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Correio Braziliense ESPECIAL

Geração M: Quem são os jovens muçulmanos modernos

Jovens muçulmanos buscam novas formas e estilos para de manterem conectados com a espiritualidade no mundo contemporâneo


postado em 25/11/2018 08:00 / atualizado em 23/11/2018 18:18

Jovem muçulmano na Mesquita do Centro Islâmico (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Jovem muçulmano na Mesquita do Centro Islâmico (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

O mundo está reconhecendo o público muçulmano e suas necessidades, seja na tecnologia, nos esportes, na moda, seja em todos os setores da sociedade. E isso está profundamente relacionado ao crescimento da chamada Geração M, os jovens muçulmanos.

Tal designação surge como uma divisão entre os millenials muçulmanos e os que seguem outras ou nenhuma religião. A separação surgiu pelas diferenças entre os padrões de comportamento e de consumo.

Os jovens muçulmanos, muito conectados ao lado religioso, são uma geração que tem orgulho ao professar sua fé e, mesmo em meio a preconceitos, faz questão de demonstrar suas crenças, seja por meio de vestimentas, seja de atitudes. Diferentemente dos millenials, que têm se distanciado de crenças e dos hábitos religiosos tradicionais, muitos deles até vêm se aproximando de possíveis novas religiões e novas formas de enxergar a própria espiritualidade.

Além disso, são jovens com um alto poder aquisitivo, ao contrário dos outros millenials, que quebraram o progresso econômico observado de uma geração para a outra, tendo poder aquisitivo mais baixo que seus pais e avós. A condição financeira favorável da Geração M atrai o mercado consumidor.

Segundo a empresa de previsão de tendências WGSN, estima-se que os consumidores muçulmanos devem gastar cerca de US$ 327 bilhões em artigos de vestuário até 2019.

Mulher muçulmana na mesquira (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Mulher muçulmana na mesquira (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

As previsões e o aumento constante da jovem população muçulmana — em 2050, eles representarão um quarto da população mundial, cerca de 2,8 bilhões de indivíduos — têm feito com que grandes marcas, como a Nike e a Vogue (veja quadro), se adequem para atender a esse público.

“As marcas não podem mais ignorar essa geração. É necessário entregar produtos alinhados com a cultura e a religião, agir de acordo com o que eles gostam e esperam”, argumenta a expert da WGSN Daniela Penteado.

Além disso, cada vez mais influencers muçulmanos tomam conta das redes sociais, como a blogueira Dalal AlDoub, que tem 2,4 milhões de seguidores no Instagram, e mostram um estilo de vida ligado à moda, à modernidade, ao conforto e também à religião.

Daniela explica que pessoas como Dalal desempenham um papel fundamental na promoção e recomendação de destinos de viagens e de consumo e principalmente no que diz respeito a ser visto. “Esses perfis e blogues quebram muitas barreiras e permitem que os jovens muçulmanos sintam que têm seu espaço e seu lugar no mapa.”

millenials
Geração compreendida pelos nascidos entre os anos 1980 e 1999

 

Blogueira muçulmana Dalal AlDoub, que tem mais de dois milhões de seguidores (foto: Reprodução/Instagram)
Blogueira muçulmana Dalal AlDoub, que tem mais de dois milhões de seguidores (foto: Reprodução/Instagram)
 

 

  • Números da Geração M

Previsão de 327 bilhões de dólares em artigos de vestuário até 2019
Gasto com viagens é estimado em 300 bilhões de dólares até 2026
As projeções para o segmento de beleza chegam a 213 bilhões de dólares até 2021

 

 

  • Mercado mundial

Este ano, a Nike lançou a primeira linha esportiva destinada às mulheres muçulmanas. O público nunca havia sido contemplado pelo mercado esportivo. A Nike lançou hijabs (véus islâmicos) feitos de tecidos próprios para a prática esportiva.

(foto: Divulgação/Nike )
(foto: Divulgação/Nike )

A Vogue foi outra gigante que passou a dar mais atenção ao público islâmico. Em março de 2017 foi publicada a primeira edição da Vogue Arabia, no Oriente Médio. Uma das matérias da primeira edição ensinava a arrumar o cabelo de forma estilosa por debaixo do hijab. A revista de moda vem atender a essa mulher religiosa e também conectada ao mundo fashion e da beleza.

