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Correio Braziliense MODA

Nem azul nem rosa: tudo o que você precisa saber sobre moda agênero

Mudanças sociais quase sempre têm reflexo na moda. O estilo agênero busca desvincular as peças de roupa dos padrões pré-estabelecidos


postado em 25/08/2019 07:00 / atualizado em 26/08/2019 12:48

(foto: Heitor Alencar/Divulgação)
(foto: Heitor Alencar/Divulgação)
Meninos vestem azul e meninas vestem rosa? Ao longo dos anos, a ideia de que cores e gênero andam de mãos dadas tem sido desconstruída. O debate possibilitou que, em maior escala, outras questões fossem analisadas e repensadas. Neste cenário de mudanças sociais, em que as pessoas estão questionando padrões impostos, a moda agênero encontrou espaço.

Para Lorenzo Merlino, professor do curso de moda e história da Arte da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), o foco da moda agênero — ou de gênero neutro — é ampliar a liberdade do público consumidor, para que esse possa escolher qualquer peça que lhe agrade sem que seja rotulado como masculina ou feminina. É sobre pautar as suas decisões na maneira como deseja se comunicar com o mundo ao seu redor.

“Desde sempre, a moda acompanhou os movimentos sociais e foi moldada e adaptada por eles, e quando se trata de questão de gênero, não podia ser diferente. Essa vertente se mostra como uma resposta imediata para as demandas sociais. E, pelo andar das coisas, é uma macrotendência que veio para ficar”, pontua.

Para o especialista, umas das rupturas mais marcantes faz referência às mudanças das roupas femininas ao longo do século 20. Com as ideias transgressoras de Coco Chanel, por exemplo, as mulheres se libertaram dos padrões de vestimenta que exigiam o uso de espartilhos, e experimentaram calças, golas altas, cores sóbrias, listras e outras referências trazidas do armário masculino. Com a moda unissex, não tem sido diferente.

A curtos passos, lojas de departamento têm implementado coleções-cápsulas sem rótulos. As jaquetas oversized, as calças boyfriend e as camisas alongadas são alguns exemplos de peças que fazem parte da produção do dia a dia e não precisam de definição masculina ou feminina.

Algumas marcas carregam em seu DNA a proposta, como a Ocksä — que propõe uma estética atemporal e unissex, de silhueta complexa e sofisticada. Outras incluem peças nas coleções que funcionam em um guarda-roupa tanto masculino quanto feminino. Há também as que preferem não se nomear nem como sem gênero — para elas, roupas são apenas roupas.

“O caminho a percorrer ainda é longo, mas só o fato de já estarmos debatendo sobre a importância de inclusão é muito válida e importante. Quanto mais for questionado, mais estaremos próximos de mudanças concretas”, reflete Lorenzo.

DNA brasiliense


(foto: Heitor Alencar/Divulgação)
(foto: Heitor Alencar/Divulgação)
Nem só de cores sóbrias e roupas sociais se faz um candango. O público jovem da capital busca inovação e personalidade no guarda-roupa, sempre mantendo uma referência ou outra do quadradinho, seja pelas cores, seja pela arquitetura. Com esse gancho, a marca recém-lançada Babalong vem conquistando espaço.

A grife brasiliense foi fundada este ano pela arquiteta Débora Alencar Pinto, 26 anos, e o irmão dela, Heitor Alencar Pinto, 24,  com a ideia de proporcionar ao público maior liberdade na hora de se vestir. “O meu irmão sempre teve o estilo mais ousado, e reunimos várias referências do que queríamos para a Babalong. Na época, ela morava em Xangai, na China, quando surgiu a ideia de montarmos a marca, e as roupas de gênero neutro já tinham um público grande de adeptos por lá. Por isso, foi quase como um pré-requisito para somarmos ao nosso negócio”, conta a empresária.

A Babalong tem como proposta ampliar as possibilidades de usar uma mesma peça de forma livre. As estampas, que são o carro-chefe da marca,  lembram as cores e os cantinhos de Brasília, como os vitrais da Igreja Dom Bosco e as linhas e formas dos monumentos. “Nós buscamos retratar a cidade por um ângulo diferente. A ideia é mostrar o não visto”, define.

Para que as peças funcionem para homens e mulheres, há um cuidado redobrado com o caimento das roupas. Tudo começa com o tecido de cetim parisi que não marca o corpo. A modelagem é fluida e sem aviamentos.

“O conceito da marca busca comunicar por meio das escolhas das cores, das modelagens e da não adesão a tendências. O nosso posicionamento de marca unissex vai além de um rótulo. Procuramos incluir em nossas fotos modelos trans, plus size, negros, e não retocamos fotos ou algo do tipo. Toda arte precisa se posicionar, e nós defendemos um diálogo aberto, sincero e de identificação com o nosso público”, diz a proprietária da marca.

