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Correio Braziliense ESPECIAL

Descubra patrimônios residenciais deixados por renomados arquitetos

A Revista foi atrás de legados da arquitetura brasileira que ocupam a capital e que não estão aos olhos do público


postado em 16/12/2018 08:00 / atualizado em 14/12/2018 18:13

(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/DA Press )
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/DA Press )

Em 7 de dezembro de 1987, os múltiplos monumentos que adornam o horizonte brasiliense lhe concederam o título de Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco, o braço da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Educação, Ciência e Cultura. Construções icônicas, como a Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, a Catedral Metropolitana de Nossa Senhora Aparecida e o Teatro Nacional, são admiradas no mundo inteiro e fazem os amantes da arquitetura modernista suspirarem.

 

Porém, poucas pessoas sabem do legado arquitetônico que se esconde nas quadras residenciais de Brasília. Arquitetos inesquecíveis como Milton Ramos, Lelé, Zanine Caldas e Oscar Niemeyer também deixaram marcas eternizadas em Brasília por meio de patrimônios privados — suntuosos e históricos.

 

Apesar da beleza e do valor indiscutível, as casas apresentadas nas páginas a seguir não são monitoradas ou protegidas por nenhum órgão. Cabe aos proprietários a defesa e preservação do imóvel. De acordo com o Iphan, o acervo residencial brasiliense, embora expressivo e importante, não constitui, a priori, patrimônio cultural brasileiro.

 

“O reconhecimento de um bem (artefato) como integrante do patrimônio cultural brasileiro pressupõe o cumprimento de premissas e critérios específicos. Condição que o conjunto de edificações residenciais projetadas por esses arquitetos, embora de qualidade arquitetônica indiscutível, não atende. Como, por exemplo: estar relacionado a um processo social de interesse coletivo; ser referência para uma comunidade e ser passível de fruição cultural”, afirmou o órgão em nota.

Concreto monumental

(foto: Joana França/Divulgação)
(foto: Joana França/Divulgação)
 

Apesar de representar a essência da arquitetura brasiliense, o design modernista desta casa causa estranhamento aos que a avistam. Com o passar dos anos, a cidade foi mudando e a residência foi a única da rua a preservar o estilo original e característico da década de 1970 — época em que foi construída.

 

Os primeiros donos eram amigos de Milton Ramos, arquiteto que assina o projeto, e habitaram a charmosa residência por 40 anos. O atual morador encontrou a casa em um anúncio na internet e foi amor à primeira vista, mesmo sabendo que estava fora de seu orçamento, não resistiu e agendou uma visita. Conversou com a proprietária, que viu ali os filhos crescerem, saírem de casa e ficado viúva. Ouviu ela dizer, com lágrimas nos olhos, que outros potenciais compradores já teriam visitado o imóvel e perguntado quanto ficaria para derrubar a construção. Ela, porém, jamais aceitaria ver o espaço onde criou os cinco filhos se transformar em entulho.

 

Ainda em êxtase após conhecer a casa, o atual proprietário mandou um emocionado e-mail, em que explicava que só poderia oferecer um valor abaixo do mercado, mas que prometia honrar o legado da casa. O que ele queria era dar continuidade à história dela com a sua recém-iniciada família. Comovida, a antiga dona aceitou a proposta.

 

Com as chaves em mãos, o feliz novo proprietário procurou o escritório BLOCO Arquitetos e Associados para fazer um trabalho de restauração e reforma na construção histórica. Quando o arquiteto Daniel Mangabeira viu a casa pela primeira vez, ficou perplexo. “Eu disse para ele: se você não me contratar para executar essa reforma, eu não faço mais nenhuma casa para você”, brincou.

 

Apaixonado por história, ele deu início a uma verdadeira imersão no estilo do carioca Milton Ramos, entrevistou a antiga dona e o arquiteto Carlos Henrique Magalhães, que fez uma tese de mestrado sobre Milton. Ele queria recolher o maior número de informações sobre o trabalho do ilustre profissional na área residencial.

 

Milton trabalhou ao lado de Oscar Niemeyer nos principais projetos de Brasília, foi gerente de obras do Itamaraty e responsável pelo detalhamento do Teatro Nacional. Apesar da respeitável trajetória, ele não é tão conhecido pelo grande público.

 

Respeito foi a palavra de ordem durante a reforma da casa de 350m². Tudo foi feito com muita cautela para adaptá-la às necessidades do cliente, porém, sem descaracterizar o projeto original. A casa não estava decrépita, não tinha sequer uma infiltração, mas a última reforma tinha ocorrido na década de 1990. Precisaram refazer completamente as instalações elétricas. As intervenções, porém, foram mínimas. A ideia era reforçar que um bom projeto é atemporal. “Ela não parece atual, mas tem um componente contemporâneo”, define o arquiteto.

 

Ver galeria . 7 Fotos As plantas originais foram um presente da antiga dona e ocupam lugar de destaque na salaJoana França/Divulgação
As plantas originais foram um presente da antiga dona e ocupam lugar de destaque na sala (foto: Joana França/Divulgação )
 

 

Pesquisa histórica

 

Ao longo das pesquisas, Daniel encontrou pouquíssimas informações sobre esse projeto específico. As fotos de família da antiga dona foram fonte importante para a equipe recuperar características originais da casa. Um exemplo é o espelho d’água frontal, que havia sido coberto e gramado. Daniel e o cliente decidiram trazê-lo de volta para complementar a fachada da residência.

 

Para o arquiteto, a conexão dela com a rua é algo que chama a atenção. Na época da primeira visita à casa, havia um gradil que não aparecia em muitas das fotos. “Milton gostava de trabalhar essa sutil conexão entre os espaços. A porta dá direto para a rua”, explica. Daniel sugeriu que o gradil fosse removido para manter o projeto original, e o cliente apoiou a decisão — que muitos veriam como um risco à segurança.

 

Na parte interna, quase todas as paredes são de concreto aparente, marca registrada da época e do trabalho de Milton Ramos. As paredes eram brancas, mas, uma vez descascadas, revelaram as múltiplas marcas das formas de concreto — uma grata surpresa para todos os envolvidos. Optaram, então, por lixá-las, impermeabilizá-las e deixá-las à mostra. O piso de ipê maciço, cada tábua com quase 9m de comprimento, foi inteiramente recuperado e se alinha perfeitamente com as paredes. A imponente fachada de concreto também foi revitalizada e meticulosamente impermeabilizada.

(foto: Joana França/Divulgação)
(foto: Joana França/Divulgação)
 

 

O projeto de Milton Ramos tinha quatro quartos, todos voltados para o nascente e apenas duas suítes. Um dos quartos virou escritório e ganhou um novo banheiro. Dividido, o banheiro de uma das suítes ficou entre os dois quartos. O lavabo foi aumentado, repaginado e premiado. “Nesse espaço, reinterpretamos o uso do material. Naquela época, tinha muito painel de madeira nos edifícios comerciais. Decidimos trazer isso para o lavabo. Exacerbamos”, enaltece Daniel. Tudo, inclusive a pia, é de madeira. O ambiente foi o vencedor das categorias nacional e regional do 22º prêmio DECA, em 2017.

 

A sala é ampla e reúne estar, jantar e tevê. Nos múltiplos nichos da estante de MDF, de 2,25m de altura e 8,25m de comprimento, estão objetos que trazem a personalidade da família de maneira afetiva. Porta-retratos, livros, adornos decorativos e até mesmo brinquedos dos filhos pequenos.

 

O casal gosta do fato de o lar ser simples, coerente e funcional. “A nossa casa foi feita para ser vivida”, explicam. Desde que se mudaram, passaram a ser caseiros. Humildemente, o atual proprietário reconhece que sua residência é um patrimônio da cidade. “Agora, ela está comigo. Mas, definitivamente, faz parte do patrimônio histórico brasiliense.” Na parede oposta da estante, eles “ostentam” com muito orgulho as plantas originais do projeto.

