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Correio Braziliense

Mães jovens: uma escolha

Conheça a história de mulheres que optaram por priorizar a maternidade e adiar um pouco mais os planos profissionais


postado em 13/05/2019 17:25

(foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press)

Na casa dos 20 anos, os planos de carreira de Elisiane deram lugar às mamadeiras. A faculdade de Kethely foi colocada de lado em nome das fraldas. E May decidiu abrir mão do tempo livre para colecionar chupetas. Aos olhos de muitas mulheres, o cenário poderia representar a perda de uma importante parcela da juventude, mas, para essas mulheres, foi a escolha que deu início à realização de um sonho.

Apesar da crescente tendência em adiar a maternidade, muitas mulheres ainda planejam ter filhos mais cedo. Seja para ter mais tempo com a criança e mais disposição para acompanhar as brincadeiras, seja, simplesmente, porque o sonho de ser mãe é maior que todos os outros, o fato é que a opção ainda está em alta. Segundo dados da Estatística do Registro Civil, realizada pelo IBGE, as mulheres que têm o primeiro filho entre 20 e 24 anos representam a maior parcela de mães de primeira viagem do país.

Além dos benefícios quanto à disposição, optar por ter filhos mais cedo é interessante do ponto de vista fisiológico, como explica o médico especialista em reprodução humana Vinicius Medina Lopes. “A melhor idade para uma gestação é na casa dos 20 anos, pois a mulher geralmente apresenta uma melhor condição física. Após os 30, é comum aumentarem os índices de abortamento, malformações do feto e infertilidade dos embriões”, explica.

O médico argumenta ainda que, mais do que o fator idade, o que importa mesmo é que o casal planeje a gestação. “Deve existir todo um preparo, que não é apenas emocional ou financeiro. A mulher tem que adequar o peso dela, por exemplo. Além disso, é interessante o uso de ácido fólico antes da gestação”, enumera.

Para a master coach Cristiane Sousa, não há uma regra geral e única para todas as mulheres. Ela reitera que a questão central é planejar. “Não existe uma idade ideal para ter filhos, mas, sim, o momento ideal. Independentemente da idade, ser mãe é uma missão e um sonho de grande parte das mulheres. Acredito que a palavra aqui seja maturidade material, física e emocional, atrelados à vontade de ser mãe. Quando esses pré-requisitos são atendidos, podemos dizer que a mulher está ‘pronta’ para a maternidade.”

Sonho realizado

Elisiane Couto tem emergia de sobra para brincar com Joao Pedro(foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press. Brasil. Brasilia - DF. )
Elisiane Couto tem emergia de sobra para brincar com Joao Pedro (foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press. Brasil. Brasilia - DF. )

No caso de Elisiane Couto, 28 anos, a vontade de ser mãe sempre ultrapassou qualquer outro objetivo profissional ou acadêmico. Assim que se casou, a empresária já começou a planejar a gestação, mas a chegada do filho só veio mesmo aos 24 anos. “Chegamos a procurar um médico na época e ele nos informou que era normal essa demora. Meu marido até suspeitou que era algum problema com ele, pois eu estava com a saúde em dia. Mas, na viagem de férias, veio a notícia da gravidez”, conta.

Quando João Pedro nasceu, faltava apenas um ano para que a empresária concluísse a graduação em administração. Apesar de ainda não ter conseguido voltar à faculdade para terminar o curso, a mãe garante que isso nunca foi um arrependimento. “Quando veio a notícia de que eu consegui engravidar, queria tanto ser mãe, que não me importei. Para mim, ele sempre foi uma vantagem, um amigo, um companheiro. Quando o João Pedro veio, foi a realização de um sonho”, emociona-se.

Atualmente, Elisiane trabalha na administração da oficina que toca com o marido e conta que pretende voltar à faculdade em um futuro próximo. “Minha meta é me formar, primeiramente. Como meu filho está um pouco maior, é mais fácil deixá-lo em casa, ir trabalhar e ainda ajudar meu marido nas horas vagas. Encerrando a faculdade de administração, eu penso em fazer contabilidade também, acho que seria um bom complemento. Além disso, poderia deixar de pagar um contador na oficina, já que saberia fazer o serviço”, planeja.

A mãe de João Pedro, que hoje tem 3 anos, conta que, apesar da pouca idade, tira de letra a responsabilidade, e garante que a pouca idade nunca foi um problema. “Acho que o difícil não é criar uma criança e, sim, educá-la para ser uma boa pessoa. Eu e meu marido sempre conversamos que o João não é uma extensão da gente, é uma pessoa que tem vontades próprias, personalidade. Temos o maior cuidado com isso. Claro que pais erram, mas tentamos ao máximo acertar.”

Além disso, a empresária garante que a idade proporciona uma maior interação com o filho. “Eu tenho mais disposição para curtir as coisas com ele, para brincar. Não temos a mesma paciência, claro. Por sermos mais novos, tudo parece mais urgente. Mas é muito gratificante ser mãe, é o maior amor do mundo. Ele é uma criança incrível e não poderia ser diferente. Não tenho certeza maior que o meu filho.”
 

Maternidade antes, faculdade depois

Kéthely Lopo foi mãe de Pedro aos 18 anos. Agora, aos 20, se prepara para começar uma faculdade.(foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press)
Kéthely Lopo foi mãe de Pedro aos 18 anos. Agora, aos 20, se prepara para começar uma faculdade. (foto: Carlos Vieira/CB/D.A. Press)

Kethely Vieira Lopo, 20, estudante, adiou o plano do ensino superior para e adiantou o da maternidade. Sem acidente ou impulsividade, ficou grávida aos 18 anos de forma completamente planejada. Um dos principais motivos foi o fato de o marido ser quinze anos mais velho que ela. “Todos os irmãos dele já tinham filhos e nós queríamos que ele ainda estivesse jovem para curtir o bebê”, explica Kéthely.

Os planos de estudar biomedicina, no entanto, não foram abandonados. Atualmente, ela além de cuidar de Pedro, 1 ano e 7 meses, e de todo o serviço da casa, ainda estuda para o vestibular. Deve começar o curso em agosto. Não é fácil, mas ela tira de letra. “Não tenho babá, não tenho diarista. É difícil, mas é gratificante”, orgulha-se.

A ordem dos acontecimentos na vida de Kéthely também foi motivada por uma questão financeira. Quando se casaram e decidiram engravidar, a renda do casal não era suficiente para pagar a faculdade. O marido estava na residência médica e só recebia uma pequena bolsa e ela não trabalhava. 

Agora, com a especialização dele completa, o investimento no ensino superior é possível e o pequeno Pedro está, aos poucos, cada vez mais independente e não representará obstáculo algum. “Em agosto eu entro na faculdade. Ele faz dois anos em setembro e já vai estar mais tranquilo, já vai estar falando”, tranquiliza-se.

Para Kethely, não existe jeito ou ordem certa de fazer as coisas. Foi apenas a que se encaixou na vida dela. “Eu sei que as pessoas pensam em estudar antes, ter uma vida estável, mas, aí depois pode não conseguir e ter que fazer inseminação. Sem contar que sempre aparece alguma outra prioridade: vou formar antes, vou trabalhar antes, vou viajar antes”, enumera.

A mãe não só estimula o filho a todo momento como também se sente estimulada o tempo todo. “A gente brinca muito. Por eu ser nova, eu faço coisas com ele que, mais velha, talvez dê preguiça. Muitas mulheres mais velhas não têm tanta energia”, acredita. Os dois já são conhecidos no parquinho. Se não conseguem ir de dia, vão à noite. Também gostam de passear no shopping.

E tem mais crianças nos planos do casal. Kéthely programa mais uma para daqui a 5 anos. Não quer vários filhos de idades próximas. “O Pedro já vai estar com 7 e eu com 25, ainda vou estar nova”, calcula. Até lá, ela já terá conquistado o ensino superior.

Felicidade materna após uma grande perda

Mãe aos 23 e aos 30, Mayara sente a diferença da maternidade em fases diferentes(foto: Minervino Júnior/CB/DA.Press)
Mãe aos 23 e aos 30, Mayara sente a diferença da maternidade em fases diferentes (foto: Minervino Júnior/CB/DA.Press)

Depois de um grande trauma, Mayara de Queiroz Nicolau, 30, quase desistiu da maternidade. A perda de dois bebês gêmeos a desanimou de, um dia, ser mãe. Aos 20 anos, ela teve uma gestação gemelar não planejada e ambos bebês faleceram. Um deles já nasceu morto e o outro sobreviveu por apenas 9 dias. Depois disso, o médico lhe disse que ela teria apenas mais dois anos para engravidar novamente, mas ela desistiu. “Eu fiquei com medo de acontecer tudo de novo”, relembra. 

Mas, como tempo cura todas as feridas, ao longo do tempo, o desejo de viver a maternidade foi voltando. Muitas amigas de Mayara começaram a ter filhos e isso reacendeu nela a vontade. O tempo que o médico havia lhe dado para engravidar já havia expirado, mas isso não a preocupou.

Mayara ficou grávida mais uma vez aos 23 anos e teve Milena, de 7. “Eu sempre tive contato com a minha mãe, mas fui criada pelo meu pai, então, eu não tive aquela mãe tradicional, que dá carinho, sempre ali pra acolher o filho, então, foi muito bom oferecer pros meus o que eu não tive”, conta. 

De uma mulher que quase decidiu por não ter nenhum filho, tornou-se mãe de dois. O segundo é Heitor, de onze meses, fruto de segundo casamento. Ao todo, são quatro crianças, pois o marido tem dois do primeiro casamento. E quando eles estão com a família, Mayara cuida como dos seus.

Após decidirem que teriam Heitor, o casal não quis esperar. Um dos motivos foi uma experiência pessoal de Mayara, de uma situação que via com a própria avó:“Eu tenho um tio da minha idade e eu observava que ela não conseguia curtir com ele”, considera. Chegou à conclusão de que quanto mais nova ela tivesse todos os filhos que queria, mais energia ela teria para brincar com eles. Já não pretende ter outros. 

Em relação a ter um bebê aos 23 anos e aos 30, Mayara compara: “A paciência vai diminuindo”, admite. Ela, no entanto, também pondera que a questão pode não ter só a ver com a idade, mas com o fato de, agora, serem dois: “Enquanto arrumo um o outro está fazendo arte e vice-versa”. Milena, no entanto, também ajuda com o irmão mais novo.

Da filha, ela faz questão de ser parceira. Além de disciplinar, dar bronca e muito carinho, ela faz questão de conversar sobre tudo. “Nos fins de semana, esperamos todo mundo ir dormir para  ficarmos juntas sozinha. Faço questão de dedicar esse tempo”, relata. Para ela, ser mãe foi uma grande realização. “Eu aprendi a não ser egoísta. Não tem mais nada que é só meu. Tudo que eu faço, preciso pensar nas consequências. Boas ou ruins, elas vão vir pra mim e pros meus filhos”, afirma.
 
* Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
 
 
Três perguntas para Cristiane Sousa, life e business coach 

Por que é importante fazer um planejamento familiar?
O planejamento é fundamental em todas as áreas da vida, principalmente quando se trata de formar uma família e colocar vidas no mundo. Ser mãe não é apenas dar à luz um novo ser. É decidir se comprometer com uma criança que não pediu para nascer, mas que precisa intensamente ser cuidada e amada. Sem um planejamento, a mãe não tem ideia das demandas que surgirão. Isso pode trazer surpresas constrangedoras, indesejadas e também traumáticas para ambas as partes. E o que começou com um grande sonho pode se tornar um problema. É imprescindível que a mãe entenda tudo o que está envolvido e o quanto sua vida estará comprometida a partir desse instante, até mesmo para que ela tenha opção de saber realmente se ela quer ou não entrar nessa jornada. Ter opção de escolha e escolher ser mãe fará toda a diferença no relacionamento entre mãe e filho.

Quanto o planejamento familiar pode auxiliar na conciliação da maternidade com a vida acadêmica ou profissional?
 
Em busca de independência financeira, as mulheres estão cada vez mais cedo buscando a estabilidade ou a segurança que a vida profissional pode trazer. É muito bom as mulheres terem o direito de se posicionar no mercado de trabalho e serem respeitadas por isso. Contudo, diante de uma maternidade, esse direito pode ficar comprometido. Tanto a mãe quanto o filho precisam de um tempo exclusivo de um para com o outro. Não apenas pela amamentação, mas principalmente pela importância emocional que está sendo construída nessa fase. A interação que acontece nesse período fará toda a diferença na formação da crença de identidade, capacidade e merecimento dessa criança. Ter uma maternidade planejada e programada para atender e resolver todos esses quesitos pode fortalecer os laços emocionais dos dois. A mãe saberá e se planejar para voltar ao mercado de trabalho no momento mais adequado, sem a dor nem o sentimento de culpa que hoje é visto em tantas mães/profissionais.

Qual dica você daria para as mulheres que pensam em serem mães?
A primeiro é buscar o autoconhecimento. Não basta apenas querer ter um filho, é imprescindível a mulher entender o real motivo do desejo de ser mãe. Ser mãe pelo motivo errado talvez seja mais prejudicial do que ter um filho na idade “errada”. O segundo passo é buscar autoconsciência. Dentro do processo de coaching, eu trabalho três aspectos fundamentais para fortalecer as mulheres nessa jornada: a autoimagem (clareza de como ela se vê ou se imagina sendo mãe); autoconfiança (trabalhar sua crença de capacidade e posicionamento); e competência emocional (construir e fortalecer as emoções e sentimentos que proporcionarão condições para ela vivenciar com tranquilidade e harmonia cada etapa da gravidez, do nascimento e da convivência com o novo membro da família).
 
 

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