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Correio Braziliense MODA

Entenda por que os anos 90 são a tendência da vez

Saiba de onde vem o saudosismo pela década e qual a relevância dela no guarda-roupa atual


postado em 10/02/2019 07:00

Desfile de Marc Jacobs para Perry Ellis, em 1993(foto: Arquivo Condé Nast )
Desfile de Marc Jacobs para Perry Ellis, em 1993 (foto: Arquivo Condé Nast )

Não à toa, a moda dos anos 1990 foi o terceiro assunto mais procurado no Google em 2018. Neste ano que acaba de começar, a conversa continua e as tendências se prolongam pelo streetwear, no Brasil e no mundo. A década em questão é carregada de história, de diálogo e de oposição — já que a estética minimalista das roupas quebra o cromatismo saturado dos anos 1980, bem como seus exageros em lycra e de ombreiras femininas.

 

Márcio Banfi, professor de styling, de fotografia de moda e coordenador em styling e imagem de moda na pós-graduação da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, frisa que o foco principal dos anos 1990 era o jovem. A ascensão de estilistas, como o austríaco Helmut Lang e o belga Martin Margiela, referências dessa década, facilitou o diálogo com essa juventude, que gritava por radicalidade e agia com certa rebeldia na forma de se vestir e de se comportar.

 

O grupo de estilistas europeus formado por Dries van Noten, Walter van Beirendonck, Ann Demeulemeester, Dirk van Saene, Dirk Bikkembergs e Marina Yee, mais conhecidos como os Seis da Antuérpia (Margiela ficou fora da turma), entrou em cena com um campo de tendências inovadoras e desestabilizadoras, como lembra o professor, doutor em teoria e história da arte e curador independente Marco Antônio Vieira.

 

“Eles foram influenciados pelos japoneses, principalmente por Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo, que introduziram a moda andrógina. Os belgas levaram isso para a frente”, explica Vieira. Eles apresentaram suas coleções na Inglaterra, em 1988, e precursionaram uma moda que se contrapôs ao passado e previu o futuro — com visuais mais fluidos, a partir da força dos movimentos genderbender e genderless

Dicionário

O conceito genderbender (ou além-gênero) traduz a fusão, ou a confusão, de gêneros nas roupas. Implica uma usabilidade recíproca dos usuários em peças pensadas para além da prisão histórica dos esteriótipos masculino e feminino. Já o termo genderless rompe com o binarismo masculino/feminino, homem/mulher. Propõe, por exemplo, que uma saia feminina possa ser usada por um homem e vice-versa. É um conceito mais recente que se aproxima de teorias de gênero contemporâneas de autores como Judith Butler e Marie Hélène/Sam Bourcier. 

 

A alfaiataria desconstruída apresentada no outono da Versace, em 1997, remete à estrutura da década de 1980, porém com um olhar futurista e, sobretudo, andrógino: característica principal dos anos 1990.(foto: Arquivo Condé Nast )
A alfaiataria desconstruída apresentada no outono da Versace, em 1997, remete à estrutura da década de 1980, porém com um olhar futurista e, sobretudo, andrógino: característica principal dos anos 1990. (foto: Arquivo Condé Nast )
 

A moda noventista também marcou a história por refletir o trauma pós-eclosão da Aids, com um estilo chamado heroin chic, em que as modelos apresentavam uma magreza extrema e uma impressão desnutrida. O estilo grunge aproveitou aquele momento para dialogar com o auge das bandas Pearl Jam e Nirvana, trazendo uma estética descomplicada, ou até desleixada, em comparação às décadas anteriores.

 

No Brasil, Vieira reforça que a moda brasileira tomou fôlego nos anos 1990 por causa da cena clubber paulistana e do Phytoervas Fashion, que deu origem à São Paulo Fashion Week – a maior semana de moda da América Latina. Ali, ganhavam destaque nomes como Alexandre Herchcovitch, Lorenzo Merlino e a extinta Escola de Divinos.

Karl Lagerfeld foi um dos primeiros estilistas de maisons clássicas a entender que a cultura pop também pautava a moda. No desfile do verão de 1994, o estilista combinou a bermuda, o suspensório e os patins.(foto: Arquivo Condé Nast )
Karl Lagerfeld foi um dos primeiros estilistas de maisons clássicas a entender que a cultura pop também pautava a moda. No desfile do verão de 1994, o estilista combinou a bermuda, o suspensório e os patins. (foto: Arquivo Condé Nast )

Das ruas às passarelas 

Desfile de Marc Jacobs para Perry Ellis, em 1993(foto: Arquivo Condé Nast )
Desfile de Marc Jacobs para Perry Ellis, em 1993 (foto: Arquivo Condé Nast )

Um episódio emblemático na história da moda foi quando o estilista Marc Jacobs, ainda no comando da direção criativa da marca Perry Ellis, em 1993, interpretou o streetwear e o colocou, fielmente, na passarela. A tal coleção de primavera/verão foi definida como “infame”, medonha e inapropriada, nas palavras da crítica da época. O próprio Perry Ellis demitiu Jacobs após o episódio.

 

O fato é que Jacobs fez algo inédito: em vez de pautar a sociedade com suas ideias, a sociedade o pautou. O que antes era um processo vertical, em que o estilista impõe uma tendência ou um estilo, Jacobs colocou em prática um sistema horizontal, onde a rua tem vez e voz para ditar tendências. Hoje, tradução da dinâmica dos processos criativos na indústria da moda contemporânea.

 

 

*Estagiária sob a supervisão de Flávia Duarte

 

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