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Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Detox de redes sociais é receita para desfrutar a vida real

Aproveite as férias para se desconectar literalmente. O período de abstinência ajuda a refletir sobre excessos digitais


postado em 14/01/2019 12:03 / atualizado em 14/01/2019 12:03

Detox é uma abreviação para desintoxicação. Desde a alimentação até a organização da casa, tudo pode passar por uma fase de desapego. Em época de férias, a sugestão é aproveitar o movimento de libertação e dar uma pausa na vida digital. Sem as obrigações do trabalho, fica mais fácil desligar o celular e reavaliar a intensidade da relação com as mídias sociais.

 

Segundo Thaís Augusta Martins, neurologista do Hospital Santa Lúcia e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia, o uso prolongado do telefone pode ter consequências graves para a saúde do usuário. “Além de causar dependência, pode afetar a memória, a capacidade de concentração e o sono”, explica a médica.

 

A professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB) Wilsa Maria Ramos ainda acrescenta que a conexão exagerada com as redes sociais pode comprometer a autoestima, aumentar o estresse e influenciar o consumo. “Muitos dos meus alunos perceberam que estavam se sentindo mais deprimidos e, consequentemente, adoecendo quando ficavam muito tempo on-line”, ela conta. Para Wilsa, é importante entender qual é o tipo de perfil de cada usuário e, assim, fazer as mudanças necessárias. “Existem o crítico; o político; o que apenas consome conteúdo e o que entra nas redes para se entreter”, completa a professora. “É fundamental entender cada uma das motivações para se conectar.”

 

Caracteriza-se como usuário frequente quem passa mais de quatro horas por dia no celular, seja nas mídias sociais, seja em qualquer outra atividade on-line. De acordo com a neurologista Thaís, alguns sinais que indicam dependência comportamental são a necessidade de estar conectado cada vez mais tempo; a perda de interesse por outras atividades; a sensação de alívio de ansiedade ao usar o telefone; a frustração ao tentar parar ou diminuir o uso, sem sucesso. “Não existe um consenso sobre o tempo ideal de uso o celular, mas se o hábito tiver afetando seu sono ou seu foco ao realizar atividades cotidianas, já é um sinal vermelho”, aleta a médica.

 

Existem alguns grupos de risco em relação ao uso de smartphones. “Pessoas com ansiedade e depressão podem usar o telefone e as redes com mais frequência”, explica a professora Wilsa. Crianças também precisam ser supervisionadas ao utilizarem equipamentos eletrônicos, como celulares, tablets ou computadores. “É preciso observar se as tecnologias comprometem o desenvolvimento cognitivo ou as relações interpessoais delas”, alerta Thaís.

Completamente desligado

Mas há quem esteja no momento inverso. A estudante de direito Giovanna Barbosa, 20 anos, resolveu dar um tempo do Instagram, rede social que usava com frequência. Giovanna percebeu que compartilhar fotos e vídeos de momentos especiais estavam se tornando mais importante do que vivê-los. Também se despediu do Twitter e do Facebook. A abstinência dura mais de quatro meses. “Assim que apaguei o aplicativo, percebi que meus dedos o procuravam involuntariamente no celular, quase como por instinto.”

 

Esse tempo offline fez a moça refletir sobre o consumo constante de informações desnecessárias e o relacionamento com os amigos e a família. “Eu nunca vou caber num feed de Instagram. A minha complexidade, profundidade e realidade nunca vai poder ser transmitida totalmente em qualquer que seja a forma que eu organize minhas fotos”, constata. “Entender isso na prática foi bom e tirou o peso da vontade inconsciente de produzir algum tipo de conteúdo.”

 

O estudante de direito Arthur Zaire, 18 anos, deixou as redes no dia das eleições, em outubro do ano passado. “Aquilo estava me fazendo muito mal e comecei a me preocupar com minha saúde mental”, ele conta. Arthur fez um detox digital de 17 dias e conta que, no começo, foi um choque, mas depois se acostumou. Logo, percebeu que tinha mais tempo para se dedicar aos trabalhos da faculdade e a hobbies, como a leitura. Após esse período, ele voltou para as redes, mas conta que está em fase de readaptação. “Hoje, passo cerca de duas horas por dia nas mídias sociais”, explica.

 

Segundo a professora Wilsa Maria, a melhor maneira de reavaliar o relacionamento com as redes sociais é se afastando por certos intervalos de tempo. “O mais interessante é se desconectar de tudo, voltar a ter um celular e não um smartphone”, sugere. Dessa maneira, é possível entender o porquê de se gastar tanto tempo rolando os feeds de notícias durante o dia e, assim, fazer um uso mais consciente dos aplicativos. “A máquina não pode te controlar.”

Viciados

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 64,7% da população tinha acesso à internet em 2016. A agência americana We Are Social divulgou um estudo feito em 2017, que mostrava que os brasileiros são o terceiro povo que mais usa a internet, em um total de nove horas diárias. Dessas, mais de três horas são dedicadas ao uso de redes sociais. Os brasileiros somavam 127 milhões de usuários ativos mensais no Facebook, em 2018, e 50 milhões, no Instagram, em 2017.

 

*Estagiária sob a supervisão de Flávia Duarte 

 

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