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Correio Braziliense ESPECIAL

Mulheres de fibra: artesãs ressignificam o trabalho manual

Da Amazônia ao Centro-Oeste, o artesanato se transforma em um ofício de prazer e esperança


postado em 17/03/2019 07:00 / atualizado em 14/03/2019 18:36

No meio da BR-319, as artesãs da Teçume da Floresta com suas respectivas criações. Da esquerda para direita, Michele Reis, Antônia de Oliveira Melo, Valdecira Reis, Edite Colares (a Branca), Maria Rita Ferreira, Nilvaneide de Oliveira, Maria dos Santos e Andreia Castro Souza.(foto: Pedro Almeida e Thaís Solon/Divulgação)
No meio da BR-319, as artesãs da Teçume da Floresta com suas respectivas criações. Da esquerda para direita, Michele Reis, Antônia de Oliveira Melo, Valdecira Reis, Edite Colares (a Branca), Maria Rita Ferreira, Nilvaneide de Oliveira, Maria dos Santos e Andreia Castro Souza. (foto: Pedro Almeida e Thaís Solon/Divulgação)

Em uma cidade ribeirinha no interior do Amazonas, artesãs colhem cipó da floresta e o transformam em acessórios para o mercado de luxo. Em Formosa, Goiás, detentas entram em processo de ressocialização por meio de bordados manuais. Em Planaltina, no Distrito Federal, ceramistas fazem do barro uma forma de sustento e prazer.

 

No norte ou no centro do Brasil, há mulheres fortes o suficiente para romper qualquer barreira. A Revista esteve nos três cantos do país para conhecê-las, reportar suas histórias e descobrir projetos inspiradores que ressignificam o trabalho artesanal.

Trama a trama 

Careiro Castanho (AM) — São necessárias três horas de avião de Brasília a Manaus. De lá, somam-se 30 minutos de lancha rápida até o porto de Careiro da Várzea, no interior amazonense, e mais uma hora e meia de táxi-lotação até Careiro Castanho. A 102km da capital do Amazonas, em meio à mata tropical e às margens do Rio Tupana, fica o município onde moram as artesãs do Teçume da Floresta, projeto orientado pela ONG Casa do Rio. No grupo, oito mulheres se unem para transformar o entrelace do cipó ambé nos mais diversos acessórios que viraram desejo de compra em todo o Brasil.

 

Entre elas, mães de família, aposentadas, provedoras. Edite Paixão Colares, 50 anos, mais conhecida como dona Branca, é um exemplo. Filha de pai indígena, nasceu na boca do Rio Tupana e cresceu na floresta, ao lado de cinco irmãos. Aos 12 anos, viu o pai e um dos irmãos morrerem na água, atingidos por um raio. Religiosamente, acorda às 3h da manhã todos os dias para fazer café e começar o trabalho artesanal.

 

Branca é autora do primeiro modelo da Teçume da Floresta, a bolsa Paricá. Ao lado das companheiras de trabalho, sente-se realizada ao fazer os acessórios e gerar renda por meio deles, apesar da visão debilitada. “Um dia fui colher abacaxi e a palha atingiu meu olho. Com o tempo, acabou prejudicando o outro. Enxergo só um fumaceiro”, relata.

 

A marca Teçume da Floresta surgiu em 2015, sob as asas da Casa do Rio. Com a mentoria da designer Luly Vianna, proprietária da marca Saissu — que também faz moda sustentável —, as artesãs foram aperfeiçoando a técnica e criando modelos exclusivos. Com o tempo, adquiriram liberdade criativa e hoje já conseguem criar modelos de acessórios sozinhas. Ao fazer as bolsas, carro-chefe do grupo, elas coletam (de forma controlada) a matéria-prima, cortam, descascam e deixam a fibra descansar na água para ganhar flexibilidade.

