Publicidade

Correio Braziliense ESPECIAL

Comportamento, referências e estilo: o K-pop está na cabeça dos jovens

Entenda como o gênero se tornou uma referência cultural


postado em 28/04/2019 08:00 / atualizado em 29/04/2019 20:56

Matheus, Yasmin e Viniciús encontraram no K-pop um estilo de vida, que seguem à risca(foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press)
Matheus, Yasmin e Viniciús encontraram no K-pop um estilo de vida, que seguem à risca (foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press)


Doramas, idols, aegyo, stan, maknae. Os termos podem até soar estranho para alguns, mas a aposta é que se tornem cada vez mais comuns no Ocidente. Impulsionada pela onda da música K-pop, grande parte da cultura da Coreia do Sul começa a ganhar destaque do outro lado do mundo. Moda, estilo e comportamento já podem ser percebidos nas ruas, pelas mãos — e criatividade — dos fãs.

A Revista foi conferir como o domínio do K-pop extrapolou as barreiras da música e está se tornando uma verdadeira referência de atitude. E se você quiser saber como essa cultura se traduz na prática, nada melhor do que falar com quem entende do assunto: os fãs.

Mais do que copiar o estilo asiático, quem curte K-pop, está mais disposto a usar de referências que caibam dentro da realidade do brasiliense. De acordo com os fãs, não há apenas um estilo K. Cada artista, ou melhor, cada “idol” designará uma tendência, que será uma referência popular de moda e até de comportamento.

“A maioria das pessoas constroem esse estilo pelo trabalho dos idols. Por exemplo, veem os clipes e buscam roupas parecidas em lojas. Se o Blackpink (um dos mais famosos grupos de K-pop feminino) usa peças de Exército no videoclipe, os fãs vão tentar buscar isso também”, explica Viniciús Ramos, 24 anos.

O morador de Planaltina é um fã assíduo que descobriu o gênero sem grandes pretensões e, anos depois, transformou o assunto em um tema de TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) do curso de jornalismo, que concluiu recentemente. Hoje, ele mantém, inclusive, um grupo de Facebook dedicado a reunir os apaixonados pelo gênero.

“No vestuário, acho que o destaque fica por conta daquelas camisas de estampa e do estilo colegial, que são uma marca. Os homens usam blusas com um tamanho a mais, calças mais apertada, tênis chamativos, tudo com muita cor. Outro detalhe são os assessórios como uma distinção das roupas”, analisa Viniciús.

Para a graduada em direito Yasmin Góes, 22, o K-pop vai além da moda — é uma influência até de comportamento. A moradora da Asa Norte conta que conheceu o gênero em 2010, por meio de uma playlist indicada por uma amiga. Logo, a música evoluiu para os doramas — as novelas sul-coreanas — e, quando percebeu, o K-pop tinha se tornado uma referência na vida dela.

“Eu posso dizer que tudo ocorreu meio inconscientemente. As novelas coreanas são muito fortes nesse quesito de influência, e podem ir moldando várias áreas de comportamento com os amigos, com os familiares. É uma espécie de alegria e entusiasmo que é passada para o público, e que está no comportamento dos fãs. Na gastronomia, também houve influência. Passei a consumir mais a comida oriental. São pequenas coisas que vão mudando no dia a dia”, conta Yasmin.

E se o comportamento já está completamente ligado ao gênero, com o estilo não é diferente. Yasmin afirma que o mais interessante da simbologia do K-pop no vestuário diz respeito à expressão e à ousadia do se vestir: “Saias, sapatos mocassins, assessórios. São looks divertidos, que se refletem também na maquiagem, com o batom vermelho mais centralizado e mais esfumaçado nas laterias, o delineador focado para o final do olho, uma coisa mais suave. A questão das cores é muito forte. Hoje, eu saio para comprar roupas coloridas, coisa que eu não fazia muito antes.”

Gênero free


O K-pop chamou a atenção de Matheus Mendes, 23, logo após o graduado em direito ter feito um intercâmbio na Coreia do Sul. De acordo com ele, dois fatores se destacam em relação ao estilo: o gênero free e a distinção de estações.

A designação de gênero entre homem e mulher é menos latente na cultura K, o que, para Matheus, é uma característica positiva: “Não tem tanto aquela coisa ‘de homem e de mulher’, as roupas podem ser mais claras e acessórios não muito comuns no Brasil podem entrar. Não são só aqueles tons mais escuros. Os tênis brancos são usados. Há toda essa questão do colorido e do contraste.”

Matheus cita ainda a influência das estações. Para os idols, a primavera é tempo de abusar das estampas e do estilo floral, enquanto o verão fica marcado pelo vestuário de marcas esportivas. Para o jovem, os cuidados com a pele, que a cultura K-pop trouxe da Ásia, vai além da maquiagem. “Tem toda uma complexidade. Um grande diferencial da maquiagem oriental é essa questão de tentar mostrar que você não está usando muita maquiagem. Eles buscam um rosto mais perfeito do que uma maquiagem marcante, e se preocupam muito com o cuidado da pele exatamente por conta disso.”

