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Correio Braziliense BICHOS

Crueldade criminosa: mutilar os animais por motivos estéticos é crime

Cortar rabo e orelha e até retirar as cordas vocais dos animais são práticas que, infelizmente, ainda persistem, apesar de serem tipificadas como crime


postado em 07/07/2019 08:00

Fernanda Bianconcini adotou Beluga. Vítima de maus-tratos, a cadelinha teve as cordas vocais cortadas (foto: Minervino Júnior/CB/DA Press)
Fernanda Bianconcini adotou Beluga. Vítima de maus-tratos, a cadelinha teve as cordas vocais cortadas (foto: Minervino Júnior/CB/DA Press)
Projetar padrões estéticos em animais de estimação pode significar uma enorme crueldade. Cirurgias para diminuir rabos e orelhas, por exemplo, além de não trazerem nenhum benefício ao animal, são considerados crimes ambientais. As de corte de rabos, orelhas, cordas vocais e de remoção de unhas se encaixam em práticas de maus-tratos contra os animais, criminalizadas desde 1998.

Em 2008, o Conselho Federal de Medicina Veterinária proibiu tais procedimentos para finalidades apenas estéticas. Porém, caso o animal apresente algum problema grave no rabo, nas patas, nas cordas vocais ou em algum outro membro e a amputação seja recomendada pelo veterinário, ela deve ser feita.

As cirurgias estéticas também podem causar sérios traumas nos bichinhos. Além de submeter o animal a dor desnecessária, elas afetam a maneira de se comunicar e a socialização dos animais.

Segundo Lizie Buss, veterinária e membro da Comissão de Bem-Estar Animal do Conselho Federal de Medicina Veterinária, o corte de orelhas pode facilitar infecções nos canais auditivos, que estão desprotegidos. Já o rabo, explica a veterinária Lorena Bastos, é um alongamento da coluna vertebral e essencial para o equilíbrio do pet. Essas práticas são especialmente comuns em raças de guarda, como rotweiller e doberman.

Nos gatos, a remoção da ponta da pata, para tirar as unhas, é bastante dolorosa. “O animal fica sem defesa, além de ser muito incômodo”, explica Lorena. “Arranhar é um comportamento natural dos felinos”, completa a veterinária.

Lorena explica que, muitas vezes, os procedimentos são realizados nos animais ainda filhotes, de maneira irregular, e podem causar graves infecções. “Ao se deparar com essas situações, não podemos ser omissos”, ressalta a veterinária Lizie Buss. Práticas de maus-tratos aos animais devem ser denunciadas à Polícia Civil e à Ambiental. “Se quiser um animal, precisa dar as condições e estar preparado para acolhê-lo.” No site do Conselho Federal de Medicina Veterinária, existem diversos guias sobre adoção responsável e cuidados com os pets.

Vítimas


Fernanda Bianconcini estava assistindo ao noticiário na televisão quando viu que um canil clandestino havia sido descoberto, e os animais seriam encaminhados para adoção. “No mesmo instante, liguei para o número da tela e me ofereci para cuidar de algumas fêmeas”, conta a professora de inglês. A ONG Adoção São Francisco foi a responsável por cuidar dos animais e levá-los para lares temporários.

Fernanda e o marido adotaram Beluga, uma cachorrinha da raça spitz alemão. Ela lembra que a mascote estava extremamente maltratada, suja e precisou retirar o útero e os ovários. Após todas as cirurgias, Beluga foi liberada. Mesmo assim, não conseguia andar na rua e tinha medo de tudo.

Depois de algum tempo de convivência com Gucci, outro spitz do casal, Beluga foi ficando mais tranquila. “Meu outro cachorro late muito e, um dia, Beluga foi latir e não saía som”, recorda-se Fernanda. A cadela emite um latido sem som, que se assemelha a um problema respiratório, além de viver sempre ofegante.

Diante disso, Fernanda levou a cachorrinha a uma clínica e a veterinária confirmou que cortaram as cordas vocais de Beluga — prática comum em canis clandestinos. Fernanda conta que precisa tomar cuidado especial em relação ao peso da cachorrinha, que tem um metabolismo lento por ter ficado presa por tanto tempo.
 
Bento chegou a um abrigo sem o rabo: traumatizado, cachorro enxerga o humano como inimigo (foto: Arquivo Pessoal )
Bento chegou a um abrigo sem o rabo: traumatizado, cachorro enxerga o humano como inimigo (foto: Arquivo Pessoal )
 

Bento é outra vítima da crueldade humana. Resgatado pelo grupo Resgate Noroeste, ele foi encontrado sem o rabo, decepado sem anestesia. Traumatizado, ele foi encaminhado para o São Chiquinho Hotel Fazenda Pet, onde tem sido cuidado pelo zootecnista e comportamentalista canino Pedro Henrique Mendes.

“Bento chegou aqui com muita raiva de humanos, e estamos fazendo um trabalho para que ele possa aprender que é possível confiar e gostar de pessoas”, explica Pedro. Segundo o especialista, o rabo do cãozinho sem raça definida foi retirado de maneira cruel, quando ele já era um cão adulto, o que deixa a adaptação ainda mais difícil.

Pedro explica que o rabo é uma forma de comunicação importante entre humanos e cachorros. A falta dele dificulta a expressão do animal e a compreensão por parte das pessoas. “Bento expressa suas emoções pela postura, rosnando, com o pelo ouriçado.” Apesar de ter sido vítima de crueldade, hoje o cãozinho mostra progresso gradativo e de grande significado. “Estamos ensinando a ele a não associar mais humanos a sentimentos negativos.”

Sujeitos a penalidades

A pena prevista para o crime é de três meses a um ano de prisão, além de multa. Se o acusado for médico veterinário, pode ainda responder processo ético no Conselho de Medicina Veterinária.
 
*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte 

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