Cada bolsa produzida manualmente pelas artesãs tem um molde, para que o cipó ambé possa ser entrelaçado com mais facilidade. Depois de ser colhido na mata, o material é descascado e deixado na água para ganhar flexibilidade durante o manuseio.(foto: Pedro Almeida e Thaís Solon/Divulgação)
Cada bolsa produzida manualmente pelas artesãs tem um molde, para que o cipó ambé possa ser entrelaçado com mais facilidade. Depois de ser colhido na mata, o material é descascado e deixado na água para ganhar flexibilidade durante o manuseio. (foto: Pedro Almeida e Thaís Solon/Divulgação)

A produção é toda feita nos lares de cada uma. Algumas têm o apoio da família. Em meio às dificuldades, Valdecira Maria da Silva Reis, 45, é exemplo de força, resiliência e talento. Val, como é chamada por todos, aprendeu com a mãe a habilidade de tecer. Mãe de seis filhos, recebe benefício do governo e paga o que mais der com dinheiro que recebe das bolsas. O cipó, para ela, é prazer e distração. Tecer uma bolsa a faz “esquecer de tudo”, dos problemas e dos desafios diários. “Tenho um filho acamado, e só consigo sair quando meu marido está. Mas ele gosta de tirar umas férias de vez em quando, sabe. Tomar umas. Passa vários dias fora de casa.”

 

Da Amazônia para o mundo

Em uma era em que o mercado da moda anseia por propósito e sustentabilidade na cadeia produtiva, a Teçume da Floresta ocupa seu espaço. A história da marca conta com parcerias com marcas renomadas, como Cris Barros, Giuliana Rommano, Yael Sonia e DVF. De acordo com Jeff Ares, relações públicas e membro voluntário da Casa do Rio, o objetivo sempre foi colocar o artesanato da Amazônia no mapa da moda nacional. “Acreditamos no artesanato como um produto do mercado de luxo. O brasileiro encara o trabalho manual como algo inferior, mas ele é a identidade do design nacional. É o luxo brasileiro”, defende.

 

Com a crença de que a Teçume da Floresta é a mistura entre o design contemporâneo e a ancestralidade do Brasil, a marca adere ao movimento slow fashion — sistema de produção que não se encaixa nos padrões de massa e leva em consideração o valor do trabalho, o impacto ambiental e a qualidade do produto. A renda arrecadada por meio de parcerias com grandes marcas já foi investimento para programas de alfabetização das artesãs. Atualmente, toda peça vendida é direcionada para o sustento familiar de cada uma.

Bolsa da Teçume da Floresta em parceria com a marca Cris Barros, em 2017, para a coleção de primavera/verão 2018.(foto: Cris Barros/Divulgação)
Bolsa da Teçume da Floresta em parceria com a marca Cris Barros, em 2017, para a coleção de primavera/verão 2018. (foto: Cris Barros/Divulgação)
 

Para impulsionar a divulgação da marca e reforçar o espírito empreendedor nas artesãs, a Casa do Rio se uniu à Fundação Pedro Jorge — organização sem fins lucrativos, instituída pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) — e elaborou um intercâmbio de voluntários na cidade de Careiro Castanho.

 

Denominado Teçume Virtual, o projeto criou uma loja on-line para a marca, que será lançada ainda neste semestre. Formado por profissionais e estudantes, o grupo de jovens intercambistas ministrou oficinas sobre as mais diversas expertises: fotografia, filmagem, empreendedorismo, mídias sociais e língua portuguesa.

 

Thiago Cavalli, fundador da Casa do Rio, afirma que a criação de um canal de venda próprio da Teçume era, até então, uma realidade distante. “É uma grande conquista, uma mudança de cultura. Um sinal de que elas estão amadurecendo.” 

A voluntária do projeto Teçume Virtual Carolina Garcia e a artesã Edite Colares, a Branca.(foto: Pedro Almeida e Thaís Solon/Divulgação)
A voluntária do projeto Teçume Virtual Carolina Garcia e a artesã Edite Colares, a Branca. (foto: Pedro Almeida e Thaís Solon/Divulgação)
 

Sonhos bordados 

“No bordado, estou vendo um futuro.” As palavras de T.L., 27 anos, são carregadas de esperança. Detenta da Penitenciária Pública de Formosa, em Goiás, está há três anos e dois meses no cárcere, por tráfico de drogas. Hoje, ela se sente acolhida pelo projeto Futuro Bordado, também de autoria da Fundação Pedro Jorge, que visa a reinserção das presas na sociedade por meio do trabalho manual.

 

Em encontros pontuais, as detentas têm aula de bordado e de encadernação. A empresária e instrutora do projeto Danniella Ribeiro, proprietária da marca Malagueta Craft, é quem ensina o bordado para as detentas. Ela comenta que a atividade é uma forma positiva de ocupação de tempo e que amplia as possibilidades profissionais no período pós-pena.

As detentas são incentivadas a empreender dentro da prisão, cada uma com seu próprio material(foto: Tayná Lemes/Divulgação)
As detentas são incentivadas a empreender dentro da prisão, cada uma com seu próprio material (foto: Tayná Lemes/Divulgação)

“É uma maneira de mostrar para elas que é possível fazer algo e ser alguém, sem voltar para o crime. É uma esperança.” A atividade dentro do presídio também conta com remissão de pena: as horas dedicadas ao bordado reduzem o tempo de cárcere.

 

Na penitenciária, veem-se paredes descascadas, fios aparentes e móveis deteriorados. Localizado no centro da cidade, o local é casa para 15 detentas, que moram em celas coletivas, em cubículos de aproximadamente cinco metros quadrados.

 

M.C., 23 anos, é participante assídua das oficinas. Condenada a 20 anos de prisão por latrocínio, ela conta que saiu de casa aos 11 para traficar. Cabisbaixa, um tanto trêmula, ela desabafa: “Todo dia eu roubava, assaltava. Virou um vício na minha rotina. Até que chegou o dia em que matei para roubar”.

 

Sem família na cidade, M.C. achou no bordado uma ocupação em que “o tempo não fica perdido”. Ao bordar, ela deixa o passado de lado e foca no presente, de olho no futuro. “Quero conseguir resgatar minha mãe do mundo das drogas, reconstruir minha família. Não quero bem material, não quero nada. Só eles.”

 

Por enquanto, a penitenciária só recebe um projeto social. “Além desse, apenas as igrejas que vêm com frequência, fazem umas confraternizações aqui. E só”, comenta Kyrian Fayad, agente da penitenciária. A profissional reconhece que, depois da entrada do projeto na prisão, houve mudança no comportamento e até na autoestima das presas.

 

O Futuro Bordado, além da reinserção social, tem o objetivo de garantir renda para as detentas, seja para comprar mais material, seja para ajudar as famílias de cada uma. Como o projeto é recente —a primeira edição ocorreu em outubro passado, e a segunda ocorrerá no próximo 20 de março –, ainda não há uma comercialização consolidada. Com os primeiros objetos produzidos, inclusive, as detentas escolheram presentear seus parentes.

Presidiárias bordam mensagens de amor para seus parentes e familiares(foto: Tayná Lemes/Divulgação)
Presidiárias bordam mensagens de amor para seus parentes e familiares (foto: Tayná Lemes/Divulgação)

Em um futuro breve, a Fundação Pedro Jorge quer empoderar as mulheres detentas por meio de um ambiente empreendedor contagiante. “Nossa ideia é criar uma loja virtual com os artigos produzidos, além de fechar possíveis parcerias com estilistas e marcas, incluindo bordados em peças e coleções de roupa”, afirma Tayná Lemes, autora e coordenadora do projeto em Formosa.

 

De voz baixa e fala curta, T.L. diz que o bordado tem importância e sentido em sua vida. É importante porque, com ele, conseguiu mandar dinheiro para a família, que ajuda a sustentá-la durante o cárcere. “Se não abrem a porta enquanto a gente está aqui, quem vai abrir quando a gente sair?”, questiona. Assim como M.C., ela compartilha um sonho: continuar a bordar e abrir uma escolinha de futebol no futuro. “Quero ajudar pessoas na mesma situação que eu. Para mim, preso é igual criança: é na educação que resolve.”

