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Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Além da clínica: psicólogos estão cada vez mais próximos da comunidade

Debatendo temas terapêuticos, profissionais saem dos consultórios e se aproximam da população em rodas de conversas


postado em 07/04/2019 07:00

A psicóloga Sandra Férrer (ao centro) com um grupo participante do Cafeterapia(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
A psicóloga Sandra Férrer (ao centro) com um grupo participante do Cafeterapia (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)


“Psicólogo é coisa para doido.” “Isso é frescura.” “Não preciso, vou resolver sozinho.” Eventualmente, as opiniões relacionadas à procura por auxílio psicológico passam por preconceitos e tabus. Para piorar, serviços públicos pouco eficazes e dificuldade de parte da população em acessar ajuda privada são obstáculos para o enfrentamento de problemas que afetam cada vez mais pessoas no mundo, como a depressão.

Ações voltadas para quebrar essas barreiras e levar ajuda psicológica para perto da população ganham espaço, como as rodas de conversas e os encontros coletivos em locais públicos sob o comando de psicólogos, para debater temas terapêuticos.

O Cafeterapia é um desses projetos: “Não é uma terapia na prática. É uma tentativa de tirar os temas dolorosos do consultório e levar ao público com mais leveza e clareza. Os temas escolhidos vão desde os mais leves, como felicidade e relacionamento, até depressão e outros”, explica a idealizadora dos encontros, a psicóloga Sandra Férrer.

Formada há mais de 15 anos, ela conta que a ideia ocorreu de forma despretensiosa: “Tudo começou quanto eu fui dar uma palestra no Dia da Mulher. Combinamos de fazer mais coisas no espaço e abrimos para essa nova vertente.” Sandra defende que, pelo fato de as rodas de conversa serem em um local público, trata-se de um momento de abertura. “A minha proposta é justamente irmos ao encontro das pessoas para falar de temas que tocam os indivíduos. Não é uma terapia em grupo, não temos contrato. Eu não tenho dúvida de que a ciência precisa estar mais perto das pessoas, sair do consultório.”

Outro fator abordado por Sandra indica um conceito curioso, mas de extrema importância: a psicologia preventiva. De acordo com a profissional, o padrão tradicional do trabalho clínico envolve a solução para um problema que já se expressou. Entretanto, encontros junto à sociedade podem ter o poder de evitar adversidades. “Normalmente, quando você olha para um público maior, mais pessoas se beneficiam disso. Uma forma de manter a sociedade mais saudável é falando com essas pessoas. Não basta o psicólogo se formar e esperar o cliente. A profissão precisa dessa ação.”

Graziela Furtado Scarpelli Ferreira, coordenadora do curso de psicologia do Iesb, concorda que a prevenção é um fator que precisa ser colocado em foco no cotidiano da profissão: “Essa é uma área que, para nós, não é tão nova. A população mais carente sempre teve acesso à psicologia dentro dessa vertente (da saída clínica para espaços públicos)”.

Para Sandra, existe outro contexto pouco discutido, mas fundamental para o acesso da população à ajuda psicológica: o preconceito. “Ainda há muito preconceito de ir até o psicólogo, de visitar uma clínica. Talvez por isso existam tantos casos de suicídio: por esse obstáculo de chegar até a ajuda.” Para ela, há uma dificuldade da população em entender o quanto a depressão é perigosa e precisa ser discutida. “Em 2020, provavelmente, se tornará a segunda doença que mais mata no mundo, e falar sobre isso só na clínica é muito pouco”, alerta.
 

Aprovação


Mesmo fazendo terapia individualmente, Tamara Magalhães, 26 anos, alega que a experiência coletiva agrega mais vantagens. “Na terapia, eu sou a protagonista e encaro os problemas com essa perspectiva pessoal. Nas rodas de conversa, são pontos de vista diferentes sobre o mesmo assunto. Isso é o que mais me chama a atenção: ter várias pessoas falando sobre um assunto, com novas ideias. Vai abrindo a cabeça”, analisa.

A museóloga conheceu o encontro por acaso, por meio de um post na rede social da cafeteria que recebe os encontros na Asa Sul. “Eu vi o anúncio e me pareceu interessante um espaço para botar para fora os assuntos que não colocamos no dia a dia.” Ela nunca tinha participado de outro encontro do gênero. “Não é uma conversa com amigos, mas também não é uma terapia. A gente tem liberdade de falar sobre algo que incomoda, que traz dúvidas. O legal é tentar compartilhar e se ver na fala do outro, é perceber que você não está só. Acho que a única coisa que eu diria para quem quer participar é: experimente.”

Opinião parecida tem Márcia Romeu. A empresária de 42 anos frisa que um ponto importante é a participação do psicólogo nos encontros, o que diferencia a experiência de um grupo de conversa comum: “Eu acho que o profissional tem uma carga educacional maior e um controle maior também. A gente consegue ser mais organizado, não há tantas interrupções nem julgamento. As ideias fluem.”

Para os que pretendem conhecer a experiência, Márcia alerta: “A proposta é diferente e, no começo, você fica um pouco assustado, porque se expõe para outras pessoas. Mas o interessante é perceber que nosso dilema é o dilema de outras pessoas também. E essa situação de alívio é interessante porque, ao contrário do que eu imaginava, a gente fica mais à vontade de expor os problemas do dia dia.”


Diferenciando


Para Bruno Nogueira da Silva Costa, psicólogo do Centro de Antedimentos e Estudos Psicológicos do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador da Comissão dos Direitos Humanos do Conselho Regional de Psicologia, antes de tudo, é importante diferenciar os encontros, as rodas de conversa e a terapia coletiva. “É importante frisar que as rodas de conversa não são uma terapia de grupo. Nelas, há o aspecto temporal, porque é um trabalho de curtíssimo prazo, com um encontro em um lugar informal, que não demanda papéis definidos, onde o facilitador construirá um espaço para compartilhar o pensar.”

Costa explica que já existem estudos sobre o tema. “Na própria UnB, promovemos essas rodas de conversa e encontros. Já fizemos, por exemplo, sobre suicídio, um tema recorrente na universidade. Eu gostaria de lembrar que não é uma ação sem referência. Mesmo que no Brasil elas sejam mais novas, lá fora já existe um conteúdo acadêmico forte e sólido em relação a isso.”

Por mais que o termo pareça complicado, o professor frisa que um dos pontos positivos dos encontros e rodas de conversam passam por uma ressignificação de acontecimentos. “Esses espaços ajudam as pessoas a compartilharem um pouco suas histórias. Colocando outras pessoas para escutar e se escutando, elas terão a oportunidade de ressignificar tais histórias e ter um sentimento mais pacífico para aquilo que foi debatido. Por exemplo, se uma mulher que sofre violência e não quer procurar uma clínica participa de um encontro desses, ela vai ter uma chance de procurar uma ressignificação desses acontecimentos.”

Para Angela Batista, que trabalhou por 10 anos como psicóloga, os projetos de atendimento fora da clínica funcionam como uma complementação. “Eles vão ajudar quem não tem condição de procurar ajuda. A clínica é importantíssima, mas os resultados dessas ações podem também ajudar as pessoas.”

Mais projetos


Ficou interessado no assunto? Confira alguns projetos que recebem o público:
 
Cafeterapia: A agenda dos encontros da psicóloga Sandra Férrer para abril pode ser acompanhada pela página do Gentil Café, no Facebook e no Instagram (@gentilcafe). Nesta segunda (8/4), será sobre relacionamento abusivo.
 
Acolhimento integrado: O Iesb promove, entre outras atividades, o Acolhimento Integrado, com apoio psicológico para a comunidade de Ceilândia. O próximo encontro será nesta terça-feira (9/4). Para mais informações, basta acessar o site da instituição no iesb.br/ServicoDePsicologia.
 
UnB: A universidade também promove atividades na vertente de rodas de conversa. Para acompanhar mais informações dos eventos, basta conferir a agenda de ações no noticias.unb.br/component/agenda.

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