(foto: Divulgação/Vogue)
(foto: Divulgação/Vogue)
 

 

Busca pela espiritualidade

O vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (Fambras), Ali Zoghbi, afirma que os jovens muçulmanos são experts em conciliar as práticas e condutas religiosas com o mundo moderno. Ali afirma que os jovens para os quais dá aulas estão perfeitamente inseridos no contexto social brasileiro sem que isso comprometa a vivência do islamismo. “São jovens que frequentam jogos de futebol pela tarde e à noite estão na mesquita.”

Ele acredita que é possível aliar as duas experiências desde que haja equilíbrio, e que a maior procura pelo islamismo está relacionada a alguns pontos específicos. Uma delas é a busca por espiritualidade. “Não acho que isso seja só no islamismo, mas vejo os jovens com essa espiritualidade latente que não tem sido atendida.”

No caso do Islã, Ali acredita que o caráter de igualdade da religião é o que tem atraído tantos novos fiéis. “Não admitimos preconceitos e colocamos todos em nível de igualdade. A fé monoteísta tem dado muitas respostas a esses jovens perdidos.”

O cuidado com o próximo, ponto fundamental da religião islâmica, também pode ser um dos grandes atrativos para os jovens, segundo Ali. No Islã, os escritos sagrados incitam para um cuidado com todos. Se seu próximo não está bem, é seu dever ajudá-lo.

O professor acrescenta que tem percebido um grande aumento no número de jovens muçulmanos, sendo, inclusive, mais participativos na mesquita.

Os costumes, diferentemente do que muitos ocidentais pensam, não são nada de outro mundo e os jovens praticantes do islamismo convivem tranquilamente em um mundo cada vez mais globalizado, sem precisar comprometer a consciência no que se refere às práticas religiosas. O preconceito acerca do Islã impede que muitos conheçam as mensagens de amor e cuidado com o próximo que têm atraído muitos brasileiros.

No Brasil, de 2006 a 2016, o número de muçulmanos dobrou e chegou a 1,5 milhão. Outro dado interessante é que grande parte dos jovens muçulmanos não tem famílias muçulmanas ou de origem árabe. Muitos foram criados como católicos ou sem religião e na juventude tiveram contato com o Islã, se identificando e fazendo a reversão.

 

Uma nova fé, um novo nome

Abdul Rashid (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Abdul Rashid (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Com 19 anos, brasiliense, de família católica, o estudante Wanderson Ramos fez sua reversão ao islamismo entre os 17 e 18 anos. Ele afirma que o processo aconteceu de forma muito natural, uma vez que grande parte dos hábitos previstos do modo de vida da religião já faziam parte de sua rotina.

Com personalidade tranquila, Wanderson se apresenta como Abdul Rashid. Depois de se tornar muçulmano, passou a frequentar a mesquita e a conviver com muçulmanos árabes e de outras nacionalidades. “Algumas pessoas tinham muita dificuldade em pronunciar meu nome e sugeriram que eu adotasse um nome islâmico.”

Na época, Abdul Rashid conversava com uma moça muçulmana que conhecia pela internet e pediu uma sugestão a ela, que propôs Rashid. “Gostei muito, pois o significado é bonito e é um dos atributos de Deus. Rashid pode significar O Guia para o Caminho Reto”, explica. O Abdul foi acrescentado antes, pois significa servo.

Para Abdul, no início de sua vivência no islamismo, a maior dificuldade foi adaptar a rotina de estudos e trabalho às cinco orações diárias. Começando o curso de jornalismo na Universidade de Brasília (UnB), o jovem tinha aulas o dia inteiro e precisava usar os intervalos entre elas para fazer as orações. Muitas vezes, não tinha tempo de ir até a mesquita e usava espaços mais silenciosos da universidade para a prática.

Tirando esse aspecto, Abdul Rashid afirma que não teve muitas dificuldades em se adaptar. O jovem nunca teve o hábito de consumir álcool e nunca gostou de “ficar” com pessoas que não conhecia e não tinha intimidade. “Muitas questões que eu tinha em mente me aproximaram muito do islamismo quando comecei a pesquisar e estudar religiões para me encontrar”, lembra.

