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Correio Braziliense ALIMENTAÇÃO

Obesidade infantil: uma epidemia grave

A obesidade infantil cresce em largas proporções. Estudos apontam que uma criança com sobrepeso corre mais risco de ter problemas com a balança na vida adulta


postado em 09/12/2018 08:00 / atualizado em 07/12/2018 16:44

Sônia e o neto João Gabriel: vegetariano desde a barriga(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Sônia e o neto João Gabriel: vegetariano desde a barriga (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

 
Com a correria do dia a dia, a preocupação com a alimentação vira coadjuvante na vida de muita gente. Da mesma forma, as crianças ficam à mercê de uma dieta industrializada e pobre em nutrientes. É um tal de biscoito pra lá, achocolatado pra cá… Mas é bom ter cuidado. Segundo estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS) com a Imperial College London, o número de crianças e adolescentes obesos aumentou 10 vezes nas últimas quatro décadas. Além disso, o número de pessoas de 5 a 10 anos de idade com sobrepeso chegou a 213 milhões em 2016.

De acordo com Orlando Pereira Faria, cirurgião geral da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, a obesidade é uma doença que ocorre quando o corpo acumula e armazena quantidades excessivas de gordura. E o aumento da ingestão calórica aliado à diminuição da atividade física têm contribuído para o crescimento do problema. Em 2016, havia uma estimativa de 41 milhões de crianças com menos de 5 anos com sobrepeso ou obesas.

Antes considerado um problema de países ricos, a obesidade cresce em países pobres e em desenvolvimento — sobretudo em áreas urbanas. Na África, ilustra Orlando, o número de garotos e garotas com menos de 5 anos e sobrepeso aumentou cerca de 50% desde 2000. O médico explica que a obesidade infantil traz problemas a longo prazo. “Ela tende a continuar na vida adulta em cerca de 60% dos indivíduos, segundo pesquisas da Universidade de Harvard”, ilustra.

As doenças que acompanham a obesidade, quando aparece precocemente, também tendem a ter um tratamento mais difícil, como diabetes, apneia do sono, hipertensão arterial e dislipidemias (aumento do colesterol e dos triglicerídeos no sangue). “Problemas psíquicos decorrentes da obesidade na infância costumam ser dramáticos, com consequências que duram toda a vida.”

Aliás, explica Orlando, o problema está associado a uma maior propensão de morte prematura e incapacidade na vida adulta. Além dos riscos futuros, crianças obesas costumam ter dificuldades respiratórias, maior risco de fraturas, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, resistência à insulina e efeitos psicológicos.

Participação dos pais

(foto: Arquivo Pessoal)
(foto: Arquivo Pessoal)
 

Para Orlando, a chave para o controle da obesidade infantil está na família. “O corpo da criança é a sua casa, é a apresentação para o mundo. Se esse corpo é fonte de preconceito e discriminação, não é de se estranhar que a obesidade infantil esteja ligada a maior risco de depressão, ansiedade, baixa autoestima, desesperança e outros estados desagradáveis da mente”, argumenta.

A assistente jurídica Glênia dos Santos Souto, 35 anos, tem um filho de 12 que está com sobrepeso e sofre com a condição. “Os primos e os colegas da escola o chamam de ‘gordinho’. Ele não gosta, fica bravo!”, conta a mãe. Quando mais nova, Glênia não tinha consciência sobre a importância da alimentação dos filhos.

Nas compras, geralmente feitas pelo ex-marido, havia enlatados, macarrão instantâneo, doces… enfim, tudo industrializado e pobre em nutrientes. A mudança da família veio após o diagnóstico de diabetes de Glênia. Ela passou a buscar melhores hábitos alimentares e a levar uma vida mais saudável. Hoje, mesmo com o filho não morando com ela, Glênia conversa com o garoto sobre a importância de cuidar da dieta.

“Simplesmente não compro mais refrigerante. Opto por suco natural, vitaminas… Há alguns alimentos que não adiciono açúcar ou sal. Pizza e hambúrguer raramente entram na minha casa”, diz Glênia. Ela lembra que, antes dos 2 anos do filho, não tinha tanto conhecimento e dava bebidas açucaradas e besteiras para ele.

