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Correio Braziliense

A arte Drag Queen encanta e cresce cada vez mais em Brasília

Não importa se homem ou mulher. Ser drag queen é assumir um personagem. É exagerar e transformar a identidade feminina em manifestação artística e atitude revolucionária pela liberdade de representar


postado em 28/01/2019 16:18 / atualizado em 28/01/2019 16:50

Ursula, em cenário da Victoria Haus (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Ursula, em cenário da Victoria Haus (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

No camarim do palco “Pop” da boate Victoria Haus, conhecida pelas mais badaladas festas LGBTQI+ da cidade, Gustavo Vila Nova Lorenzo, de 22 anos, dava os últimos retoques da sua maquiagem drag. O estudante de arquitetura se apresenta na casa nos fins de semana. É quando ele se transforma em Ursula Zimova, uma drag burlesque e gourmet. De peruca loira, barba platinada para combinar e maquiagem rosa, Ursula domina o palco e faz sua apresentação.

Gustavo assumiu seu primeiro personagem em uma festa de Halloween, em 2017, quando se fantasiou de Malévola, a vilã da Disney. Depois disso, começou a se montar mais e a frequentar a cena drag da cidade. Experimentou maquiagens e looks diferentes e foi assim que Ursula surgiu. A barba é seu diferencial. “Acredito que não preciso mudar meu corpo para assumir uma outra personalidade”, completa.

Segundo a psicóloga Isabel Amora, que atende no ambulatório de gênero do Hospital Universitário de Brasília, drag queen não é orientação sexual nem identidade de gênero, mas, sim, uma expressão artística. As performances de drag têm o intuito de provocar reflexões sobre o que é ser mulher e ser homem, e sobre as expressões de gênero. E vários são os motivos que podem levar a pessoa a se experimentar nesse papel. Desde questões laborais até mesmo para ajudar no processo de significação de si próprio. Afinal, representar o outro sexo implica processos de identificação daquele sujeito.

Os homens são os que mais perfomam. “A construção de uma figura exageradamente feminina num corpo de homem permite mais esse estranhamento, sendo uma paródia da feminilidade”, explica Tatiana Lionço, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília. Mas nada impede as mulheres de experimentarem. As drags são marcadas, muitas vezes, pelo comportamento caricato, que envolve tanto maquiagem, quanto dança, vestimenta e fala. “Mas homem que faz drag queen não vive como mulher, apenas a assume no momento da apresentação”, esclarece a psicóloga.

Em 2018, Gustavo participou do reality show Drag Race, do perfil Pop Up Drag, no Instagram, e do concurso de drags da casa noturna Victoria Haus. Todo dinheiro que ganha nos shows reinveste em Ursula, seja na compra de perucas novas, figurino, maquiagem, seja em aulas de dança, como stiletto, uma modalidade feita em cima de um salto alto. Maquiado e com a peruca, Gustavo fica irreconhecível.

Ele é quem faz todos os adereços para Ursula. “A gente trabalha com o que tem, né?”, diz, sorrindo. Em um primeiro momento, o futuro arquiteto usava roupas e maquiagens da mãe, das tias e da avó, que sempre o apoiaram. Depois, com o aumento da demanda de shows, começou a investir nas próprias peças. Os penteados nas perucas e as makes coloridas e brilhantes ele aprendeu a fazer assistindo a vídeos do Youtube. “Ursula é uma drag com requinte”, define.

 

Ver galeria . 9 Fotos Ursula Zimova se maquiando Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press
Ursula Zimova se maquiando (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press )
 

Dicionário de conceitos

Drag Queen: expressão artística em formato de perfomance de paródia da feminilidade.
Homossexual: Pessoa que se sente atraída física e afetivamente por pessoas do mesmo sexo.
Cisgênero: Aquele que se identifica com o sexo biológico.
Sexo biológico: É definido pelos genitais e sistema reprodutivo.
Transgênero: Define indivíduos que não se identificam com o sexo biológico e o gênero designado ao nascer.
Identidade de gênero: Como a pessoa representa a si mesma e reivindica reconhecimento social em termos de gênero: homem, mulher, travesti, transexual ou não binário.
Orientação Sexual: Definida de acordo com o sexo da pessoa que desperta interesse sexual e afetivo.

A arte drag e o teatro

Tudo começou na Grécia Antiga, com o surgimento do teatro. As mulheres não podiam interpretar, logo, os homens se vestiam  e atuavam como figuras femininas. Em seguida, vieram os crossdressers, homens que se vestiam de mulher sem que isso tivesse qualquer ligação com a orientação sexual.

O professor de filosofia da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisador de teatralidade e cultura Paulo Petrolinio explica que os homens fantasiados como figuras femininas sempre foram encarados dentro do cenário da arte e, por isso, vê como injusto o atual preconceito sofrido pelas drags, que estão simplesmente vivendo uma personagem.

