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Correio Braziliense

Mulheres falam sobre os desafios de ser mulher

Veja como mulheres de diversas gerações encararam e encaram, diariamente a luta pela igualdade de gênero. Muitas delas sem nem perceber a revolução de que fazem parte


postado em 10/03/2019 08:00 / atualizado em 10/03/2019 09:59

Liunicia, Fernanda e Maria Dilma lutam diariamente, cada um do seu jeito, pelo direito de serem respeitadas como mulheres(foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
Liunicia, Fernanda e Maria Dilma lutam diariamente, cada um do seu jeito, pelo direito de serem respeitadas como mulheres (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

 
Elas têm história diferentes, são de gerações diversas e apresentam pontos de vista variados, mas concordam com uma coisa: apesar das conquistas e mudanças dos últimos anos, a vida não é tão fácil assim para o sexo feminino. E não é para menos. Para a professora Eva Blay, do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), ainda vivemos, no Brasil, em uma sociedade machista e patriarcal.

Eva explica que as mulheres, historicamente, ocuparam uma posição subordinada, que variou ao longo do tempo — e ainda varia — a depender da raça, da etnia e da classe social “Não podemos dizer que é igual para todas hoje, então não posso dizer que antigamente era. Nunca foi”, ressalta.

Apesar das variações, a socióloga explicita que uma das constantes, independentemente de classe social, é a violência do homem contra a mulher, seja física ou sexual, seja moral ou psicológica — fator que interfere intimamente na vivência geral dela e na posição que ocupa na sociedade e no mundo.

Neste mês em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher, a Revista ouviu mulheres de diversas gerações para saber o que, para elas, representa fazer parte desse gênero historicamente tão discriminado.

Luta seguida por gerações

Mesmo com a incansável luta das mulheres por igualdade, alguns problemas persistem por gerações. Em um bate-papo da equipe da Revista com as aposentadas Liunicia Santos, 83 anos, Maria Dilma Santos, 60, e a assistente jurídica Fernanda Campos, 34 — avó, mãe e filha, respectivamente —, é possível notar algumas conquistas, porém fica claro que ainda há muito o que alcançar.

Tímida, Liunicia lembra de uma grande vitória na vida: os estudos. A aposentada começou a estudar pedagogia depois dos 30 anos, quando já estava casada. Não faltaram críticas pela iniciativa, tomada há mais de meio século. O marido até apoiou, mas não comprou a ideia de primeira. “No começo, ele estranhou, porque mulher tinha que cuidar da casa e dos filhos”, recorda-se.

O estudo foi mesmo uma das grandes conquistas femininas. No Brasil, elas só tiveram acesso ao ensino superior em 1879. E, passados 140 anos, muitas ainda se deparam com discursos preconceituosos. “A mulher pode até trabalhar e estudar, mas é obrigação dela tomar conta da casa e dos filhos. Aí eu pergunto: por que não é obrigação do marido também? Por que tem que ser a mulher?”, questiona Fernanda, neta de Liunicia.

As dificuldades se estendem até o mercado de trabalho. Para Fernanda, elas começam na escolha da profissão e seguem até a disputa de cargos. “As pessoas não olham para nós com a capacidade real que temos. Tem gente que não quer dar cargo de direção para a mulher porque acha que os subordinados não vão respeitá-la”, declara.
 


Independência que assusta

Aos 60 anos e divorciada, Maria Dilma sente o peso de ser uma mulher mais velha e solteira. Se, quando jovem, era obrigada a conquistar a confiança dos pais para sair e se divertir, hoje, em pleno século 21, ainda precisa lidar com os olhares tortos da sociedade. “Até minhas colegas da mesma idade me discriminam, acham que eu devo ficar em casa cuidando dos netos. Mas, com o tempo, eu aprendi que hoje eu saio se eu quiser, ninguém me obriga a não ir”, destaca. Maria Dilma afirma que muitos julgam até as roupas que usa e querem taxá-las pela faixa etária. Os shorts já foram excluídos do guarda-roupa, porém os biquínis estilo fio dental ainda não foram abandonados por Maria Dilma.

Susane Rodrigues de Oliveira, doutora em história e professora da Universidade de Brasília, ressalta que um dos grandes desafios para as mulheres acima dos 40 anos é o envelhecimento em uma sociedade que impõe um padrão físico jovem e magro, o que traz uma carga de sofrimento extra, com as diferenças e as transformações naturais do corpo. “É muito cruel e afeta profundamente a saúde mental de muitas mulheres. Não por acaso, o Brasil é campeão em cirurgia estética.”

Maria Dilma e dona Liunicia se lembram bem de como era difícil ter um mínimo de liberdade na época de solteira. A avó de Fernanda conta que sair de casa sem os pais só se fosse com alguém da família, como tia ou prima casada. Com a assistente jurídica não foi muito diferente. Segundo ela, o irmão, quatro anos mais novo, saía com os amigos quando bem entendia, enquanto ela, aos 18, mal podia pisar o pé fora de casa.

Apesar do tratamento desigual, Fernanda confessa que não pensa em agir de forma muito diferente com a filha, que hoje tem 5 anos. “Se eu chegar para a minha mãe e falar que vou para uma festa, uma das preocupações é de alguém me atacar, de algum homem se aproveitar porque eu bebi ou colocar alguma coisa na minha bebida. Não que isso não poderia acontecer na geração da minha avó, mas acho que a preocupação da minha mãe comigo é maior”, lamenta 
 
 
Exemplo que vem de casa
 
Elisa Lorena conta com o total apoio do marido, Thomas Koberstein, para criar as filhas: exceção(foto: Marcelo Ferreira/CB)
Elisa Lorena conta com o total apoio do marido, Thomas Koberstein, para criar as filhas: exceção (foto: Marcelo Ferreira/CB)
 

A advogada Elisa Lorena Barros Santos, 30, carrega pela mãe, pela avó e por todas as mulheres da família um orgulho admirável. “Eu venho de uma linhagem feminina forte, que sempre esteve muito à frente do tempo”, destaca. A avó era mãe de três, separou-se e deixou a cidade numa época em que isso era inaceitável. Foi o primeiro escândalo na família. O segundo foi quando se casou com um homem mais novo.

A mãe de Elisa estudou engenharia também em um período em que poucas mulheres o faziam. Os sonhos dela eram dirigir trator e ser cientista. Conseguiu realizar ambos. Por um bom tempo, a mãe trabalhava e o pai, não. Ficava em casa com as crianças, cozinhava. “Tudo isso muda as expectativas e o referencial das mulheres, eleva o nível de exigência em relação ao que se quer de um marido”, opina Elisa.

Não é à toa que a advogada escolheu alguém que divide com ela todas a responsabilidade pelas duas filhas e pela casa. “E, com isso, ele ganha a fatia boa da paternidade também, que é o vínculo afetivo. Antes, era o mundo das mulheres e das crianças e o mundo dos homens”, considera. Ela lamenta, no entanto, saber que é um ponto fora da curva, uma privilegiada.

Elisa sabe que a situação dela com a família não igual à da maioria das casas, onde o dever de cuidar das crianças, da limpeza, da comida, ainda é exclusivamente da mulher. Esperançosa, acredita que as coisas estão mudando aos poucos. “As mulheres já saíram de casa, já estão trabalhando, embora a gente saiba que não haja equiparação salarial — eu sei que um homem que faz o mesmo que eu, com a mesma experiência, ganha mais. A questão agora é o homem ir pra casa e ocupar aquele espaço também.”

Como mãe só de meninas, ela procura ensinar, especialmente, a ideia do consentimento. “Ninguém pode forçar abraço, forçar beijo, fazê-las abraçar ou beijar um adulto que elas não querem, que mal conhecem.” Como não tem contato apenas com as próprias filhas, em relação aos meninos, ela pensa diferente e alerta: “Temos que trabalhar com eles a raiva, a agressividade, porque eles são ensinados assim”.

Divórcio
Instituído legalmente em 1977, o divórcio foi um divisor de águas entre as antigas e as novas gerações. E, apesar dos avanços, a imagem da mulher divorciada ou da mãe solteira ainda é negativa no Brasil nos dias de hoje. Para a historiadora Susane Rodrigues de Oliveira, o mercado de trabalho evidencia isso, uma vez que faltam leis que beneficiem a mulher que precisa conciliar a maternidade e o trabalho externo. Mesmo com um preconceito persistente, as conquistas do divórcio, da independência financeira e da maternidade solo, são, na opinião de Susane, fatores determinantes na autonomia e no empoderamento da mulher.

O que a vida ensinou
 
Maria do Carmo (de azul) com a filha Giselle Oliveira e os netos: luta para manter sozinha a família(foto: Marcelo Ferreira/CB)
Maria do Carmo (de azul) com a filha Giselle Oliveira e os netos: luta para manter sozinha a família (foto: Marcelo Ferreira/CB)


A cozinheira Maria do Carmo Silva Lima, 51, hesita em dar entrevista. “Nem tenho estudo”, argumenta. A escola dela foi a da vida e, se tem uma coisa que aprendeu muito bem e que quis passar para as três filhas, é que “não dá pra depender de homem nenhum”. Mãe solo, ela sabe o que diz. O pai da primeira filha morreu quando a menina tinha 3 anos. No caso das outras duas, apenas uma mantém contato com o pai. Foi ela quem ficou a cargo da criação. “A gente tem que entender que não pode esperar nada deles”, reclama.

Diferentemente da filha Giselle Oliveira, 36, desempregada, Maria não se considera feminista. “Acho que muitas feministas exageram”, opina. Giselle e o filho Augusto, de 14 anos, explicam, então, que algumas das coisas que dona Maria critica são, na verdade feminismo, que ela defende na prática, sem nem perceber.

Giselle se impressiona com o filho por saber e discutir sobre esses temas. “Eu com 15 anos, não tinha esse tanto de informação. Não se falava em feminismo como hoje. Eu só comecei a aprender sobre essas coisas recentemente”, conta. Ela garante que procura criá-lo sem estereótipos — o garoto, por exemplo, teve o apoio da mãe para pintar o cabelo de lilás.

Já o pai de Maria era policial e tinha ideias mais tradicionais sobre o que era coisa de menino e de menina. Mesmo assim, ela relembra que todos conseguiam brincar juntos. Já ela, não acredita que haja coisas de um sexo e coisas de outro e exemplifica com a própria filha: “A Giselle desde criança é apaixonada por futebol. É da personalidade dela”. Mais uma atitude feminista para a época.

O trabalho

Giselle e Maria concordam que a maior dificuldade para uma mulher atualmente, depois de tudo que elas já enfrentaram, é se colocar no mercado de trabalho. “Eles perguntam se temos filhos. Se tivermos, já não contratam, porque acham que as crianças vão ficar doentes e vamos faltar ao serviço. Querem saber se vamos ficar grávidas, e temos que justificar se isso acontecer. O homem não passa por nada disso”, protesta.

Além disso, ela reclama da falta de compreensão e de empatia em relação aos ciclos no organismo da mulher. “Nós temos mudanças de humor, que são naturais do nosso corpo, e as pessoas reclamam. Nós acabamos levando alguns problemas ao trabalho, porque, muitas vezes, não temos com quem dividi-los em casa, não temos pais tão responsáveis quanto as mães são”, afirma.

A professora Carmen Migueles, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, acredita que uma das grandes mudanças está na forma como a mulher é vista. Com formação em sociologia, antropologia e história, ela explica que, antigamente, ser mulher era considerado um sintoma de incapacidade no trabalho, como se elas fossem sempre ‘café com leite’. “Existiam profissões para mulher e profissões para homens. Elas eram hostilizadas em ambientes predominantemente masculinos.”

No entanto, Carmen acredita que houve um grande avanço. Atualmente, as mulheres podem se aventurar em carreiras de todas as áreas e chegam a posições de chefia. Ela acrescenta que, apesar da discriminação que ainda ocorre, o Brasil está em primeiro lugar nos rankings globais de equidade de gêneros em educação.