 

Brutalismo imponente

(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/DA Press)
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/DA Press)

Construída em meados dos anos 1970 pelo arquiteto João da Gama Filgueiras Lima, o Lelé, a mansão de estilo brutalista é ocupada desde 1976. Os antigos proprietários, amigos de Lelé, moraram nela por 40 anos. Durante décadas, a construção funcionava como uma casa de campo e espaço para as férias em família.

 

Há quatro anos, a mansão foi vendida. Os novos donos viram a necessidade de revitalizar o patrimônio que leva a assinatura de Lelé, que, entre outras obras, projetou parte dos prédios da UnB e os hospitais da Rede Sarah. Na casa, habita ainda o maior painel de azulejos original de Athos Bulcão, em residência, no mundo. 

 

O arquiteto Lutero Leme, do estúdio Arquitécnika, responsável pela reforma, diz que a obra foi um desafio, devido à estrutura da casa. Composto por cinco pilares de sustentação, ele afirma que o projeto é muito ousado para a época. “A casa só tem um ponto de contato com o solo, por meio de uma grande estrutura de concreto, que tem um tabuleiro atirantado. Ao longo dos anos, ela deformou.” O profissional compara a construção com um balanço. “A casa se movimenta dois centímetros por dia. Ela sobe e desce, como uma gangorra.”

 

Essa movimentação de área foi o ponto de partida para todo o projeto de restauração. Os revestimentos tinham de estar preparados para qualquer dilatação, sem formar rachaduras ou fendas. Para isso, Lutero e sua equipe fizeram um estudo detalhado sobre movimentação de paredes e esquadrias.

 

Ver galeria . 5 Fotos Antes inutilizado, o vão no térreo é, além de garagem, um amplo espaço de recepção e livingBarbara Cabral/Esp. CB/D.A Press
Antes inutilizado, o vão no térreo é, além de garagem, um amplo espaço de recepção e living (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press )
 


Tecnologia funcional

 

A tecnologia também tinha de estar alinhada com toda a construção e viabilizar funcionalidade e praticidade para os moradores. “Fizemos um levantamento de todas as necessidades do cliente e de como podíamos adaptar tudo isso dentro da casa, mantendo o externo”, detalha o profissional.

Lutero Leme, do estúdio Arquitécnika, foi encarregado de restaurar o patrimônio residencial deixado por Lelé: tecnologia e sustentabilidade foram pontos cruciais na revitalização(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/DA Press)
Lutero Leme, do estúdio Arquitécnika, foi encarregado de restaurar o patrimônio residencial deixado por Lelé: tecnologia e sustentabilidade foram pontos cruciais na revitalização (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/DA Press)

A partir do relatório de alterações, a mansão foi caprichadamente revitalizada. Leme comandou a construção de uma área de lazer, antes inexistente. Para satisfazer os moradores, que, segundo Lutero, são verdadeiros anfitriões, o arquiteto projetou churrasqueira, living, spa, adega, banheiros espaçosos — com três cabines cada uma, ideais para festas — e piscina, cujos azulejos foram assinados pelo artista plástico brasiliense João Henrique Rego. Painéis giratórios esculturais, com caráter modernista, foram desenhados e executados por Leme para compor o espaço.

 

Com aproximadamente 1.960m² de área construída, a mansão tem horta orgânica, gazebo para cultivo de plantas, espaço de convivência específico para tomar chá — pensado especialmente para a proprietária. O paisagismo, alterado em 100% do projeto original, também foi de autoria de Leme. 

Traços marcantes

(foto: Edgard Cesar/Divulgação)
(foto: Edgard Cesar/Divulgação)

Construída para um parente do célebre arquiteto Lelé em 1971, a casa pertenceu à família até 2005, quando os atuais proprietários a compraram. Sempre admiraram a arquitetura e sabiam exatamente do valor histórico do imóvel. São 800m², incluindo área de lazer e mezanino. Quatro quartos com suíte, sala de jantar, cozinha, sala de estar, garagem e área de serviço compõem a luxuosa construção.

