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Correio Braziliense ESPECIAL

Modelos brasilienses estão conquistando as passarelas do mundo

A nova geração de modelos brasileiros veio para marcar presença no mercado da moda, encontrando oportunidades de trabalho importantes em todos os continentes


postado em 31/03/2019 07:00 / atualizado em 28/03/2019 12:14


 
(foto: Ford Models/Divulgação)
(foto: Ford Models/Divulgação)
 
O mercado fashion tem olhos especiais para os brasileiros. Terra natal de ícones como Gisele Bündchen, Adriana Lima, Alessandra Ambrósio e tantas outras, o país abriga uma diversidade de belezas únicas que agrada a diferentes demandas. O Distrito Federal também é a origem de modelos que foram incorporados ao eixo da moda internacional — eles conquistaram espaço nos editoriais e passarelas dos cinco continentes.

Ao contrário do que muitos pensam, para fazer sucesso na profissão não basta ter beleza e confiar na sorte. As características físicas são uma ajuda especial e alguns critérios, como altura, fundamentais. No entanto, mesmo que a pessoa seja muito bonita e dentro de todos os padrões, se ela não for agradável, dificilmente será aceita. O verdadeiro diferencial brasileiro é o que faz um modelo passar na frente de tantos outros: a personalidade.

“Os clientes buscam por profissionais que tenham educação, atitude, que sejam perseverantes e lutem pelo que querem”, resume Ludimila Schiavon, responsável pelo departamento internacional da Ford Models. “Pode ser que a modelo seja mais baixa, mas impressione pelo conjunto de características: fale bem, se apresente adequadamente e seja desenvolta”, enumera.

Anderson Baumgartner, diretor-geral da Way Model, garante que as brasileiras têm muita vantagem por conta da nossa cultura. “São descoladas e transmitem energia positiva.” Para ele, os profissionais daqui chegam a qualquer lugar do mundo com uma bagagem e experiência que muitos outros países não oferecem. “Somos uma excelente escola para formar modelos”, defende.

Ludimila destaca que a profissão de modelo é um dos únicos mercados em que as mulheres costumam ter mais oportunidades que os homens. Elas também ganham cachês maiores. “É comum que as agências tenham mais flexibilidade e apostem mais nas meninas. Para profissionais do sexo masculino, conseguir um contrato com alguma agência de fora é mais difícil. O modelo precisa ter uma carreira mais estruturada e um material fotográfico bem forte”, explica a booker.

O mercado brasiliense é cheio de talentos, porém, as opções de trabalho muitas vezes são escassas. Por isso, grande parte dos modelos do DF precisa passar por uma temporada em São Paulo antes de conquistar outros países. Mas, como explica Marthan Araújo, booker da agência Scouting, a preparação começa desde cedo, ainda na capital.

“Nós damos cursos e começamos a incentivar para que eles trabalhem no mercado local para adquirir experiência e material. Uma vez que se destacam aqui, começamos a prepará-los com cursos de línguas, sugerindo uma produção que os valorize e cuidando da autoestima deles”, descreve o booker.
 
Anna Herrera abriu o desfile de Yves Saint Laurent(foto: Divulgação)
Anna Herrera abriu o desfile de Yves Saint Laurent (foto: Divulgação)
 

Paris aos seus pés


Na última Semana de Moda de Paris — outono/inverno 2019 —, todos os olhares se voltaram para a brasiliense Anna Herrera, 24 anos, que abriu o desfile da marca Yves Saint Laurent. A primeira vez que a modelo desfilou para a tradicional grife francesa foi durante a primavera/verão 2019. Na última temporada, a jovem também trabalhou com Tibi e Calvin Luo, em Nova York.

Para Anna, abrir um desfile durante a mais famosa semana de moda do mundo foi o momento mais especial de toda sua trajetória. Ela considera que a oportunidade tem aberto muitas portas. “É uma marca que me abraçou e tem me representado. Sem dúvidas, foi o momento mais marcante da minha história”, alegra-se.

Mas, além dos desfiles na capital francesa, Anna carrega grandes momentos em seus oito anos de carreira. “É até difícil dizer onde tudo começou, porque desde bem pequena minha mãe me levava aos cursos de modelo e manequim”, relembra. Ainda que com muito incentivo da família, a mãe só deixou que a modelo viajasse após concluir o ensino médio, em Taguatinga, cidade onde cresceu. Desde então, ela já carimbou o passaporte em diversos países, como Estados Unidos, China, Indonésia, Turquia e África do Sul.

“Eu sou muito grata por tudo que está acontecendo e foi um período de aprendizado muito grande.” Desde nova, ela diz que aprendeu a lidar com questões contratuais e financeiras, o que proporcionou a ela uma forma diferente de encarar a vida. “Eu me sinto mais corajosa e uma pessoa preparada para encarar o mundo. Deixei de ser tão tímida e introvertida e, agora, tenho mais maturidade”, pondera.

Anna conta que sempre teve muita vontade de viajar e que, por conta disso, a adaptação foi mais fácil. Porém, a barreira linguística foi a maior dificuldade no início. “Em um meio no qual temos pouco tempo para nos apresentar e conseguir o trabalho é uma questão principalmente de personalidade, não dominar a língua é o maior empecilho”, acredita. 
 
(foto: Fenton Model Management/Divulgação)
(foto: Fenton Model Management/Divulgação)
 

Vivendo como camaleoa


É comum que os aspirantes cheguem às agências com metas bem altas. Porém, se preparar é fundamental. Um curso de inglês facilita muito o processo. Pesquisar sobre as marcas, conhecer o próprio perfil e encontrar opções nas quais é possível se encaixar são os primeiros passos para o sucesso.

Elaine Neves, 30 anos, conta que ouviu “não” muitas vezes. O que muda, segundo ela, é como você responde a essa negativa. “É claro que você tenta ver o que está fazendo de errado, se o problema é com você. Mas, ao longo dos anos, você compreende que cada marca tem um DNA, que você pode não se encaixar nos parâmetros de algumas, mas ser exatamente o que outras querem”, ensina a modelo.

Desde que saiu de Planaltina para trabalhar em outros países, Elaine conta que viveu um grande processo de aprendizado e que nem tudo foram flores. Em algumas situações, ela teve que mudar um pouco a aparência para se encaixar e conseguir mais trabalhos. Em Milão, o cabelo precisava estar sempre liso; na China, as sardas não eram bem-vistas. “Eu tinha que ser camaleoa, mas sem perder minha essência.” Porém, em Paris, ela se sentiu mais livre. Os cachos ruivos e as sardas eram um diferencial, e o mercado francês adorou a modelo.

Agora, morando em Nova York, Elaine diz que se encontrou. “Aqui, há todos os tipos de perfis e é uma cidade que recebe muita gente e tem espaço para a particularidade de cada um”, justifica. Ela mora na cidade há dois anos com o namorado.
 
No início da carreira, Elaine fez vários editoriais para a Revista(foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
No início da carreira, Elaine fez vários editoriais para a Revista (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
 

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A profissão de modelo, porém, não era algo que ela sonhava desde criança. Elaine, que cursou a faculdade de publicidade antes de se dedicar inteiramente à carreira, sonhava em ser jogadora de futebol. A irmã dela, por sua vez, queria muito trabalhar com o mundo das passarelas. Entre idas e vindas à agência, foi chamada por um booker para investir na profissão e, aos 13 anos, começou a fazer os primeiros trabalhos. “Eu pude ter meu próprio dinheiro e comprar minhas coisas. Lembro que, com os cachês, eu comprei meu computador e uma bicicleta”, diz.

Alguns dos primeiros editoriais da modelo foram para a Revista do Correio. O primeiro deles, em 2005, logo no início da edição. Mas antes de sair do Brasil de vez, procurou concluir a faculdade e ficar mais tempo com a família, que passou por um período difícil. Depois, ela se mudou para o México e, desde então, já morou em vários países, como Itália, França, Estados Unidos, China, Turquia e Cingapura.