Há, porém, a dificuldade em aumentar proporcionalmente o número de mulheres em empregos qualificados. Carmen atribui isso ao que chama de preconceitos e desorganização do microcotidiano. “A empresa pode ter medidas de igualdade de gênero, mas o chefe direto hesita na hora de contratar a mulher em idade reprodutiva”, declara.

E, para Carmen, esse movimento está ligado à baixa divisão de tarefas em casa, reflexo do machismo brasileiro, inclusive nos cuidados com os filhos, nos quais a mulher sempre está sobrecarregada, se comparada ao homem. Assim, ocorre um desequilíbrio que se reflete também no mercado de trabalho.

A historiadora Susane Rodrigues de Oliveira enxerga que os maiores desafios enfrentados pelas mulheres estão no assédio sexual, nas desigualdades salariais e na desvalorização de suas capacidades intelectual, artística e produtiva perante os homens. No caso das mulheres negras, indígenas e pobres, Susane aponta que os riscos são ainda maiores. “O racismo estrutural, muitas vezes, impede o acesso à escolarização, reservando-lhes trabalhos de baixíssima remuneração e sem garantia de direitos”, lamenta. 
 
Linha do tempo: as conquistas femininas no Brasil
 
1832 — O livro Direitos das mulheres e injustiça dos homens, escrito por Nísia Floresta e considerada a obra fundadora do feminismo brasileiro, é publicado no Brasil.
1879 — Mulheres ganham acesso ao ensino superior no Brasil.
1928 — Alzira Soriano de Souza é eleita a primeira prefeita da história do Brasil, no município de Lajes, no Rio Grande do Norte - RN
1932 — O voto feminino é regulamentado no Brasil, mas apenas para as casadas com autorização e para as solteiras e viúvas com renda própria. Dois anos depois, acabaram as restrições.
1962 — Passou a valer o Estatuto da Mulher Casada, que garantia a elas o direito de trabalhar sem precisar de autorização, além do acesso às heranças e de ter guarda de filhos, caso fosse separada.
1977 — É criada no Brasil a lei que permite o divórcio.
1982 — O Brasil tem a primeira ministra: Esther de Figueiredo Ferraz ocupou o Ministério da Educação.
1995 — É criada a lei federal que sugeria que 20% dos candidatos dos partidos deveriam ser mulheres. Em 1997, a porcentagem subiu para 30%. Só em 2009, tornou-se obrigatória.
2003 — Criação da Secretaria de Políticas para as Mulheres: espaço institucional dedicado à promoção da igualdade de gênero e articulação políticas para as mulheres no âmbito federal.
2006 — Lei Maria da Penha é sancionada para proteger as mulheres da violência.
2009 — Criação da Lei nº 12.015, em que o estupro passa a representar, no Código Penal brasileiro, crime contra a dignidade e a liberdade sexual, que consiste no ato de “constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”.
2010 — Eleita a primeira presidente mulher no Brasil: Dilma Rousseff
2015 — A Lei do Feminicídio tipifica o assassinato de mulher motivado pela condição de sexo, enquadrado como crime hediondo. 

O 8 de março

Criada pela Organização das Nações Unidas em 1975, a data teve origem no século 20. Acredita-se que o movimento por melhores condições de trabalho das mulheres que atuavam em fábricas nos Estados Unidos e na Europa foi um dos motivadores, além das reivindicações delas pelo direito ao voto. Em muitas culturas, o Dia Internacional da Mulher assumiu um aspecto comercial e comemorativo, na qual se dão presentes e flores. Mas os movimentos feministas resgatam o aspecto da luta por conquista de direitos.

Além de comemorar o protagonismo histórico das mulheres nessa batalha, deve ser, segundo a historiadora Susane Rodrigues de Oliveira, uma data para mobilizar e conscientizar sobre a necessidade da igualdade de gênero. “É importante realizar um exercício crítico das conquistas já realizadas e daquelas a serem consolidadas, bem como dos retrocessos que vêm ocorrendo nos últimos anos. Isso exige a denúncia da misoginia e da violência sexista/racista ainda presentes”, completa. 

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