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Correio Braziliense ESPECIAL

O futuro é agora

Diante de uma sociedade cada vez mais tecnológica e competitiva, crianças começam desde cedo a desenvolver habilidades típicas da vida adulta. Para especialistas, no entanto, não se deve esquecer que elas são só crianças


postado em 06/10/2019 04:18 / atualizado em 09/10/2019 17:01

(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
(foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Foi-se o tempo que em que boa comunicação, habilidades interpessoais, tecnologia e conscientização financeira eram assuntos exclusivos de adultos. Com a velocidade com que as mudanças ocorrem na sociedade, tem-se buscado cada vez mais o desenvolvimento de tais aptidões ainda na infância. Para a psicóloga Fernanda Polsin, é importante trabalhar esses assuntos para que tudo faça parte da realidade da criança desde cedo. “Ela vai construindo, em conjunto com os pais e os professores, essas habilidades que lá na frente serão cobradas e exigidas, mas normalmente, não são ensinadas”, opina.

A profissional ressalta, no entanto, que, para passar tais conhecimentos de maneira saudável, pais e professores precisam lembrar que elas são crianças. “Ninguém vai falar sobre bolsa de valores. Mas pode-se ensinar a poupar, a pesquisar custo versus benefício de produtos, a identificar a melhor maneira de gastar a mesada, trazendo esses assuntos para a realidade deles e aumentando o grau de dificuldade à medida que crescem”, exemplifica, salientando que isso não vale só para a educação financeira, mas para tudo. Os limites da criança devem ser respeitados, e ela deve ser parte ativa no processo de construção de aprendizagem.

Incluir uma série de ensinamentos durante a infância é aproveitar a maior plasticidade neuronal do cérebro nessa fase da vida. “As crianças têm uma grande capacidade de aprender e uma habilidade superior aos adultos para tarefas novas, como tocar um instrumento, aprender um novo idioma ou memorizar um texto. Isso é por causa da proliferação de novos neurônios, a neurogênese, que, na infância, é impressionante”, afirma o neurologista Jairo Oliveira.

Talvez, porém, a criança não se interesse espontaneamente pelas coisas que os pais acham importante ela aprender. A psicóloga Fernanda recomenda incluí-las, então, no dia a dia da criança de maneira lúdica. “Ainda no caso da educação financeira, com crianças de 3 e 4 anos, é possível brincar de ‘mercadinho’, com dinheiro de brinquedo. Ao ir ao shopping com os mais velhos, os pais podem explicar os motivos para não comprar determinado brinquedo — e não apenas dizer que não vai comprar. Com 7 ou 8 anos, a criança pode receber mesada, e os pais irem ajudando a administrar esse dinheiro”, sugere.

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte


Brincando com tecnologia

Não há como falar em futuro sem pensar em tecnologia. Cada vez mais cedo, os pequenos já estão conectadas à internet, com dedos nervosos nas telas, seja de celulares e tablets, seja de computadores. Júlia Melo Alvim, 8 anos, joga videogame desde os 3. Já naquela época, começou a dizer que, quando crescesse, seria construtora de robôs. E ainda não mudou de ideia. O pai, Rômulo Miranda Alvim, 40, servidor público, também gosta de jogos e, por formação profissional, é da área de tecnologia da informação.

Rômulo foi quem sugeriu à família que a menina começasse a aprender a programar, já que gostava tanto de jogar e, mesmo tão pequena, aspirava a uma profissão tão ligada à tecnologia. Ela aceitou a ideia e, há um ano e meio, com aulas de uma hora e meia, uma vez por semana, ela estuda ciência da computação em uma escola voltada para crianças. Como menina, ela é sempre minoria nas turmas, quando não a única. “É muito legal ver que o conhecimento que ela está tendo agora eu só tive com 18 anos, na faculdade”, surpreende-se o pai.

Júlia já criou dois jogos. “Em um, uma fada tinha que desviar de coisas que vinham nela ou usar poder para não ser atingida e não se machucar. No outro, um herói tinha que caçar alguns inimigos”, descreve. Segundo ela, estudar programação e jogar videogame fez com que aprendesse muito mais palavras em inglês, além de ajudá-la na aula de educação tecnológica dada na escola.

O pai ressalta que as aulas de ciência da computação trabalham muito o raciocínio lógico da menina e toda a área de exatas, mas não só. “Quando ela cria os jogos, exercita mais a parte de humanas e de criatividade, porque tem que inventar uma história, tem que desenhar os personagens”, explica.

Um dos professores da menina, Fábio Silva Ramos já deu aula em cursos técnicos, para adultos, e compara: “Das crianças, precisamos cobrar mais, porque os adultos dependem daquilo. Elas também se dispersam com mais facilidade, mas é impressionante como elas são menos resistentes a conteúdos novos. Elas absorvem muito rápido.” Fábio reconhece que, à primeira vista, é uma área que assusta, que parece muito complexa, mas jura que não é tão complicado assim. “Nós começamos com lógica, depois trocamos pela escrita de código”, detalha.

Visão à frente

O empresário Marco Giroto explica que as crianças de hoje são os chamados nativos digitais, nasceram em um momento em que a tecnologia faz parte do cotidiano. “A ciência da computação já domina a vida das pessoas e, no futuro, quem não souber criar tecnologia terá poucas chances de uma colocação no mercado de trabalho. Áreas como medicina, direito, agronomia, biologia estão todas convergindo para a tecnologia. Ela não será mais um fim, mas, sim, um meio. E será um meio para todas as profissões”, afirma.

No início de 2013, ele e a mulher, Vanessa Ban, estavam no Vale do Silício, na Califórnia, e assistiram a um vídeo em que Mark Zuckerberg, criador do Facebook, e Bill Gates, fundador da Microsoft, falavam sobre a importância de as crianças aprenderem a programar. Marco se lembrou que foi uma exceção na geração dele e começou a programar aos 12 anos. “Isso trouxe benefícios para toda minha vida”, garante.

Paralelamente, Vanessa tinha experiência na área educacional, já que era professora dos ensinos fundamental e médio. “Decidimos juntar nossos “superpoderes” para criar uma escola de ciência da computação para crianças e adolescentes”, conta.

Surgiu, assim, a SuperGeeks, depois de inúmeras visitas a colégios nos Estados Unidos que ensinavam programação, e de trabalhos voluntários em eventos direcionados ao ensino de ciência da computação para crianças. “Ficamos aproximadamente um ano formatando o negócio, com metodologia inovadora, material didático próprio e testando o modelo”, relembra. Em maio de 2014, iniciaram as operações com a primeira unidade, na Vila Mariana, em São Paulo. Hoje, já são quase 50 franquias no Brasil, uma em Portugal e diversas escolas concorrentes para corroborar a importância desse ensino.

Marco compreende o medo que os pais têm de o filho não querer fazer mais nada, além de jogar videogame. No entanto, considera a proibição um erro: “Isso faz com que a criança se limite tecnologicamente, ainda mais em um mundo onde tudo gira em torno da tecnologia. Os pais precisam incentivar os filhos a fazerem outras atividades e conversar com eles para dosar o tempo de jogo”.

Para ele, afastar as crianças e adolescentes deste universo é privá-los de um futuro em que a tecnologia dominará tudo. E compara: “É o mesmo que um pai do início do século 20 limitasse os filhos de aprender a ler e escrever”. Para ele, jogos de computador e videogames trazem diversos benefícios, como raciocínio lógico, resolução de problemas, criatividade e autoconfiança.

“O que a maioria das escolas não ensina”
O vídeo citado por Marco Giroto foi uma iniciativa da Code.org, uma entidade sem fins lucrativos focada em educação para programação digital. O filme incentiva o jovem a aprender sobre codificação, sob o pretexto de que, na sociedade moderna, esse seria o segredo do sucesso. Além de Bill Gates e Mark Zuckerberg, há depoimentos de outros grandes nomes da tecnologia como Drew Houston, CEO do Dropbox, e Ruchi Sanghvi, a primeira engenheira mulher contratada pelo Facebook. Assista: https://bit.ly/J60cKe.
 