Aqui na cidade, a arquitetura também chama a atenção dos amantes da modernidade, e, para os futuros estilistas, ela serve como inspiração. Lourival Souza, 21, se espelhou nos vitrais e nas curvas modernistas de Oscar Niemeyer para criar a coleção vencedora do concurso Destaque de Moda, na categoria unissex, realizado no ano passado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC).

Estudante do curso de tecnologia em design de moda na instituição, Lourival conta que nunca acreditou em divisões entre feminino e masculino quando o assunto é vestuário; por isso, a categoria unissex era a única que dialogava com seus ideais. “Para mim, moda agênero é uma questão de expressão e liberdade muito forte. Ela quebra as barreiras da binariedade, questiona as definições de bonito e feio, e é sobre manifestação pessoal.”.

Adriano Bezerra, professor do curso de Lourival, também acredita na moda como um pilar para incitar a discussão de assuntos importantes para a sociedade. “É um alerta para que as pessoas questionem conceitos e promovam mudanças”, defende.

De portas abertas


Além de marcas e designers, existem lojas que trazem para o quadradinho o que há de melhor da moda unissex em todo o Brasil. A Armária, multimarca brasiliense, carrega a ideologia e as silhuetas da moda sem gênero. Lá, os clientes encontram apenas produtos que dialogam com a visão da organização — unissex e sustentável social e ambientalmente, segundo o modelo do slow fashion.

“Como a gente acredita que as fronteiras entre o feminino e o masculino estão cada vez mais tênues e são uma escolha dos indivíduos, e não modelos a serem impostos pela indústria, nós decidimos fazer um espaço onde as pessoas se sintam à vontade para vestir o que querem e ousarem em relação aos padrões estabelecidos”, descreve uma das proprietárias da empresa, Gioconda Bretas, 38.

A loja de Gioconda, Anderson Falcão, 36, e Dayanne Holanda, 38, oferece peças de diversas marcas do Brasil. Ocksä e Led — que participaram da última edição do São Paulo Fashion Week — Molett, Coletivo de Dois, Cë, Hermusche, Janaína Fernandes, Carlos Penna e J. Boggo compõem a lista.

As roupas chamam a atenção de diversos tipos de público — desde jovens até os mais velhos. “Nossos clientes se identificam com a nossa forma de ver o mundo e procuram peças que os representam nesse sentido”, descreve Gioconda. A demanda também vem dos pequenos. “Logo começaremos a produzir para crianças. É uma proposta atrativa para os pais que querem transmitir isso para os filhos e para os pequenos, que gostam muito dos produtos”, afirma a sócia do local.
 
(foto: JB LACROIX/IFP)
(foto: JB LACROIX/IFP)
 
 
(foto: Instagram/Reprodução)
(foto: Instagram/Reprodução)

A marca Ocksä promove um estilo agênero e atemporal, que remete aos princípios do slow fashion: elegem um tema anual que contará com peças para dias quentes e outras para dias frios, mas com alinhamento, o que aumenta as possibilidades de uso

(foto: Abstral/Divulgação)
(foto: Abstral/Divulgação)

A coleção Abstral, de Lourival Souza, ganhou o concurso Destaque de Moda, na categoria unissex, do IFB

(foto: Abstral/Divulgação)
(foto: Abstral/Divulgação)

A inspiração para a coleção Abstral são os vitrais e as curvas modernas da catedral de Brasília

(foto: Agência Fotosite)
(foto: Agência Fotosite)

A marca de Porto Alegre Ocksä desfilou no último São Paulo Fashion Week. Em Brasília, é possível encontrar peças na loja Armária

(foto: Instagram/Reprodução)
(foto: Instagram/Reprodução)

Peças da LED também podem ser encontradas na Armária. O estilo da marca é cosmopolita, irreverente, universal e sem limitação de gênero.

 

Oscar

O grande debate pós-premiação do Oscar 2019 não foi pautado nos vestidos elegantes — ou não — usados pelas estrelas de Hollywood. Os holofotes se voltaram para o artista Billy Porter, que surgiu no Red Carpet com um “smoking-vestido” preto de veludo da grife Christian Siriano. O look usado por ele deu abertura para dialogar sobre os rótulos que ainda existem quando se trata de roupas. Mas pequenas mudanças já estão acontecendo no meio há alguns anos. Diversas atrizes deixaram de lado os tradicionais longos para apostarem em conjuntos de alfaiataria, quebrando barreiras e padrões.


Para os pequenos

Quando o assunto é moda infantil, o professor Adriano Bezerra acredita que é importante que os adultos promovam a quebra de paradigmas para que as crianças tenham mais liberdade de se vestir. “A criança também tem gostos e preferências. Por que um menino não pode usar roupas coloridas como as das meninas, nem com detalhes e babados? Quando você cria uma distinção, de cor ou gênero, vai podando as crianças e tirando a liberdade delas. Temos que deixá-las livres para desenvolverem suas próprias visões imagéticas”, defende.
 
*Estagiárias sob supervisão de Sibele Negromonte
 

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