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Correio Braziliense ESPECIAL

Perfeição na medida: alfaiates estão se reinventando na era da informação

Mesmo com a cultura do fast fashion, a arte da alfaiataria atravessa séculos de atuação e se reinventa nos dias de hoje


postado em 28/07/2019 07:00 / atualizado em 25/07/2019 13:56

Gilson, Nicson, Jean e João há três gerações seguem o ofício de alfaiate: paixão pelo que fazem (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Gilson, Nicson, Jean e João há três gerações seguem o ofício de alfaiate: paixão pelo que fazem (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Em tempos de produção industrial e expansão do fast fashion — padrão que preza pela rapidez de consumo e pelo descarte quase imediato —, ter uma peça personalizada, com qualidade superior e acabamento especializado é a definição do luxo.  O artesanal dialoga com os pilares da alta-costura e promove qualificação e excelência nas peças produzidas sob medida — características primordiais da produção dos alfaiates.

Quando o assunto é moda, deve-se muito aos profissionais do ramo. E há quem diga que os especialistas da área estão em extinção. No entanto, ainda existem por todos os cantos do país — e do mundo — profissionais que trazem o que há de melhor da alfaiataria personalizada ao consumidor.

Para Fernando Demarchi, professor, editor de moda e consultor de imagem, é possível manter uma visão otimista com o futuro da profissão: “Eu penso que ela será ressignificada. A busca pela excelência está intrínseca no DNA humano, e um terno ou costume com excelente corte e acabamento sempre fascinará o olhar masculino, no âmbito de estar elegante na sociedade e despertar admiração em todos à sua volta”.

O especialista pondera, então, que o ofício pode encontrar novas formas de se estabelecer na era da instantaneidade e da informação, mas não será substituída. “A profissão sobrevive há séculos, pois em cada um de nós existe o desejo de exclusividade, de pertencimento. Sendo assim, ter alguém que faça suas peças é, ainda hoje, um ‘luxo’, e que o distingue da massa”, reflete.

Com a experiência, os alfaiates têm um olhar peculiar e treinado para compreender as proporções do corpo humano, garantindo, assim, um sucesso ainda maior com a confecção das peças. A sustentabilidade também é uma pauta desses artesãos, pois um terno bem-feito e de qualidade tem uma vida útil bem maior. Conheça a história de alguns desses profissionais, que exercem o ofício há décadas.
 

De geração em geração


Com o tradicionalismo que caracteriza a profissão, o ofício de alfaiate costuma ser ensinado primeiramente por algum membro da família, seja o pai, seja o tio, seja um irmão. E, antes mesmo de colocar a mão na massa, há um período de muita observação e aprendizado com os veteranos.

Foi assim que, aos 14 anos, o goiano Gilson Vaz Monteiro, hoje com 60, iniciou a trajetória como alfaiate. O primeiro contato foi observando o pai. Depois, ele começou a se arriscar com pequenos ajustes em calças e camisas. Pela facilidade de aprender, não demorou até que estivesse voando solo e confeccionando os primeiros ternos. Aos 16, Gilson já era dono do próprio estabelecimento.

Ao longo de quatro décadas, trabalhou em diversas alfaiatarias de Brasília, colecionando nomes importantes da política em seu portfólio de clientes, como o ex-presidente Fernando Collor de Melo. “Por meio do meu trabalho, pude conhecer de perto deputados, desembargadores, pessoas influentes da mídia e, mais recentemente, tive o prazer de ser o alfaiate que realizou os ajustes dos ternos da seleção de futebol dos Estados Unidos, durante a Copa de 2014”, orgulha-se.

Com tanta habilidade e dedicação à profissão, ainda no início da carreira, Gilson acabou influenciando os irmãos João Vaz Monteiro, 60, e Nicson Vaz Monteiro, 47, a compartilhar com ele o trabalho no ateliê. O gosto pela coisa já estava no sangue — foi herdado do pai e da mãe, ambos profissionais no ramo. E a influência não parou por aí. O talento para a alfaiataria alcançou, também, Jean Alves Rabelo, 43, filho de Gilson.

O segredo para o sucesso da família? A busca incessante por atualização e aperfeiçoamento. “Acima de qualquer dom ou vocação, é necessário ter amor pelo que se faz. É a chave para o sucesso”, afirma João.

Não há dúvidas do privilégio que é poder trabalhar cercado da família. Mas, para se organizar, cada um tem os clientes, a agenda e as funções preestabelecidos dentro da alfaiataria. Sem dúvidas, um trabalho em equipe. “Eu conquistei tudo o que queria por meio da minha profissão: a minha casa, o meu carro e a estabilidade financeira. Se você estiver disposto a aprender, é possível viver bem e ter sucesso como alfaiate”, destaca Gilson.

O gerente administrativo Aldo Ribeiro, 53, é cliente do ateliê dos irmãos Vaz Monteiro há mais de 10 anos. Um dos serviços a que mais recorre é o de ajustes em calças e camisas para o trabalho e eventos sociais. “Acho importante repaginar as peças que você já tem em casa e dar uma cara nova. Os alfaiates do ateliê prezam pela inovação e estão sempre estudando e trazendo novas referências para os clientes”, conta.


Atualização constante


Para Maísa de Oliveira Abranches, professora coordenadora do curso design de moda do Instituto de Educação Superior de Brasília (Iesb), o segredo para garantir espaço no mercado de trabalho é estar sempre se atualizando. Ainda que seja uma área tradicional, como a alfaiataria, nascem inovações tecnológicas todos os dias. “Um profissional estagnado, que se limita às paredes do ateliê, tem grandes chances de ser deixado para trás”, pondera a especialista.