Agora em Nova York, ela conta que não quer se acomodar nunca. “Ser modelo é o que eu quero fazer pro resto da vida, porém sinto que tenho que continuar estudando e trabalhando com outras possibilidades também. Gosto de deixar várias portas abertas.” 
 
(foto: Melina Tavares Comunicação/Divulgação)
(foto: Melina Tavares Comunicação/Divulgação)
 

Na ponte aérea Gama/NY

A profissão de modelo é bem exigente quando se trata do padrão masculino. Enquanto os investimentos nas garotas são maiores, eles precisam de mais experiência e habilidade para emplacar no mercado. Porém, a história de Jhona Burjack, 24, foi diferente. Logo no primeiro mês de profissão, o modelo viajou para investir na carreira em Milão, na Itália.

Ele foi convidado a atuar como modelo quando acompanhava a namorada, que trabalha na área, em uma das visitas à agência dela, em Brasília. Jhona trabalhava em uma peixaria na feira do Gama na época, mas decidiu dar uma chance à nova empreitada. O resultado ficou tão bom que em um mês o casal foi morar na Itália.

“Foi bastante difícil no começo, mas eu tive a sorte de contar com o apoio de Gabriela, que já conhecia bastante esse meio”, relata. Assim que chegou à Europa, ele trabalhou com a Moschino. Depois, a lista de marcas se estendeu: Jean Paul Gaultier, Armani e Dolci & Gabbana são alguns exemplos.

Sobre os padrões de beleza, ele conta que existe um parâmetro: “Nem muito magro, nem muito malhado”. A língua também foi um empecilho inicial. Jhona não dominava nem o italiano nem o inglês. “Era um mundo muito diferente do meu, mas eu estava muito feliz por ser a minha primeira viagem”, relembra. No entanto, aos poucos, o jovem foi se adaptando.

Convencer a família também não foi um processo fácil. Como foi tudo muito rápido, a mãe de Jhona ficou muito receosa. “No começo, ela teve muito medo, por conta de todos os problemas que rondam o mercado da moda, como drogas e prostituição. Mas, como eu estava com Gabriela, que já tinha experiência, ela foi se acostumando e vendo que era seguro, que eu me adaptei bem e que era uma coisa que me fazia feliz”, relembra.

Hoje, morando em Nova York, ele tem vários planos. Trabalhar no mercado da moda asiático e investir na carreira de ator são alguns deles.

Na medida certa

No que diz respeito às características físicas, há mercado para os mais diversos perfis. A demanda internacional varia de acordo com o país e com as tendências da temporada. “Na última estação, os clientes queriam profissionais cuja origem fosse mais difícil de identificar, com uma pegada mais étnica e multicultural. Mas já aconteceu de a procura ser maior por modelos de pele negra, de ficarem loucos pelo perfil asiático ou de buscarem a beleza tradicional europeia”, exemplifica Ludimila Schiavon. Em países como China, Estados Unidos e Inglaterra, quem tem o perfil plus size também encontra bastante espaço.

No eixo tradicional de Paris, Milão, Londres e Nova York, a modelo deve seguir parâmetros mais rígidos: ter pelo menos 1,76m de altura e no máximo 90cm de quadril. No mercado asiático, é diferente — meninas muito altas não trabalham muito. Em alguns casos, os critérios também são diferentes no quesito medidas. Porém, com relação ao tamanho dos pés, costumam ser mais rígidos. Mulheres que calçam mais de 38 não encontram muitas oportunidades.

Mas alguns critérios são básicos. Dificilmente uma mulher com menos de 1,72m e mais de 90cm de quadril será escolhida para muitos trabalhos. Os homens precisam ter, no mínimo 1,83m e, no máximo 1,90m de altura.
 
(foto: Agência Scouting/Divulgação)
(foto: Agência Scouting/Divulgação)
 


Perto do sonho, distante da filha


Para Luana Isabelly, 21, a parte mais difícil de investir na profissão é ter que ficar longe da filha, de 1 ano. Morando na Índia pela segunda vez, ela conta que a distância da família é uma parte dolorosa, mas importante para garantir um futuro melhor para as duas. “Alguns acharam que eu era louca ao deixar minha filha pra trás por algo instável. Mas, quanto mais eu cresço aqui, mais sinto que é um processo necessário para o nosso futuro.”

Apesar de todas as diferenças entre a cultura indiana e a brasileira, a modelo conta que foi muito bem recebida. “Fui abraçada pela agência, pelos indianos, eles gostam muito dos brasileiros aqui. Mas é sempre bom que eu tenha cuidado, porque existe um preconceito de que modelo é ‘fácil’. Então, eu preciso cuidar pra não me expor a certas situações incômodas. Para eles, é chocante que nós, mulheres, tenhamos tanta liberdade”, relata.

Os parâmetros indianos são mais permissivos, segundo ela. Os clientes costumam ser mais flexíveis quanto às medidas e optam por perfis mais reais, que se assemelham ao corpo da mulher nativa. “Mas já aconteceu, sim, de eu chegar a algum trabalho e dizerem que eu estava gorda demais, de forma bem grosseira”, conta Luana. “O importante, especialmente aqui na Índia, é estar saudável. Só que a gente vive com ansiedade e outros problemas, nem sempre estamos bem”, conta a modelo.

Na casa onde mora, vivem outras meninas de diferentes nacionalidades. Uma iraniana, outra da Rússia, uma ucraniana e uma nova colega, que está prestes a chegar. Desde que começou a modelar, há seis anos, ela já passou por São Paulo e estava procurando oportunidades em outros países, porém teve que dar uma pausa na carreira por conta da gravidez. Depois que a filha completou 1 ano, ela aceitou o convite da agência da capital paulista para trabalhar na Ásia.

“O que eu quero para o futuro é conseguir voltar a morar com minha filha e conhecer cada vez mais países. As experiências que eu estou vivendo aqui são inigualáveis, e eu me sinto muito realizada fazendo o que eu faço”, considera Luana.
 
(foto: Squad1/Reprodução)
(foto: Squad1/Reprodução)
 

O rosto certo para a fotografia


As oportunidades internacionais não se restringem às modelos acostumadas a riscar as passarelas. Há um espaço especial para as meninas do chamado perfil comercial, que realizam campanhas fotográficas e comerciais de televisão. Iza Rios, 21, saiu do Brasil para morar na Turquia e conta que não está dentro dos padrões de passarela. Porém, também encontrou seu lugar no mercado internacional.

A primeira experiência da jovem morando fora de casa foi em São Paulo, aos 17 anos, e ela teve dificuldades com a adaptação. “Eu era muito nova e convivia com pessoas mais velhas, que usavam drogas. Eles queriam ainda que eu abandonasse a minha agência mãe (em Brasília) e ficasse por lá”, relata. Como não gostou da experiência, ela voltou para casa, em Valparaíso.

Porém, as oportunidades não pararam de aparecer. Logo quando completou 18 anos, a jovem recebeu um convite de uma agência da Turquia, e mora fora do Brasil desde então. A lista de países só cresceu: Alemanha, Itália, Inglaterra e Estados Unidos, onde Iza mora atualmente, integram as experiências da modelo.

Mesmo conhecendo vários países e culturas, morar sozinha, para ela, ainda é um processo muito solitário. “Eu conheci muita gente, mas, como é um meio muito competitivo, sinto falta de poder confiar inteiramente nas pessoas com as quais convivo, de amizades verdadeiras.” Por isso, sempre que pode, ela volta ao Brasil para o refúgio da família e do namorado, que mora na Alemanha.

Agora, alcançando voos mais altos no mercado da moda, ela deseja retomar os estudos, além de se consolidar na carreira. Enquanto ainda estava em Brasília, ela passou no vestibular de uma faculdade particular, porém não tinha condições financeiras de arcar com as mensalidades. “Eu vim trabalhar para conseguir um futuro melhor e, depois, estudar. O sistema de ensino que mais me chamou a atenção foi o da Alemanha, eu gostaria muito de cursar alguma universidade alemã”, conta. 


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