Abdul Rashid não conhecia nenhum muçulmano e sequer sabia que existia uma mesquita em Brasília, quando se sentiu atraído pelos preceitos islâmicos. Um dos pontos mais importantes para ele era a adoração a Deus e não a profetas ou santos, por exemplo. “O entendimento de que temos somente um Deus, a Sua unicidade, foi o que mais me atraiu.”

O jovem mantém a convivência com os amigos não muçulmanos, mudando apenas o contato físico com as amigas. As redes sociais, nas quais nunca foi muito ativo, continuam normalmente, evitando a exposição exagerada. O jovem também faz programações com os amigos muçulmanos, como ir a parques.

Os pais de Abdul Rashid se preocuparam no início, devido a uma visão equivocada que tinham da religião, relacionando-a ao grupo terrorista Estado Islâmico. Mas, uma vez esclarecido o mal-entendido, aceitaram com tranquilidade a fé do filho.

 

Reversão

No Islã, não se diz conversão e sim reversão. O nome se deve à crença de que ninguém se torna muçulmano, mas todos retornam à fé original.

O que não pode?

Alguns costumes comuns aos brasileiros, principalmente aos jovens de outras religiões ou sem religião, não são permitidos dentro do islamismo. Selecionamos alguns pontos que têm diferenças mais marcantes quanto aos costumes ocidentais.

Casamento
Homens podem se casar com mulheres judias e cristãs, além das muçulmanas. A regra se dá pelo fato de que o Islã não nega essas religiões, mas as considera como “povos do livro”, e crê nos mesmos profetas e mensageiros enviados aos judeus e cristãos. Já as mulheres podem se casar apenas com homens muçulmanos.
Na religião islâmica, não há o conceito de “ficar”. O que poderia ser entendido como namoro é um período no qual os pretendentes se conhecem (sem se tocar intimamente) e conhecem as famílias para decidir se o relacionamento evoluirá ou não para o noivado. Em alguns casos, parte-se direto para o casamento.
O divórcio é permitido, assim como o novo casamento.

Contato físico
O sexo não é permitido antes do casamento, assim como beijos e contatos físicos íntimos entre os gêneros. Homens e mulheres não devem se tocar, salvo quando têm parentesco próximo. Desde que o casamento seja proibido devido à proximidade de parentesco, o contato é permitido, como no caso de pais, irmãos e tios. Primos, com os quais pode ocorrer o matrimônio, não podem trocar beijos ou abraços após a puberdade. A mulher deve estar sempre de lenço na frente de parentes do sexo masculino em que o casamento seja permitido.

Alimentação e álcool
A bebida alcoólica é proibida e não é recomendado que muçulmanos frequentem ambientes como bares.
No caso da alimentação, o consumo da carne de porco não é permitido. Além disso, somente podem ser ingeridas as carnes consideradas halal, ou seja, que seguem um ritual específico de abate, no qual o animal deve ser sangrado e sofrer o mínimo possível.
As carnes halal provêm de animais que não sejam criados de forma perversa e de um abate feito com um único corte com faca afiada e no qual se profere o nome de Deus, abençoando o alimento.

Preces
Os muçulmanos precisam fazer preces cinco vezes por dia. A filosofia por trás da oração expressa que quanto mais nos lembramos de Deus e de suas palavras, menos tentados estamos a pensar no mal e menos suscetíveis a cometer qualquer ilícito. O fundamental é manter a constante recordação de Deus.

** Informações de Arij Chabrawi, professora voluntária de islamismo na Mesquita do Centro Islâmico

Uma escolha pessoal

Luana, na mesquita com seu telefone celular (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Luana, na mesquita com seu telefone celular (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Assim como Abdul Rashid, Luana de Almeida da Costa, 35 anos, de família católica, se tornou muçulmana a partir de uma escolha pessoal. Fã de história, a gerente técnica conheceu uma amiga muçulmana e passou a estudar a religião por um viés histórico e cultural.

Pouco tempo depois, se encantou pelos escritos sagrados e passou cerca de dois anos estudando o Islã. “Quanto mais eu lia, mais me identificava e parecia que me encontrava naquelas palavras.” Um dia, a amiga perguntou se Luana se considerava muçulmana e deu a ela um Alcorão (livro sagrado) de presente.

