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Correio Braziliense ESPECIAL

O prazer de servir a todos

Com a proposta de resgatar o antigo hábito de reunir a família e os amigos à mesa, surge uma profissão que a cada dia ganha mais adeptos, a de meseiras


postado em 13/10/2019 04:18 / atualizado em 14/10/2019 16:52

Claudete Gomes só entendeu a importância de se reunir à mesa com a família quando adulta (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Claudete Gomes só entendeu a importância de se reunir à mesa com a família quando adulta (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
Sentar à mesa com a família para almoçar é uma tradição antiga muitas vezes deixada de lado diante das atuais rotinas atribuladas. Na contramão dessa correria, há um grupo de mulheres, espalhadas por diferentes regiões do país, que, ciente do valor do momento da refeição, criou espaço para compartilhar a prática. Surge, assim, um novo segmento no mercado de decoração que tem ganhado vários adeptos, o de meseiras.

A arte da mesa posta exige dedicação, conhecimento e é mais do que um simples arranjo de louças. A técnica passa por mergulhar no mundo do cliente, traduzir vontades, pensamentos e experiências em uma refeição bastante pessoal. Além disso, é uma terapia para quem gosta de partilhar histórias, deixar a criatividade fluir e acredita no diferencial de comer acompanhada.

Essa última motivação, em especial, foi responsável por conduzir a empresária Claudete Gomes à profissão. Criada pela mãe e com quatro irmãos para dividir o lar, ela explica que foi preciso muito esforço e algumas abdicações, como reunir a família durante as refeições, para conseguir sustentar todos. “Não tínhamos esse hábito. Só em 2015, quando ouvi Devi Titus (autora norte-americana) falar sobre experiência à mesa, soube a importância dessa reunião, os benefícios espirituais e científicos. Isso mudou minha história.”

Aos poucos, Claudete passou a se interessar pelo assunto, comprar itens para completar a mesa e transformar o experimento em costume do dia a dia. “Eu era oficial temporária do Exército e, quando estava para sair, resolvi empreender. Avaliei o mercado e entrei no ramo de mesa posta e decoração. Virou minha profissão por amor”, lembra sobre a época em que lançou o projeto Meseira&Complementos.

A loja chamou atenção da coach Kênia Reis Palazzo enquanto passeava pelas ruas de Águas Claras, mas, ao decidir entrar, ela não imaginava que se tornaria uma das clientes mais assíduas. A confiança entre lojista e consumidor ganhou novo significado recentemente, quando Kênia confiou à Claudete a decoração de seu casamento. “Procurei esse serviço por sempre ver a organização da loja, os eventos que ela faz na igreja e a dedicação e seriedade, sem contar o excelente bom gosto.”

Por meio da empresa, Claudete também encontrou a oportunidade de instruir sobre os benefícios de priorizar os momentos de alimentação em família e resgatar as memórias afetivas que envolvem a prática. A empresária passou a oferecer workshops mensais com a participação de diferentes meseiras e profissionais ligados à área. A ideia deu tão certo que se tornou comum em várias lojas.

Tradição e etiqueta

Angela Pimentel, especialista em etiqueta, acredita que o costume da mesa posta não se perdeu por completo, mas foi deixado de lado por uma grande maioria, principalmente nas novas gerações. A correria do dia a dia, o fato de cada vez menos as pessoas terem tempo para comer em casa e com calma e os horários dos familiares que não se cruzam são alguns dos fatores que contribuíram para que o hábito tenha se tornado mais raro.

Porém, Angela acredita que o costume de receber bem e confraternizar à mesa nunca vai se perder, e considera que o grande sucesso que as meseiras têm feito está relacionado a isso. “As pessoas estão percebendo a necessidade de interagir, de ter o prazer de uma refeição em grupo, com a beleza da mesa aumentando a satisfação do momento”, afirma.

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte

Meseira influencer

Além de digital influencer, Karinna Avelino é meseira e encontrou seu canal de comunicação no mesmo local em que teve o primeiro contato com inspirações de mesa posta: o Instagram. Para ela, a internet teve papel fundamental na difusão da atividade no país e é fonte de orientação.

Aos poucos, ela começou a comprar itens diferentes para mesa e a compartilhar suas criações. Os seguidores não só gostaram como passaram a incentivá-la e a pedir por mais ideias. Não demorou muito para que lojas do ramo em Brasília entrassem em contato com Karinna com propósito de realizarem projetos em conjunto e para que ela se tornasse uma referência de mesa posta na cidade.

Entre outros assuntos, o perfil @casadakah, que conta com mais de 300 mil seguidores, posta fotos para inspirar quem quer montar mesas temáticas, procura algo mais luxuoso para receber amigos em um jantar ou até quem busca praticidade para o café da manhã. Este último é o estilo mais procurado e com o qual ela se identifica. “Meu estilo é o mais simples. Quem me segue também gosta da ideia de conseguir adaptar e poder agregar beleza ao dia a dia”, explica.

Um de seus ideais durante o processo de construção da mesa é deixar a criatividade fluir e experimentar novas funções às peças. “Falo que sou uma meseira contemporânea porque não me engesso tanto, procuro brincar com as peças. Não aprendi esse costume na infância, então as coisas têm que ser descomplicadas para mim.” Ela ressalta que faz uso apenas do protocolo básico de etiqueta para garantir a organização.

O grande fascínio da meseira pela prática está na oportunidade de preparar um momento especial. “A mesa posta vai muito além da beleza. O objetivo é o sentimento de comunhão que prevalece ao fazer uma refeição com quem se ama.”

Para começar
  • Tente decorar a mesa com os utensílios que tem em casa antes de comprar peças novas.
  • Quando estiver começando, use o mínimo de itens, mas posicionados corretamente.
  • A faca fica sempre ao lado direito do prato, com a lâmina para dentro.
  • O garfo deve sempre ser posicionado ao lado esquerdo.
  • Caso vá servir sopa, a colher fica ao lado direito da faca.
  • O guardanapo deve ser posicionado sempre do lado esquerdo ou em cima do prato.
  • Os copos e taças ficam à frente e à direita dos pratos, em ordem decrescente de tamanho, de dentro para fora.
  • Ao sentar-se à mesa, evite gesticular com os talheres em mãos.
  • Use o guardanapo de forma adequada, sem rasgar, fazer bolinhas ou picotar pela mesa.

 
Promovendo a união

A meseira responsável pela página do Instagram @meseirasdebrasiliaoficial, Clara Juliana de Oliveira Nunes, 33, não poupa palavras ao dizer como a nova profissão, que surgiu de forma inusitada, mudou sua vida. Ela, que hoje se sustenta apenas com o lucro das mesas que monta, afirma que a maior mudança foi o resgate dos valores familiares. “É indescritível poder trabalhar com sua paixão. E vai muito além de montar a mesa, é um momento de união que muda vidas.”

Para Clara, montar uma mesa, seja para a própria família, seja para um evento, cria uma memória afetiva nos envolvidos e promove sensação de bem-estar em quem tem o prazer de ser bem-recebido. Desde criança, Clara tem o hábito de se sentar à mesa para comer, apesar da falta de variedade de itens e da simplicidade. “Comíamos com as panelas mesmo, mas era sempre tudo arrumadinho e com todos reunidos. Quando tinha festa, eu e minha irmã fazíamos tudo bem bonitinho”, conta.

Ela lembra que, na época, não sabia nem o lado certo de colocar o garfo e a faca, mas sentia prazer em preparar uma mesa bonita para o momento da refeição. Há dois anos começou a pesquisar sobre mesa posta e resolveu cultivar a prática em casa, de forma mais elaborada. Clara entrou em um grupo no Facebook e ficou encantada com a variedade e a beleza das mesas e começou também a dividir algumas de suas criações.

A meseira resolveu levar sua busca para o Instagram e descobriu que não existia uma página específica de Brasília. “Resolvi criar apenas para compartilhar as minhas montagens, nunca imaginei que tomaria essa proporção.” No dia seguinte, tinha mais de mil seguidores — hoje, já acumula mais de 90 mil. Naquele momento, com a grande visibilidade e os números aumentando, ela sentiu a necessidade de se especializar e fez cursos de etiqueta à mesa.
 
De hobby a profissão

Ainda assim, Clara montava apenas sua mesa. “Era bem pequenininha, só tinha dois lugares. Eu colocava fotos minhas e de outras meninas também, era um hobby.” Quando a página completou um ano, ela começou a ser procurada para fazer parcerias e participar de eventos. O que era um momento de lazer e terapia se tornou um trabalho prazeroso e lucrativo. Clara juntou dinheiro, comprou uma mesa nova, mais itens para fazer a montagem e hoje faz até vídeos com dicas e inspirações.

O serviço tem variações, pode ser para festas em casa, jantares românticos e em família e também para eventos corporativos. A meseira pode usar a louça e a decoração da cliente ou levar a própria, além de fechar parcerias com lojas de decoração, que emprestam uma série de objetos.

