Publicidade

Correio Braziliense ESPECIAL

Introdução alimentar: conheça os métodos e escolha o seu

Muitos pais têm dúvidas sobre que técnica adotar para introduzir a alimentação nos bebês. O BLW faz sucesso, principalmente entre papais e mamães de primeira viagem. Conheça os prós e contras


postado em 17/02/2019 08:00 / atualizado em 17/02/2019 10:42

(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Com a boca meio aberta e uma expressão de curiosidade, Maria Clara estende as mãozinhas para tentar pegar um pedaço de brócolis. Ela leva o vegetal à boca e o encaixa até conseguir sentir o sabor. Sem dentes, usa as gengivas para amassar o alimento e engolir pedaços menores. Sorrindo e fazendo bagunça, vai pegando um pedaço de cada vez, descobrindo cada um.

Com seis meses, Maria Clara Marinho Souza se adaptou perfeitamente ao método de introdução alimentar BLW (hipertexto). Apesar de não ser exatamente uma novidade, a técnica está bombando nas redes sociais, com diversos perfis que dão dicas e publicam vídeos cheios de fofuras de bebês aprendendo a comer. O sorriso e a expressão de surpresa ao provar um novo sabor e a bagunça dos pequenos, que ficam sujos de comida da cabeça aos pés, chamam a atenção e são sucesso garantido entre papais e mamães, especialmente os mais jovens.

Mãe de primeira viagem, a professora Sarah Marinho Souza, 25 anos, começou a pesquisar sobre introdução alimentar quando a filha estava com 4 meses. Ela conheceu o BLW pela internet e confessa, entre risos, a primeira coisa que chamou a atenção: “Quando vi os bebês comendo sozinhos os pedaços de comida, achei a coisa mais fofa do mundo”, lembra.

Depois da empolgação inicial, a pesquisa continuou e Sarah descobriu vantagens que a atraíram ainda mais para a introdução alimentar guiada pelo próprio bebê. Engenheira de alimentos do Empório da Papinha, Mariane Lani diz que cada vez mais estudos são feitos sobre o método, que passou a ser muito recomendado por nutricionistas. Entre as principais vantagens, ela destaca o desenvolvimento motor do bebê, que, ao pegar e tocar alimentos de diversas texturas, vai exercitando os movimentos das mãos, inclusive o da pinça.

Mariane acrescenta que, quando o alimento é oferecido individualmente e não misturado em papinhas, fica mais fácil identificar alergias e intolerâncias. Ela afirma ainda que a interação com a comida traz benefícios psicológicos relacionados à independência e à autonomia.

Cuidado materno

Sarah cozinha os alimentos, faz os cortes adequados e observa a filha comer de acordo com a vontade e o ritmo dela. Para a jovem, estimular a autonomia de Maria Clara, começando pela introdução alimentar, é uma das formas de garantir que a filha seja confiante e segura de si. “Sabemos que eles não ficam para sempre com a gente. Precisam ser independentes, não ser facilmente influenciáveis e saber se virar sozinhos quando chegar a hora”, afirma.

Atualmente, Maria Clara faz quatro refeições. O lanche da manhã, entre as 8h30 e as 9h; o almoço, entre as 11h e as 12h; o lanche da tarde, às 14h30; e o jantar, às 17h. As duas primeiras são em casa e com o método BLW. No período da tarde, come pedacinhos de fruta e toma sopa, na creche. “No jantar, eles preparam sopa para facilitar, seria inviável fazer o BLW com todas as crianças”, explica Sarah.

Na amamentação, a professora oferece livre demanda, mas Maria Clara tem uma rotina de mamar a cada três horas e em horários próximos às refeições sólidas.

Prontos para comer

Em linhas gerais, a introdução alimentar consiste na inclusão de alimentos na dieta do bebê em complemento ao leite materno. O processo conta com diversas orientações, tanto da Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto das associações de pediatras, nutrólogos e nutricionistas. Para a OMS, a introdução alimentar só deve ser iniciada a partir dos 6 meses de idade e se o bebê conseguir se manter sentado com autonomia.

Elza Mello, nutróloga pediátrica da Associação Brasileira de Nutrologia, ressalta que é fundamental, independentemente da idade, que a criança já tenha desenvolvido o tônus cervical, firmando a cabeça e o pescoço. Isso garante que o bebê consiga engolir sem se engasgar. “Alguns bebês prematuros desenvolvem mais tarde, enquanto outros se firmam a partir dos 5 meses.”

Apesar da recomendação dos 6 meses, muitas famílias, com o fim da licença-maternidade, se veem obrigadas a oferecer alimentos sólidos antes. Esse foi o caso de Sarah, que iniciou a introdução alimentar de Maria Clara aos 5 meses porque voltaria ao trabalho e a filha começaria a frequentar a creche.

Os profissionais explicam que, desde que o processo seja feito com acompanhamento médico adequado, isso pode ocorrer sem problemas. Sarah, antes de iniciar, obteve o aval do pediatra e da nutricionista de Maria Clara, que avaliaram que a criança contava com os reflexos e o tônus necessários.
 
 

O ideal, segundo os profissionais, é esperar os 6 meses, mas, quando não é possível, eles recomendam que sejam observados os seguintes aspectos: a criança senta sozinha? Consegue posicionar a cabeça? Tem o movimento da língua que possibilita a deglutição e a mastigação? Elza explica que, caso ela não tenha ainda essa condição, os riscos de engasgo aumentam consideravelmente, não sendo permitido o início da introdução alimentar. 

Pelas mãos do bebê
A sigla vem do nome em inglês Baby Led Weaning (BLW), que pode ser traduzido livremente como desmame conduzido pelo bebê. O método consiste na oferta de alimentos complementares em pedaços, tiras ou bastões. Há controvérsias sobre a técnica, devido ao risco de engasgo e, a depender de como o bebê se alimenta, da baixa oferta de ferro e calorias.
 
 

Mix sem carne

(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
A alegria de Luiz Felipe Azevedo Pedroso, 3 anos, correndo pela casa e empolgado para ir ao jardim pegar manjericão, e o interesse de Emanuel Azevedo Pedroso, 1 ano, pela equipe de reportagem durante a entrevista, engatinhando por todo o sofá e abraçando a gata de estimação, refutam de uma vez por todas a tese de que crianças que não comem carne não têm energia.

Os meninos têm pais vegetarianos e, desde o início da introdução alimentar, nunca tiveram contato com nenhum tipo de carne. A professora Danielle Silva Azevedo, 35 anos, se tornou vegetariana em 2010, com a ajuda do marido, o tatuador Leandro Augusto Pedroso, 38, que deixou de comer proteína animal aos 17 anos.

Danielle conta que já tinha o desejo e, com o hábito do marido, conseguiu se adaptar. Aos poucos, a mãe dela também aderiu à dieta sem carne e, quando o primeiro filho nasceu, o natural para a família foi educá-lo da mesma forma.

Danielle conta que, no início da introdução alimentar de Luiz Felipe, a pediatra foi contra e queria oferecer proteína animal, mas a família se recusou. Para garantir a nutrição adequada do primogênito, Danielle e Leandro buscaram profissionais especializados e seguiram fazendo uma mistura do método BLW e do tradicional — técnica repetida hoje com o mais novo.

A mistura dos métodos foi o ideal para a família, por conta da praticidade. Danielle afirma que nem sempre eles têm tempo de fazer o BLW e que, no início, Luiz Felipe teve um pouco mais de dificuldade em se adaptar ao método e se acostumar a comer sozinho. Mas a família adere à técnica sempre que pode.

No almoço, por exemplo, momento em que toda a família consegue se reunir para comer, Danielle e Leandro se revezam para alimentar Emanuel na boca. O momento é especial, tanto que investiram em uma mesa grande. “É quando conseguimos juntar a família toda, muito importante para nossa união. Mas, como é antes da escola e do trabalho, precisamos agilizar e não dá tempo de deixá-lo comer sozinho”, explica a professora.
 
 

Necessidades supridas


Para suprir as necessidades de proteína e ferro dos filhos, Danielle e Leandro sempre oferecem feijão, grão-de-bico, lentilha e vegetais verde-escuro, entre outros. O estilo de vida segue a linha mais saudável possível. As crianças nunca tomaram refrigerantes e Luiz Felipe, de vez em quando, tem autorização para chupar um pirulito. “Ele não gosta muito de doce, então dura o dia todo. Vez ou outra, deixamos comer chocolate sem recheio e sem nada extra”, detalhe Danielle.

Kelly Luchtemberg Ferro, nutricionista clínica funcional, explica que o processo de introdução alimentar de pais veganos e vegetarianos é o mesmo dos carnívoros. Para todos, é importante investir na variedade de cores e sabores, mas é necessário ter uma atenção maior no que diz respeito à ingestão de nutrientes específicos, como vitamina B12 e ferro. A profissional ressalta ainda que não existe relação de maior deficiência nutricional em bebês que não comem carne, uma vez que a alimentação é complementar e não a principal fonte de nutrientes.
  

Introdução segura 

• Alimente o bebê devagar e pacientemente. Encoraje-o a comer, mas não o force. Fale com a criança e mantenha contato visual.
• Pratique a boa higiene e o manuseio adequado dos alimentos.
• Comece aos 6 meses com pequenas quantidades de comida e aumente gradualmente à medida que a criança cresce.
• Aumente gradualmente a consistência e a variedade dos alimentos.
• No caso do BLW, alimentos redondos e pequenos não são indicados no início. E ntre eles, amendoim, uva-passa, uva inteira, pipoca, sementes, castanhas.
• Aumente o número de vezes que a criança é alimentada: de duas a três refeições por dia, para bebês de 6 a 8 meses, e de três a quatro, para crianças de 9 a 23 meses, com um a dois lanches adicionais, conforme necessário.
• Não ofereça açúcar até os 2 anos de idade, não faça uso de sal nem oferte suco (mesmo naturais), leite e derivados até 1 ano.

Apreciador de frutas

(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Barbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
Há um mês no processo de introdução alimentar, José Carvalho de Souza Teixeira Raposo, 7 meses, já demonstra suas preferências. Não come abacate, uma das frutas preferidas da mãe, de jeito nenhum e tem interesse por melancia, banana e por frutas mais exóticas, como graviola.

O mingau de aveia com banana também faz sucesso com Zeca, como é chamado pelos pais. E, entre os salgados, o feijão é o vencedor. A designer Daisy Barros de Carvalho, 34 anos, e o biólogo João Marcelo de Souza Teixeira, 35, aproveitam para colocar o caldinho em diversos alimentos e estimular o paladar do filho.

Pais estreantes, o casal conta que o processo foi mais difícil do que haviam pensado, o que fae com que investissem em um método misto. “Eu tinha a expectativa de que seria mais fácil. Ele nem sempre pega a comida por conta própria, mas estamos indo aos poucos. O que ele demonstra querer pegar, deixo que coma com a mão”, conta Daisy.

A introdução de Zeca começou completa: com frutas, carne, verduras e carboidratos. Daisy conta que dá preferência aos alimentos orgânicos e às frutas colhidas no pé, que, por sinal, são as que Zeca mais consome por conta própria. Os pais oferecem na mão do bebê ou deixam na mesinha para que ele escolha os pedaços.


Praticidade e autonomia


João Marcelo é o cozinheiro da família e, uma vez por semana, prepara as papinhas e congela em pequenos potinhos, deixando tudo pronto para Zeca. A amamentação continua com livre demanda, com exceção de três horas que Daisy passa no estúdio trabalhando. No início, o filho a acompanhava no trabalho, mas, depois do terceiro mês, se tornou muito ativo e precisou ficar em casa.

No período que não tem acesso ao leite, não costuma sentir falta, pois é o momento da manhã em que come frutas. Daisy conta que volta para dar o almoço ao filho, mas, de vez em quando, espera que ele coma para retornar à casa. “Ele faz corpo mole quando está comigo, quer na boca. Quando não estou, ele come com mais autonomia. Então, algumas vezes, espero para que ele tenha esse momento.”

Sobre a resistência ao abacate, a designer garante não ter desistido ainda e conta que leu em algum lugar que, antes de decidir que não gostamos de um alimento, precisamos experimentá-lo de sete formas diferentes. “Estou nesse processo de ir apresentando a ele, mas ainda não funcionou”, conta, aos risos.


Reflexo de proteção


Comumente confundido com um engasgo, o GAG é um reflexo de proteção do bebê das vias aéreas, um mecanismo natural para expulsar elementos identificados como perigosos. De acordo com a nutricionista clínica funcional Kelly Luchtemberg Ferro, como o corpo do bebê ainda não está habituado a alimentos sólidos, pode expulsar pedaços maiores e até mesmo a comida pastosa no início da introdução.

O reflexo nos bebês de 6 meses é mais distante das vias aéreas, quando comparado a uma criança mais velha, de 1 ano, por exemplo, diminuindo assim o perigo de engasgo, pois, antes que esse se torne um perigo, ocorre o GAG.

O engasgo é a obstrução parcial ou total das vias aéreas e pode acontecer com as papinhas e com os pedaços de alimentos. Segundo Kelly, uma das vantagens do BLW é que, praticando desde cedo o contato com alimentos sólidos, o bebê tem mais autonomia e destreza para se alimentar.


Sugestão de alimentos


Confira a dica de profissionais de nutrição para usar na introdução alimentar, com base no Manual de Alimentação da Sociedade Brasileira de Pediatria.

• Cereais e tubérculos 
Arroz
Milho
Macarrão
Batata
Mandioca
Inhame
Cará
Farinha de trigo
Aveia

• Leguminosas
Feijão
Soja
Ervilha
Lentilha
Grão-de-bico

• Proteína animal
Carne bovina
Vísceras
Carne de frango
Carne suína
Carne de peixe
Ovos

• Hortaliças
Alface
Couve
Repolho
Tomate
Abóbora
Cenoura
Pepino

Cronograma 


O que o Manual de Alimentação da Sociedade Brasileira de Pediatria orienta sobre a introdução alimentar tradicional
 
• Até o 6º mês — Aleitamento materno exclusivo
• Do 6º ao 24º mês — Leite materno complementado
• 6º mês — Frutas (amassadas ou raspadas)
• 6º mês — Primeira papa principal de misturas múltiplas
• Do 7º ao 8º mês — Segunda papa principal de misturas múltiplas (mais consistente que a primeira)
• Do 9º ao 10º mês — Gradativamente passar para a refeição da família, com ajuste de consistência
• 12º — Refeição da família, observando a adequação dos alimentos

Dez passos para uma dieta saudável 

1 - Apenas leite materno até os 6 meses, sem oferecer água ou quaisquer outros alimentos.

2 - A partir dos 6 meses, introduzir lenta e gradualmente outros alimentos, mantendo o aleitamento materno até os 2 anos de idade ou mais.

3 - Após os 6 meses, dar alimentos complementares (cereais, tubérculos, carnes, leguminosas, frutas e legumes) três vezes ao dia se a criança receber leite materno e cinco vezes se estiver desmamada.

4 - A alimentação complementar deverá ser oferecida sem rigidez de horários, respeitando a vontade da criança.

5 - A alimentação complementar deve ser espessa desde o início e oferecida com colher. É recomendado aumentar, gradativamente, a consistência.

6 - Oferecer à criança diferentes alimentos todos os dias. A alimentação variada é, também, colorida.

7 - Estimular o consumo diário de frutas, verduras e legumes nas refeições.

8 - Evitar açúcar, café, enlatados, frituras, refrigerantes, balas, salgadinhos e outras guloseimas nos primeiros anos de vida. Usar sal com moderação.

9 - Cuidar da higiene no preparo e manuseio dos alimentos e garantir armazenamento e conservação adequados.

10 - Estimular a criança doente e convalescente a se alimentar, oferecendo a alimentação habitual e os alimentos preferidos e respeitando sua aceitação.

Fontes: Ministério da Saúde/Organização Pan-Americana da Saúde (MS/OPAS) e Sociedade Brasileira de Pediatria.


BLW x Método tradicional 


Para a nutricionista clínica funcional Kelly Luchtemberg Ferro, o processo de introdução alimentar vai além do ato de comer e, por isso, é um momento tão importante na vivência do bebê. “É uma fase de novidade para o organismo, incluindo a parte sensório-motora. É conhecer um novo mundo com todos os sentidos: tato, olfato, audição, visão e, por fim, paladar.”

Considerando a importância da introdução alimentar, Kelly costuma recomendar o método BLW ou uma combinação entre o tradicional e o guiado pelo bebê. O tradicional consiste em comida amassada no garfo, com ingredientes in natura separados ou misturados uns aos outros e oferecidos ao bebê com o talher, podendo ou não, a depender da idade, ter pedaços maiores para a estimulação sensorial.

A pediatra Nathália Sarkis, do Centro de Medicina Fetal e Gestação de Alto Risco do Hospital Santa Lúcia e membro titular da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), explica que as técnicas usadas antigamente, nas quais os alimentos eram batidos no liquidificador e passados na peneira, não são mais recomendadas pelos profissionais da saúde.

No BLW, os alimentos são colocados à disposição do bebê para que ele mesmo os escolha e leve à boca. Nathália ressalta que esses são os dois métodos oficiais reconhecidos pela SBP. Existem guias criados por nutricionistas, nutrólogos e pediatras que orientam como os cortes devem ser feitos nos alimentos para oferecer aos bebês, a depender da idade. Nas consultas e nos acompanhamentos médicos, os profissionais ensinam aos pais os cortes mais seguros.

Além disso, as organizações de saúde recomendam que sejam respeitados o tempo e a vontade do lactente, não havendo imposição de alimentos quando a criança não demonstrar interesse, assim como no caso da amamentação, na qual é orientada a livre demanda.

A nutróloga pediátrica Elza Mello adverte, porém, que, mesmo respeitando os horários e a demanda do bebê, o ideal é que não tenha acabado de mamar nem que esteja com muita fome na hora da refeição. “Se ela estiver louca de fome, não vai ter paciência para engolir e experimentar os alimentos. E, se estiver muito satisfeita pelo leite, não vai ter interesse”, justifica. 
 

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade