Publicidade

Correio Braziliense ESPECIAL

Entenda quando o medo é saudável ou não

O medo é um sentimento comum a todo ser humano e que permite nos protegermos de possíveis perigos do cotidiano. Mas é importante tomar cuidado para ele não nos paralisar


postado em 09/12/2018 08:00 / atualizado em 13/12/2018 15:47

"Eu tinha muita crise de ansiedade, de pânico. E acabei transferindo esse medo para todas as áreas. Passei a ter pavor de viajar de avião. É um lugar que me prende, em que eu não consigo ter controle" Marina Sattamini, arquiteta (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

 
Medo de andar de avião, de dirigir, de passear na rua e até de ser quem é. Quem nunca sentiu medo na vida? Por mais corajosos que alguns dizem ser, sempre há algo que deixa as pernas bambas e que dá aquele frio na barriga. Expostas diariamente a perigos, as pessoas aprendem a viver com esse sentimento complicado, porém humano.

A psicóloga Denise Lettieri Moraes, da Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental, explica que o medo é um comportamento que aprendemos a ter diante dos estímulos da vida. “Desde crianças, somos expostos ao perigo e, para sobreviver, precisamos ter medo. Pais orientam os filhos sobre os riscos de mexer na tomada e de atravessar a rua, por exemplo. Esses são comportamentos da sobrevivência humana. Talvez, a gente nem existisse se não tivéssemos medo”, sentencia.

Apesar de necessário, o medo pode se tornar um problema se extrapolar os limites e começar a atingir a qualidade de vida. Segundo Denise, a partir do momento em que ele impede o indivíduo de fazer coisas comuns do dia a dia, como deixar de viajar, por ter medo de altura, ou deixar de sair de casa, por temer alguma violência, é preciso intervir e buscar ajuda.

O psiquiatra Antônio Geraldo da Silva, diretor da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), destaca que, em casos mais graves, as pessoas devem buscar tratamentos com medicamentos e psicoterapias. “O mais importante, quando possível, é entender o porquê do medo e tratar a raiz do problema, devolvendo à pessoa a autonomia”, ressalta.

Para Denise, uma forma de enfrentar o problema é procurar se expor a determinadas situações mais amenas. “Se a pessoa tem medo e quer enfrentar, o mais indicado é traçar metas menores, em que tenha chance de superar e mudar emocionalmente a forma como se relaciona com aquela situação. Se tenho medo de avião, por exemplo, é melhor começar com voos mais curtos”, aconselha.

Outra dica da psicóloga é enfrentar essas situações na companhia de alguém que a deixe mais calma. As pessoas que estão em volta têm um papel fundamental que pode fazer toda a diferença na forma como lidam com a situação. “Não devemos jamais julgar. Ninguém escolhe sentir aquilo. Tenha empatia e não julgue’, aconselha.

Medo nas alturas

Há quem não se sinta muito seguro viajando sobre as nuvens em uma aeronave pesada e cheia de gente. Mas o fato é que a tecnologia da aviação facilitou, e muito, a vida do ser humano. Viajar é sempre um momento de alegria e, diante de algumas distâncias, o mais fácil é ir pelo alto mesmo. Porém, o que para muitos é um momento agradável, para alguns é um verdadeiro pesadelo.

A arquiteta Marina Sattamini, 23 anos, é um exemplo disso. Ela conta que sempre viajou de avião e, quando criança, se divertia passeando nas alturas. Porém, durante a adolescência, quando descobriu o quão alto a aeronave ia e que não era possível sair dela durante o voo, o medo passou a embarcar com ela. “De repente, comecei a ter noção de que era muito alto, que a aeronave podia cair e comecei a achar esquisito”, comenta.

A jovem afirma que o medo passou a tomar um grande espaço na vida dela a partir dos 14 anos de idade. Ela destaca que o temor da morte era frequente sempre que precisava pegar um avião. “Eu tinha muita crise de ansiedade, de pânico. E acabei transferindo esse medo para todas as áreas. Passei a ter pavor de viajar de avião. É um lugar que me prende, em que eu não consigo ter controle. Ficava pensando que se eu passasse mal lá em cima, não teria como sair, e ficava muito aflita com isso”, recorda-se.

Marina lembra que já chegou a ter crises durante o voo. Em uma delas, teve a sensação de estar sofrendo um infarto. “Quando eu tinha 16 anos, eu estava com minha tia-avó e comecei a me sentir mal, como se estivesse infartando. Minha mão começou a formigar e eu não conseguia respirar direito”, relata. A arquiteta só se acalmou quando a colocaram no fundo da aeronave, deitada em três poltronas.

A superação

Com o tempo, Marina foi encontrando algumas táticas para tornar os voos menos atormentadores. Tudo o que a distraía era bem-vindo: um livro, fones de ouvido e séries a ajudavam a esquecer que estava voando. “Eu levava sempre medicação e colocava aquele tampão de olho, colocava meias, como se estivesse em casa, para ficar bem confortável. Meu maior medo era a decolagem, então ficava fazendo meditação e dormia.”

O nascimento da filha também a ajudou a superar o medo. Marina afirma que transferiu todas as suas apreensões para o parto, e o fato de ter dado tudo certo a motivou a criar coragem. “Eu fiquei mais forte. Tinha muito medo do parto, e ter conseguido me deu muita força mental. Agora, eu consigo qualquer coisa”, comemora. 

Habilitado, mas assustado

O chef de cozinha Carlos Henrique dos Santos, 40, fica no ônibus por cerca de duas horas todos os dias. Ele tirou carteira de motorista há cinco anos. Passou nas provas teórica e prática de primeira e tem um carro à disposição em casa — do irmão, o único da família que dirige. Mesmo assim, não se sente seguro e, desde que tirou a habilitação, nunca assumiu a direção. Tem medo. “Parece que o que eu aprendi era só para ser aprovado mesmo, não pra ir para a rua. Fico inseguro”, afirma.

Se fosse ao trabalho de carro, gastaria, no máximo, uma hora e meia para ir e voltar — e ainda não perderia tempo esperando os coletivos que, às vezes, demoram a chegar às paradas. Além disso, por conta da profissão, costuma sair tarde da noite do trabalho, pra lá da meia-noite, horário ainda pior de pegar ônibus. Mesmo com todos os benefícios de dirigir, ele prefere não arriscar.

Recém-sorteado no consórcio de um carro, Carlos decidiu, porém, que era hora de superar o medo. Começou aulas práticas de direção para quem já é habilitado. A empresa do educador de trânsito Adilson Cândido é registrada no Ministério da Educação e dá aulas para pessoas que já têm carteira de motorista, mas sentem medo de dirigir. “Nós conversamos muito com os alunos, explicamos todo o funcionamento do painel do carro, o que é cada luz e o que significam as cores delas”, explica Cândido.

Para ele, as aulas de autoescola para tirar a habilitação são muito teóricas, mesmo as práticas. “Para algumas pessoas, não adianta treinar estacionamento com cones, porque, quando tiver carro, vão ficar com medo”, argumenta. Outra diferença é o tratamento dos alunos: “Nós não focamos nos erros deles, não brigamos, não gritamos, não pressionamos, como alguns instrutores acabam fazendo. Nós nos focamos em ensinar”.

Em geral, os inseguros costumam fazer 10 aulas, mas isso pode variar de acordo com o grau de dificuldade e com a disponibilidade de tempo e de dinheiro. A maioria dos alunos são mulheres. Em relação à idade, os alunos se concentram na faixa entre 30 e 50 anos. “Alguns carregam traumas de acidentes que sofreram, mas a maior parte só tem insegurança mesmo”, afirma Cândido.

Segurança

Para o chef de cozinha, um diferencial das aulas para quem tem medo foi o trabalho psicológico. Na sexta aula, já estava mais calmo. Liberado pelo professor, até pegou o carro do irmão emprestado. “Com seis aulas, aprendi mais do que na autoescola toda”, garante.

Em alguns casos, pegar o carro antes de estar completamente seguro pode ser um problema. “Às vezes, a pessoa pega o carro do pai, da mãe, do marido e vai dirigir ao lado deles, mas eles podem não ter muita paciência e acabam jogando um balde de água fria em quem está aprendendo”, explica Cândido.

Em breve, Carlos espera já estar com carro próprio e a vida mais fácil, sem depender do transporte público. “Eu tenho medo de deixar o carro morrer no meio da rua, mas agora já estou bem mais tranquilo”, afirma.

Quando o outro assusta

A artista Nebulosa Stoppa, 26, sente-se constantemente ameaçada simplesmente por ser quem é. Como tantas outras mulheres, em especial as trans como ela, a violência assusta, mas ela tenta não ser paralisada por esse sentimento. Dados do Observatório da Violência, mantido pelo site Observatório Trans, mostraram que em 2017 houve 185 assassinatos na população trans. Em 2016, o Brasil já era recordista em números absolutos de homicídios, com 144 mortes. “Estar vivo hoje parece raridade”, lamenta.

Diversas vezes, a artista já foi abordada com palavras violentas e ameaças por parte de pessoas transfóbicas, mas a situação piorou nos últimos meses. “Dá a impressão de que as pessoas querem nossa morte mesmo”, lamenta. Nebulosa conclui algo triste: “Para mulheres, tanto cis quanto trans, o homem é o maior símbolo do medo. Ele nos assusta”.