“Tudo começou assim”, lembra. Pouco tempo depois, Luana fez sua reversão. Para ela, o processo não foi tão difícil, sempre foi mais recatada, tanto na vestimenta quanto no comportamento. “Nunca fui trabalhar sem ser de calça e nunca frequentei boates. Por questão de gosto mesmo, do meu modo de vida. Brinco que eu só me descobri muçulmana, porque na verdade sempre fui.”

Entre um dos pequenos desafios, estava o consumo de vinho, de que ela gostava. Quando começou a considerar se tornar muçulmana, foi diminuindo a ingestão aos poucos. Uma vez oficialmente muçulmana nunca mais bebeu. Outra mudança foi abandonar o bacon, o presunto e a calabresa, única carne de porco que consumia — carne proibida entre os muçulmanos.

Uma das coisas que encanta Luana no Islã é o cuidado com o próximo. “Eu acho isso tão lindo, gosto muito do Zakat, e dessa noção de que, se seu vizinho não está bem, você também não está”, declara.

Casada com um não muçulmano, fato que ocorreu antes de sua reversão e por isso dentro das regras religiosas, Luana cria os filhos de 15 e 11 anos dentro dos preceitos islâmicos.

Zakat

Trata-se de uma espécie de doação. Um pequeno percentual do que sobra da renda do indivíduo após o pagamento de todas as contas e gastos deve ser doado. Quem escolhe o receptor é a própria pessoa, e o ideal é que isso não seja alardeado.

Origem islâmica

Arij, na mesquita (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Arij, na mesquita (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)

Brasileira por um acaso do destino, a psicóloga Arij Chabrawi, 33 anos, tem ascendência egípcia e muçulmana. Vinda de uma família de líderes religiosos, nasceu em São Paulo porque o pai havia sido transferido para o Brasil no trabalho na Liga Islâmica Mundial.

Arij conta que durante a infância e adolescência conviver entre dois mundos trazia algumas dificuldades. “Sentia que os amigos na escola eram diferentes de mim. Era como se vivesse um universo dentro de casa e outro fora.”

Os valores eram diferentes. Na casa de amigas, via os pais delas consumindo bebidas alcoólicas e se sentia mal, na hora de comer, precisava estar sempre atenta ao que consumia e até mesmo as amizades tinham coisas que a incomodavam, como as mentiras, consideradas tão comuns no Brasil.

Quando o pai a buscava na escola, usando a tradicional túnica branca e a touca, as pessoas faziam piadas. A mãe sempre estava usando lenços, o que rendia comentários desagradáveis. Esses fatores faziam com a jovem não se sentisse confortável.

Adulta e com um mundo mais globalizado, onde não é tão difícil encontrar muçulmanos, esses aspectos diminuíram. Arij, no entanto, revela que encontra outras dificuldades.

Com amigos de todas as fés e formas, Arij visita o Egito regularmente.“Não sou totalmente egípcia. Eu me sinto brasileira demais quando estou lá e, quando estou aqui, eu me sinto egípcia”, brinca, arrematando que o importante em termos culturais é unir o melhor de cada país. Ela se veste de forma mais coberta, mas usa o véu somente no contexto religioso e quando dá aulas na mesquita.

Mesmo tendo amigos em todas as religiões, é mais próxima dos muçulmanos e passa a maior parte do tempo livre com a mãe e o filho. “É mais tranquilo você conversar, se aconselhar, conviver com pessoas que partilham os mesmos valores que você. Isso vai acontecendo de forma natural.”

Arij mantém um perfil no Facebook, no qual é mais reservada.

Desafios

“Eu me ressinto profundamente de não poder professar minha fé em sua plenitude”, lamenta Arij. Ela conta que apesar da globalização e do crescimento do Islã, ainda há muito preconceito no Brasil.

Para as rezas diárias, é necessário se higienizar, o que ela afirma ser extremamente difícil, uma vez que a maioria dos banheiros públicos são sujos e que dificilmente os ambientes de trabalho têm espaços em que se possa rezar. “Viver no Brasil não é impeditivo para professar a fé islâmica, mas se torna difícil.”

 

 

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