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Correio Braziliense

Entrevista: Ana Gehring, fisioterapeuta pélvica

Profissional por trás do "Vagina sem neura", um perfil no Instagram com mais de 180 mil seguidores, fala sobre como conhecer o próprio corpo é essencial para romper barreiras físicas e emocionais da sexualidade feminina


postado em 27/01/2019 10:00

(foto: Divulgação Vagina sem neura)
(foto: Divulgação Vagina sem neura)

 
Fisioterapeuta pélvica, Ana Gehring não gostava de redes sociais, e, portanto, não tinha nem perfil pessoal. Foi a experiência em consultório que fez com que visse a ferramenta como uma forma de divulgar informações. Criou, então, o Vagina sem neura, no Instagram. Uma conta para falar sobre seu trabalho e incentivar mulheres a se cuidarem e a perderem algumas neuroses sobre o próprio corpo e a sexualidade.

Ela já tem 180 mil seguidores, entre mulheres e até homens, que acompanham postagens sobre as especificidades do corpo e do prazer feminino. “Percebi que a maioria das pacientes chegava ao consultório muito cruas, sem saber direito fazer a higiene íntima, sem saber sobre a menstruação, sobre orgasmo, sobre prazer. Tinham muitas dúvidas. Então, quis informá-las porque muitas não conseguem nem pronunciar ‘vagina’ sem se sentirem constrangidas”, lamenta.

Em entrevista à Revista do Correio, a especialista fala sobre a importância da ginástica íntima, autoconhecimento e orgasmo. Confira:

Para que serve a fisioterapia pélvica?
Para a reabilitação da musculatura do assoalho pélvico, que dá sustentação ao útero, à bexiga e ao intestino. Também é responsável pela continência e tem função sexual. Quando essa musculatura está fraca, apresentamos disfunções, como perdas urinárias e fecais; queda de bexiga; baixa lubrificação; pouca ereção do clitóris e diminuição do prazer. Caso ela esteja muito tensionada, temos dificuldade para urinar, para evacuar e também há dor durante a relação sexual. A fisioterapia ajuda a trabalhá-la, tanto para ficar fortalecida quanto para ficar relaxada e coordenada. 

Você pode explicar alguns exercícios?
A gente tem basicamente exercícios de resistência: contraímos a musculatura e tentamos sustentá-la por alguns segundos. De agilidade, quando a gente contrai e solta, contrai e solta, repetidas vezes. E temos exercícios de coordenação, em que praticamos a contração em diferentes níveis de força: pouco, médio, forte e o relaxar. Toda avaliação e exercícios são individualizados. 

O pompoarismo é uma das formas mais conhecidas de fisioterapia pélvica. As mulheres, em geral, têm resistência em introduzir bolinhas? 
O pompoarismo surgiu há mais de 5 mil anos, derivado do tantra. A fisioterapia pélvica abraçou essa parte do pompoarismo, já que é um treinamento de musculatura de assoalho pélvico, mas não é necessário que as mulheres usem as bolinhas. A gente só usa em casos que exigem mais resistência e mais coordenação, mas existem acessórios menores, como os cones vaginais. As bolinhas têm cara de fetiche e, realmente, são muito grandes e difíceis de se colocar no canal vaginal. Hoje, temos opções mais anatômicas e mais tranquilas para iniciar a prática.

Depois da consulta, a mulher deve fazer os exercícios diariamente?
Na verdade, os deveres de casa não demoram muito tempo, porque é uma musculatura que fadiga rapidamente; então, os exercícios íntimos demoram 10 minutos por dia, 15, no máximo. Eles podem ser feitos no caminho do trabalho, por exemplo. É sempre melhor fazer pouquinho por dia do que não fazer, porque é uma musculatura que enfraquece e precisa de cuidado.

Como fisioterapeuta pélvica, você acaba também sendo um pouco terapeuta das pacientes?
Atendo a muitas queixas sexuais. As pacientes trazem informações que, muitas vezes, nunca dividiram com ninguém, nem com o parceiro. Às vezes, elas sentem muito mais dor do que o parceiro imagina, porque têm medo de serem diminuídas. As mulheres ficam mal por não conseguirem ter relação; então, fingem orgasmo e não contam para o parceiro.  