Barro que fortalece 

Objetos de decoração produzidos pelas ceramistas do Instituto Maria do Barro, em parceira com a Paranoarte.(foto: Rachel Sabino/Esp. CB/D.A Press)
Objetos de decoração produzidos pelas ceramistas do Instituto Maria do Barro, em parceira com a Paranoarte. (foto: Rachel Sabino/Esp. CB/D.A Press)

Em uma pequena casa localizada na região da horta comunitária de Planaltina do DF, reúne-se um grupo de artesãos que faz do barro uma esperança. Nas manhãs de quinta-feira, eles se juntam para moldar o próprio futuro.

 

A casa onde ocorre a produção é uma das sedes do Instituto Maria do Barro, reconhecido na região pelo trabalho social voluntário desenvolvido para a comunidade local. No passado, eram referência no trabalho de tecelagem. Hoje, os teares e as máquinas de costura estão encostados na parede, empoeirados, por falta de verba para compra de material e manutenção.

 

Contudo, parar não foi uma opção. Apoiados pela ONG Paranoarte, atualmente, movimentam oficinas de cerâmica, em que a argila é delicadamente modelada em objetos utilitários e decorativos. Escolhida pela própria Maria do Barro para dar continuidade à memória do Instituto, Idalete Silva, 48 anos, é considerada presidente vitalícia do local.

 

Artesã, faz da criação de objetos decorativos sua única renda. Incomodada, quer empoderar mais mulheres por meio do barro, mas sente falta de apoio. “Existir a gente já existe. Maquinário a gente já tem. Tirando a Paranoarte, que nos resgatou, somos esquecidas. Vivemos de doação.”

Desafios

A turma das quintas-feiras é mesclada: tanto mulheres quanto homens participam das aulas de capacitação administradas pela Paranoarte. Vanessa Goldenberg, 46, instrui um grupo de seis pessoas, todas com debilitações físicas ou psicológicas. Segundo ela, a luta pela inclusão deles na sociedade e no comércio é prioridade. “E aqui eles se sentem fortalecidos para trabalhar”, argumenta.

 

A paraense Maria Nelma Sousa, 50, é aluna assídua e acredita no sonho de ser uma ceramista profissional. Ela conheceu o Instituto Maria do Barro quando chegou a Brasília, em 1997. Começou como doméstica no local, entrou para a turma de tapeçaria e tornou-se ceramista há oito meses. Durante esses anos, criou 10 filhos na cidade, um deles paraplégico. Para ela, barro é sustento e terapia. Segurando a travessa em formato de folha, ainda inacabada, ela diz que quer tornar rentável a atividade. “Ainda, estou aprendendo, mas quero fazer disso meu trabalho.”

Maria Nelma é ceramista há oito meses no projeto apoiado pela Paranoarte. Ela tem, no barro, um sonho de profissionalização.(foto: Rachel Sabino/Esp. CB/D.A Press)
Maria Nelma é ceramista há oito meses no projeto apoiado pela Paranoarte. Ela tem, no barro, um sonho de profissionalização. (foto: Rachel Sabino/Esp. CB/D.A Press)

Desde 2003, a Paranoarte é referência no DF em apoiar projetos sociais e transformar realidades. Fundada pela psicóloga e assistente social Aída Rodrigues, 60, já chegou a apoiar cerca de 20 projetos nos arredores de Brasília. Atualmente, abraça apenas o Maria do Barro. “A gente visa aprimorar a técnica primeiro e inserir a mente empreendedora. Queremos ver o desenvolvimento das pessoas.”

 

Contudo, Aída revela que há dificuldades no escoamento de produto e na comercialização. Alguns pontos da cidade recebem os artigos de cerâmica feitos pelos artesãos — como o viveiro Aroeira, no Polo Verde, do Lago Norte —, mas, ainda assim, é fraca. Em complemento, a coordenadora da ONG Helenice Bastos, 54, expõe: “Artesanato é cíclico. Vive em altos e baixos. Não tem política pública que apoie. Muitos consideram como um complemento de renda, não como profissão.” 

A turma de ceramistas que se reúne às quintas-feiras em Planaltina do DF. Em sua maioria, mulheres.(foto: Rachel Sabino/Esp. CB/D.A Press)
A turma de ceramistas que se reúne às quintas-feiras em Planaltina do DF. Em sua maioria, mulheres. (foto: Rachel Sabino/Esp. CB/D.A Press)
 

 

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 

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