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Correio Braziliense FITNESS & NUTRIçãO

Alimentação X Treino

A nova onda de malhar em jejum requer atenção e cuidados. Para especialistas, em alguns casos, até pode, mas por curto período de tempo


postado em 18/09/2019 15:29 / atualizado em 23/09/2019 15:49

Durante a prática de esportes aquáticos pela manhã, o ex-atleta Daniel Cady prefere estar em jejum: alimentação após os treinos, porém, é essencial(foto: André Vieira @andrechapada30)
Durante a prática de esportes aquáticos pela manhã, o ex-atleta Daniel Cady prefere estar em jejum: alimentação após os treinos, porém, é essencial (foto: André Vieira @andrechapada30)

 

A relação entre alimentação e exercício físico ainda é motivo de muitas dúvidas e polêmicas, principalmente quando envolve a estratégia de malhar em jejum, adotada por muitos sob o argumento de que há melhoria nos resultados dos treinos. Mas a ideia de fazer esforços com o estômago vazio está longe de ser unanimidade.

 

Para o nutricionista Daniel Cady, 34 anos, a obrigatoriedade de se alimentar de três em três horas pode até ser revisada. “Com certeza, é uma forma de se manter nutrido, mas se a pessoa não sente fome cedo, não tem por que comer. Temos que aprender a ler os sinais do organismo e nos alimentar quando temos fome”, disse o baiano durante passagem por Brasília para falar sobre a importância da consciência para se alimentar bem. Daniel defende que ingerir alimentos sem necessidade pode causar mal-estar — tanto quanto sentir fome por períodos prolongados.

 

O nutricionista, que também é ex-atleta, afirma ser adepto do exercício em jejum em casos específicos. “Quando vou surfar, saio às 5h para pegar onda. Não me sentiria bem se comesse nesse horário. No geral, se a pessoa se sente bem malhando em jejum, não há prejuízos, desde que sejam atividades pela manhã, de curta duração, baixo rendimento e que a pessoa se alimente logo após a atividade.”

 

Foi visando o bem-estar durante as corridas matinais que a professora de educação física Ariana Braga, 32, passou a fazer jejum antes do exercício. Ela alerta, porém, que a estratégia não funciona para todos, muito menos para qualquer exercício, e que tudo depende da combinação de diversos fatores para ter resultados satisfatórios. “Comecei a treinar em jejum durante exercícios aeróbios. Inicialmente, tive muita tontura por causa da glicemia baixa, mas depois de uma semana foi normalizando, e me sentia mais disposta. Já nos treinos de musculação e crossfit, tentei e não consegui. Prejudicou muito na força, e meu rendimento caiu”, pondera Ariana.

 

Ariana Braga optou por fazer corridas em jejum e se adaptou bem, mas não encontrou o mesmo resultado com a musculação e o crossfit(foto: Arquivo Pessoal)
Ariana Braga optou por fazer corridas em jejum e se adaptou bem, mas não encontrou o mesmo resultado com a musculação e o crossfit (foto: Arquivo Pessoal)
 

Cuidados necessários

A preocupação da nutricionista Sara Pedrosa, da clínica US Nutrição, é com a finalidade do jejum antes dos treinos: se por preferências fisiológicas ou se, simplesmente, para seguir dietas da moda, que prometem resultados rápidos e utilizam estratégias radicais. “É muito comum as pessoas acharem que, ao fazer jejum antes de alguma atividade física, ocorrerá um gasto maior de gordura. Pesquisas, porém, têm mostrado que a redução de peso está mais relacionada com o tipo de exercício realizado, bem com a duração e a intensidade, além de uma alimentação adequada e saudável”, pondera.

 

Essa reflexão, ressalta Sara, é fundamental no momento de optar pelo jejum pré-treino, pois se feito de forma equivocada, a estratégia torna-se um grande risco à saúde. Especialistas alertam ainda que o jejum não deve ser classificado como uma dieta, mas como uma tática de emagrecimento complexa e de curta duração. A restrição alimentar é capaz de causar sensação de fraqueza, vertigem e levar a pessoa a se alimentar ainda mais, ou de forma incorreta, após o período de abstinência.

 

Carlos Mello, educador físico e personal trainer da academia Smart Fit, explica que a prática do jejum vai além da alimentação, pois os treinos, nesse caso, também precisam ser reduzidos. “Um indivíduo nutrido consegue suportar cargas de treinamento que outros não conseguem. Uma pessoa que tem o hábito de não fazer uma refeição pela manhã só consegue suportar uma atividade de baixa a média intensidade. Na minha concepção, ninguém vive em jejum durante muito tempo. Quando a pessoa sai do processo, a tendência é recuperar o peso ou até mais.”

 

Para quem está começando uma atividade física ou não se encaixa nos requisitos para a prática saudável do jejum, a dica é ingerir alimentos naturais e de fácil digestão antes dos exercícios, como banana. Mas vale o alerta da especialista em nutrição esportiva Ursula Blass, também da clínica US Nutrição: “Cada organismo é único. Logo, o plano alimentar deve ser feito de forma individualizada. Isso significa que cada pessoa possui uma necessidade específica que vai depender de fatores como idade, sexo, hábitos alimentares, objetivo, demanda energética, etc. Por isso, é importante que a pessoa procure um profissional para receber orientações adequadas em relação a um bom pré e pós-treino”.

 

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

 

Risco para atletas 

Quando se fala em prática de exercícios visando alto rendimento e forte intensidade, treinar de estômago vazio pode ser um dos grandes responsáveis pelo desempenho ruim durante o treino, além de perigoso à saúde. "Para esses atletas, a história é outra. Entendemos que a alimentação ajuda no desempenho, então tendem a fazer atividades alimentados", reforça Daniel Cady, ex nadador. Nesses casos, o pré-treino é fonte de energia imprescindível para um aperformance adequada.  

 

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