Economia consciente

O ano de 2019 começou com mais endividados, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. De dezembro de 2018 para janeiro deste ano, a porcentagem de inadimplentes aumentou de 59,8% para 60,1%. Pesquisa de 2018 do Serasa Experian mostrou que 29% dos servidores públicos em todo o país, tanto federais quanto estaduais ou distritais, estavam inadimplentes, provando que o desemprego e a crise não são os únicos culpados pelos problemas com dívidas, e que um salário certo no fim do mês não é sinônimo de segurança financeira sem uma boa administração.

Tendo como enfoque a facilidade dos pequenos em aprender e colocar em prática hábitos e ensinamentos, a servidora pública Emanuela Oliveira de Azevedo, graduada em matemática, teve a ideia de moldar um curso de educação financeira voltado para o público infantil, no qual instruiria também sobre a relação existente entre ética, trabalho e dinheiro. Assim, foi criado o Impulso financeiro.

“Bem ou mal, todos nós lidamos com o dinheiro durante a nossa vida. E vendo exemplos de várias pessoas na minha família que estavam endividadas, enxerguei a oportunidade de mudar aquela realidade de forma definitiva: começando pelas crianças, com abordagem e linguagem que elas sejam capazes de entender e internalizar”, conta.

O curso funciona em dois formatos: colônia de férias e aulas no contraturno. Numa espécie de laboratório financeiro, os pequenos são expostos a situações que simulam realidades enfrentadas pelos adultos, nas quais são instigados a pensar estrategicamente e a tomar decisões mais assertivas com as economias. Além disso, é ensinada a funcionalidade da poupança, dos juros e dos lucro, da oportunidade e dos investimentos.

“Tudo é feito moldado para a realidade deles, para que consigam compreender quais são as consequências das ações. No primeiro módulo, por exemplo, trabalhamos com a ideia do tesouro pirata. Passamos todo o curso tentando achar a recompensa para, no final, eles descobrirem que não somos piratas, mas só capazes de construir o nosso próprio tesouro.”
 
 
Na prática
 
Lucas e Isabela aprendem desde cedo com a mãe, Ana Carolina, que é preciso abrir mão de algumas coisas para realizar as viagens de que tanto gostam (foto: Arquivo Pessoal )
Lucas e Isabela aprendem desde cedo com a mãe, Ana Carolina, que é preciso abrir mão de algumas coisas para realizar as viagens de que tanto gostam (foto: Arquivo Pessoal )

Os irmãos Isabela, 10 anos, e Lucas, 8, participaram do curso de férias. Os pequenos já estudam educação financeira na escola que frequentam desde o primeiro ano do ensino fundamental. A mãe, a farmacêutica e produtora de eventos Ana Carolina Navarro Mamede John, conta que sempre achou importante trabalhar com eles a educação financeira, para que pudessem diferenciar o que era deles e o que era dos pais.

“Busco manter um diálogo aberto e verdadeiro com os dois sobre as questões financeiras da nossa casa. Eu e meu marido amamos viajar com as crianças e, para que isso aconteça, há contenção de gastos e diminuímos as saídas para restaurantes e passeios a lazer. Lucas e Isabela superentendem os sacrifícios e até nos cobram quando passamos do orçamento”, conta a mãe.

O curso foi muito importante para ampliar a visão deles, não somente sobre controle das finanças, como também para compreender a funcionalidade dos juros e das aplicações. Todos os dias eram realizadas atividades em grupo que reforçaram o valor do trabalho, da organização e da responsabilidade.

“Todos os dias, nós recebíamos dinheiro pelo trabalho, mas não era tão simples assim. Nós tínhamos que trabalhar em equipe e obedecer às regras. Podíamos comprar o que quiséssemos ou poupar. Depois de um tempo, aprendi a não comprar por impulso e a colocar no banco para render. É muito melhor pensar na compra e esperar para comprar na liquidação, de preferência”, compartilha o pequeno Lucas.

Com o mesmo pensamento voltado para lucrar com as economias, Isabela criou uma espécie de manual em seu site para ensinar outras crianças a conseguirem trocar o trabalho por recompensas ou dinheiro dos pais. Para isso, ela e o irmão auxiliam a mãe na organização das festinhas da família, fazem brigadeiro, realizam bazares com brinquedos e roupas que não usam mais, lavam o carro do pai, entre outras atividades que os ajudam a compreender o valor do trabalho e o esforço necessário.

“Aprendi que a vida não é só ganhar, é necessário trabalhar e correr atrás do que você quer e precisa. É preciso se esforçar! Por isso, uma das minhas metas, quando completar 14 anos, é poder ter a minha primeira experiência como estagiária e conseguir ter o meu próprio dinheiro”, planeja a garota.


O poder da comunicação
 
Por meio de um curso de oratória, Maria Clara passou a se comunicar melhor com a mãe, Mara Queiroz Oliveira (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
Por meio de um curso de oratória, Maria Clara passou a se comunicar melhor com a mãe, Mara Queiroz Oliveira (foto: Ana Rayssa/CB/D.A Press)
 

Para as crianças mais tímidas, falar em público na escola é um dos maiores pesadelos. Seja para pedir para ir ao banheiro, seja para apresentar um trabalho em grupo. Imagine, então, no caso de uma criança gaga. Por 20 anos, essa foi a realidade do neurocoach Pedro Helou. Apenas na faculdade, ele resolveu investir em um curso de oratória para superar o problema, despertando, assim, interesse pela área da comunicação verbal — fator determinante para a fundação do instituto Verbalize, especializado em oratória. Mais que isso, encontrou o propósito de ajudar outras pessoas que passaram por bloqueios similares.

Junto com a psicóloga Mariana Pinto e a nutricionista comportamental Rebecca Boubli, ambas ex-alunas do curso do Verbalize, Pedro iniciou turmas que promovem o desenvolvimento das habilidades de comunicação para o público infantil. “Estudando e me aprofundando no tema, pude perceber que a dificuldade de falar em público era multifatorial e, em alguns casos, começava ainda na infância.”

Medo de se expor

Ainda na primeira turma, os resultados foram surpreendentes: as próprias escolas das crianças começaram a apontar melhorias no comportamento. Mariana Pinto afirma que um dos objetivos do curso é realizar uma imersão em parceria com as instituições de ensino, porque é justamente neste período escolar que se iniciam os julgamentos, os medos de exposição e os bloqueios para pedir ajuda.

“Queremos ampliar o olhar dos educadores, tanto para as crianças que são mais ativas na aula quanto para as que são mais quietas e retraídas. É preciso compreender e trabalhar as habilidades de comunicação para que eles possam se expressar melhor com pais e professores”, reitera Rebecca Boubli.

Melhorar a comunicação com a filha foi o fator que atraiu a servidora pública Mara Queiroz Oliveira para o curso Verbalize Kids. A mãe da Maria Clara, 13 anos, queria compreender como poderia ajudar a filha, que havia se distanciado consideravelmente após entrar na fase da adolescência.

“Percebi a Maria Clara mais distante e muito ausente. Como toda mãe que se preocupa com a saúde mental do filho, tive a consciência de que seria necessário ajudá-la e me ajudar a me reaproximar dela. Para a minha surpresa, ela topou”, comenta.

Durante o curso, Mara percebeu que a receptividade para o diálogo sobre sentimentos e pensamentos deve ser iniciado pelos adultos responsáveis. E na maior parte dos casos, o nível de abertura dada pelos pais será proporcional à confiança dos filhos para compartilhar os acontecimentos em suas vidas.

A servidora pública percebeu a raiz do distanciamento com a sua filha quando Maria Clara perguntou a razão pela qual a mãe nunca compartilhava as próprias frustrações. “Para conseguir me aproximar, percebi que era necessário ser mais aberta com ela. Queremos proteger os nossos filhos das coisas negativas, mas é preciso ter uma conversa franca sobre os seus medos, tristezas e decepções, porque eles passam por isso também.”

Falar sobre a vida real e validar os sentimentos foi a chave para a mudança e o fortalecimento do relacionamento de mãe e filha.  E as expectativas para o futuro de Maria Clara não poderiam ser diferentes. “Meu desejo é que ela se torne uma mulher que saiba lidar com as frustrações da melhor forma possível, saiba se impor no mercado de trabalho e se sinta à vontade para colocar o que sente”, confessa. 

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