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Correio Braziliense BICHOS

Cães bem-educados: Especialistas e donos podem ajudar no adestramento

Confira dicas e cuidados para o bem-estar do pet ao longo do processo


postado em 21/04/2019 08:00

Elida, a dona da buldogue francês Naomi, sentiu mais segurança em ajudar no adestramento da cachorrinha em casa(foto: Arquivo Pessoal)
Elida, a dona da buldogue francês Naomi, sentiu mais segurança em ajudar no adestramento da cachorrinha em casa (foto: Arquivo Pessoal)


A vida com um pet de estimação tem incontáveis prazeres, mas também requer muita dedicação. Entre comportamentos não tão agradáveis, eventualmente, o cuidado com os bichinhos precisa de uma boa dose de paciência e organização. O adestramento, em especial dos cachorros, não é nenhuma novidade, mas a possibilidade de realizá-lo em casa tem caído no gosto dos donos.

A Revista consultou alguns especialistas em comportamento animal para conferir como os tutores podem ajudar os cães a combater hábitos indesejados. A primeira grande dica é: nada de adestramento de WhatsApp ou Facebook. “Esse é um ponto delicado. Na internet, as pessoas são muito experts em tudo e, muitas vezes, dão informações que não têm fundamento. Pegar essas dicas sem embasamento chega a ser irresponsável, pois você está lidando com uma vida”, afirma Paula Emert, especialista em comportamento animal e adestradora há mais de 10 anos.

Ainda de acordo com a proprietária do Cachorro Sabido, se usadas de forma errada, essas dicas podem trazer consequências perigosas. “O pior é quando as pessoas usam punições muito difundidas pela internet, como espirrar água no animal, soltar o cachorro de barriga para cima no chão, bater com jornal. Existem estudos, inclusive, que mostram que esse tipo de punição gera comportamento agressivo por parte do animal, podendo colocar também a vida das pessoas em risco.”

Lucas Duty, especialista em comportamento animal há mais de uma década e responsável pelo Meu amigo, Lucas reforça que, muitas vezes, o comportamento do pet está intimamente ligado a como os donos agem — e isso faz toda a diferença para uma relação mais ou menos pacífica. “Hoje, ter cachorro acabou se tornando, erradamente, uma muleta psicológica. Cachorro é um animal, um companheiro, mas jamais será um segurança da casa, um brinquedo para o momento de diversão. E saber disso é fundamental para tentar lidar com o comportamento do pet e com os problemas relacionados a ele”, comenta.

Irritação


Um dos principais problemas de comportamento que os donos reclamam está ligado à irritabilidade e à agitação dos pets, como no caso de Naomi. A buldogue francesa de Elida Ribeiro, 32 anos, estava com apenas 8 meses quando a moradora de Vicente Pires decidiu que era hora de buscar ajuda para auxiliar a cachorrinha a se acalmar.

“Ela começou a demostrar um comportamento de muita agitação. Chegou a um ponto de começar a destruir a casa, comendo o papel de parede, detonando tudo, até o aparelho de som ela derrubava da estante”, comenta Elida. A ajuda veio de um profissional, mas não sem antes aquelas clássicas — e furadas — dicas de internet: “Eu via vídeos no YouTube, tentava entender como ajudá-la, mas não funcionava. Por mais que você aprenda com vídeos, é diferente quando alguém dá uma dica ao vivo e você pode aplicar isso sozinha”, defende.

O serviço foi totalmente realizado na residência de Elida. O profissional fez uma avaliação inicial, mostrou o que poderia ajudar, e a prática das ações ficou nas mãos de Elida. “Esse adestramento em casa é interessante porque a gente trabalha em equipe e, especialmente, ficamos perto dos cachorros, o que o deixa mais seguro para o processo de aprendizado.”

Para ajudar na diminuição da irritação, Paula Emert sugere estudar as causas da conduta. “A primeira sugestão é a pessoa juntar suas prioridades com as do cachorro, ou seja, focar no animal. O segundo passo é que esse cão tenha local e momento de descanso apropriados, além de um período de socialização, com oportunidade de brincar com outros animais e também com pessoas.” A especialista ainda completa: “O terceiro ponto é verificar se ele está com as necessidades de atividades físicas adaptáveis à sua raça. E, por último, que o cão tenha estimulação com enriquecimento ambiental. Até a ação de tentar ensinar o animal a dar a patinha já é um estímulo”.

Outro sinal comum de irritação pode vir do latido. Contudo, antes de implementar qualquer ação contra o barulho, é mais importante investigar as razões. “Cada latir tem um intuito. Pode ser ansiedade, pode ser só para se introduzir, para amedrontar, por estresse... É algo muito complexo. O importante é que o dono fique atento ao gatilho do que causa o excesso de latido”, sustenta Ricardo Mebs, um dos proprietários do Adestramento pacífico e especialista em comportamento animal e adestramento há cerca de oito anos.


Hábitos


Outro problema que pode trazer estresse para as residências com animais está relacionado a hábitos cotidianos, como os clássicos xixi e cocô. Por mais comum que pareça, ajudar o cão a fazer as necessidades no local certo é algo extremamente delicado, que precisa de atenção e paciência. “A parte de higiene é uma das mais complicadas. Por instinto, o cão procura por solos absorventes, já buscando uma espécie de limpeza, e, muitas vezes, em casa isso não existe”, explica Mebs.

De acordo com o especialista, um local reservado para as necessidades dos pets — com fácil acesso — pode ajudar no controle da bagunça. “Uma dica é promover esse espaço até que o cão se condicione e se acostume. Aqueles clássicos ‘aqui pode’ e ‘aqui não pode’ funcionam só com alguns cachorros. É importante que o tutor não perca a paciência se o cachorro não conseguir entender. Outra dica é dar um pouco de privacidade para que o cão se sinta mais seguro, pois esse é um momento em que ele se sente vulnerável.”

Duty complementa que o banheiro (do cachorro) tem de ficar em uma área mais silenciosa — longe da máquina de lavar ou de ambientes muito movimentados. É importante também não brigar nem bater no cão porque ele fez xixi no lugar errado, isso só causa estresse e pode piorar o problema. Outra dica é nunca higienizar logo depois que ele fizer as necessidades no lugar errado, porque seria uma espécie de celebração do ato.

O problema do lhasa apso Fausto nunca foi usar o “banheiro” de forma errada. O adestramento residencial do cachorrinho de 10 anos ajudou a resolver outros problemas, como irritabilidade e até a tirar o hábito de o cão dormir com a tutora, a servidora pública Kelly Moraes, 42. “Ele estava com um problema de comportamento, ficou mais agressivo e possessivo com as coisas, como com o meu quarto. Eu senti que fiquei sem controle. Muitas vezes, nem percebemos como estava criando errado. A gente pensa que o comportamento vai passar.”
 
Em casa mesmo, Fausto foi ajudado pela dona a ficar menos irritado e territorialista(foto: Arquivo Pessoal)
Em casa mesmo, Fausto foi ajudado pela dona a ficar menos irritado e territorialista (foto: Arquivo Pessoal)
A moradora de Vicente Pires lembra que muito do adestramento passou pelo ajuste da própria família: “Muitas vezes, os donos têm resistências com as mudanças. É importante que as pessoas peguem indicações e trabalhem formas educadoras.”

Sobre o trabalho em casa, Kelly sustenta que os resultados só foram positivos graças à indicação do profissional e à persistência no dia a dia: “Os exercícios têm de ser feitos por mim. A gente tinha medo de ele sofrer, mas, na prática, a casa e o profissional dão mais segurança. Eu vi que ele aprendeu muito rápido porque estava comigo, estava com essa sensação de segurança”. No fim das contas, Fausto conseguiu deixar a cama de Kelly em 10 dias, e até o relacionamento com a colega de casa, a shih tzu Nina, 5 anos, melhorou.


Alimentação


Outro problema de comportamento não tão comum, mas também delicado, se refere às refeições. A bagunça na hora de comer pode ser um sinal de falta de organização dos donos. E, como explica Mebs, existem algumas dicas que ajudam na situação. “É importante lembrar que o horário da alimentação precisa ser feito com organização. É preciso indicar o horário correto para a alimentação e não só deixar a comida lá o dia todo, o que, inclusive, pode trazer problemas para o sistema digestivo do animal.”

O especialista ainda lembra que paciência é fundamental no processo: “Converse com um veterinário para entender a melhor dieta para o cachorro. Depois, sirva as refeições de forma organizada. Coloque o alimento, deixe um tempo para ver se ele realmente vai comer. Se ele não quiser, retire a tigela e deixe para outro momento. Não há a necessidade de brigar ou estressar o pet, apenas leve o alimento para o próximo horário da refeição”.

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