Publicidade

Correio Braziliense

Mulheres maduras se aventuram em viagens solo e ganham o mundo

Elas têm energia e disposição de sobra para embarcar em novas aventuras. Conheça a história de mulheres maduras que encontraram nas viagens uma forma de fazer amigos e, muitas vezes, driblar a solidão


postado em 26/05/2019 04:10 / atualizado em 26/05/2019 13:05

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)


Filhos criados, conquistas acumuladas, aposentadoria em dia e tempo livre. Os mais experientes enxergam, então, uma oportunidade de ganhar o mundo. Sozinhas, em excursões ou acompanhadas de parentes e amigas, mulheres maduras veem nas viagens uma ótima oportunidade de conhecerem novas pessoas, experimentarem culturas diferentes e, muitas vezes, driblarem a solidão. “Viajar é o melhor remédio para essa turma”, resume Roberta Donato, gestora de uma agência especializada em pacotes voltados para a terceira idade.

Raquel Dourador, 64 anos, sempre gostou de viajar, e comprova que a idade pode ser de grande valor. “É com o tempo que se aprende. Já vivi a juventude e a meia-idade. Estou bem de saúde e agora quero aproveitar os 60.” Para ela, viajar aumenta a bagagem cultural. Ela aprecia cada cantinho a que vai, conhece novas culturas e prova comidas diferentes. “Tudo o que uma viagem pode dar é muito bom. Fico mais alegre, ganho conhecimento e também me desligo das preocupações.”

E de bagagem cultural ela entende — a viajante já conheceu mais de 21 países. Entre os destinos estão Argentina, Chile, Croácia, Escandinávia, Grécia, Inglaterra, Israel, Irlanda e Montenegro. “Sempre gostei de viajar. Quando ainda tinha o meu marido, fazíamos pelo menos uma ou duas viagens para o exterior por ano. Também exploramos o Brasil”, relembra.
Raquel Dourador sempre curtiu a vida com viagens. Agora, quer aproveitar a fase dos 60 (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
Raquel Dourador sempre curtiu a vida com viagens. Agora, quer aproveitar a fase dos 60 (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

Raquel é prova de que se engana quem pensa que a pessoa idosa dá preferência às viagens em excursões. Ela fica mais à vontade quando faz o próprio planejamento e viaja com alguém que já conhece. Hoje, os passeios ocorrem, geralmente, na companhia das amigas ou de alguém da família.

E mais do que registrar tudo no celular ou sair comprando por aí, ela quer viver cada momento. “Guardar as experiências na cabeça vale mais do que acumular bens materiais. Essa é a filosofia que estou seguindo. Os tempos são de desapego”, lembra.

 

Em boa companhia

 

Dulce Maria de Oliveira, 75, também tem muita energia — mais do que muita gente jovem — e adora pegar a estrada. Além das viagens rotineiras a Goiás para encontrar parentes, ela integra um grupo da terceira idade em uma entidade cultural, viaja com a família e também sozinha em excursões. Amante das praias, da boa comida, do sossego, dona Dulce conhece o Nordeste inteirinho. O último passeio que fez foi a Gramado com as sete irmãs. Fora do país, já foi à Inglaterra e aos Estados Unidos.

Recentemente, realizou um sonho: viajar de navio ao lado dos parentes. O percurso atravessou as águas de São Paulo a Camboriú, em Santa Catarina. Pelo menos uma vez no ano, ela organiza viagens com a família. “As viagens em família são maravilhosas. Todos se aproximam mais e trabalham a mente.”

“Todos os idosos deveriam aproveitar. Se você fica em casa, acaba pensando muito. É muito importante conhecer pessoas e fazer amizades. Eu mesma sou supercomunicativa e converso com todos”, acrescenta. As companhias que Dulce ganhou, entre um passeio e outro, já renderam boas amizades e planos para viagens juntas.

Aos 75 anos, Dulce Maria de Oliveira esbanja disposição para embarcar em aventuras (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Aos 75 anos, Dulce Maria de Oliveira esbanja disposição para embarcar em aventuras (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
 

 

Dedicação personalizada

 

Roberta Donato, gestora da Donato Viagens, passou 13 anos acompanhando excursões em grupo pelo mundo. Hoje, ela administra a agência da família, especializada em pacotes voltados para a terceira idade. Para se ter noção: a faixa etária dos clientes é de 75 anos. “Isso diz muito sobre ter uma visão otimista para essa fase da vida, porque nunca é tarde para viajar. Dá para perceber que existem, sim, grandes oportunidades para os mais velhos”, afirma.

Quando respiram novos ares, os viajantes se abrem ao novo. “Quem viaja se reconecta com a vida, encontra uma chance de refletir sobre a cultura, traz alegria e vontade de viver. É revigorante. Os que se aventuram pela primeira vez se encantam, e os que têm poucos amigos ganham novas companhias”, complementa. A solidão é justamente uma das principais questões nessa fase da vida, mas viajar pode ser uma ótima opção para contornar o isolamento e envelhecer com qualidade.

Júnior Lins, diretor-executivo da Agência de Viagens Bancorbrás, afirma que os dados da empresa corroboram a percepção de Roberta. Em questionários feitos com os idosos antes e depois das viagens, a interação aparece como fator fundamental no aumento da qualidade de vida. Os viajantes fazem amizades com pessoas de outros estados e cidade, o que abre a possibilidade de novos passeios e de interações com pessoas da mesma faixa etária, com assuntos similares.

Muitas vezes, a idade pede ajustes no roteiro. Tours mais demorados, pausas mais longas e com mais paradas para ir ao banheiro são especificidades das excursões voltadas para esse público. Conhecer muitos lugares em um espaço curto de tempo é um complicador, porque a energia vai acabando.

Nos passeios, ter um acompanhante sempre por perto é muito importante. A orientação facilita muito em viagens internacionais, por conta da língua. Em casos de emergência, o guia é orientado a acionar o seguro de saúde. “Uma programação completa, interessante, com horários livres de vez em quando deixam os mais velhos seguros e mais à vontade”, indica Roberta.

Júnior explica que as viagens planejadas especificamente para os grupos de idosos precisam de atenção diferenciada ao escolher destinos e roteiros. Com clientes entre 60 e 80 anos e até mesmo alguns que já passaram dos 90, é imprescindível um planejamento cuidadoso.

É ideal que os restaurantes e hotéis tenham fácil acesso, com carregadores de bagagem e poucas escadas, e que os passeios mais puxados tenham paradas para descanso, alimentação e banheiro. Outro cuidado importante, segundo o diretor-executivo, é com restrições alimentares e com os horários das refeições, que precisam ser respeitados.

Júnior afirma que os destinos preferidos são os que têm forte apelo cultural, religioso e arquitetônico. “Eles também adoram lugares que têm natureza e ares de contemplação.” Atividades de dança, bailes, jantares temáticos atraem bastante a terceira idade.

 

Nada de solidão

 

Diretor da Pastore Turismo, agência também especializada na terceira idade, Rodrigo Pastore conta que um dos movimentos que considera interessante no mercado é o fato de que os idosos que inicialmente viajam sozinhos logo aparecem cheios de companhias. “Nas primeiras excursões, eles fazem amizades com outros passageiros e não viajam mais individualmente, mas, sim, com o novo grupo de amigos.”

Rodrigo acrescenta que o grande diferencial nas viagens para terceira idade é ganhar a confiança dos clientes, que são mais rigorosos e exigentes, tanto em relação ao modo de tratamento quanto à qualidade de hotéis, passeios, alimentação e transporte. O conforto é essencial e, depois de passar a vida trabalhando e com pouco tempo para curtir, eles querem — e merecem, ressalta Rodrigo — aproveitar da melhor forma possível.

 

A caminho da terceira idade

 

Sozinha ou acompanhada, para Florence Mourão não há diferença: o que importa mesmo é conhecer novos destinos (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Sozinha ou acompanhada, para Florence Mourão não há diferença: o que importa mesmo é conhecer novos destinos (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Florence Mourão de Oliveira, 55 anos, ainda não chegou à terceira idade, mas já se prepara para manter o ritmo de aventuras sem deixar a idade segurá-la. A professora conta que não tem preferência por viajar sozinha ou acompanhada, mas afirma que a possível falta de companhia não é obstáculo para que ela saia por aí desbravando continentes.

A primeira viagem sozinha foi em 2009, para a Bolívia. Florence viajaria com uma amiga, que ficou doente. No início, até pensou em desistir. “Passou muita coisa pela minha cabeça, o medo de estar em um país que não era o meu sozinha, sem dominar a língua”, lembra. No entanto, a vontade de conhecer um novo lugar venceu.

Apesar do medo que pode acompanhar uma aventura e da barreira do idioma, o que mais a assusta, ela enxerga a liberdade e o fato de poder fazer o que quer como grandes vantagens das viagens solo. Poder acordar e dormir na hora que preferir, decidir sozinha em quais passeios ir e não se incomodar com ninguém são pontos positivos para ela.

“Eu aprendi que não posso deixar ninguém me segurar, e não posso deixar de realizar um sonho só porque, às vezes, não vou ter companhia”, conta. Florence ama viajar sozinha, mas afirma que se alguém quiser acompanhá-la, como a irmã, a filha ou as amigas, será muito bem-vindo.

Entre os destinos que curtiu solo, além da Bolívia, estão Ouro Preto, diversas cidades da Paraíba, Rio de Janeiro, Canela e um cruzeiro pela costa brasileira. “Eu faço amizade muito rápido, sou comunicativa e já me enturmo.”

 

Hábito adquirido

 

A professora conta que a família não tinha o hábito de viajar. Foi somente aos 18 anos que ela se encantou por esse modo de vida e nunca mais ficou sem cruzar fronteiras. Tudo começou com acampamentos e excursões. Recentemente, Florence viajou quase 10 mil km para conhecer as pirâmides egípcias.

Sobre possíveis obstáculos vindos com a idade, ela conta não se preocupar, e até vê vantagens em viajar quando se está mais velha: “Você perde a vergonha e aproveita muito mais”. Segundo a professora, o jovem se importa muito se vai mostrar um lado feio, desajeitado ou qualquer insegurança, como admitir que não sabe ou não conhece algo.

Com o passar dos anos, Florence acha que essas coisas perdem a importância e as pessoas se tornam mais autênticas, sem medo de curtir. “É para escorregar? Vamos escorregar. É para cair? Vamos também. O importante é aproveitar de tudo enquanto podemos.”

 

Em oito anos, 24 viagens na conta

 

Depois da morte do companheiro de mais de 50 anos, Maria José passou um tempo sem viajar, mas redescobriu a paixão pelo novo (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
Depois da morte do companheiro de mais de 50 anos, Maria José passou um tempo sem viajar, mas redescobriu a paixão pelo novo (foto: Minervino Júnior/CB/D.A Press)

O hábito de conhecer novas cidades e países sempre esteve presente na vida da artista Maria José Castelo Branco de Aragão Freire, 82 anos. A pintora, pianista e tapeceira, acompanhada do marido, “jogava tudo no fundo do carro” e viajava Brasil afora. Foram 50 anos e 10 meses de parceria e de viagens a dois e em família.

Há oito anos, Maria José ficou viúva e foi tomada de profunda tristeza, sem sair, sem viajar e sem conseguir aproveitar as alegrias que a vida ainda podia proporcionar. “Não achava graça em nada, porque tudo era com ele. Ficou um vazio, eu era uma metade só”, conta.

Depois de um ano sem viajar, o que era atípico para ela, o genro resolveu tomar uma atitude. Conversou com Maria José, disse que aquela apatia não combinava com ela e contou que tinha uma viagem planejada. Naquele momento, um novo capítulo se iniciou na vida da artista. Sozinha, amparada por uma agência de viagens, foi para a Europa. Quando chegou a Portugal, o primeiro destino, um ônibus de turistas desembarcava na mesma hora. “Aí, não teve tempo ruim. Como me enturmo rápido, já fiz amizades”, relembra.

Na época, aos 75 anos, Maria José passou 28 dias viajando sozinha e conhecendo diversos países e culturas. Encantou-se no Louvre, “a coisa mais maravilhosa que já viu”. Precisou comprar novas malas para conseguir trazer todos os presentes que comprou para os familiares.

Porém, mesmo com tanta alegria, bom humor e aventuras, ela conta que sentiu muito a falta do marido. “Tudo que via, eu lembrava dele. Ele era um intelectual, então, sabia de tudo. Nos lugares que íamos, ele me contava a história. Foi bom ter essas recordações, mas foi ruim, porque ele não estava mais perto de mim.”

 

Sem limitação

 

Com exceção da falta que o companheiro fez, Maria José conta que viajar não teve muita diferença para ela. “Ele era muito aberto, não se importava que eu dançasse, brincava comigo, ria e nós fazíamos tudo que tínhamos vontade. Mas uma vantagem é que eu tenho a cama todinha só para mim”, brinca.

As viagens se tornaram uma forma de Maria José fazer novos amigos. Até agora, são 24 viagens solo para a conta da artista, que acha que a idade pode trazer necessidades diferentes ao planejar as férias, mas não limita. Com um problema no joelho, teve um pouco de dificuldade nas últimas aventuras, mas disse que teve ajuda para andar e subir degraus. “Todo mundo me dava o braço quando precisava; então, eu tirei de letra. Não vou deixar de viajar, nem que eu precise de um joelho novo na próxima”, afirma, com bom humor.

Maria José já até se perdeu na Alemanha, e o navio em que estava quase zarpou sem ela, mas hoje a artista conta a história rindo de como conseguiu se virar pedindo ajuda e sem se desesperar. A viagem faz parte da essência dela, que tem um apartamento em Goiânia. Hoje, vive entre Brasília, onde moram dois dos filhos, e a cidade vizinha, onde também tem família.

Dicas

Nossas aventureiras da terceira idade e os agentes de turismo deram algumas dicas para as viagens serem bem-sucedidas. Confira:

* A primeira e fundamental vem das viajantes: enfrente seus medos
* Busque profissionais e agências de viagem confiáveis
* Esteja com todos os documentos importantes em mãos
* Informe-se sobre o destino a visitar e sobre as especificidades dos passeios
* Vá ao médico fazer um checape antes de partir e carregue sempre uma bolsinha de remédios com as receitas junto
* Coloque as vacinas em dia
* Sempre faça seguro de viagem
* Leve sempre um casaquinho — essa parece aquela típica recomendação de mãe e avó, mas é importante mesmo que o destino seja mais quente
* Para os lugares frios, aposte nas roupas térmicas

 

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação

Publicidade