Revista

Mistura explosiva

Correio Braziliense
Correio Braziliense
postado em 22/09/2019 04:09

Levantamento realizado pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da OMS, mostrou que 25,1% das garotas com idade entre 13 e 15 anos bebem ao menos uma dose por mês ; há uma década eram 20%. Entre os garotos, o índice é de 22,3% ; dez anos atrás, batia nos 28%.

A maior ingestão de álcool por adolescentes (apesar da proibição legal) e jovens é apontada como um dos motivos da depressão ter aumentado nesse grupo, embora também considere-se que, por muito tempo, a questão foi subdiagnosticada. ;O uso de substâncias tóxicas (álcool e drogas), bem como baixa tolerância à frustração, violência, perdas, lutos, estresse, privação de sono são fatores de risco para depressão;, salienta a neuropsicóloga Flávia Miozzo.

O nutrólogo Alexander Gomes de Azevedo explica que quem sofre de depressão deve evitar alimentos que provoquem oscilações de humor, como bebidas alcoólicas, fast food, refrigerantes e produtos ricos em gorduras e açúcares, como frituras, doces e sobremesas. ;Eles provocam alterações bruscas no nível de açúcar no sangue, levando a mudanças na produção de hormônios no corpo e ao aumento do peso, fatores que aumentam as chances de ter e de piorar a depressão;, explica o médico.

Para Fábio Aurélio Leite, psiquiatra do Hospital Santa Lúcia Norte, membro titular da Sociedade Brasileira de Psiquiatria e ex-professor da UnB, a impulsividade e a dificuldade de lidar com a frustração também são marcantes na adolescência, mas a iniciativa de tentar suicídio não era tão comum quanto hoje. ;Eles estão enfrentando uma dificuldade grande de lidar com uma sociedade cada vez mais competitiva e individualista. As redes sociais criaram um medo de rejeição, de não ser curtido, e uma necessidade de parecer bem-sucedido;, enumera o médico.

Além disso, ele acredita que a hostilidade entre adolescente, atualmente, é muito grande. ;Qualquer situação que levante a possibilidade de crítica é vivida de uma forma mais dolorosa, por conta dos colegas. Muitas vezes, tem-se que fazer um esforço muito grande para lidar com as pessoas com quem se convive e com as emoções que elas provocam;, afirma Leite.

Redes sociais
Para a psicóloga Camila Barros, um dos grandes problemas das redes sociais é o quanto todos se comparam com o que veem nelas. ;Uma coisa que percebo na clínica é que mães em licença-maternidade se enfiam nas redes e entram num comparativo muito grande, tanto com pessoas normais quanto com artistas, todos com vidas maravilhosas com os filhos, enquanto elas estão vivendo outra coisa, porque nas redes sociais ninguém posta o feio. É um mundo da fantasia;, exemplifica. Essas comparações causam grande sofrimento e são gatilhos para a saúde mental. No caso dos jovens, esclarece, eles ainda procuram se afirmar e serem aceitos por meio das redes sociais e vão atrás disso em detrimento de coisas mais valiosas, como se respeitar.

Depressão há mais de uma década

Quando se olha no espelho, a cozinheira Fernanda*, 36, sabe que é uma mulher vencedora. Coleciona conquistas: enfrentou diversas dificuldades, deixou de viver na rua e de favor para morar sozinha há um bom tempo. Paga as próprias contas, criou dois filhos que considera educados e maravilhosos, largou o vício em drogas e álcool. ;Mas quando eu sento e minha mente começa a trabalhar, eu penso: você nem toma banho, você nem escova os dentes. É o racional brigando com o emocional;, explica.

Infelizmente, ela também coleciona tentativas de suicídio e, ainda hoje, tem crises em que sente ;vontade de sumir;: não consegue trabalhar, sair de casa e tem dificuldade de ver luz no fim do túnel. Nos melhores dias, faz planos para o dia seguinte, mas, raramente, consegue colocá-los em prática. Está sem beber há sete anos e não acredita que a depressão tenha a ver com o uso da substância. ;Apesar de toda a dor, a minha meta é continuar sóbria;, garante.

Por volta dos 25 anos, foi ao psiquiatra e ele a diagnosticou com depressão e ansiedade. Ela, no entanto, não levou a sério. ;Eu era alegre, eu sorria. Achei que fosse uma estratégia do médico para eu parar de beber;, relembra.

A psicóloga Camila Barros explica que isso é bastante comum. ;A pessoa pode estar em um processo depressivo e ser funcional, rir, contar piada, mas estar em um sofrimento intenso. Esses são os casos mais difíceis, porque descobrem com alguma doença no corpo. No senso comum, leva-se a depressão para o lado da tristeza, mas ela se apresenta mais como uma estafa. Pode ser uma pessoa que come demais ou que tem muita falta de apetite, somado à falta de sono ou ao excesso de sono, que tem preocupações contantes, não consegue se desligar de um problema específico;, esclarece.