Com o crescimento do segmento, Clara percebe que tudo se torna mais acessível. Além dos cursos e workshops disponíveis sobre mesa posta e como receber bem, ela enxerga as redes sociais como grandes aliadas. “Eu busco muita inspiração em vídeos na internet. E, com o meu Instagram, tento divulgar o trabalho de outras meseiras, além de inspirar quem está começando.”

Vitrine

A empresária Christiane Mendes de Souza Leonel, 30, é uma das adeptas do serviço. Dona de uma loja de decoração, conta com Clara para que seu espaço tenha sempre uma mesa de refeição montada para chamar a atenção da clientela. Fã do serviço, ela também faz parte de alguns grupos e pratica o hábito da mesa posta em casa. “É contagiante, cativante. Quando conheci, há uns três anos, comecei a fazer para mim e para minha família com o maior prazer.”

Christiane confessa, inclusive, que entrou no ramo da decoração inspirada pelo trabalho das meseiras. No entanto, ela não se arrisca a montar mesas profissionalmente e, por isso, recorre ao serviço da colega. “É diferente, ela tem curso, tem experiência. Sabe harmonizar tudo muito bem”.

Pluralidade nacional

Cumprindo à risca o ideal de resgate das tradições, meseiras de outros estados elaboram uma verdadeira homenagem às culturas de sua região ao montarem uma produção. Viviane Moreira presta assessoria de mesa posta no Maranhão, onde mora desde pequena, e explica que o termo meseira não se resume a uma profissão. Mais do que isso, ele representa todas as pessoas apaixonadas pela atividade. Ela, por exemplo, desenvolveu esse sentimento ao pesquisar sobre o assunto enquanto cuidava da filha em casa e vendia guardanapos bordados.

A partir de então, lançou o projeto Meseiras do Brasil, em que posta composições de várias partes do país e encara o desafio de reunir a pluralidade nacional em um só lugar. Ela explica que as regionalizações são perceptíveis e relevantes para o trabalho. “O Nordeste tem estilos diversos, mas sempre com muita cor. O contraponto deles é o sulista, que prefere tons neutros, talher, taça e sousplat de prata. Cada região tem uma identidade, e é importante destacá-la”.

Por região, Viviane não se refere apenas às cinco demarcadas nacionalmente, mas de um recorte ainda mais íntimo, com finalidade de fomentar produtores locais. “Em Pernambuco, usam itens em barro, palha, renascença. É o que você vai encontrar nas feiras locais, aquele é o acervo, a marca deles”, exemplifica.
 
 
Viviane Moreira encara o desafio de reunir a pluralidade brasileira em seu perfil @meseirasdobrasil(foto: Arquivo Pessoal)
Viviane Moreira encara o desafio de reunir a pluralidade brasileira em seu perfil @meseirasdobrasil (foto: Arquivo Pessoal)

Apesar das distinções, a percepção de que a atividade cresce e influencia na economia é homogênea. Além de lojas e cursos com foco em mesa posta, os serviços de assessoria e consultoria são frequentes. “As marcas também estão investindo nesse nicho. Criaram um sousplat para sobremesa, por exemplo. Isso não existia antes. Movimentamos um novo mercado” categoriza a meseira.

Amizade

Em Goiânia, Alexandra Godoi também foi arrebatada pelo mercado em crescimento. Após sair da função de bióloga para se dedicar exclusivamente à filha, encontrou tempo para aperfeiçoar o interesse antigo, que alimentava assistindo a novelas e admirando vitrines de lojas. “Fiz um curso de mesa posta e etiqueta. A partir daí, mergulhei fundo nesse universo, fiz contato com outras meseiras e passei a buscar postagens e inspirações.” Desde então, passou a oferecer o serviço pelo desejo de que as famílias voltem a se reunir nas mesas e fortaleçam os relacionamentos.
 
Mesa posta para o dia a dia é um dos conteúdos compartilhados pelas meseiras goianas (foto: Arquivo Pessoal )
Mesa posta para o dia a dia é um dos conteúdos compartilhados pelas meseiras goianas (foto: Arquivo Pessoal )
 

Para representar as produções de seu estado, criou o perfil @meseirasgoianas, hoje administrado por mais cinco companheiras de profissão. O grupo se reúne periodicamente e Alexandra destaca que a amizade só surgiu graças ao amor pelo serviço. “Não nos conhecíamos antes, mas agora temos uma amizade verdadeira.”

No Instagram, elas repostam produções, conteúdos ligados à decoração de mesas, divulgam cursos, workshops e caravanas para comprar louças a preço de fábrica. Sobre as tendências mais compartilhadas na internet, que ultrapassaram barreiras e alcançaram nível nacional, a consultora destaca que as criações com estampas de folhagens, frutas e as temáticas de fundo do mar caíram no gosto do povo.
 


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