A professora considera que algumas atitudes, como fazer cursos de atualização, estar ligado às tendências de mercado — especialmente para conquistar o público mais jovem — e saber aproveitar as facilidades que a tecnologia tem a oferecer sem perder o zelo e o requinte da produção artesanal, podem garantir que o alfaiate consiga se manter no futuro.

“A profissão não está acabando. Muito pelo contrário. Ela pede atualização. E a nova era da informação, o que chamamos de indústria 4.0, facilita ainda mais a produção dos alfaiates, para que possam se dedicar ao perfeccionismo que o trabalho exige”, reitera Maísa.

Ser um profissional versátil e antenado é muito do que o mercado demanda. Além disso, o público deixou de ser exclusivamente masculino. As mulheres também estão valorizando a beleza de uma boa alfaiataria. Estar ciente dessas atualizações e novas demandas de mercado é um ótimo passo rumo à preservação — e ao crescimento — da profissão.

(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

A importância do personalizado


Além de seguir no ramo como profissional autônomo, existe outro nicho de mercado para os alfaiates. Algumas marcas que prezam pelo alto nível do produto investem em profissionais qualificados na área para compor a lista de funcionários. Foi assim que Leonardo Carvalho, 45 anos, entrou na profissão.

O alfaiate trabalhou em grandes lojas no Distrito Federal, utilizando tecidos de alto nível e se aprimorando no ofício. Após 25 anos ocupando a função de lojista, ele decidiu abrir o próprio ateliê, há dois anos. “Eu sempre gostei muito de atendimento. Durante os cursos que fiz na Europa, comecei a me apegar mais ao produto personalizado, demanda que vai além de realizar ajustes, o que era a minha atribuição como lojista”, relembra.

A decisão, para ele, foi acertada. “Temos muita procura, e vários clientes que querem um produto feito especialmente para eles”, garante Leonardo. O alfaiate defende que o mais importante é unir o conforto ao requinte da peça. “Não existe coisa mais gratificante do que ver uma pessoa saindo daqui extremamente impecável, alinhado e se sentindo bem consigo mesmo.”

Desde que começou a produzir peças com o auxílio de um alfaiate e experimentou essa sensação, Thiago Oliveira, 33, conta que não compra mais peças de alfaiataria prontas. “Quando você usa uma roupa feita sob medida, que tem o caimento certinho no corpo, é difícil ficar satisfeito com produtos de loja. Os desenhos dos corpos são diferentes, e eu observo que os ajustes feitos em peças prontas não são a mesma coisa que algo feito para você”, acredita o funcionário público.

Para Thiago, que trabalha todos os dias de terno, ter peças de qualidade ajuda a montar o próprio estilo. Ele também costuma ficar mais antenado nas novidades do mercado e gosta de tecidos e peças diferenciadas. A beleza e o primor das peças que ele compra chamam a atenção dos colegas — o que facilita bastante a divulgação do trabalho dos alfaiates, que ainda funciona predominantemente por indicação.

Leonardo Carvalho, além de contar com o boca a boca e os elogios dos clientes, utiliza o Instagram para apresentar algumas peças. “A tecnologia é aliada em vários sentidos. Mesmo que não façamos muita divulgação, as mídias sociais são uma ótima maneira de encontrar visibilidade”, considera.


Valorização do corpo

O serviço de alfaiataria surgiu desde os primórdios da humanidade, no Egito, e, posteriormente, na Grécia e em Roma. Durante a Renascença, foi das mais importantes profissões pela influência que os alfaiates tinham no âmbito social. Na Idade Média, a roupa era considerada um meio de ocultar o corpo. Mas, com o Renascimento, veio a acentuação da forma humana. O manto solto, aquele uniforme padrão do período medieval tão facilmente construído a partir de uma única peça de pano, foi encurtado, apertado e, eventualmente, cortado. Essa tentativa de reconstruir o corpo humano em tecido exigia uma crescente habilidade especialista e divisão do trabalho. Foi aí que o papel do alfaiate cresceu nas sociedades e ainda hoje sobrevive.
 
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
(foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
 

Sete décadas de dedicação


O talento para trabalhos manuais acompanha o alfaiate Antônio Francisco de Souza, 87 anos. Antes mesmo de trabalhar com ternos e paletós, o baiano já auxiliava o irmão na confecção de sapatos — e confessa que levava muito jeito. Mas, após algum tempo, percebeu que não era bem aquilo que gostaria de fazer.

A alfaiataria apareceu na vida dele depois de observar amigos que trabalhavam na área. Com a breve experiência que tinha com o corte e a costura dos sapatos, Antônio resolveu tentar as habilidades com os tecidos. Como autodidata que é, aprendeu o ofício rapidamente, trilhando, dessa forma, o caminho com a profissão que o acompanha há mais de 70 anos.

“No começo, eu ia me testando para aprender da melhor forma possível. Prendia os meus dedos com o dedal, arriscava coisas novas e observava as outras pessoas que trabalhavam comigo”, comenta.

Quando se mudou para Brasília, contou com o apoio de conhecidos, que indicavam o serviço para pessoas próximas. E, assim, foi tecendo uma rede de clientes fiéis no quadradinho. Residente em Sobradinho, Antônio se tornou referência na região e se orgulha de ter se tornado o alfaiate oficial de administradores e prefeitos da cidade.
 
As demandas mais recorrentes do dia a dia são ajustes em calças e camisas. Mas, quando questionado sobre o futuro e as perspectivas da profissão, o alfaiate se mostra esperançoso com a retomada da feitura de peças com mais frequência. “Ser alfaiate é tudo o que fiz a maior parte da minha vida. Há uns dois ou três anos, os serviços para fazer ternos têm diminuído muito, mas eu espero que volte a crescer, porque é o que mais gosto de fazer.”
 
*Estagiárias sob supervisão de Sibele Negromonte
 

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