Vitrine


Quer apostar em um look influenciado pelo K-pop, mas não sabe por onde começar? Dá uma olhada nestas opções:

Saia xadrez: a peça é uma carta na manga para o estilo colegial, visto em diversos idols K-pop. Uma dica é apostar naquelas com a cintura mais alta. Saia xadrex, da C&A (R$ 99,99) 
Saia xadrez da C&A(foto: C&A/Divulgação)
Saia xadrez da C&A (foto: C&A/Divulgação)

Acessórios: abusar dos detalhes é uma das marcas do estilo. Vale apostar em pulseiras, brincos, gargantilhas, grampos e até pequenos bichinhos de pelúcia como chaveiro de bolsas e mochilas. Aqui a dica é dá asas à liberdade criativa. Grampos de cabelo, da C&A (R$ 29,99 cada) 
Grampo de cabelo claro(foto: C&A/Divulgação)
Grampo de cabelo claro (foto: C&A/Divulgação)

Cores: outra marca de inovação do gênero são as cores, e abusar delas é quase uma regra. Os tons quentes chamam mais atenção, mas os claros também entram no jogo, principalmente se você tiver com assessórios mais chamativos. Blusa amarela Cortelle, da Renner (R$ 79,90) 
Blusa amarela Cortelle(foto: Renner/Divulgação)
Blusa amarela Cortelle (foto: Renner/Divulgação)

Moletons: os grandes moletons fazem parte do guarda-roupa K-pop. As cores, é claro, são o grande destaque. Vale também apostar nos casacos cropped. Moleton laranja, da Renner (R$ 139,90) 
Moleton laranja blue steel(foto: Renner/Divulgação)
Moleton laranja blue steel (foto: Renner/Divulgação)


Uma forma de expressão


“Para mim, achar o K-pop foi como encontrar o meu lugar. O lugar de uma pessoa tímida, que gosta de cuidar das pessoas, de gostar das mesmas coisas e virar amigo. E a cultura coreana tem muito disso: do cuidar. Foi um mundo de cultura e comportamento que eu conheci pela música.” A estudante Maria Fernanda Teixeira conta a revolução que o K-pop causou em sua vida. Ela foi apresentada ao gênero pela irmã mais nova e lembra que o gênero se tornou uma porta de expressão que até então desconhecia.
 
Maria Fernanda acredita que o gênero a ajudou a se expressar melhor(foto: Ronayre Nunes/Esp. CB/D.A Press)
Maria Fernanda acredita que o gênero a ajudou a se expressar melhor (foto: Ronayre Nunes/Esp. CB/D.A Press)
 

“Eu sempre tive um estilo mais alternativo, porque achava que, se fosse me expressar, seria algo estranho. Mas, com o k-pop, há esse desapego de se dizer o que quer, eles não têm medo de ousar, de exagerar. E acho que isso me inclui”, descreve a moradora da Asa Norte, com o jeito calmo de falar e sincero de sorrir.

De acordo com a estudante, o gênero foi um catalisador dessa expressão, especialmente por meio da moda — algo que a antiga Maria Fernanda nunca imaginou alcançar. “Eu tenho um tênis de bolinha, coisa que eu não usava, mas hoje eu uso muito. Mais saias, suéteres. Já tive o cabelo pintado. Mas o mais importante é que gosto mais dessa identificação com o estilo.”

Conexão Brasil-Coreia


Luiza Akemi curte o K-pop diretamente da Coreia e não deixa de postar as aventuras nas redes sociais(foto: Instagram/Reprodução)
Luiza Akemi curte o K-pop diretamente da Coreia e não deixa de postar as aventuras nas redes sociais (foto: Instagram/Reprodução)
Afirmar que o destino do intercâmbio de Luiza Akemi, 22, foi escolhido exclusivamente pelo K-pop seria um erro. Entretanto, é inegável que a estudante de publicidade e propaganda está tendo, na Coreia do Sul, a oportunidade de conferir in loco como funciona o gênero de música que tanto curte. “Ele acabou moldando meus gostos no geral. Principalmente na Coreia, porque as pessoas se inspiram muito na moda do K-pop e eu comecei a mudar involuntariamente meu estilo. Se antes eu não me importava com minhas roupas, passei a notar mais esses detalhes”, observa Luiza.
 
Se as roupas ganharam nova perspectiva, a estudante garante que a maquiagem teve uma influência ainda maior. “As coreanas investem em maquiagens, e eu passei a usar o ‘blush de bêbado’, como eles falam aqui, porque deixa a bochecha mais vermelha e funciona bem para o meu rosto.” Algo parecido aconteceu com o cabelo da jovem. “Eu nunca liguei para o cabelo, porque eu tinha preguiça, mas um dia eu ‘meti a louca’ e cortei uma franja muito popular aqui. Depois, também pintei os fios. Nesse sentido, acho que o K-pop me deixou mais aventureira”, brinca a estudante.

