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Correio Braziliense ESPECIAL

Um empurrãozinho na beleza

O brasileiro anda vaidoso como sempre, mas a forma como encara os procedimentos estéticos tem mudado. A onda, agora, é parecer o mais natural possível, como se não tivesse feito nenhuma intervenção


postado em 30/06/2019 08:00 / atualizado em 01/07/2019 11:37

 
Harmonização facial, preenchimento de lábios, micropigmentação, extensão de cílios. Esses são apenas alguns exemplos de procedimentos de beleza disponíveis no mercado. A população brasileira sempre foi adepta de intervenções estéticas, mas o resultado final tem mudado ao longo dos anos. Segundo pesquisa realizada pela Allergan, a Allergan 360° Aesthetics Report, com mais de 14 mil pessoas ao redor do mundo, hoje, o consumidor procura uma aparência mais natural e sutil na hora de realizar algum procedimento no rosto.

“Natural, macio e saudável” são algumas das palavras mais usadas na hora de descrever o ideal de beleza, segundo identificou o estudo. Até mesmo o procedimento dentro dos consultórios mudou. Se antes pacientes procuravam médicos com a finalidade de se parecer com celebridades, hoje, eles buscam melhorar as características pessoais.

Para o cirurgião plástico Paolo Rubez, é muito importante o alinhamento entre profissional e paciente na hora de realizar algum procedimento estético. “As expectativas precisam ser entendidas pelo profissional. É impossível, por exemplo, ficar igual a outra pessoa. Se esse for o objetivo, melhor não fazer”, explica.

Ainda segundo o médico, a procura por alterações estéticas tem crescido cada vez mais. Ele avalia que as redes sociais tiveram um impacto importante nisso, e que a tendência é que esses procedimentos fiquem cada vez mais naturais. “Vai do bom senso do profissional e do paciente não fazer nada que fique exagerado”, comenta o médico.

A psicóloga Andrea Chaves acredita que a sociedade está se voltando para um padrão mais natural, típico dos anos 1970. “Vivemos o padrão artificial, estilo Barbie. No entanto, agora, a valorização do natural está voltando, num movimento de contracultura.”

A coordenadora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Alessandra Romiti, acrescenta que grande parte dos pacientes, incluindo homens e mulheres, querem prevenir o envelhecimento sem ficar com ar artificial. “O que mais ouço é: não quero que ninguém perceba, bem natural.” Essa tendência, explica Alessandra, inclui a preocupação com o meio ambiente e com o uso de produtos com menos teor químico, como os que podem ser absorvidos pelo organismo.



Melhorar sem modificar
 
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
 
A empresária Melissa Agostini, 40 anos, começou a fazer procedimentos estéticos há cerca de sete anos. O primeiro foi a aplicação preventiva de toxina botulínica — procedimento em que o uso do botox é feito antes do aparecimento das rugas e das linhas de expressão.

Em seguida, foi a vez da cirurgia nas pálpebras para tirar o excesso de pele. Essa foi a única intervenção cirúrgica que Melissa fez no rosto. Ela prefere procedimentos menos invasivos, que não sejam tão permanentes e não alterem os traços da face.

Desde então, já fez harmonização facial com um preenchedor chamado Ellansé, que é absorvido pelo organismo; preenchimento labial com ácido hialurônico; aplicação de lente de contato nos dentes; extensão de cílios e ultrassom microfocado, que remove manchas e marcas da pele.

Apesar da quantidade de procedimentos, Melissa afirma que as pessoas que a conhecem não notaram diferenças no formato do rosto ou sequer percebem que ela fez procedimentos. “Mesmo com a harmonização, elas dizem que estou bem, mas não conseguem apontar o que fiz no rosto. É essa naturalidade o que sempre busco”, conta.

Nada é definitivo

Para se manter com a aparência mais natural, Melissa prefere os procedimentos com substâncias absorvíveis pelo corpo ou removíveis, como o caso dos cílios. “Além de ser mais natural, se eu não gostar, vai sair. Não vai ser permanente”, explica. Esse é, inclusive, o motivo pelo qual ela nunca quis fazer micropigmentação dos lábios ou sobrancelha. “Demora para sair. E se eu não gostar? Não arrisco em procedimentos definitivos no rosto.”

A empresária afirma não querer aparentar uma idade que não tem. Para ela, é importante saber envelhecer bem, aceitar as rugas que virão, mas sem deixar de se cuidar. “Aceitar não é relaxar. Temos que nos sentir bem. Se for o caso de fazer alguns procedimentos para a sua autoestima, não vejo problema.” A beleza natural, que combine com seu rosto e sua idade, é o objetivo de Melissa.

Ela também ressalta que não tem vergonha de falar dos procedimentos estéticos que fez. “Falo mesmo. Toda mulher pode ficar bonita e se sentir bem, só fazer a escolha certa de procedimento e profissional e passar para as amigas depois”, brinca.

Uma questão de autoestima

A vontade de realizar um procedimento estético pode estar, muitas vezes, ligada à autoestima. A psicóloga Andrea Chaves explica que autoestima significa a valorização pessoal, que inclui tanto questões externas, como a aparência, quanto internas, como se achar suficiente.

Alguns procedimentos mais invasivos, como a cirurgia bariátrica e a remodelação de maxilar, exigem acompanhamento psicológico prévio. “Se o paciente não se enxergar no novo corpo, as consequências podem ser muito piores”, conta.

Andrea comenta que os padrões de beleza afetam muito mais mulheres do que homens, e que as redes sociais estimulam ainda mais a comparação com outras pessoas. “Se uma influenciadora posta foto com produto, todo mundo vai comprar”, exemplifica. Para a psicóloga, é essencial se entender e compreender o momento de vida por que está passando. Dessa forma, é mais difícil cair em armadilhas de padrões de belezas inatingíveis.

Alguns procedimentos 
Harmonização facial — Qualquer procedimento no rosto pode ser chamado de harmonização facial, explica o cirurgião plástico Paolo Rubez.
Mentoplastia — Procedimento realizado no queixo. Pode ser cirúrgico, com prótese ou preenchimentos.
Preenchimento — Os mais populares podem ser feitos com ácido hialurônico ou outros produtos. Comuns no lábio, testa e rugas finas em geral. 
Bichectocmia — Procedimento cirúrgico que diminui as bochechas.
Micropigmentação — Uso de tinta própria nas camadas superficiais da pele, com duração de um a dois anos. Costuma ser feito nas sobrancelhas e nos lábios.
BB Glow — Tratamento de curta duração feito no rosto todo, no qual é realizada uma pigmentação na camada mais superficial da pele — a epiderme — e não na derme, como a micropigmentação. Também são aplicadas na pele substâncias como colágeno e elastano.




Com jeito de quem acordou assim 
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)

Na maquiagem, a tendência também é um acabamento cada vez mais leve, realçando as características do rosto. As sardas, que antes eram escondidas, hoje são exaltadas e até replicadas. Tendência absoluta na São Paulo Fashion Week, vários maquiadores optaram pelas sardas falsas nas passarelas. Feitas com sombra ou lápis de olho, ficam naturais e, combinadas com blush rosado, dão aparência de saúde. Além de técnicas que conferem um visual mais fresh ao look, existem diversos produtos que servem para esse intuito.

Produtos como o lip tint, que confere uma cor leve e natural aos lábios, têm caído na graça das pessoas que gostam de usar make, mas preferem algo mais discreto. É o caso da estudante de comunicação Giulia Soares, 20 anos.

Ela conta que sempre gostou de se maquiar, mas nunca foi fã de aplicar base ou make pesada nos olhos. “Sempre apostei em alternativas mais leves, para me sentir bonita.” Atualmente, Giulia diz ser adepta da maquiagem que não parece estar maquiada.

Giulia tem, de fato, observado a tendência da maquiagem leve crescer, mas acha preocupante quando influenciadoras digitais usam do artifício para dizer que estão naturais. “Muitas vezes, as blogueiras estão maquiadas e dizem que não estão, e isso faz nos sentirmos mal, porque não conseguimos ser naturais como elas”, comenta

A estudante conta que tem vontade de fazer algum procedimento estético no futuro. “Não sei se faria pigmentação, talvez um botox ou preenchimento nas olheiras”, explica. Os procedimentos não substituiriam a maquiagem, pois, para Giulia, o momento de se maquiar é como um ritual de autocuidado.

Fique atento!
Busque o profissional indicado para o procedimento. Confira o que deve ser feito apenas por médicos, e não faça com pessoas que não atendam a esse critério.
Busque as referências do profissional, sua formação e seu portfólio.
Converse e sempre deixe claro o que você quer. Tire todas as dúvidas e faça a mesma pergunta quantas vezes for necessário para entender o procedimento e os resultados.
Pergunte ao médico ou ao profissional em questão sobre as contraindicações. Alguns procedimentos não podem ser feitos por mulheres grávidas ou pessoas em tratamento de câncer ou que tomam determinados medicamentos.
Observe os cuidados informados nas horas ou dias que antecedem ou sucedem o procedimento.
Tenha cuidado com as condições de higiene do profissional e do ambiente.
Confira se os materiais usados são esterilizados e/ou descartáveis.
Esteja atento a possíveis alergias. Pessoas com reações a tintas de cabelo ou esmalte, por exemplo, tendem a ter alergia também às tintas usadas na micropigmentação.
Faça controle fotográfico de seu rosto para acompanhar e comparar os resultados

(foto: VALERIE MACON)
(foto: VALERIE MACON)

De cara (quase) lavada
Em julho de 2016, a cantora americana Alicia Keys declarou que não usaria mais maquiagem, seja em premiações, seja em editoriais para a mídia. A decisão, na época, causou frisson entre a comunidade de apaixonados por beleza. Desde então, a artista tem usado pouquíssima make, optando por acabamentos naturais e fresh quando usa. Em entrevista à revista W, em 2016, a maquiadora de Alicia afirmou que a cantora investe bastante em cuidados com a pele. Alguns truques, como preencher a sobrancelha com lápis, aplicar hidratantes com cores e blush leve, também são usados.


Make permanente 

Assim como muitas pessoas optam pela maquiagem natural, existem as que buscam o mesmo efeito, porém de forma mais definitiva, principalmente por meio da micropigmentação dos lábios e das sobrancelhas.

A micropigmentadora e designer de sobrancelhas Maria Luiza Gonzaga afirma que pigmentar os lábios, deixando-os mais rosados e com aspecto natural, e corrigir, a partir do pigmento, falhas na sobrancelha são os procedimentos mais buscados atualmente. E o pedido dos clientes é sempre: “Quero o mais natural possível”.

Segundo Maria Luiza, o procedimento na boca não é procurado apenas para dar ar mais rosado aos lábios, mas também para corrigir cicatrizes e até fazer a reconstrução dos lábios. A especialista explica que o procedimento de micropigmentação no rosto é semipermanente. A tinta é aplicada nas camadas mais superficiais da pele, podendo ser mais ou menos profunda, e dura cerca de um a dois anos.

O cabeleireiro Júnior Schöer é um dos adeptos da micropigmentação labial. Ele sempre gostou de aplicar maquiagem para que os lábios ficassem rosados, mas notava que parte da boca, por conta da cor de sua pele, era mais escura. Resolveu, então, deixá-la mais rosada, em 2012.

O resultado fez com que Júnior precisasse passar anos corrigindo um procedimento malsucedido. “Eu queria deixar o contorno da boca mais rosado, como o resto dos meus lábios, mas ela desenhou uma linha ao redor da minha boca. Depois que voltei lá para correção, foi pior, meus lábios ficaram roxos”, lamenta.

Pré-tratamento

Depois disso, ele buscou outros profissionais, que o ajudaram a sanar o problema e a esconder a pigmentação malfeita, até que ela desaparecesse com o passar do tempo. O cabeleireiro afirma que não se arrepende de ter se submetido ao procedimento, mas garante que nunca mais fez nada sem pesquisar a fundo os profissionais. “Aconselho a nunca escolher pelo critério geográfico ou buscar o mais barato ou mesmo o mais famoso, mas, sim, analisar os resultados daquela pessoa, ver o portfólio”, ensina.

Júnior também faz aplicação de toxina botulínica desde 2015, além do BB Glow, no qual é realizada uma pré-pigmentação superficial seguida da reposição de elastina e colágeno. No rosto, só pretende fazer mais um tipo de procedimento, a aplicação de ácido hialurônico nas olheiras.

Sobre o preenchimento, Júnior ainda está ponderando. “Um dos lados do meu arco do cúpido é levemente mais baixo que o outro, e estou avaliando se vale a pena corrigir ou não”, explica. O cabeleireiro acrescenta que, sendo superadepto da beleza natural, jamais faria procedimentos que o descaracterizasse. “Sou muito satisfeito comigo mesmo, faço pequenas correções e busco melhorias, mas não penso em mudar o meu rosto nem evitar a todo custo o envelhecimento, só atrasar”, brinca.

Cuidado nunca é demais

Antes de recorrer a qualquer procedimento estético, é preciso ficar atento a que profissional procurar.  A coordenadora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Alessandra Romiti, explica que a aplicação de botox e de ácido hialurônico, além dos preenchimentos faciais, são de competência médica e não devem ser feitos por outros profissionais. Diferentemente de procedimentos estéticos como micropigmentação, que não requer conhecimento médico.

O primeiro passo a ser dado em uma consulta médica prévia a uma intervenção estética é fazer uma avaliação do paciente e de seu histórico. “Medicamentos que a pessoa está tomando, por exemplo, podem interagir com as substâncias. Então, é importante analisar tudo, e a condição de saúde de cada um.” Os resultados negativos podem ser apenas estéticos, mas, em casos mais graves, quando a substância atinge vasos do rosto, o tecido pode até mesmo necrosar.

A dermatologista Rosa Matos afirma que a aplicação de toxina botulínica e preenchimento com ácido hialurônico são os campeões no consultório. Com o segundo, é possível trabalhar no rosto inteiro. “Pode ser usado de acordo com a necessidade de cada um, mas exige bom conhecimento de anatomia e senso de estética apurado”, adverte.

Rosa ensina que, para harmonizar um rosto de forma adequada, é importante entender o impacto do envelhecimento na face, na remodelação dos ossos, na gordura da face, no afinamento da pele, entre outros detalhes. “Harmonização é reposicionar as estruturas e não criar um rosto que não condiz com aquele paciente.”
 
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
 

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