu uso com o maior orgulho, não me lembra só do meu pai, mas de toda a minha família”, conta.

Emocionada, Poanka relembra a importância do pai em sua vida. Quanso ele e a mãe se separaram, ela viveu com o pai durante muitos anos. “Éramos muito próximos. Ele me ensinou tudo sobre a vida e, como sempre teve a saúde frágil, me educou para viver independente”, lembra.

Poanka recorda ainda que o pai, mesmo tendo sido militar e vindo do interior de Goiás, sempre teve uma mente revolucionária. “Ele nos criou para ter sempre girl power. Não foi um exemplo de homem e pai, mas de uma pessoa incrível”.

Como a irmã de Poanka é um pouco mais distraída, segundo a dentista, o relógio ficou para a caçula, que prefere usá-lo em ocasiões especiais para não correr o risco de estragar ou perder no dia a dia.

 

 

Duas alianças e o fruto de um amor

Isabella Barbosa usa as alianças de casamento da mãe, Bernadete: sempre perto dos pais (foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)
Isabella Barbosa usa as alianças de casamento da mãe, Bernadete: sempre perto dos pais (foto: Vinicius Cardoso Vieira/Esp. CB/D.A Press)

A estudante Isabella Barbosa Costa, 22 anos, é considerada um tesouro pelos pais. A filha tão esperada e planejada, única do casal, sempre foi para eles o fruto e a representação do amor que os une há 30 anos.

A devoção é tão contagiante que a jovem sempre mantém bem pertinho dois objetos especiais que a lembram diariamente desse sentimento. A estudante usa as antigas alianças de casamento dos pais, uma em cada mão. “Não consigo sair de casa sem elas, são a minha marca. Se não estou usando, parece que falta alguma coisa em mim”, conta.

Quando os pais completaram 25 anos de casados, resolveram trocar as alianças. A servidora pública Bernadete Meyre Saraiva Barbosa Costa, 53 anos, conta que o anel fino começou a machucar os dedos do marido e que eles acharam a ocasião ideal para a troca. Assim que tirou a aliança, o pai de Isabella entregou a antiga joia para a filha. “Foi bem natural. Ele tirou e pareceu óbvio entregar a Isabella. Eu passei a minha também e ela nunca mais deixou de usar.”

O orgulho pelo amor dos pais é palpável quando Isabella conta a história. “São objetos que representam o amor entre eles e o amor por mim. Foi a partir desse sentimento que nasci, então eu amo ter algo que represente isso.”

A estudante nasceu depois de oito anos de união, e Bernadete lembra que a filha foi muito esperada. A relação entre os três é a melhor possível e eles buscam sempre estar juntos. Algumas vezes, a filha viaja sozinha e afirma que as alianças são o que permite que, mesmo longe, ela se sinta próxima dos pais.

A filha única comenta ainda nunca ter experimentado o sentimento de solidão que algumas pessoas que não têm irmãos relatam. “Somos sempre nós três juntos, independentemente de qualquer coisa. São meu porto-seguro. Se estivermos juntos, está sempre tudo bem”, derrete-se Isabella.

 

Troca de colares

Bernadete, assim como a filha, guarda um objeto especial que pertenceu à mãe. Aos 20 anos, a servidora comprou um colar com um pingente de coração e gravou o nome dos pais de um lado e o dela do outro.

Quando mostrou para a mãe, ela se apaixonou e pediu o colar de presente. Bernadete, claro, acatou o desejo da matriarca, que, naquele momento, passou a usar o colar da filha todos os dias por 23 anos.

Quando a mãe morreu, a joia voltou para as mãos de Bernadete. “Não é só um objeto, é algo que guarda toda uma história de amor, assim como as alianças da Isabella. Você carrega em si a marca de alguém que ama.”

 

Sempre unida à mãe

Há 24 anos, a maquiadora Laura Pereira de Magalhães Sanches, 48 anos, usa diariamente um anel que pertenceu à mãe. “Não tiro para nada, está sempre aqui comigo.” Ela escolheu a peça entre as joias da mãe que dividiu com os irmãos quando Núbia Pereira de Magalhães Gomes morreu, aos 54 anos, em um acidente de carro.

O anel tinha sido um presente do pai, e a maquiadora sempre gostou da cor da pedra. Foi uma das formas que escolheu para sentir a mãe sempre por perto.  Laura compartilha ainda um gosto parecido com o da matriarca: tem diversos itens de decoração herdados da antiga casa dos pais. Na hora de eleger o predileto, fica difícil. “Todos são preferidos”, ri.

(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Mas um conjunto de canecas e chaleira esmaltada acaba ganhando um carinho especial. “Eu nem tenho coragem de usar. Ele fica apenas como um enfeite para não estragar ou quebrar.”

Quando Laura voltava tarde para casa, encontrava a cama pronta para se deitar e em cima sempre tinha um bilhete carinhoso da mãe, uma das lembranças que a maquiadora guarda. “Ela era muito carinhosa. Quando fui morar fora para fazer faculdade, não tinha mais os bilhetinhos, mas ela me escrevia muitas cartas, que guardo como meus grandes tesouros.”

Os quadros e pequenos enfeites espalhados pela casa relembram Laura da relação especial que tinha com a mãe e dos ensinamentos e exemplos que a professora universitária deixou. “Ela me guia como uma mulher batalhadora, que adorava estudar e aprender, que, do jeito que podia, estava presente na vida dos filhos. Tinha uma fé invejável e nunca abriu mão de ser o que queria profissionalmente. Isso me inspira muito”, completa.

Um presente para a vida toda

Aos 14 anos, Cláudia Cardoso de Sá, 44, ganhou da avó uma pulseira e um colar que se tornaram um dos conjuntos preferidos da produtora de eventos, que ela só usa em ocasiões especiais.

Adir Vieira de Sá sempre mostrava as peças à neta e dizia que seriam o seu presente assim que ela completasse 15 anos. A avó vivia no Rio de Janeira, e Cláudia, em Brasília, mas sempre passavam as férias juntas, fosse em Brasília ou na capital fluminense.

“Sempre que ia visitá-la ou que ela vinha para cá, ela dizia que ia me dar o conjunto de presente de aniversário. Eu era menina e não ligava tanto, mas hoje é muito significativo”, emociona-se Cláudia.

Quando os 15 anos da produtora de eventos se aproximou, o avô de Cláudia ficou doente e Adir teve medo de não estar presente na festa da neta. “Eu fui passar umas férias lá e ela resolveu me entregar um pouco antes, caso não pudesse estar comigo no meu aniversário”, conta.

Cláudia Cardoso herdou o conjunto de colar e pulseira da avó quando estava prestes a fazer 15 anos(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Cláudia Cardoso herdou o conjunto de colar e pulseira da avó quando estava prestes a fazer 15 anos (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

O avô de Cláudia acabou morrendo antes e a avó esteve com ela no aniversário. A produtora conta que, depois que perdeu a avó, há 13 anos, o conjunto se tornou ainda mais valioso a seus olhos.

Mesmo nunca tendo morado na mesma cidade, a vida de Cláudia é marcada por lembranças dos momentos compartilhados em família, que passava todas as férias reunida. “Ela era muito doce e nunca me negava nada, até para a rua soltar pipa comigo ela ia”, recorda-se.

O conjunto, segundo Cláudia, tem destino certo. “A tendência é que passe para minha única filha, mas confesso que não tinha pensado muito nisso, pois não estou pensando em morrer tão cedo”, brinca.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade