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Correio Braziliense ESPECIAL

Foliões de vários estados e tribos curtem a festa em Brasília

Samba, frevo, axé, marchinha ou rock? Brasília reúne todos os ritmos na folia


postado em 03/03/2019 07:00 / atualizado em 01/03/2019 11:15

(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Brasília surgiu de uma mistura de gente vinda de todo lugar e virou um grande mosaico cultural. Não é de impressionar que o carnaval da cidade traduza essa diversidade, com festas que trazem costumes, fantasias e músicas de vários lugares. Axé, frevo, samba e marchinhas são apenas alguns dos ritmos que ganham as ruas da capital nos dias de folia.

Se cada estado tem o seu próprio estilo de folia, é possível dizer que o da capital é um misto de todos eles. O Suvaco da Asa e o Galinho de Brasília trazem o frevo de Pernambuco, enquanto os Raparigueiros e o Baratona arrastam a multidão ao som do axé da Bahia. Enquanto isso, as escolas de samba mantêm o ritmo em diversas apresentações pela cidade. Sem falar no rock brasiliense que, em pleno reinado de Momo, também tem o seu espaço.

Eu disse frevooooo!

(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
 

A advogada Ana Helena Pessoa, 40 anos, já esteve na capa do mais tradicional jornal de Pernambuco. Foi um reconhecimento da assiduidade dela no carnaval do estado. Foliã de carteirinha, a pernambucana mora em Brasília há sete anos e viaja todos os anos para a terra natal para curtir a festa de Momo. Mas, como a folia não se restringe só aos quatro dias do feriado, não faltou bloco brasiliense para ela aproveitar as semanas que a antecederam. “De quando cheguei aqui para hoje, melhorou muito”, admite. Este ano, ela passará o carnaval na capital pela primeira vez.

A advogada já explorou blocos no Rio de Janeiro e em Salvador, mas, orgulhosa de Pernambuco, prefere lá. “São muito bons, claro. Mas, na Bahia, é um carnaval pago; então, parece uma festa como qualquer outra. Para o pernambucano, é uma celebração da nossa cultura. Não tem música comercial, por exemplo. É só frevo, só marchinha. No Rio, a proporção é menor do que em Olinda e tem músicas mais variadas”, explica.

Como em Brasília tem bloco para todos os gostos, Ana Helena acabou se encontrando em alguns. Quando foi pela primeira vez ao Suvaco da Asa — criado em 2006 por jornalistas pernambucanos e que sai sempre duas semanas antes do feriado — se apaixonou. “Eu me senti em Olinda, porque tinha a orquestra de frevo”, relembra. Neste ano, pela décima vez, contou com a presença da Orquestra Popular Marafreboi, que tocou tudo que Ana Helena considera importante em um carnaval: frevo, maracatu, coco, samba, ciranda. Ela, no entanto, lamenta a mudança de local. Em 2016, a concetração passou a ser na Funarte, em vez de no Cruzeiro.

Para a advogada, Brasília está criando uma identidade carnavalesca que mistura várias culturas. E está dando certo. Outros blocos que ela admira são o Calango Careta, que toca bastante batuque; o Maria vai casoutras, banda de percussão formada só por mulheres e que tem seu próprio bloco desde 2014; e o Bloco do Peleja, que anima Brasília desde 2013.
 

Inspiração

 

Embora os blocos daqui não foquem nas mesmas músicas que os de Pernambuco, Ana Helena percebe inspiração da sua terra em dois hábitos: “Eles têm um cunho político, que eu acho importante e que o carnaval de muitas cidades ignora, e  criam uma relação com a cidade durante o ano inteiro, com outras festas e ensaios.”

Ficar em Brasília este ano não será fácil para ela. Especialmente por ter perdido o Galo da Madrugada, que arrastou uma multidão ontem pelas ruas do centro do Recife. “É a coisa mais linda do mundo. Ninguém pode partir dessa pra melhor sem ir”, brinca. Mas ela estará na capital federal de coração aberto e acredita que vai se divertir, apesar da saudade da terrinha. “Brasília tem coisa para todos os gostos, recebe gente de todo tipo, e eu vou procurar o que tem a ver comigo.”

Em relação às fantasias, ela compara: “O pessoal aqui é mais tímido, aí eu acabo me contendo também”. Ana Helena relembra quando ela e mais 14 amigas saíram de Mulher Maravilha e fizeram performances nas ruas de Olinda, enquanto 15 amigos estavam de Super-homem. Por aqui, usará bastante glitter, flor no cabelo e sorriso no rosto.
 

Uma pitada de baianidade

 

(foto: Arquivo pessoal )
(foto: Arquivo pessoal )
Não há como falar de carnaval sem citar os famosos blocos de Salvador. Durante todo o feriado, multidões cantam e dançam atrás dos trios-elétricos, que recebem os mais diversos cantores brasileiros. Casa para muitos baianos, Brasília não poderia deixar de trazer para a festa um pouco da cultura do agitado estado nordestino.

O axé do Bloco dos Raparigueiros, por exemplo, foi o primeiro contato da baiana, de Vitória da Conquista, Maria Flores Prates, 23 anos, com o carnaval de Brasília. A festa foi antes mesmo de ela vir morar na capital. A publicitária se mudou para cá em 2013 para estudar na UnB. Na mala, além das expectativas para o futuro, trouxe a paixão pela folia. “Desde os 3 anos, eu frequento o carnaval de Salvador. Eu curto muito, sou completamente apaixonada.”

Como boa baiana, Maria confessa que é difícil algum carnaval no país chegar perto do de Salvador, onde ela sempre marcava presença na pipoca — fora dos cordões de isolamento. Porém, é possível matar um pouco da saudade da terrinha com a alegria da festa brasiliense. “Este ano, eu senti uma pegada mais baiana. A gente teve um pré-carnaval com Baianasystem, que hoje é uma das maiores bandas da contemporaneidade da música de lá. É uma nova geração do axé e eu achei fantástico trazerem para cá, para novos públicos”, ressalta.

Para a publicitária, o que mais aproxima o carnaval brasiliense do baiano é a alegria contagiante. Ela afirma que o calor humano é uma das coisa de que ela sente mais falta da terra natal. “Eu acho que as pessoas em Brasília ainda têm dificuldade de interagir. Para quem vem da Bahia, é um baque muito grande.” Mas, para ela, durante a folia, a cidade ganha um clima diferente.

Maria não espera o feriado para curtir a festa. A baiana já começa a folia nos blocos de pré-carnaval. Para ela, os melhores são os que levantam bandeiras, como feminismo e LGBT. Segundo a publicitária, essas são as festas nas quais ela se sente mais segura.
 

Uma paixão chamada samba

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
O samba carioca já é conhecido mundialmente. Enquanto as ruas da cidade se transformam em um mar de gente, o Sambódromo da Marquês de Sapucaí ganha um brilho especial, acompanhado das mais diversas cores das escolas de samba do Rio de Janeiro. Em Brasília, o ritmo também ganhou corações e espaço no meio da folia.


É na Aruc, uma das primeiras escolas de samba da  capital, que a carioca Márcia Barros, 29, mata a saudade dos desfiles carnavalescos do Rio. Apesar de hoje não haver um desfile oficial, as ligas de Brasília não perderam o samba no pé e fazem apresentações pela cidade.

Márcia chegou ao Distrito Federal aos 12 anos. A comerciante é apaixonada por carnaval desde criança e, no Rio, desfilou em escolas como Grande Rio, Salgueiro e Mocidade. Em Brasília, procurou logo um grupo para ficar mais perto do ritmo carioca. “Mato a saudade quando sambo com a bateria. Eu sempre falo que tenho muitos amores, mas dois se destacam: meu filho e a bateria”, ressalta.

Com direito a muito brilho, penas e fantasias, a comerciante samba como ninguém e não esconde a paixão pela dança. Para ela, o ritmo funciona como uma espécie de remédio para esquecer os problemas e as preocupações.

Marcia começou como passista na Aruc e logo ganhou o posto de rainha, no qual permaneceu durante cinco anos. “Atualmente, faço os eventos da Aruc durante o ano e continuo feliz por poder fazer o que amo.” Para a comerciante, o que mais aproxima o carnaval do Rio do de Brasília é a persistência. “Apesar de todos os problemas financeiros, eles não deixam de fazer o espetáculo. Já aqui em Brasília, estamos sem desfile há cinco anos; porém, temos esperança de que em 2020 retornaremos”, destaca.
 

No ritmo da capital

 

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
E por falar em identidade da cidade, poucas coisas foram tão marcantes quanto o movimento musical que deu origem a bandas como Aborto Elétrico, que depois se tornou Capital Inicial, Plebe Rude e a mais famosa, Legião Urbana. Foi pensando nisso que os músicos Rony Meolly, Diogo Villar e Marco Araújo criaram o bloco Eduardo & Mônica, para tocar pop e rock nacional em ritmo carnavalesco. “Foi uma forma de homenagearmos Brasília, além de curtir a data com o som de que a gente mais gosta e toca”, explica Ronny.

Na primeira vez que o bloco foi às ruas, em 2017, os organizadores pensavam que seria algo pequeno, mas ele reuniu cerca de 10 mil foliões do rock. No ano passado, a quantidade quase triplicou, com 28 mil pessoas. Em enquete do Correio Braziliense, o Eduardo & Mônica foi eleito terceiro melhor bloco da capital em 2017 e o melhor, em 2018. Um dos legados dele foi atrair pessoas que nunca curtiram tanto o carnaval.

É o caso de Carolina Santos, 24, estudante de psicologia, uma das pessoas que votou no bloco. “Sou a favor de propagar bons eventos, boas bandas e boas músicas”, justifica. Nascida e criada na capital, ela e a família não costumam festejar o carnaval, por isso, o bloco Eduardo & Mônica foi um dos poucos ao qual ela já foi. E amou. “Eu não tenho nada contra nenhum estilo musical, mas o que eu ouço no meu dia a dia, geralmente, é rock, bandas de Brasília, etc. Então, eu me identifiquei de cara, porque toca o que eu gosto de ouvir”, afirma.

Carolina quase sempre passa o carnaval na capital, mas nunca ia a blocos. Frequentava eventos que nem tinham a ver com o carnaval. No ano passado, ela e uma amiga estavam sem programação e resolveram explorar o que, para elas, era uma novidade. “Nós nos amarramos, e já fomos embora planejando a ida este ano”, anima-se.

Sem tradição carnavalesca

(foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)
Brasiliense com pais brasiliense e paranaense, Zarate Max, 36, analista de tecnologia da informação, nunca teve tradição carnavalesca. Roqueiro, ele até frequentava, de vez em quando, o Galinho e o Pacotão, por gostar do frevo e das marchinhas, mas, na verdade, a carne dele não é exatamente de carnaval. “Minha cultura é de rock’n roll”, confessa. Às vezes, até viajava para fugir da folia.

O bloco Eduardo & Mônica apareceu e transformou um pouco isso. Fez com que ele curtisse mais o feriado. “Desde criança, sou fã de Capital Inicial, Legião Urbana, Plebe Rude. Na adolescência, eu ouvia muito Raimundos, e ver aquele tanto de gente, na rua, cantando as músicas que eu sempre gostei é emocionante. Ver Felipe Seabra e Digão lá cantando também é como fazer parte da história.”

Presente no bloco desde o primeiro ano, em 2017, Zarate acabou se tornando uma espécie de garoto propaganda. Ele conta que, no ano passado, o estandarte estava largado; então, saiu carregando e todo mundo pedia para tirar foto com ele. “Eu pedia para colocar a hashtag do bloco para promovê-lo”, relembra. A atitude acabou levando-o para cima do palco e, desde então, em toda festa do Eduardo & Mônica, ele não só sobe no palanque como carrega o estandarte no meio do público.

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