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Correio Braziliense

Mal sem fronteiras: Entenda como como se desenvolvem as alergias

A OMS estima que 30% da população mundial sofra com alguma reação alérgica, índice que deverá chegar a 50% até o fim do século. Entenda como o problema ocorre e conheça histórias de quem convive com ele


postado em 03/06/2019 12:46 / atualizado em 03/06/2019 12:47

A motorista Paula Araújo tem que controlar a alergia sempre que o clima esfria.(foto: Marcelo Ferreira/CB/DA.Press.)
A motorista Paula Araújo tem que controlar a alergia sempre que o clima esfria. (foto: Marcelo Ferreira/CB/DA.Press.)

O sistema imunológico é responsável por proteger o organismo de invasores externos, como vírus e bactérias. Ele funciona como o mecanismo de defesa do corpo contra as incontáveis substâncias estranhas presentes no ar que respiramos, nos alimentos que ingerimos e nos objetos em que tocamos. Mas, às vezes, ele reage de forma exagerada a alguma substância inofensiva com a qual temos contato: o alérgeno. Esse processo é a popular alergia.

Uma pessoa pode passar a vida tendo contato com alguma substância e se alimentando de alguma comida e nunca ter nenhuma reação, até um dia ter. A comunidade científica ainda não sabe explicar o aparecimento tardio de uma alergia. O causador da reação alérgica, no entanto, não é o microrganismo em si, mas os anticorpos que o nosso próprio corpo cria para se defender.

“É um erro de interpretação do sistema imunológico a elementos naturais”, resume Ricardo Souza Queiroz, alergista e imunologista do Grupo São Cristóvão Saúde. As reações de defesa podem ser das mais diversas: coceira, manchas, descamações e, no pior e mais raro dos casos, um choque anafilático, que pode levar à morte. Na maioria das vezes, a alergia atrapalha muito a qualidade de vida dos pacientes.

Segundo o médico, a alergia é uma doença geneticamente transmitida com codominância entre pai e mãe. Se ambos forem alérgico, há uma chance de 70% de o filho ser também. Se a reação ao alérgeno for rápida, é mais fácil diagnosticar. “O problema maior são as que demoram a aparecer a reação, aí precisamos fazer uma triagem, investigar os elementos rotineiros, descobrir por exclusão. É importante saber se houve uma mudança de hábito, de dieta, se o paciente usou um cosmético diferente”, detalha.

Um problema mundial

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 30% da população têm alguma alergia. Ainda segundo ela, até o fim do século, metade da humanidade sofrerá de algum tipo de alergia. Alguns estudos corroboram o aumento, especialmente, em se tratando das alergias alimentares. Uma pesquisa feita pela King’s College London e publicada no ano passado registrou um aumento de 7% na incidência de alergias alimentares em crianças no Reino Unido e 9% na Austrália, por exemplo.

Documento desenvolvido pela Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai) e pela Sociedade Brasileira de Pediatria mostra que os dados sobre prevalência de alergia alimentar no Brasil são escassos e limitados a grupos populacionais, o que dificulta uma avaliação mais próxima da realidade. Mas a incidência de alergia alimentar no país é mais comum em crianças e a sua prevalência, que parece ter aumentado nas últimas décadas em todo o mundo, é de aproximadamente 6% em menores de 3 anos e de 3,5% em adultos.

A Revista ouviu especialistas e conversou com pessoas que sofrem com os processos alérgicos.

A histamina no corpo

Em resposta ao alérgeno, o sistema imunológico libera várias substâncias, principalmente a histamina, que dilatam os vasos sanguíneos. Elas também aumentam a permeabilidade dos vasos, permitindo o vazamento de líquido para fora deles, o que causa inchaço no corpo, inclusive da glote, dificultando e até impedindo a respiração. A vasodilatação também causa pressão baixa, o que dificulta a chegada de oxigênios aos órgãos e sobrecarrega o coração, podendo causar uma parada cardíaca.

Dieta para mãe e filha

Luisa Maria teve que adaptar a dieta da casa por conta da intolerância a lactose da filha.(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Luisa Maria teve que adaptar a dieta da casa por conta da intolerância a lactose da filha. (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 

Quando a primeira filha da professora Luisa Maria Ferreira, 29 anos, nasceu, a mãe não precisou fazer nenhuma restrição alimentar. Pelo menos em um primeiro momento. Com poucos dias de vida, porém, Bia, hoje com 2 anos, teve uma assadura. Luísa e a família acreditaram que fosse apenas uma reação à fralda, embora estivesse usando a mesma marca de sempre e trocasse com regularidade. Aconselhada pela nutricionista a tirar o leite da própria dieta para evitar cólicas na filha que amamentava, Luísa se adaptou a uma nova alimentação e o episódio da fralda nunca mais se repetiu.

Quando a professora voltou, aos poucos, a consumir leite e derivados, notou um pouco de sangue nas fezes da garota. “Então, fiz o teste: cortei o leite de novo, e não houve mais sangramento”, relembra. Após uma consulta médica, ficou diagnosticado que Bia tinha alergia à proteína do leite.

Depois de um ano e meio amamentando e sem comer nada com leite, Luisa voltou, aos poucos, à dieta antiga, sem restrições. “Foi uma recomendação médica e eu fiquei tranquila, porque ela já mamava pouco, comia bem”, conta. Deu certo. A filha não teve mais nenhuma reação. “Foi um alívio. Eu tive que me virar nos 30. O queijo de búfala me satisfazia bem no dia a dia. O mais difícil era ir a restaurantes.”

Ela tem certeza de que chegou a comer fora de casa um alimento feito com manteiga. “Bia teve uma cólica muito forte. Os restaurantes não eram tão preparados. Eu tinha que explicar e verificar”, conta. Com o tempo, foi descobrindo lugares que não usavam leite. A nutricionista dela também a ajudou muito ensinando-a a fazer substituições. “O leite de coco, eu mesma fazia, congelava e usava em vitaminas”, orgulha-se.

O segundo passo era reintroduzir o leite de vaca na alimentação direta de Bia — e não só por meio do leite materno. Primeiro, ofereceram alimentos assados com o ingrediente, como pão de queijo, bolo feito com manteiga. Depois, incluíram também os queijos, um leite hipoalergênico e, recentemente, um leite em pó comum. Foi um caso de sucesso. A alergia passou.

O gastroenterologista Bernardo Martins, do Santa Lúcia Norte, explica que, na maioria das vezes, a alergia à proteína do leite aparece nos primeiros dois anos de vida, por imaturidade do sistema imunológico. “Quando ele começa a ficar mais desenvolvido, deixa de ter essas reações”, afirma.

Entenda a diferença

Muita gente confunde intolerância à lactose com alergia à proteína do leite. A primeira é mais comum quando em adultos e idosos. A segunda, em crianças. O gastroenterologista Bernardo Martins explica que a intolerância à lactose é uma condição que a maioria dos brasileiros vai ter.

“O leite possui alguns açúcares, e o mais comum deles é a lactose. Precisamos quebrá-lo para absorvê-lo e fazer a digestão. Mas, para quebrá-lo, precisamos da lactase, cuja capacidade de produzir diminui com a idade. Sem a lactase, a lactose não vai ser absorvida e vai causar desconforto abdominal, diarreia, constipação. Isso é a intolerância”, esclarece. Portanto, os efeitos da intolerância são causados pela própria lactose.

No caso da alergia à proteína do leite, os efeitos são causados pelo próprio corpo. “A proteína é um dos componentes do leite, que é uma união de vários aminoácidos. Quando a gente quebra a proteína para digerir os aminoácidos, uma porção deles fica exposto e gera uma resposta do sistema imunológico, que pode ser rápida, nas primeiras duas horas, ou tardia, alguns dias depois da ingestão, ou ainda mista”, diferencia o gastroenterologista.

O médico atribui o aumento da incidência de alergia à proteína do leite ao diagnóstico mais conhecido e também à exposição precoce dos bebês ao leite que não é materno. “Alguns bebês têm uma alergia tão importante que, se a mãe ingerir leite ou derivados, ela já observa dores abdominais, sangue nas fezes. Outros têm uma alergia mais discreta, precisa de grandes concentrações para ter uma reação”, pontua Bernardo.

Sentindo na pele

Apaixonada por cremes cheirosos e perfumes, a engenheira ambiental Lívia Carvalho, 28 anos, é proibida de usá-los. Em contato com a pele dela, provocam uma reação do sistema imunológico que deixa a pele toda inflamada e com coceira. Ela convive com a dermatite atópica desde criança, mas ainda é um sufoco. “Não posso usar nada de perfume. Hidratante tem que ser um específico, caríssimo”, enumera as dificuldades.

O diagnóstico formal só foi feito quando Lívia tinha 19 anos. Até então, choviam recomendações caseiras de conhecidos e até de estranhos no ônibus. Algumas tinham efeito positivo, outras não adiantavam nada. Desde que descobriu a doença, no entanto, faz o tratamento de forma descontinuada. Isso porque ele se baseia, simplesmente, em manter a pele hidratada, e o único creme que ela pode usar custa R$ 150.

Antigamente, as lesões da engenheira se limitavam aos braços e às pernas, mas, ultimamente, também se espalharam para mãos, dedos e couro cabeludo. As feridas vão e voltam. Lívia já entendeu que o emocional também influencia. “Agora mesmo, a minha dermatite está bem atacada, e já tenho consulta marcada”, conta. Com uma bebê que nem sempre dorme bem, o cansaço físico e emocional não ajuda a evitar as crises.

Lívia evita banhos quentes, pois sabe que ressecam ainda mais a pele e provocam a dermatite. Ela se lembra de um episódio em Caldas Novas: “Meu pescoço ficou todo irritado. Foi horrível.”. Agora, ela se preocupa com a filha, que também pode ter o problema e já deu alguns sinais.

A dermatologista Natália Souza Medeiros, do Hospital Santa Lúcia, afirma que o mais comum é a alergia regredir depois da infância. Em todo caso, como é um quadro muito recorrente, o principal tratamento é o cuidado diário com a pele, com bastante hidratação. “Nos períodos de crise, podemos fazer uso de corticoides tópicos, anti-histamínicos, no caso de pacientes com muito prurido, e até antibiótico, em caso de infecção nas lesões”, explica.

Segundo a médica, hoje em dia, há os imunobiológicos para diversas doenças de pele. “Mas é o degrau final da escada de tratamento, porque eles têm efeitos colaterais graves, por promoverem a imunodepressão, além de serem muito caros.”

Atópica ou de contato?

A dermatite atópica é um dos tipos mais comuns de alergia cutânea, e é crônica. Já a dermatite de contato só acontece quando o paciente toca algum alérgeno, que pode ser um alimento ou algum produto na pele. “Em geral, a gente observa se as lesões serão no local do contato”, diferencia a dermatologista Natália Souza Medeiros, do Hospital Santa Lúcia. Já quem tem dermatite atópica apresenta pele seca, erupções que coçam e crostas, principalmente nas dobras dos braços e na parte de trás dos joelhos.

Alguns fatores de risco para as crises de dermatite atópica são aproximação de pólen, mofo, ácaros, pelos de animais; contato com materiais ásperos; exposição a irritantes ambientais, a fragrâncias ou corantes adicionados a loções ou sabonetes, a detergentes e produtos de limpeza em geral; roupas de lã e de tecido sintético; baixa umidade do ar, frio intenso, calor e transpiração; infecções; estresse emocional e certos alimentos.

Quando o problema está no ar

A motorista de Uber Paula Araujo, 25 anos, até tenta evitar, mas é só o frio chegar para o nariz começar a entupir. Neste mês, ela começou a sofrer: fica congestionada, não para de espirrar, o olho arde, a garganta coça. “Eu sempre fui muito alérgica. Hoje, desconfio que minha rinite tenha a ver com a minha alergia à proteína do leite, que tive quando bebê”, conta.

Como está sempre dentro do carro e no calor, é difícil evitar o ar-condicionado. “Em toda revisão do automóvel, eu peço para limpar o ar, se não, fico mal”, lamenta. Também evita poeira, mofo, ácaro, mas nem sempre é possível.

Por algum tempo, durante as crises, cheirava rapé — pó resultante de folhas de tabaco torradas e moídas, por vezes misturadas a outros componentes aromáticos. Isso aliviava os sintomas. Nunca, porém, foi ao médico. “Sempre me automediquei. Se não funciona, espero passar”, afirma. Mas com algum cuidado: evita, por exemplo, usar descongestionantes nasais conhecidos por causarem vício.

Mesmo assim, Ricardo Souza Queiroz, alergista e imunologista do Grupo São Cristóvão Saúde, alerta: “É preciso valorizar os sintomas, como uma simples rinite, uma coceirinha. É bom investigar”.

Asma, rinite, sinusite são todas alergias respiratórias. Os mecanismos por trás das alergias não são claros ainda para os especialistas, mas sabe-se que elas estão interligadas. “Existem ligações cruzadas de uma série de processo alérgicos”, afirma Flávio Ejima, gastroenterologista do Hospital Santa Helena. Dados mostram que 50% das pessoas com dermatite atópica têm também rinite alérgica e 40% têm asma. É a chamada tríade atópica ou tríade alérgica, que envolve uma tendência genética e algumas disfunções no sistema imunológico comuns às três doenças.

O alergista Gustavo Fabo explica que a mucosa do pulmão e da via aérea superior funciona melhor quando se está hidratado. Ele ressalta que essa é uma importante medida para prevenção de crises alérgicas respiratórias. “Perdemos água na respiração e na transpiração. Então, devemos beber água o dia inteiro e lavar as vias respiratórias com soro fisiológico.”

Cílios e unhas: É preciso ficar atento

A Associação Britânica de Dermatologistas emitiu alerta de que produtos químicos acrílicos, os principais ingredientes em unhas de acrílico, de gel e de polimento de gel, estão causando uma epidemia de alergia de contato no Reino Unido e na Irlanda. O comunicado baseou-se em um estudo que descobriu que 2,4% das pessoas testadas tinham alergia a pelo menos um tipo de químico metacrilato, principais ingredientes utilizados nos três procedimentos estéticos.

No Brasil, os casos também aumentaram. A dermatologista Valéria Marcondes, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), explica que produtos químicos metacrílicos causam, de fato, alergia em muita gente. “Nem todos podem usar as unhas postiças. Há pessoas com doenças na pele ou nas unhas que não devem usar. Por exemplo: alérgicos aos componentes do adesivo, pessoas com a pele sensível, com psoríase da unha e infecção devem evitar, pois o trauma pode piorar a doença da pele e das unhas”, esclarece.

Segundo a dermatologista Claudia Marçal, as reações alérgicas podem envolver o afrouxamento das unhas ou uma vermelhidão com comichão, não apenas nas pontas dos dedos, mas, potencialmente, em qualquer parte do corpo que tenha entrado em contato com as unhas, incluindo pálpebras, face, pescoço e região genital. Muito raramente, podem ocorrer problemas respiratórios.

Os alongamentos de cílios também têm aumentado o atendimento de pacientes com complicações. A oftalmologista Patrícia Moitinho Ferreira, do Hospital Oftalmológico de Brasília, do Grupo Opty, garante que o procedimento é seguro, mas exige cuidados: “É necessário proteger as áreas mais importantes, como a pele da pálpebra e a área ocular, para não causar irritação. Além disso, devem ser usadas colas específicas. Tem gente que usa superbonder. O fios postiços devem ser leves e colados nos folículos pilosos, não na pele”.

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