Mas, com o tempo, a alegria foi passando e, alguns anos depois, ela se viu em uma crise de pânico. Como tinha parado de beber há um ano, mais uma vez, não acreditou no diagnóstico de depressão e síndrome do pânico. ;Achava que era só minha vontade de beber.; Não queria tomar remédios psiquiátricos, que poderiam deixá-la viciada, uma vez que já enfrentava um vício, e seguiu sem tratamento.

Foi necessário uma atitude drástica dela mesma para que reconhecesse o problema. Depois de uma tentativa frustrada de suicídio, Fernanda aceitou que precisava se tratar. No entanto, ainda ouvia de pessoas próximas que o que ela tinha era só ;vontade de aparecer;. Atualmente, tem acompanhamento psiquiátrico e psicológico e frequenta reuniões dos alcoólicos anônimos, mas, muitas vezes, não se sente com força nem para ir a esses compromissos, que a ajudam.

* Nome fictício a pedido da personagem

Famosos que revelaram


Em abril deste ano, o comediante Whindersson Nunes, 24, desabafou sobre sua depressão. Em um tuíte, ele escreveu: ;Apesar de tudo de bom que vem acontecendo comigo, eu me sinto há alguns anos triste;. Também disse sentir uma angústia e não sentir ;tanta vontade de viver;.


Em 2012, Paula Fernandes, 35 anos, revelou que teve depressão na adolescência, por conta de uma fase ruim antes do sucesso como cantora. Na ocasião, ela contou que resistiu em acreditar que uma menina de 17 anos poderia realmente ter a doença.


Aos 20 anos, o ator Jon Hamm, 48, o Don Draper da série Mad men, teve uma forte crise de depressão, após a morte do pai. Ele precisou de terapia e antidepressivos para vencer a doença. A mãe do ator havia morrido 10 anos antes.


Drew Barrymore tinha apenas 7 anos quando estrelou o filme E.T. Dois anos depois, porém, já ingeria álcool. Aos 10, fumava maconha e, aos 12, cheirava cocaína. Com apenas 14, tentou o suicídio e foi internada em uma clínica de reabilitação por vários meses. Aos 15, emancipou-se dos pais, escreveu um livro e, anos depois, voltou a Hollywood.

Quatro perguntas para
Fábio Aurélio Leite

Muitas vezes, a depressão é associada a outras doenças psiquiátricas. Como é feito o diagnóstico e por que é importante identificar esses outros problemas?
A ansiedade, por exemplo, costuma estar muito associada à depressão e tem um papel importante, porque é um dos fatores de risco para o suicídio. Quem tem ansiedade, além da depressão, tem mais chance de se matar. As pessoas focam muito na depressão, ficam dando antidepressivo, e o paciente não melhora, porque, às vezes, é a ansiedade que provoca a depressão. A ansiedade é a causa primária que leva à depressão e, quando tratada, melhora a depressão.

Qual o papel do sono no desenvolvimento da depressão e no tratamento?
A qualidade do sono das pessoas está cada vez mais baixa. Elas deitam para dormir e ficam no WhatsApp, nas redes sociais. De forma geral, a insônia é ruim para o humor, e ela pode tanto provocar a depressão quanto ser ainda mais arriscada para um paciente que já tem depressão. Um paciente pode estar com o tratamento da depressão e da ansiedade encaminhados e corretos, mas não regular por causa da falta de sono.

Uma pessoa precisa sempre de um motivo para estar com depressão? Alguma coisa ruim precisa ter acontecido?
Há pacientes que não têm nenhum problema aparente e simplesmente se deprimem. Nem sempre a depressão vai ser um quadro reativo. O que fazemos é ver o impacto que isso causa na vida dele: se não consegue manter a rotina na escola ou profissional, deixa de fazer atividades prazerosas. Mas, quando se tem algum problema real, vivencial, que pode ser confundido com depressão, há um nome para o transtorno (CID 10): transtorno de adaptação. Nesse caso, o risco de um quadro depressivo aumenta e aí é importante manter um apoio psicoterápico para ver até que ponto ele pode enfrentar aquilo ou não, e prescrever um remédio se necessário. Quem tem que decidir se o paciente vai usar remédio é o psiquiatra, e a terapia é fundamental pra qualquer ser humano, em casos de depressão, especialmente.

Por que os pacientes reclamam tanto de testar vários remédios até encontrar o correto? O teste farmacogenético pode ajudar?
A gente tem uma heterogeneidade muito grande de medicamento e maior ainda de pacientes. Alguns têm respostas boas a um fármaco e melhor ainda a outro. Uns têm uma resposta boa a um e, depois de anos, deixa de ter. Depende muito do paciente, se ele tem a metabolização mais rápida, se o fígado é mais ativo. Os que metabolizam mais lentamente vão ficar com uma concentração plasmática do remédio por muito tempo. O arsenal terapêutico é muito amplo. Os testes farmacogenéticos não são usados de rotina, porque não é uma indicação para todos, mas eles dão um norte dos medicamentos que você pode usar primeiro. Mesmo assim, não é infalível. Não é tão matemático, tem um espaço cinzento na resposta do teste. O que percebemos muito são pacientes que não foram diagnosticados direito e foram tratados com fármacos inadequados: ansioso tomando remédio para depressão pode ficar mais ansioso.

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