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Correio Braziliense MODA

Naturalmente belo: couro de pirarucu é alternativa sustentável reproveitada

O couro do pirarucu é uma alternativa sustentável que utiliza matéria-prima reaproveitada da indústria da gastronomia e aquece a economia ribeirinha, sem deixar de lado o valor estético


postado em 14/04/2019 08:00 / atualizado em 12/04/2019 14:00

(foto: Osklen/Divulgação)
(foto: Osklen/Divulgação)

 
 
Mais que estilo, a moda pode servir a um propósito. Considerando a preocupação ambiental, alternativas sustentáveis, a exemplo do couro de pirarucu, passaram a integrar coleções de marcas brasileiras, como Osklen e Bléque, e até internacionais, como Salvatore Ferragamo. Além de ser proveniente do reaproveitamento de uma matéria-prima que costumava ser descartada, o material tem uma textura diferenciada, que se deve ao tamanho das escamas, o que garante uma estética ímpar ao produto.

O couro do pescado pode ser convertido em um artigo especial, com maciez e textura adequadas para a produção de diversos acessórios, como sapatos e bolsas. A matéria-prima adquiriu tamanha notoriedade que ganhou o prêmio de tipo de tecido ou couro mais responsável e criativo na última feira Prémière Vision Paris, em 2017.

A pesca do pirarucu é tradicional na cultura amazônica. Por conta do sabor único, que faz parte da gastronomia da Região Norte, ele é chamado de “salmão brasileiro”. Todo o resto do peixe — couro e escamas — deixou de ser apenas subproduto e caiu no gosto de estilistas e designers. Ainda que a matéria-prima seja de origem animal, a sustentabilidade vem do reaproveitamento de quilos de couro, enriquecendo a economia da população ribeirinha e reduzindo a quantidade de material descartado.

O método de curtimento também é de origem exclusivamente orgânica, o que favorece o produto final. “A moda é a segunda indústria que mais polui, e a cadeia de produção é muito extensa, por isso é tão difícil de ser controlada. Encontrar alternativas que agridam menos o meio ambiente e que sejam fiscalizadas de maneira correta é fundamental”, acredita Rafaella Lacerda, professora de moda do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb).
 
(foto: Osklen/Divulgação)
(foto: Osklen/Divulgação)
 
 

Regulamentação 


Todo o pirarucu comercializado deve vir de cativeiros ou de planos de manejo regulamentados pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que fiscaliza o desembarque e as empresas pesqueiras que comercializam o pescado. Segundo o instituto, o produto é regularizado tanto quanto ao período do ano e ao tamanho permitido para pesca e comercialização.

O Ibama verifica a origem do peixe por meio da análise de notas fiscais do produto. Cada espécie, quando obtida em planos de manejo, vem com um lacre numerado, que indica sua procedência. Fora de cativeiro, a pesca do pirarucu é proibida durante o período da piracema (época de reprodução), que varia em cada estado.

No que tange ao comércio internacional, o pirarucu, incluindo seus subprodutos (como o couro), deve estar acompanhada da licença Cites (Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção), para regular o risco de extinção de espécies brasileiras.

Nina Braga, porta-voz do Instituto E (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público), explica que o direcionamento que deve ser feito às marcas é que apenas comprem o couro de pirarucu proveniente de manejo sustentável. O Ibama realiza uma atividade de monitoramento da quantidade de peixes e distribui uma quantidade de lacres correspondente ao permitido para a pesca. Os curtumes repassam aos compradores apenas couro com o lacre de regulamentação.


Material diferenciado


Um produto feito com couro de pirarucu é facilmente identificado, por conta de sua estética singular. A Osklen, em parceria com o Instituto E — responsável pelas ações socioambientais da marca —, utiliza o material devidamente regulamentado desde 2009 em suas coleções. “No primeiro ano, quando oferecemos este material para a Osklen, os acessórios produzidos correspondiam a 9% do que era feito em couro. No ano passado, 48% das peças passaram a ser feitas do material. A nossa expectativa é de que esse número cresça significativamente”, afirma Nina.

“Além de ser esteticamente um produto fantástico, ele tem uma cadeia por trás, que a Osklen valoriza muito. Toda a produção faz com que a renda do ribeirinho, em situação vulnerável nas regiões amazônicas, triplique.”

A porta-voz explica que quando o peixe é vendido por completo, sem a separação da carne e da pele — processo que exige capacitação e amparo — o valor arrecadado é de R$ 3,5 por quilo. Quando o material é vendido separadamente, o preço aumenta para R$ 9,80. “A marca faz um trabalho de base. Nós, do instituto, visitamos regularmente essas regiões para garantir que a economia local seja beneficiada pela renda da pele”, afirma.
 
(foto: Bleque/Divulgação)
(foto: Bleque/Divulgação)
 

Propósito de marca


A Bléque surgiu com intuito de produzir moda, porém, com o diferencial sustentável. Antes de iniciar a produção, a dona da marca, Renata Negrão, partiu em busca de materiais que fossem esteticamente tão agradáveis quanto menos prejudiciais ao meio ambiente. Ela encontrou, então, o couro de pirarucu e o couro de tilápia.

“Nós compramos dos ribeirinhos e dos índios e fazemos um trabalho que desincentiva a pesca desenfreada, por meio da exigência da regulamentação”, explica Renata. “É uma pele muito grossa, que era descartada de forma indevida. Todos os nossos curtumes parceiros são de pequenos produtores, e procuramos incentivar essa economia. Também criamos pequenos produtos para aproveitar os retalhos. Queremos produzir o mínimo de rejeito possível”, ressalta.

A professora Rafaella Lacerda pondera que o material, ainda que biodegradável, demora muito tempo para se decompor naturalmente. Pensando nisso, a Bléque criou a possibilidade de reformar esses produtos para que eles tenham uma vida útil maior.

Além do couro de pirarucu e de tilápia, para as próximas coleções de primavera/verão, a marca está trabalhando com a fibra do abacaxi, o chamado piñatex, e da banana. “Eu sentia que os produtos sustentáveis não conversavam comigo, que frequentemente a estética era deixada de lado. Vimos que era fundamental que as pessoas que se preocupam com o processo de produção das coisas que elas estão consumindo também fossem atendidos, sem deixar a beleza de lado”, alega a dona da Bléque.

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