Publicidade

Correio Braziliense COMPORTAMENTO

Estudos apontam que acordar cedo prejudica o aprendizado dos jovens

Baseadas em estudos que apontam a necessidade fisiológica de o adolescente dormir mais, mães lutam para mudar o horário de entrada das escolas


postado em 19/05/2019 08:00


 
(foto: Arquivo Pessoal )
(foto: Arquivo Pessoal )
 
Acordar mais tarde na adolescência não é sinônimo de preguiça, mas, sim, de uma necessidade natural do corpo nessa etapa da vida. As alterações hormonais pelas quais passam os jovens provocam diversas mudanças, entre elas a variação na produção da melatonina, o hormônio do sono.

Produzido na glândula pineal, esse hormônio dita a alternância de sono e vigília, e funciona como um indutor do sono, como explica a neurologista Andrea Bacelar. “Nós, seres humanos, temos o chamado ciclo circadiano. Quando o indivíduo entra na adolescência, há a alteração de pico e queda na produção de melatonina, ou seja, há uma tendência de atraso nos horários de dormir e de despertar, uma resposta biológica”, explica.

Apesar do sono desempenhar um papel importante no desenvolvimento físico e emocional dos adolescentes que experimentam, nesta fase, diversos momentos de aprendizado, o modelo social atual incorpora vários elementos que influenciam o jovem a dormir cada vez menos. “A sociedade na qual vivemos hoje é altamente competitiva e tecnologizada. Os jovens estão cada vez mais submetidos a uma grande carga de pressões e responsabilidades sociais, além do uso de eletrônicos. Por consequência, dormem cada vez menos e mal”, argumenta o neurologista Nonato Rodrigues.

Um dessas responsabilidades é a escola, que, principalmente nos ensinos fundamental e médio, tendem a começar muito cedo, nas primeiras horas da manhã. Diversos estudos na área da neurociência vêm mostrando que esse horário de início das aulas não coincide com as necessidades de sono dos adolescentes.

Um desses estudos foi conduzido pela Associação Americana para o Avanço da Ciência que, ao analisar escolas do distrito norte-americano de Seattle, constatou que alunos que começam a rotina de estudos depois das 8h30 têm um maior nível de aprendizagem, pontualidade e frequência do que aqueles que iniciam os estudos às 7h da manhã.

De acordo com Andrea Bacelar, esses ganhos de desempenho vêm da relação entre sono e aprendizagem, que estão diretamente ligados. “Não dormir o suficiente tem implicação imediata na consolidação da memória, que acontece durante o sono. Para processar o que eu aprendi durante o dia, é necessário uma noite de qualidade para que o cérebro consiga, efetivamente, organizar e consolidar o pensamento.”

A neurologista argumenta que o prejuízo ocorre não apenas na memorização, mas também na absorção de novos conhecimentos. “Quando o aluno vai à aula após dormir poucas horas, não há uma restauração adequada do sistema nervoso, o que também compromete a assimilação de novas informações”, argumenta.

Recomendações

No Brasil, onde, em geral, as aulas começam às sete da manhã, a Associação Brasileira do Sono (ABS) lançou um manifesto com recomendações de alterações similares, mas que não foram aplicadas. Segundo Andrea, que também é presidente da associação, existe um movimento que pretende encaminhar um projeto de lei que altere os horários de aulas para órgãos do governo.

“Além do prejuízo direto na aprendizagem, a gente pode enumerar diversos outros prejuízos que esses horários podem trazer a longo prazo para nossos jovens, como ganho de peso, alteração de humor e aumento de chance de depressão. Essa questão envolve muitos mais extremos do que apenas a aprendizagem”, defende.

Casos de sucesso
Na rede particular, algumas escolas conseguiram efetuar a mudança. Como é caso do colégio da Asa Sul frequentado por Marcelo Pereira, 13 anos. O garoto aprovou a mudança. “Consigo acordar mais tranquilo, tenho até tempo para assistir a alguma coisa de que eu gosto antes da aula.”

Apesar de a instituição ter alterado o horário de entrada para 8h30 há apenas seis meses, os resultados já começam a aparecer. “É notável a diferença de comportamento e disposição dos meninos. Muitas vezes, no primeiro horário, era normal ver alunos de cabeça baixa, com um ritmo lento. Agora, eles já chegam prontos para a ativa”, diz Vanessa Araújo, diretora pedagógica da instituição.

A diferença também foi sentida por Beatriz Barreto, mãe de Marcelo, que garante que o menino acorda mais motivado para ir às aulas. “Antes, eu tinha que acordá-lo e era normal chamá-lo muitas vezes. Hoje, ele tem outra disposição, acorda sozinho, toma banho e vai para a escola bem melhor.”


Em busca da mudança

Apesar de a escola de Marcelo ser um caso isolado, algumas mães brasilienses vêm trabalhando para que a mudança no horário de entrada das aulas atinja toda a rede de ensino. Causa pela qual luta a psicóloga Virgínia Nogueira, que, após notar que o filho não se adaptava aos horários de início das aulas, deu início a uma pesquisa de opinião para ver se a angústia era compartilhada por outras mães.

“A gente, enquanto mãe, tem muita dificuldade em ver os filhos chegando ao ensino médio e não tendo mais a opção de estudar à tarde. Os meus filhos, por exemplo, têm dificuldade em dormir cedo e também em acordar mais cedo. Conversando com a pediatra, entendi que essa dificuldade é natural do processo de desenvolvimento deles.”

O questionário elaborado por Virgínia já conta com mais de 700 respostas e, apesar de saber que a mudança deve ocorrer de forma lenta e gradual, ela acredita que levar o tema para o debate já é uma grande passo. “É preciso começar a considerar outras alternativas. Ninguém tem a receita de bolo, é necessário levar o tema para a comunidade discutir novas alternativas para um ensino mais eficiente e uma melhor qualidade de vida para nossos filhos.”

O neurologista Nonato Rodrigues, especialista em medicina do sono, alerta, porém, que a mudança propriamente dita dos horários pode ter efeitos contrários, caso não haja também uma mudança de comportamento e empenho dos pais em diminuir outros fatores que levam à sonolência dos jovens, como o uso de eletrônicos, de álcool e uma vida noturna nos fins de semana.

“A discussão, nesse caso, também deve abordar até que ponto uma mudança na política pública para que as aulas comecem duas ou três horas mais tarde poderia impactar socialmente a vida dos jovens, e se isso de fato adiantaria. É fato que muitos jovens também têm o fator da indisciplina, que contribui para que eles tenham maiores dificuldades em cair no sono”, pondera.

* Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade