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Correio Braziliense NEURôNIOS EM DIA

Na sala de aula, aprende-se mais anotando no papel ou no laptop?

As pessoas conseguem digitar no computador um maior conteúdo daquilo que o professor fala que quando escrevem numa folha de papel. Mas será que o aprendizado de quem usa o laptop na sala de aula é melhor?


postado em 09/07/2019 19:29

(foto: Divulgação/Ricardo Teixeira )
(foto: Divulgação/Ricardo Teixeira )
As pessoas conseguem digitar no computador um maior conteúdo daquilo que o professor fala que quando escrevem numa folha de papel. Mas será que o aprendizado de quem usa o laptop na sala de aula é melhor? Mais nem sempre é melhor.

Pesquisadores das universidades de Princeton e de Los Angeles, nos EUA, têm demonstrado que os alunos aprendem mais quando anotam no papel. Eles testaram em centenas de estudantes dessas duas universidades, após uma aula, a memória factual, a compreensão do conteúdo e a habilidade em sintetizar a informação. Metade anotava a aula no papel e a outra, no laptop. Os que anotaram no papel realmente tiveram melhor desempenho.

Mas por que no papel é melhor? Como no laptop os alunos são capazes de digitar uma aula praticamente na íntegra, o trabalho é pouco reflexivo, exigindo do cérebro pouca atividade analítica e de síntese. Escrever no papel é mais lento e permite uma maior “digestão” do conteúdo, forçando o cérebro a capturar melhor a essência da informação.

Mas e se os alunos fossem instruídos a usar o laptop sem tentar copiar o que o professor fala? Não adianta. Os pesquisadores pediram que os alunos digitassem no laptop um conteúdo com as próprias palavras, mas não melhorou. Continuaram a escrever as palavras do professor e o desempenho foi o mesmo.

Mas será que por conseguirem digitar mais conteúdo, os usuários do laptop terão vantagens na hora de estudar para a prova uma semana depois? Também não. Mais uma vez a turma do papel se saiu melhor.

No caso das crianças, a importância do lápis e do papel nas mãos ainda é mais crítica. Até o sexto ano, as crianças escrevem mais rápido com o lápis do que com o teclado e conseguem exprimir mais ideias em um determinado tempo. Especialistas defendem a ideia de que as crianças pensam melhor quando escrevem com lápis e isso é corroborado por estudos que mostram maior atividade cerebral com essa forma de escrita. E o que é melhor? Letra de forma ou cursiva? O Ministério da Educação no Brasil tinha uma postura em 2017 que quanto mais formas de escrita a criança dominar, melhor para ela, sem obrigatoriedade do ensino da cursiva. O Enem aceita os dois tipos. Nos EUA, 14 estados, hoje, incluem escrita com letra cursiva como matéria obrigatória. 

Se ainda formos comparar o papel com um laptop com a internet ligada, aí a goleada deve ser muito maior. Estudos mostram que os alunos usam de 40% a 60% do tempo do laptop na sala de aula com “outras coisinhas” na internet. Um estudo recente da Universidade de Michigan State com estudantes de graduação em psicologia descortinou alguns números importantes sobre o assunto. Eles mostraram que os estudantes passavam dois terços do tempo na sala de aula ligados a atividades não acadêmicas na web, como redes sociais, e-mail, compras, jogos, etc. — 40 minutos a cada 100 minutos de aula. Como previsto, o desempenho acadêmico foi inversamente proporcional ao tempo de uso do laptop para fins não acadêmicos. Por outro lado, o uso da web como ferramenta de apoio ao aprendizado era usado por apenas cinco minutos dentro dos 100 minutos de aula. Além disso, os estudantes passavam em média 27 minutos dos 100 digitando mensagens no celular. Desse jeito aprender passa a ser um milagre!

*Dr. Ricardo Teixeira é neurologista e Diretor Clínico do Instituto do Cérebro de Brasília

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