Apesar de saber que não pode controlar o medo, “porque ele tem a ver com a atitude do outro, que é imprevisível”, ela acredita que todos podem escolher como enfrentá-lo. Para ela, o enfrentamento é feito por meio da arte, expondo o sentimento dela e de tantas outras pessoas no teatro, na música e, principalmente, usando estratégias de proteção. Admite que carrega pedra na bolsa, para o caso de tentarem algo contra ela. “Eu não quero usar jamais, mas é instinto de defesa”, afirma.

Nascida e criada no Guará, é ali onde ela se sente mais segura. Sabe evitar lugares perigosos e escolher os mais seguros. No Plano Piloto, é onde tem mais medo. “É tudo mais deserto, tem muitas árvores”, argumenta. Infelizmente, é também o lugar que oferece mais lazer. Ela e as amigas, então, vão sempre juntas e, muitas vezes, preferem confraternizar em casa a se expor.

Sem carro e dependendo do transporte público, ficar na rua à noite é um risco. prefere nunca esperar o ônibus na parada. Fica afastada. “É um lugar estratégico para assalto e outras violências. Passa uma moto, o motoqueiro te faz mal e vai embora”, explica a artista.

Viver com medo é um dos desafios, mas ela prefere seguir em frente e não se isolar ou se prender em casa. “Nós não podemos nos render. Temos que nos unir e nos proteger, e esse instinto de proteção, umas das outras, nós temos”, garante. 

Cisgênero
É o indivíduo que se apresenta ao mundo e se identifica com o seu sexo biológico.

Transgênero
Termo que abrange todas as pessoas que não se identificam com o sexo de nascimento.

Que tal ir acompanhada?

Só quem é mulher sabe o medo que elas sentem ao andar sozinhas na rua. A apreensão vai além de perder os bens materiais. Nesse caso, o que está em jogo é o próprio corpo. Andar em uma rua deserta e ouvir passos atrás é mesmo de arrepiar, mas o fato de esses passos serem de outra mulher as deixam mais aliviadas.

É nesse sentido que surgiu um movimento que tem atraído mulheres de todo o Brasil, o Vamos Juntas?. A iniciativa nasceu da jornalista Babi Souza, que, em uma volta sozinha à noite para casa, percebeu que as mulheres poderiam se sentir mais seguras se acompanhadas umas das outras. “Percebi que eu tinha medo de andar na rua porque eu sou mulher. Eu observei que várias mulheres que estavam naquele trajeto sentiam o mesmo medo que eu.”

A ideia do movimento é reunir mulheres que frequentam os mesmos lugares em horário parecidos e, assim, possam fazer os caminhos juntas. Babi destaca que, a partir do movimento, várias mulheres formaram grupos para fazerem certos percursos. A página no Facebook já tem mais de 455 mil curtidas e, segundo a jornalista, um aplicativo será lançado em breve. 

Três perguntas para Antônio Geraldo da Silva, presidente da Associação Psiquiátrica da América Latina (Apal) e superintendente da ABP

O que acontece quando sentimos medo?
Ao se deparar com uma situação que gera medo, o cérebro ordena a liberação de adrenalina, entre outras substâncias, no organismo para que a pessoa fique atenta e preparada para qualquer perigo, aumentando a atenção, os batimentos cardíacos e a pressão sanguínea.

Qual a diferença entre medo e fobia?
A diferença básica é o grau de intensidade da sensação e quanto prejuízo ela traz para o indivíduo. Um simples sinal de alerta disparado pelo medo me permite continuar nas atividades cotidianas e entender que aquela é uma situação comum. Isso é completamente diferente da fobia, que me paralisa e me impede de passar por determinadas situações — fobia de insetos, de altura, de dirigir, por exemplo.

É possível um medo virar uma fobia? Como evitar? 
Quando percebemos os sinais de alerta do medo e não damos atenção, há uma possibilidade de que nosso dia a dia e nossas percepções possam, sim, aumentar as sensações de medo e nos levar a uma fobia. Podemos evitar que isso aconteça à medida que atentamos para nossas reações às situações cotidianas e, ao perceber alguma alteração e/ou reação exacerbada, buscarmos uma solução para o problema por meio de tratamento. Também é importante considerar os transtornos relacionados à ansiedade e seus tratamentos. Em casos em que o medo paralisa o indivíduo, podemos estar diante de um transtorno ansioso. Por isso, consideramos fundamental a consulta com um psiquiatra, para identificar se o medo/a fobia se caracterizam como um transtorno psiquiátrico ou não.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade