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Correio Braziliense

Colo demais 'estraga' a criança? Confira a opinião de especialistas

Especialistas explicam que dar colo é muito mais que ninar um filho. Essencial em diversas fases da vida, o carinho também pode vir em um olhar, na conversa ou na escuta


postado em 03/06/2019 12:00 / atualizado em 03/06/2019 12:09

Tainá Fávero descobriu que Dominique tinha síndrome de Down só depois do nascimento: apoio ajudou a superar o susto(foto: Arquivo Pessoal/ inatagram @tatahfavero)
Tainá Fávero descobriu que Dominique tinha síndrome de Down só depois do nascimento: apoio ajudou a superar o susto (foto: Arquivo Pessoal/ inatagram @tatahfavero)

 

Engana-se quem pensa que colo é apenas para recém-nascidos. Ele se faz necessário em diversas fases da vida. Em bebês, além de afeto, é um importante fator na formação psíquica, física e emocional das crianças; em adultos, pode ser a chave para amenizar e tratar diversas doenças. A necessidade de apoio é uma marca que se carrega desde o útero — o primeiro colo do ser humano.

A pediatra Florência Furks explica que, quando nasce, a criança experimenta uma sensação de insegurança constante e precisa do contato para se humanizar e se reconhecer. “Neurologicamente, o bebê não tem noção dos limites do próprio corpo. É a partir do contato que essa dimensão se formará. O colo não é apenas para acalmar, mas, sim, uma forma de ajudar a criança a se reconhecer como algo existente.”

Esse colo afetivo, que também se dá pelo cheiro, pela voz e pelo olhar, é primordial até o 2 anos de idade e continua se modificando ao longo da vida. Antes desse período, não é recomendado, por exemplo, deixar a criança chorando. Segundo a psicanalista Vera Laconelli, ao contrário do senso comum, esse colo não mima o bebê, e a falta dele pode gerar graves problemas futuros.

“Demora pouco mais de um ano para que o bebê tenha quereres e consciência. Antes disso, as lembranças são táticas. A percepção de existência se dá pelos colos e vai se modificando ao longo do tempo. É um processo. Deixar o bebê chorando nesse período só faz com que ele aprenda a sofrer e a se desesperar”, justifica.

Diversos estudos comprovam que bebês criados sem o colo afetivo são mais propensos a se tornarem adultos depressivos, ansiosos e até mesmo suscetíveis a doenças, pois o sistema imunológica é mais baixo. Um exemplo é o estudo conduzido pelo Centro de Desenvolvimento Infantil de Harvard, que comprovou que o colo é um importante aliado no tratamento de situações de estresse excessivo.

Dar e receber

O colo afetivo foi fundamental, tanto para a relação que a influenciadora Tainá Fávero construiu com o filho quanto para enfrentar os desafios que vieram com o nascimento dele. Após uma gestação tranquila, a mãe do pequeno Dominique, de 4 meses, descobriu que o filho tinha síndrome de Down. “Naquele momento, meu mundo caiu, mas, ao mesmo tempo, ele se ressignificou. Entendi que era exatamente essa missão que eu estava procurando na minha vida”, lembra.

Apesar do susto inicial, Tainá conta que buscou ser uma fortaleza para a família e também para ajudar outras mães que convivem com a síndrome. Hoje, a influenciadora usa a conta no Instagram para levar informação e criar uma rede de apoio. “Foi onde encontrei colo, quando tive o diagnóstico. E é onde eu consigo me relacionar com outras mães, oferecer o meu colo para elas também. E isso fez total diferença na minha vida, porque eu precisei muito de colo quando descobri, meu marido também, meu filho precisava de colo todos os dias. Dar apoio a essas mulheres é algo que me fortalece.”

A atriz Sheron Menezes, que compartilha e escreve sobre a maternidade no Instagram, admite que o colo é essencial para os filhos, mas reitera que não são apenas os pequenos. “Quem dá colo para a mãe? Nós também precisamos de colo e ele, muitas vezes, nos é negado. Nós sempre precisamos estar ali por eles, mas quem está por nós?”, questiona.

Sheron conta que encontrou colo com outras mães por meio de redes de apoio e nos grupos de WhatsApp. “Nós saímos para compartilhar experiências, damos apoio psicológico quando é necessário, damos calma.” Para a atriz, é importante buscar redes de ajuda para que a maternidade seja saudável, tanto para a mãe quanto para o filho. “Tem gente que encontra colo em livro, no olhar, no telefonema... A gente tem que estar aberto a dar colo para os outros e a receber esse colo. Delegar tarefas e admitir que não dá conta de tudo também é saber ganhar colo”, completa.


Reconstrução

(foto: Arquivo pessoal/ instagram @paizinhovirgulaoficial )
(foto: Arquivo pessoal/ instagram @paizinhovirgulaoficial )

O engenheiro Thiago Queiroz, que está à frente do canal Paizinho, Vírgula, conta que aprender a dar colo para a filha o ajudou a se curar da masculinidade tóxica e a se tornar homem e um pai diferente. “Nós, homens, não temos essa questão do afeto. A gente não recebe tanto colo nem quando criança, e colo cura a gente, a gente cura a nossa masculinidade tóxica quando admite que precisa de colo.”

Thiago conta que foi criado da forma mais tradicional possível, em um ambiente em que homens tinham condutas e “manuais” a serem seguidos. O engenheiro, que tem três filhos, não podia demonstrar sentimentos ou fraqueza. Ele diz que só se deu conta de como isso o afetava quando os dois filhos mais novos adoeceram e tiveram de ser internados na UTI.

Ficou a cargo de Thiago explicar a situação ao primogênito, e não entendia qual era o papel dele de pai, pois achava que, para ser a fortaleza do filho, não poderia chorar. “Não consegui não desabar. Num dado momento, quando parei de falar, ele me deu um abraço. Eu recebi colo do meu filho, ele literalmente me abraçou e eu me senti melhor. E percebi que tudo bem se deixar receber colo também, e não é porque sou homem que não preciso.”

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte



Todos precisam

0 a 2 anos: pegar efetivamente no colo, olhar, ouvir, falar, acariciar, ajuda a se organizar física e psiquicamente.


2 a 4 anos:
deve ser avaliado conforme a necessidade, mas é preciso dar autonomia para a criança começar a descobrir o mundo por si.

4 a 10 anos:
não é necessário pegar no colo o tempo todo, mas é importante olhar, ouvir, conversar, abraçar, beijar e mostrar empatia.

11 a 16 anos:
conversar é o mais importante. Com entendimento melhor do mundo, a palavra tem mais efeito sobre o adolescente.

16 a 21 anos:
jovens podem ser mais avessos ao toque. Conversar por telefone e por mensagem de texto já causa grande efeito.

Vida adulta:
o distanciamento entre as pessoas pode fazer com que o toque volte a ser importante. Conversar, mesmo que por telefone, faz as pessoas se sentirem melhores.

Fonte: Sanofi, empresa farmacêutica

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