Nos últimos anos, cresceu a quantidade de cirurgias estéticas da vulva. Qual a sua opinião?
As cirurgias estéticas da vulva acabam sendo um brinde de outros procedimentos. As mulheres fazem uma lipoaspiração e o médico aproveita para fazer uma no monte de vênus, na região dos pelos, ou sugerem diminuir os grandes lábios “para ficarem bonitinho”. Geralmente, eu falo para minhas pacientes fazerem mudanças estéticas na vulva quando elas realmente estão insatisfeitas: se o pequeno lábio incomoda na calça jeans; se aparece muito no biquíni; se dói na relação porque são muito grandes. Mas, no geral, todas as vulvas têm suas particularidades e a gente deveria amá-las como são.

Por que as mulheres têm tantas “neuras” com o corpo e com a genitália?
As mulheres têm neuras porque a gente cresce ouvindo críticas da celulite, da gordura localizada, do odor da vagina. Então, a gente fica muito envergonhada. Também vemos muitos filmes pornôs, revistas eróticas, que sempre apresentam vulvas lindas, com virilhas perfeitas, sem pelos encravados. Então, não tem como não se sentir diminuída quando olha para si. Acho que é a questão da comparação e como a gente vê nosso parceiro se excitando quando vê um corpo maravilhoso.

Como incentivar as adolescentes a se olharem com mais carinho e a desenvolverem um relacionamento saudável com a própria sexualidade?
É preciso não podá-las na infância para isso não refletir na adolescência. É nessa fase que a criança começa a olhar a sua vagina;  a puxar os lábios; a lidar com a  masturbação. Geralmente, o primeiro orgasmo acontece no início da adolescência. Além disso, muitas mães não falam sobre a chegada da menstruação. Elas precisam estar mais receptivas sobre o tema e não apavorar as filhas como frases do tipo: “Não encosta no seu parceiro, senão você vai engravidar”. Porque isso, com certeza, só fecha a mulher.

Uma pesquisa do Projeto Sexualidade (Prosex), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) identificou que cerca de 56% das brasileiras nunca tiveram um orgasmo. A que você atribui isso?
Eu acho que até mais mulheres nunca tiveram o orgasmo e isso acontece porque a gente não é estimulada a se masturbar. Atribuo ainda à repressão que a gente vive na infância e na adolescência, à privação e à castração que, muitas vezes, temos do nosso parceiro, que não quer que a gente exalte nossa sexualidade. Muitas mulheres têm vergonha de se tocar na frente dele e, muitas vezes, ele não aceita muito bem que ela se masturbe durante o sexo. Sem isso, é raro uma mulher ter orgasmo, já que, normalmente, os orgasmos são clitorianos. 

Você acha que as barreiras para essas mulheres são mais físicas ou emocionais?
Ambas. No consultório, muitas mulheres chegam com o assoalho pélvico fraco, sem uma boa lubrificação. A relação acaba sendo dolorosa e ela se sente para baixo. O emocional também é muito importante: se uma mulher está com medo de fazer sexo, se ela se priva de ter sensações ou de exaltar a sexualidade  por medo de ser taxada de puta ou algo assim, com certeza isso vai atrapalhar a resposta sexual.

Como elas podem resolver esse problema?
Primeiro passo é estar tranquila consigo mesma, com sua sexualidade; conhecer sua vagina; saber do seu gosto; do seu cheiro; das suas preferências; ler mais. Acho que informação é a base de tudo. E também ter uma conversa tranquila e plena com o parceiro, ou com as próximas pessoas que surgirem, para mostrar do que e como gosta.

Por que em vez de conversar, aceitar que talvez aquele dia elas não vão chegar lá, as mulheres acabam fingindo o prazer?
O que acontece é que muitas vezes o parceiro diz “goza pra mim” e fica naquela pressão. Aí, o gozo não vem mesmo. Às vezes, o parceiro só está esperando ela para gozar também. Ou a mulher não aguenta e finge para acelerar a relação que já está demais, já que ela se desconcentrou e não quer mais.

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