Para Paulo, a arte drag embaralha os termos da heteronormatividade e desafia o conceito binário em que vivemos.

“Ela está em um entrelugar, subverte a identidade fixa. Não está nem lá, nem cá, e isso tem uma forma revolucionária”, afirma.

A drag traz o exagero, por mais feminina que seja, não se confunde com a mulher dentro do normativo”, ressalta o pesquisador. “É arte, ela não vive assim. Se monta e desmonta e esse conceito é fundamental. Nos tempos sombrios em que vivemos, em que a arte e a liberdade estão ameaçadas, as drags surgem como revolucionárias. Com o riso e o deboche, nos fazem enfrentar e superar.”

 

O glamour da nova vida

“Não conseguia sorrir, vivia em um mundo cinza e muito triste. De repente, tudo brilhou, tudo coloriu e eu sorri de verdade pela primeira vez em mais de um ano.” É assim que Dennys Bernardo, 33 anos, descreve seu primeiro contato com o mundo drag.

Pikineia arrasa no carão (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Pikineia arrasa no carão (foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

Há seis anos, Dennys descobriu a si mesmo em Pikineia. A revelação de seu alter ego drag queen surgiu de uma forma inesperada e mudou a vida do rapaz, que, atualmente, trabalha como gerente e apresentador de palco de uma boate LGBTQI . E vai sempre montado.

Foi nesse lugar, em meio às luzes hipnotizantes e à música alta e contagiante, que Dennys desejou pela primeira vez fazer parte do universo drag.

Em 2011, ele perdeu a mãe e passou por um longo processo de luto. Não saía mais de casa e era difícil encontrar alegria nas pequenas coisas. Em uma noite, amigos insistiram para que Dennys os acompanhasse em uma festa e foi ali que conheceu Aretuza Lovi (artista que virou sucesso e até já gravou música com Pabllo Vittar.) “Ela ainda não era tão famosa e eu me apaixonei por aquela personagem”, lembra.

Encantado com a drag, Dennys, que nunca tinha se montado na vida, resolveu participar de um concurso de drags só para estar mais perto de Aretuza. A maquiagem exagerada, as perucas coloridas e a performance empolgante o contagiaran de vez. Naquela noite, Dennys dançou e, pela primeira vez, fez parte de um espetáculo drag.

A fascinação só aumentou. E Pikineia, sua personagem, ganhou vida e se tornou assistente de palco da diva Aretuza. “Foi uma loucura! Eu não sabia me montar e tive que descobrir o que era ser drag da noite para o dia. Mas, ao mesmo tempo, foi ali que eu me descobri”, lembra.

Foi uma longa transição até encontrar a real identidade de Pikineia, de uma drag caricata para uma mais feminina e sensual. Hoje, Dennys tem na arte drag a sua fonte de renda principal. Entre os principais desafios estão a maquiagem e os altos custos com os adereços. “Sou uma das poucas drags que ainda não sabe se maquiar sozinha. Eu tenho um maquiador que sempre me acompanha”, conta.

Além disso, há os gastos com sapatos, roupas e perucas, que costumam ser dispendiosos. Há pouco tempo, Pikineia passou a investir também na carreira musical e já gravou três funks. Ela acredita que a música Acessível, lançada no início de janeiro, tem tudo para ser hit no carnaval brasiliense.

Outro projeto é se tornar apresentador de televisão. Um dia Piki, como é conhecido pelos amigos, poderá chegar lá. Afinal, Dennys acredita que ela é um presente de Deus por meio da qual pode realizar sonhos.

Para Dennys — ou Pikineia, tanto faz —, o ato de se montar representa pura resistência. “A gente dá muito a cara a tapa. Eu, com um microfone, à frente de uma casa noturna, me vejo com uma imensa responsabilidade de estar ali para minha comunidade.”

Dennys é gay, mas acredita que arte drag não é exclusiva ao mundo LGBTQI . “Existem homens e mulheres que fazem drag por hobbie ou como profissão. Qualquer pessoa pode ser uma, é só ter vontade.”

Pabllo Vittar

(foto: Quase Famosos/Divulgação)
(foto: Quase Famosos/Divulgação)
 

A cantora drag Pabllo Vittar, responsável por vários hits como Sua Cara, Todo Dia e Problema Seu, é a drag queen mais seguida do mundo no Instagram, com mais de 7 milhões de admiradores. Um dos artistas pop mais famosos da atualidade, Pabllo se tornou um ícone gay no Brasil nos últimos anos.

RuPaul’s

O reality show americano RuPaul’s Drag Race, apresentado pela famosa drag queen que dá nome à atração, é um dos responsáveis por disseminar a arte drag na cultura pop. Fenômeno nas redes sociais e de público, o programa tem provas de dança, dublagem e figurino, durante as quais as drag queens competem entre si. RuPaul’s Drag Race tem nove temporadas disponíveis na Netflix, além de uma especial, a RuPaul’s Drag Race: All Stars, da qual participam as vencedoras das últimas temporadas.

RuPaul(foto: Vh1/Divulgação )
RuPaul (foto: Vh1/Divulgação )
 

 

Dona do mundo conquistando Brasília

Estrela em ascensão na cena brasiliense, Carrie Myers brilha nos palcos de Brasília. Certa vez, Ítalo Matheus Lustosa, 23 anos, criador de Carrie, participou de uma festa em uma boate da cidade. Fez tanto sucesso que foi chamado para trabalhar formalmente no espaço.

Hoje, faz shows quinzenais, que lotam a casa noturna. Tudo começou quando o rapaz tinha 17 anos e resolveu se maquiar de brincadeira com um amigo. “Ele disse que achava que combinava com meu rosto e resolvemos nos montar. Amamos e decidimos que precisávamos fazer aquilo mais vezes”, lembra.

Logo em seguida, a balada brasiliense Espaço Galeria fez um concurso para drag queen e, se apresentando como Carrie Myers, Ítalo venceu e foi contratado. Assim, a arte drag tornou-se profissão antes mesmo que ele tivesse parado para pensar o que queria ser quando “crescesse”.

Ele só não imaginava que poderia viver de algo que considerava apenas brincadeira no início, ainda que tenha sido arrebatado pelo sentimento de pertencimento que se montar lhe trouxe. “A gente se sente dono do mundo, eu não sei explicar. Foi isso que senti quando me vi no espelho montada pela primeira vez”, conta. E, para Ítalo, o padrão é o “não padrão”.

Carrie Myers mostra seu lado mais feminino (foto: Filipe Batista/Divulgação)
Carrie Myers mostra seu lado mais feminino (foto: Filipe Batista/Divulgação)

Ser drag, em suas palavras, é a própria quebra de todos os preconceitos e não tem definição fechada. “Você pode ser tudo. Eu não consigo definir a Carrie porque posso ser o que eu quiser. Vai muito além de um ato político, é resistência. Só a gente sabe o que encara todo dia saindo na rua de salto, maquiagem e peruca”, completa.

 Apesar de a arte drag ainda não ser reconhecida nem regulamentada como outras representações artísticas, Carrie se considera otimista com o cenário brasiliense. Ela explica que, há alguns anos, a cidade não tinha uma cena drag expressiva e que já houve muita exclusão, mas, hoje, é possível ver performances em diversas baladas, seja hétero, seja LGBTQI .

O distrito delas

Brasília ganhou, há dois anos, um grande aliado na luta pela valorização, desmarginalização e profissionalização da expressão artística drag queen. O coletivo Distrito Drag reúne 49 performers com o objetivo de difundir a arte drag e a cultura LGBTQI ; além de valorizar essa forma de expressão e de oferecer melhores condições de trabalho aos profissinais.

O Distrito Drag ainda oferece oficinas e debates sobre diversos temas, especialmente, sobre o mercado de trabalho. Falta regularização da profissão e, na maioria das vezes, as condições de trabalho e o pagamento ficam a critério dos contratantes. “É um processo de conscientização importante para todas nós, de nos valorizarmos e agregarmos valor e o cunho político da nossa arte”, afirma Maria Rojava, coordenadora do coletivo.

A drag queen reforça a importância de existir uma associação que valorize, debata e busque soluções voltadas para artistas da cidade e que levante bandeiras contra todos os preconceitos. Maria ressalta que, embora esteja quase 100% dentro da comunidade LGBTQI , a cultura drag não se limita a ela. “Todo mundo pode fazer. É importante reforçar que se trata de uma expressão artística que independe da orientação sexual e da identidade de gênero.”

Apesar de existirem muitas festas e boates nas quais as drags trabalham, Maria explica que existe a necessidade de colocar as artistas em evidência à luz do dia. Uma dessas iniciativas é o Calendrag, um calendário que exibe, a cada mês, uma drag de Brasília. “Queremos mostrar que a drag não é só no palco da boate, mas em todos os espaços, como universidades, shoppings, teatros”. Além dos figurinos extravagantes, muitas profissionais incorporam outras formas de arte em suas performances, como o canto, a dublagem, a dança e até mesmo uma espécie de stand-up. “Trata-se de você criar uma personagem, que tem uma identidade própria e toda sua história”, completa Maria.
               
*Estagiária sob a supervisão de Flávia Duarte                                                                                                                                                                                                                    

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