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Correio Braziliense ESPECIAL

Conheça o mindfulness, novo método de meditação criado por um médico

Criado por um médico a partir de técnicas meditativas orientais, o método é usado, inclusive como complemento para alguns tratamentos médicos


postado em 02/12/2018 08:00 / atualizado em 03/12/2018 15:30


(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Imagine conseguir controlar os pensamentos. Isso pode ser uma tarefa difícil nos dias de hoje. As pessoas estão, a todo momento, envolvidas em problema, seja em casa, seja no trabalho. Uma mente nunca para de pensar, analisar e tentar entender o que ocorre ao redor. Diante desse estresse, a meditação está cada vez mais caindo no gosto popular.  Aproveitando essa necessidade, a medicina resgatou técnicas meditativas milenares e criou o mindfulness — ou atenção plena.

Grosso modo, mindfulness é um tipo de meditação com comprovação em estudos científicos. Veio de uma meditação milenar chamada Vipassana, que, acredita-se, tenha sido elaborada pelo próprio Buda há mais de 2 mil anos. Vipassana é encarada como uma orientação religiosa. Já o Mindfulness é visto como um método científico pela medicina moderna.

A Vipassana foi adaptada pela medicina graças aos trabalhos do médico Jon Kabat-Zinn, do Centro Médico da Universidade de Massachusetts, na década de 1970. Kabat-Zinn estudava budismo zen e integrou os conhecimentos budistas e as práticas de ioga à ciência médica ocidental. Fundou o Mindfulness Based Stress Reduction (MBSR) para ajudar pessoas a conviverem melhor com estresse, dores ou doenças.

O mindfulness é uma prática que consiste em prestar atenção ao que acontece no momento, tanto na mente quanto no corpo e no ambiente. Aqui no Brasil, também é conhecido por atenção plena, pelo fato de trazer consciência sobre pensamentos, sentimentos e padrões de comportamento, levando a pessoa a ter opções de escolha, melhores respostas aos desafios da vida e priorização do bem-estar.

Marcelo Demarzo, médico especialista em mindfulness, explica que, embora tenha a ver com meditação, o mindfulness, ao reduzir o estresse, ajuda pessoas a se tratarem em um ambiente hospitalar, por exemplo.

Ele acrescenta que, em casos de ansiedade, depressão e, até mesmo, câncer, há uma significativa resposta positiva ao tratamento. “Nos últimos 20 anos, o mindfulness vem sendo popularizado na Europa e nos Estados Unidos. No Brasil, começou a ser difundindo há 15 anos pelo físico e budista ordenado Stephen Little”, conta.

Mindfulness, diz ele, é uma psicoterapia de terceira geração, com uma importante base científica, fundamentada em práticas meditativas orientais adaptadas a um cenário secular e universal, sem qualquer orientação religiosa específica.

Técnicas


De acordo com estudos, 47% de todos os pensamentos são desordenados na mente. Marcelo explica que o mindfulness usa técnicas meditativas ensinadas em cursos baseados no trabalho de Jon Kabat-Zinn. São oito encontros com duração de, no máximo, duas horas cada uma, “para exercitar e lidar com o estresse”.

Com os programas desse curso, o mindfulness treina as técnicas meditativas com os pacientes para que eles entendam e busquem incorporá-las no dia a dia. Marcelo também é coordenador do Mente Aberta — Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O especialista garante que os resultados nos tratamentos médicos com o mindfulness chegam de 30% a 40% de sucesso, em média. Em casos de depressão, cai em 50% os retornos das temidas crises depressivas. Além disso, o paciente saberá lidar melhor com os retornos, tanto da depressão quanto das crises de ansiedade. Em dores crônicas, ele aprenderá a conviver da melhor forma com o problema.

Além de ser um apoio a tratamentos médicos, o mindfulness ajuda em outros aspectos da vida. “Melhora a memória, a concentração e as habilidades socioemocionais”, garante o médico. Outro ponto ressaltado por Marcelo é que o mundo corporativo também está interessado na prática. “As pessoas conseguem ter melhores relações interpessoais dentro das empresas. Tem a ver com uma melhor performance: na gestão e na liderança.”

O que é 

O mindfulness prega a consciência sobre os sentimentos, os pensamentos e as sensações. Quem o pratica acredita que se manter como observador da própria consciência permite compreender mais os sentimentos, resultando em serenidade e sabedoria. Com a prática, você compreende a raiva e o estresse dentro de você, e, com observação sobre o próprio estado de espírito, “dissolve” aquela emoção e a carga negativa que ela traria para o físico e o emocional. Mindfulness ensina que refletir conscientemente sobre uma questão a torna menos incômoda.

Na terra e na água 

(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Diego Lemos, 32 anos, é engenheiro mecânico, ex-ansioso e ex-fumante, como se define. O primeiro contato com a atenção plena foi enquanto trabalhava como guia turístico. “Eu tive uma crise muito forte de ansiedade. Um sueco que fazia parte do grupo que eu guiava me apresentou algumas técnicas de meditação. De imediato, elas me ajudaram a reduzir o nível de ansiedade”, descreve.

O engenheiro conta que a partir daí começou a se interessar pelo assunto e a buscar mais informações. Com um mês da prática, diz ter largado o hábito de fumar e, logo em seguida, conheceu a Sociedade Vipassana de Meditação (SVM). “Eu fiz o curso de introdução à meditação e, desde então, tenho praticado todos os dias.”

Diego foi além. De fumante passou a nadador. Sua última façanha foi de 10km de nado em águas abertas no Lago Paranoá. Ele aplica as técnicas da meditação durante a prática do esporte. “A meditação trabalha muito a respiração, então, no momento em que estou praticando, acabo me desconcentrando por vários motivos e pensamentos. Quando eu sinto que os pensamentos estão vindo, eu utilizo a técnica de meditação para a respiração.”

Para a vida

Diego se orgulha de enumerar ainda muitos outros momentos da vida que ganharam novo significado. “A prática da atenção plena é estabelecer a relação da sua mente com o seu corpo, sentir as sensações do próprio corpo e identificar que os pensamentos são impermanentes. Então, quando aparece um sentimento como a raiva, somos capazes de ter uma concepção melhor do seu surgimento e como reagimos a ela”, orienta.

O nadador acredita tanto no que pratica que a cada duas semanas dá palestras de Atenção Plena, como voluntário, para professores em escolas do Distrito Federal. “A partir dos meus resultados, eu quis levar também para as crianças. Acredito que as ajudam a alcançar um nível de concentração muito bom, além de ajudar a reduzir o bullying e o estresse acadêmico”, explica. 

Por dentro do método

(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Apesar da falta de esquinas, Brasília esconde nos seus recônditos muitos mistérios. Basta uma volta mais atenta para encontrar lugares preciosos, como a Sociedade Vipassana de Meditação. Escondida por trás de uma mureta simples e baixa em plena Asa Norte, o lugar fica, algumas noites, mais badalado que muita casa noturna.

Fundada há mais de 10 anos pelo ex-executivo Régis Guimarães, a sociedade tem na conta mais de 10 mil pessoas formadas em meditação. O alto número não é à toa: totalmente desconectada de qualquer religião ou espiritualidade, a casa oferece teoria e prática. Todos os instrutores da sociedade são formados em Mindfullness-Based Stress Reduction Program (MBSR) pelo Center of Mindfulness da University of Massachussets Medical School.

O fundador, Régis, conta que começou a praticar a atenção plena há mais de 30 anos, durante suas viagens como executivo e diante da necessidade de aliviar o estresse provocado pela carreira. “Fiz diversos cursos no exterior. Fui à Índia estudar, aos Estados Unidos, depois me vinculei à Insight Meditation Society (IMS).” Ao se aposentar, Régis se dedicou completamente à filosofia da atenção plena e hoje trabalha como voluntário, oferecendo cursos e meditação guiada à comunidade.


Alívio imediato

Convidada pela Revista para participar de uma meditação guiada, a agente de viagens Jéssica de Albuquerque, 23 anos, deu seus primeiros passos na prática mindfulness. Diagnosticada com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) há dois anos, ela se divide entre o trabalho, a maternidade e os desafios diários da agitada rotina.

“Já tem bastante tempo que cogito a prática da meditação, mas nunca me permiti esse tempo” desabafa. Jéssica conta que o ambiente de trabalho já é estressante por si só. Aliado ao seu diagnóstico, os problemas se tornam bem mais difíceis de controlar.

Na noite da meditação, Jéssica admitiu estar muito estressada, mas com bastante expectativa. “Eu acho que vai ser bom meditar, hoje foi um dia bastante difícil para mim, espero conseguir me acalmar.”

Logo depois da meditação, que começou com uma palestra explicativa, Jéssica saiu do salão com um sorriso sereno no rosto. Perguntada sobre a experiência, foi objetiva: “Superou todas as minhas expectativas, eu estou me sentindo bastante leve e tranquila. Com certeza, vou voltar mais vezes”.


Tratamento complementar


Fábio Aurélio Leite, médico psiquiatra do Hospital Santa Lúcia Norte, explica que o mindfulness tem ajudado muito os seus pacientes. Como a resposta ao método é muito boa, ele o tem receitado como complemento do tratamento medicamentoso. “O mindfulness é uma terapia que tem uma resposta rápida. Muitos pacientes conseguem diminuir a quantidade de remédios.”

O médico ressalta que os métodos podem ser usados em vários momentos do dia. Não é, por exemplo, como em uma terapia convencional, em que a pessoa precisa se locomover até o local. “Ela tem autonomia. Pode fazer no ambiente corporativo, quando bate o nervosismo”, exemplifica.

Nos casos de dores crônicas, explica, o mindfulness faz com que o paciente aprenda a lidar com as crises de dor. “Mas é muito importante: não se deve substituir o tratamento tradicional.” Também é preciso tomar cuidado e procurar lugares respaldados. “Há pacientes que são ingênuos e vão a locais não muito confiáveis. Isso faz com que eles deixem de acreditar na eficácia do mindfulness.”

Vinte anos dormindo mal

(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
“Quando eu procurei a meditação, eu estava desacreditada em relação à minha saúde. Eu não dormia havia mais de 20 anos. Tenho ansiedade extrema. E, por ser muito ansiosa, desenvolvi fibromialgia. Já tinha passado por todo tipo de médico: de endocrinologista a psiquiatra.Tomava diversos remédios de tarja preta e, mesmo assim, sentia dor generalizada por todo meu corpo. Minhas juntas viviam inflamadas. Vivia muito mal. A técnica da atenção plena foi meu último recurso, eu me sentia no fundo do poço.”

O relato é da servidora pública Fábia Barros, 53 anos. Ela conta que, quando chegou ao Vipassana, ainda estava descrente. Mas, garante, bastaram apenas quatro meses para que abandonasse todos os remédios para dor. “É um fenômeno incrível, pois você tem a capacidade de mudar inclusive suas conexões neurais, e foi o que aconteceu comigo.”

Segundo Fábia, uma pessoa ansiosa é alguém que se preocupa demasiadamente com o futuro, e nunca está no presente. “Eu me preocupava com tudo. A minha mente não parava, a minha voz interna funcionava 24 horas por dia, ela não me dava paz, não me dava sossego. Foi nesse estado que cheguei ao Vipassana”, relata Fábia.

Apesar de admitir uma melhora incrível, ela ainda diz controlar apenas 40% da sua ansiedade, mantendo o trabalho diário ainda árduo. Com muito orgulho, conta ainda como foi alcançando cada degrau da sua caminhada rumo à serenidade.

“Eu me identifiquei demais logo no início. Comecei fazendo cinco minutos de meditação. Imagine um ansioso ficar quieto por 5 minutos? Parece a morte. Depois fui evoluindo para 10 minutos, 15 minutos, passei um bom tempo fazendo 20 minutos. Hoje, eu medito todos os dias por 1 hora. Eu acordo às 5h, e até as 5h59 medito”, conta, animada.

Fábia consegue aplicar e perceber a melhora no campo profissional e pessoal. Segundo ela, houve uma mudança radical na maneira como via a vida. “Comecei a levar esse estado meditativo para outras coisas. Se eu tenho uma reunião com um chefe com quem eu tenho algum atrito, ou se tenho problema em um projeto, eu consigo resolver esse conflito quando medito. Mantenho atenção plena em todos as atividades do meu dia a dia. Desde tomar banho a escovar os dentes.” 

Presos na caverna

Quem se lembra dos meninos que ficaram presos em uma caverna na Tailândia? Em 23 de junho, 12 meninos estavam na província tailandesa de Chiang Rai com o técnico do time de futebol deles. No passeio, entraram 10km em uma caverna e ficaram presos após um temporal alagar o local. Os garotos saíram duas semanas depois. Um dos métodos do técnico para acalmar os garotos foi, justamente, técnicas meditativas. Quando mergulhadores ingleses encontraram os garotos, eles estavam calmos e tranquilos, apesar das péssimas condições ambientais.

Mindful Eating

Estendendo a prática mindfulness a todos os campos da vida moderna, a alimentação também pode se adaptar e trazer grandes benefícios. Isso porque o Mindful Eating prega que se coma vivendo a experiência completa do alimento e respeitando, principalmente, os sinais do corpo e do organismo. Essa seria uma forma, por exemplo, de evitar exageros ou comer apenas por gula.

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