Retorno positivo

Débora Campos Oliveira, nutricionista do Grupo Educacional Colinho de Mãe — escola que aplica métodos de alimentação balanceada com a colaboração dos pais —, explica que o cardápio das refeições é proposto com o intuito de promover uma melhor qualidade de vida dos alunos. A nutricionista conta que se encontra individualmente com os pais para saber como é a alimentação em casa.

“Muito deles se queixam de que é difícil implantar a rotina de uma dieta saudável, por conta da correria diária.” Para ela, os filhos tendem a imitar o comportamento dos pais. Se se alimentam mal, as crianças tomarão como padrão para a vida. Além disso, Débora conta que ingredientes como açúcares deixam a garotada mais agitada, e a alimentação balanceada faz com que os pequenos tenham mais retornos positivos nas salas de aula.

Vida natural

Ver galeria . 3 Fotos Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )

 
João Gabriel Malafaia Moreira tem 2 anos e 8 meses. A avó, a aposentada Sônia Malafaia Moreira, 59, conta que, desde a gestação da mãe dele, propôs implementar uma dieta vegetariana para João. Sônia, anos antes, era vegetariana e conhecia o caminho a ser seguido. No entanto, buscou conhecimento para levar a dieta para o bebê.

Na busca, procurou auxílio médico. Os especialistas falavam que o preocupante era garantir ingestão de vitaminas e minerais essenciais para o crescimento de uma criança, como vitamina B12, proteínas e ferro. Periodicamente, João faz exames para ver se está tudo certo com a saúde. “No último, estava tudo ok. O maior problema era o ferro, mas ele toma um suplemento de sulfato ferroso.”

Como fazer, porém, uma criança não se interessar pelas comidinhas de uma festa infantil, por exemplo? Sônia conta que, antes de irem a qualquer comemoração, dá a refeição para João. Assim, ele fica de barriga cheia e gasta a energia comemorando com os colegas.

Efeitos nocivos

Orlando Pereira Faria destaca as principais consequências da dieta calórica e pobre em nutrientes para a saúde da criança:
  • Prejudica os mecanismos que indicam a fome e a saciedade.
  • Proporciona o acúmulo de gordura.
  • Favorece o desenvolvimento de alergias e intolerâncias alimentares.
  • Prejudica o funcionamento dos rins.
  • Sobrecarrega o funcionamento hepático.
  • Causa distúrbios estomacais e intestinais.
  • Favorece o desenvolvimento de diabetes, hipertensão, obesidade e diversos tipos de câncer.

Fatores de risco

  • Doenças cardiovasculares (principalmente infarto e derrame), que são as principais causas de morte atualmente.
  • Diabetes.
  • Distúrbios musculoesqueléticos (especialmente osteoartrites — uma doença degenerativa altamente debilitante das articulações).
  • Alguns tipos de câncer (incluindo endométrio, mama, ovário, próstata, fígado, vesícula, rim e cólon).
  • O risco para essas doenças aumenta, quanto maior for o Índice de Massa Corporal — um tipo de medida da obesidade.

Alimentos proibidos

O cirurgião geral Orlando Pereira Faria, da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, mostra os alimentos que as crianças devem passar longe. Confira:
  • Líquidos açucarados, como sucos prontos e refrigerantes, contribuem para o aumento do consumo calórico sem fornecer nutrientes.
  • Biscoitos e salgadinhos industrializados, ricos em conservantes e gordura trans.
  • Doces ricos em calorias e gorduras trans, como sorvetes.
  • Cereais ricos em açúcar.
  • Alimentos ultraprocessados, como enlatados, embutidos, congelados, de preparação instantânea, salgadinhos, frituras, doces, gelatinas industrializadas, refrescos em pó, temperos prontos, margarinas, iogurtes industrializados, queijinhos petit suisse, macarrão instantâneo, sorvetes, biscoitos recheados, achocolatados e outras guloseimas.
 
*Estagiário sob supervisão de Sibele Negromonte 


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