 

Quando os atuais donos a visitaram pela primeira vez, achavam que estava com um ar muito antigo, que não combinava com eles, e que seria difícil adaptá-la. Coube à designer de interiores Ângela Borsoi e aos arquitetos Mariana Borsoi e Humberto Araque mostrar que era possível e que não seria tão difícil quanto parecia.

 

A casa não estava na melhor condição, obviamente tinha marcas de uso e algumas infiltrações. Porém, conservada. Segundo Ângela, em geral, os clientes sempre querem derrubar e fazer uma nova casa. “Dessa vez, mais do que nunca, preservar a identidade da casa era uma prioridade.”

 

Os arcos e tijolos remetem imediatamente ao estilo de Lelé. É impossível não notar a semelhança com a suntuosa Mansão dos Arcos — localizada no Park Way. A designer de interiores ressalta que, na verdade, a casa do Lago Sul serviu de laboratório para o famoso espaço, que só foi concluído três anos mais tarde. O que só enaltece o valor histórico do imóvel.

 

Apesar de sutil, o processo de reforma da casa foi feito em duas etapas. A primeira em 2005 e a mais recente, em 2017. Na fachada não houve nenhum tipo de alteração. Por preferência dos moradores, algumas paredes internas de tijolo foram revestidas e outras, que eram brancas, cobertas com madeira. O objetivo era dar o ar mais contemporâneo desejado pelos novos donos.

 

Todas as pequenas intervenções foram pensadas e estudadas. Atualmente, os ambientes estão maiores. “A suíte do casal sofreu a maior intervenção. O jardim interno foi removido para dar lugar ao closet, ao banheiro e ao home office que o casal desejava”, esclarece Ângela.

 

Ver galeria . 5 Fotos A cozinha impressiona: madeira, concreto e tijolos em harmonia. Na sala, a iluminação natural enaltece o espelho d'águaEdgar Cesar/Divulgação
A cozinha impressiona: madeira, concreto e tijolos em harmonia. Na sala, a iluminação natural enaltece o espelho d'água (foto: Edgar Cesar/Divulgação )
 


Pequenas mudanças

 

Ao adentrar na sala de estar, o espelho d’água com carpas impressiona. Ele também estava um pouco abandonado e os donos cogitaram fechá-lo algumas vezes. Porém, de acordo com Ângela, ninguém teve coragem de tirar uma característica tão importante da casa. “Ele tem toda uma proporção e relação ao resto do imóvel. Principalmente ao mezanino”, acrescenta. Para dar ainda mais personalidade, colocaram dentro da água uma escultura do artista popular pernambucano Nicola.

 

Outra mudança importante foi na área externa. A piscina em formato de feijão foi substituída, mas Ângela se preocupou em manter o alinhamento da anterior. A área da churrasqueira, com home theater e sauna, também está entre as alterações recentes. “Não quis replicar a casa, mas construir algo que combinasse e dialogasse com a obra de Lelé.” Optou pela parede de vidro para manter a visão do jardim.

 

Ângela ainda se impressiona com a genialidade do arquiteto. O teto verde é original e, no período da construção da casa, ninguém fazia isso. Hoje, arquitetos do mundo inteiro debatem sobre a funcionalidade desse recurso para refrescar ambientes. “Ele serve para trazer conforto térmico e deixar os ambientes mais agradáveis. São preocupações muito atuais, mas ele já tinha naquela época”, destaca.

 

A profissional comenta que foi uma responsabilidade muito grande alterar, mesmo que minimamente, uma obra de autoria de um ícone da arquitetura modernista brasileira e brasiliense. Lelé é reconhecido internacionalmente e frequentemente os moradores abrem suas portas para receber estudantes de arquitetura de outros países que querem visitar e estudar o imóvel. 

 

Confira a reportagem na íntegra na edição impressa, número 706, da Revista do Correio.

 

 

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 

 

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