Na palma da mão


Perfis nas redes sociais com dicas e os próprios idols no Instagram são uma fonte quase infinita de conteúdo da K-pop. Conheça os mais populares:

@bemy1in: Se você quiser um fonte de inspiração em roupas e estilo, a grande dica é seguir @bemy1in. Com muito rosa, ela mexe com a imaginação dos fãs do gênero com vestuários luxuosos. 
@bemy1in(foto: Reprodução/Instagram)
@bemy1in (foto: Reprodução/Instagram)


@midorithais: A blogueira é uma verdadeira fã da cultura coreana e leva para os seguidores um pedaço de todo o estilo do país asiático. No conteúdo, tem desde dicas de maquiagem até viagens. 
@midorithais(foto: Reprodução/Instagram)
@midorithais (foto: Reprodução/Instagram)


@xxibgdrgn: Na área dos idols, um dos destaques é o cantor G-Dragon. Com imagens bem conceituais, o astro aposta em uma visão mais jovem do gênero para os mais de 16 milhões de seguidores. 
G-Dragon(foto: Reprodução/Instagram)
G-Dragon (foto: Reprodução/Instagram)


@ponysmakeup: No perfil, o grande foco é a maquiagem. Não existem muitos tutoriais, mas as fotos para se inspirar são uma verdadeira obra-prima. 
Ponys Makeup(foto: Reprodução/Instagram)
Ponys Makeup (foto: Reprodução/Instagram)


@lalalalisa_m: Outra idol de peso no mundo da influência digital é Lisa, do grupo Blackpink. Para quase 12 milhões de seguidores, a jovem apresenta um estilo mais sexy do K-pop. 
Lisa(foto: Reprodução/Instagram)
Lisa (foto: Reprodução/Instagram)

Onda crescente


Para a assessoria de imprensa da Embaixada da República da Coreia, o K-pop já ultrapassou os limites da música há muito tempo e agora é um espelho da Coreia no mundo. “A crescente popularidade do K-pop em todo o mundo ajuda a melhorar a imagem nacional da Coreia e faz com que as pessoas saibam mais sobre o país mundo afora. O K-pop também pode ajudar a espalhar outros tipos de produtos culturais coreanos, como filmes, dramas e literatura. Estimamos que agora existam cerca de 70 milhões de fãs da chamada onda K nos países (do mundo) — esse número aumentou mais de 230% em relação a 2014”, afirma.

No Brasil, a embaixada, inclusive, sedia eventos semanais para os amantes do gênero. De acordo com a assessoria, a popularização da cultura sul-coreana pelo K-pop é um fator que coincidiu com a expansão das redes sociais e, por isso, gerou tantos frutos. “O K-pop começou a atrair audiência global a partir do final dos anos 1990. No início, o gênero se tornou popular entre os países asiáticos vizinhos, como o Japão e a China. Com o desenvolvimento de plataformas de mídia on-line, como o YouTube, rapidamente se tornou um fenômeno global. Esse sucesso pode ser atribuído ao sistema de produção bem coordenado e criativo da indústria cultural coreana. Os artistas passam por muitos anos de preparação, desde os primeiros anos, até se tornarem estrelas e ídolos.”

Moda e música de mãos dadas


Estilista, designer, consultora de moda e CEO da Fashion Campus, Mábel de Bonis defende que a influência da música na moda e nos gostos populares não é uma novidade. E mais: pode funcionar como importante catalisador de criatividade. “O diálogo da arte com a moda sempre existiu, mas a partir da década de 1960 ficou muito forte, especialmente com a música. Se um criador de moda quiser realmente criar algo inovador, um caminho é apostar nas artes.”

Sobre a moda K-pop, Mábel avalia que grande parte das referências está englobada na cultura asiática, já conhecida pelo quesito novidade e ousadia. “A moda asiática tem influência dos animes e dos personagens populares. É algo jovem e que está fora das convenções”, ressalta. Ela reforça que isso é tão forte que, quando querem pesquisar uma moda mais ligada à inovação, os criadores de tendência mundo afora sempre vão à Ásia.

Como em outras tendências de moda e estilo iniciadas pela música, grande parte da atitude K-pop é pautada pela visão criativa dos idols, ou seja, dos grandes nomes do entretenimento do país. Na prática, os astros abusam de cores — especialmente nos cabelos —, peças em formatos simétricos, muitos assessórios — desde os clássicos, como pulseiras e colares, a chaveiros e até pequenos bichos de pelúcia —, plataformas no pés e vestuários que frequentemente extrapolam os limites de gênero sexual.

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade