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Correio Braziliense

Entrevista com consultor de moda e empresário Reginaldo Fonseca


postado em 29/04/2019 16:47


 
Com clientes também fora do Brasil, em Dubai, Portugal, Paris, Espanha, Angola, o consultor de moda e empresário Reginaldo Fonseca é um dos maiores nomes do país quando o assunto é eventos fashion e negócios. Na capital, esteve envolvido no ParkFashion, semana de moda realizada no tradicional shopping de Brasília. Ele foi pioneiro em levar desfile para dentros dos centros comerciais.
 
Nesta segunda-feira (29/4), ele esteve de volta ao quadradinho para um workshop sobre “Como trabalhar com moda no mundo moderno”. Com base nos 33 anos que tem de carreira, Reginaldo abordou tecnologia, novas demandas do setor, novas exigências do consumidor e diversas questões do mercado atual. O evento aconteceu no auditório do Correio Braziliense. 

Em eventos como o ParkFashion, no qual você trabalhou aqui em Brasília, você sentiu alguma diferença no cliente de Brasília e de outras cidades em que você esteve?

Quem gosta de roupa gosta de roupa. Brasília tem o facilitador que é a condição financeira melhor, mas a indústria da moda pensa em todos: em bolsos e corpos diferentes.

E você acredita que a indústria sempre pensou em todos?

Não. Isso é algo dos últimos tempos. A indústria está mais focada em produzir menos para vender mais e isso no mundo todo. Por isso, precisou se adaptar. Também existe essa cobrança do público. Todo produto, um carro, um telefone, uma roupa, um eletrodoméstico, para chegar no mercado passa por um processo de pesquisa grande, nada é feito sem planejamento, num piscar de olhos. Mas temos situações no mundo inteiro: mundo mais quente, que pede roupas mais frescas, dinheiro mais curto, matéria-prima mais escassa. As marcas e designess criam os produtos de forma mais comercial, não pode perder dinheiro, tempo, tecido. Até em dubai, onde as pessoas compravam enlouquecidamente, não está mais assim. Estamos na era do consumo consciente. 

Nós estamos agora na semana da Revolução da Moda, que prega um estilo de vida mais sustentável. O que você acha que isso representa para o mundo da moda e para os clientes?

As pessoas estão, neste momento, aderindo a uma forma diferente de ver o mundo, de comprar, de gastar, de adquirir. É um mundo diferente hoje. Cada vez mais, as pessoas vão comprar não só o que elas querem, mas o que precisam de verdade. Você vê pelos carros: o jovem não quer mais carro, quer andar de uber. É a moda. As mulheres com dinheiro compravam muitas joias. Hoje não. Não é a toa que a Pandora, com semi joias, está nadando de braçada. O mundo está indo por esse caminho e não tem volta. Ao mesmo tempo que a indústria quer vender e precisa vender, o consumidor está mais exigente e mais pé no chão, comprando com mais informação.

Você acha que isso acaba um pouco com a magia da moda, com o desejo por uma peça?

Não, porque ainda há o desejo por comprar das melhores marcas, das marcas mais importante. Só não é mais aquela compra por impulso, por emoção. Quando se compra um carro, por exemplo, não é só o veículo, é o glamour, o poder, o espaço. A mulher vai comprar uma bolsa, vai pesquisar, não compra dez, nem qualquer uma. Ela pesquisa a que tem a ver com ela, que combina com o que ela tem.

Você acha que houve uma mudança no que as pessoas esperam da moda?

Sim e não. Se analisarmos pelo lado que estão mais exigentes, sim. Se virmos pelo lado de que o brasileiro não tem tanto conhecimento de moda, não. As pessoas mais antenadas, elas sabem o que querem e compram o que podem e têm vontade. Para quem não tem conhecimento, é mais complicado: acaba comprando o que é oferecido sem pensar. 

O que é informação de moda e o que é vestir-se bem, para você?

Hoje, as pessoas se informam mais, têm internet, vêem o que os outros estão vestindo. As pessoas têm mais informação, mais referências. Mas a primeira coisa é as pessoas entenderem o que é moda: uma proposta da indústria. E essa proposta pode ser conflitante com o que se é. Os estilista propões coisas e colocam na nossa disposição. Podemos usar ou não. A pessoa pode ter informação, mas não ter estilo: não sabe o que combina com o corpo dela, com o estilo de vida dela, as cores que combinam com ela. Não é todo mundo que está  antenado nisso, que segue influencers que realmente dão dicas positivas e verdadeiras quando o assunto é se vestir bem, com propósito. O boom da moda no Brasil aconteceu nos últimos 30 anos. Somos crianças quando o assunto é moda. Vetsir-se não é tão simples. Quando somos convidados para uma festa, a primeira coisa que pensamos é: com que roupa eu vou? Se todo mundo soubesse o que combina com ela, seria mais fácil.

Você é diretor executivo está o Angola Fashion Week, maior e mais importante evento de moda da África. A moda é igual em todo lugar? Qual a diferença da moda em Paris, Londres, Milão, Brasil e África?

Não é igual. Para começar, a Europa tem as estações bem definidas: o inverno é frio de verdade e o verão muito quente. No Brasil, é diferente, um país tropical: a moda do inverno é bem parecida com a do verão. A diferença é sutil. Na África, apesar de usarem também marcas internacionais, têm estampas típicas, coloridas, que eles gostam muito. Os desfiles lá também são com peças para vender imediatamente e os estilistas produzem coisas bem regionais. Por mais que a moda seja globalizada, ela reflete o regionalismo, o clima e o estilo de vida das pessoas.

Quais são os desafios atuais para quem quer abrir um negócio na moda?

São muitos: primeiro ter dinheiro, investidores. Muitos dos grandes estilistas se aposentaram, alguns morreram. Então, para muitos jovens talentosos é interessante tentar trabalhar nessas marcas. Londres, por exemplo, é um berço de novos estilistas e designers. Para um designer jovem, o mais fácil é produzir para marcas já consolidadas, a não ser que compre uma franquia ou crie uma multimarca, porque aí tem um respaldo maior. 

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