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Correio Braziliense FITNESS & NUTRIçãO

Ortorexia: quando comer bem vira vício

Cuidados extremos com a alimentação podem acabar comprometendo a saúde. Esse comportamento obsessivo tem até nome: ortorexia


postado em 23/06/2019 09:00 / atualizado em 21/06/2019 16:48


Comer bem é premissa fundamental para uma vida melhor e longeva. Mas e quando fazer escolhas saudáveis se torna uma obsessão pela dieta perfeita? Definida como um “comer transtornado”, a ortorexia é uma desordem marcada pela busca excessiva por um padrão alimentar considerado ideal. Além de cuidados rigorosos com os ingredientes, para o ortoréxico, existe uma exigência em relação à higiene e à produção do alimento.

“Para quem tem ortorexia, é preferível não comer do que comer o que ele reconhece como não saudável”, explica a psicóloga Suely Guimaraes. Quem sofre da desordem tem a vida muito restrita, pensa em comida constantemente, planeja, a todo momento, o que pode e o que não pode comer e corta do cardápio famílias inteiras de nutrientes. A forma de preparo e a temperatura do fogo, para preservar as qualidades do alimento, viram um tormento.

Curioso é que a ortorexia não é uma doença catalogada. Mesmo com estudos científicos e casos clínicos que confirmam os impactos para a saúde física e mental, a Organização Mundial da Saúde (OMS) não reconhece a obsessão, oficialmente, como um transtorno alimentar, mas, sim, como uma desordem. “Por mais que não seja encarada como uma doença, também não pode ser considerado um padrão normal de comportamento”, sustenta a nutricionista Luciana Lancha.

O problema pode vir acompanhado da fixação por exercícios físicos, mas nem sempre. Segundo Luciana, o extremismo com a alimentação, às vezes, não divide relação alguma com a busca pelo corpo perfeito. “A preocupação é maior em relação à pureza, à qualidade nutricional e à higiene do que é ingerido”, pondera. A obsessão por exercícios físicos, que compreende a busca pelo corpo vigoroso, com musculatura desenvolvida, é um transtorno chamado vigorexia, portanto, diferente da ortorexia. “É outra condição séria, que também leva ao adoecimento do corpo e da mente”, Suely alerta.

Vale ressaltar que seguir uma alimentação limpa, regrada e sem agrotóxicos não configura, por si só, a ortorexia. Quando se trata da desordem, o modo de pensar a dieta pode ser tudo, menos saudável.

Em paz com a dieta

Com a ajuda dos amigos e da família, Olga Modrack percebeu que estava ortoréxica e buscou ajuda: em tratamento(foto: Arquivo Pessoal)
Com a ajuda dos amigos e da família, Olga Modrack percebeu que estava ortoréxica e buscou ajuda: em tratamento (foto: Arquivo Pessoal)


O desejo de emagrecer e de ser modelo levou Olga Modrack, 24 anos, a desenvolver alguns transtornos alimentares na vida. A ortorexia, especialmente, surgiu assim que ela iniciou a faculdade de nutrição, quando aprendeu a ler rótulos e a interpretar a composição dos alimentos. Se os primeiros ingredientes fossem “ruins”, pouco saudáveis, ela não consumia, mesmo que tivesse com muita vontade.

A obsessão ficava evidente em situações sociais. “Chegou uma época em que eu levava marmitas para bares e saídas com os amigos, e não comia nada além do que eu trazia de casa”, relata. Olga também controlava o que os outros comiam. Se alguém consumisse refrigerante ou alimentos industrializados por perto, lá estava ela. Repetia inúmeras vezes para a pessoa o tanto de açúcar ou de gordura que o alimento tinha.

Na época, Olga ia a um nutricionista que piorou a situação. Ela conta que o profissional falava mal de alimentos, fazia terrorismo alimentar e a orientou a seguir uma dieta superrestritiva. “Eu acabei ficando com medo de comida”, relembra.

Foram os amigos e familiares de Olga que deram o toque de que ela estava sendo muito extremista e que “acabava sendo chata com todos”, como hoje admite. Para entender que a comida não era vilã, ela iniciou um tratamento com uma psicóloga. A jovem relata que também parou de seguir, nas redes sociais, pessoas que apoiavam uma alimentação restritiva. Em troca, passou a acompanhar perfis realmente saudáveis e que não condenam a comida.

O processo foi lento e doloroso, mas tem funcionado. Hoje, Olga se alimenta bem, sem abrir mão de comer o que gosta. Ela passou a respeitar o próprio corpo e a entender do que ele realmente precisa. “A dica que dou é: escute profissionais bons e que não fazem desserviço. Tenha uma boa relação com qualquer tipo de comida e saiba dosar, nada em excesso faz bem”, acredita.

Tratamento

Ainda na fase inicial, a desordem pode ser tratada com orientação psicológica. Entretanto, a psicóloga Suely Guimaraes explica que é comum a pessoa buscar ou ser levada ao tratamento já com o problema em fase avançada. Dessa forma, a tendência é que o paciente receba o diagnóstico já com adoecimento físico e mental evoluídos.

O quadro ortoréxico pode causar perda de peso e de nutrientes, capaz de levar até mesmo à internação hospitalar. Depressão e ansiedade também podem ser desenvolvidas nesse processo. Variáveis como essas demandam cuidados mais sérios, além de uma equipe multidisciplinar para tratar a desordem: tratamento médico, nutricional, fisioterapêutico, psicológico e psiquiátrico.

Três perguntas para

Valéria Palazzo, coordenadora do Grupo de Apoio e Tratamento de Distúrbios Alimentares e da Ansiedade, psicóloga e neuropsicóloga especializada em transtornos alimentares

Quais os impactos da ortorexia na vida da pessoa que sofre do problema?

Existem impactos para o funcionamento do organismo. Como a dieta fica muito restritiva, porque a pessoa exclui uma série de alimentos, pode ocorrer uma deficiência de nutrientes. Além disso, há o impacto social. Nesse sentido, o isolamento é o maior dos problemas. Ir ao cinema ou a uma festa, onde é comum ter algo para comer, fica difícil. A pessoa com ortorexia tem sempre como primeira preocupação o que terá para comer, e faz escolhas muito radicais. Passa a evitar situações sociais — reuniões de família, almoços de trabalho e toda situação que tenha a comida como agregador social.

O que causa a ortorexia?

Quando se trata de desordens alimentares, o primeiro fator de predisposição para o problema é o aspecto genético. Na primeira infância, o ambiente e as associações que a pessoa faz também influenciam na maneira de ela enxergar o próprio corpo e a relação que formará com a comida.

É possível afirmar que as redes sociais impõem, de certa forma, esse comportamento obsessivo?

A comparação e os valores tão cultivados nesse meio podem levar a resultados desastrosos para a saúde do corpo e da mente. Mas não podemos falar que as redes sociais, unicamente, são responsáveis pela obsessão. Na verdade, elas servem como gatilhos, que acionam fatores já existentes, sobretudo, condições biológicas, psicológicas e sociais do indivíduo que já apontam para uma desordem.

 
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

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