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Correio Braziliense DIVERSIDADE

Brasiliense é o primeiro homem trans a desfilar na SPFW

Pioneirismo que faz a diferença! Sam Porto espera servir de espelho para outras pessoas terem a mesma coragem


postado em 27/10/2019 04:19 / atualizado em 28/10/2019 10:33

(foto: Fotos: Agencia Fotosite)
(foto: Fotos: Agencia Fotosite)
Pela primeira vez, um modelo homem transgênero riscou as passarelas da maior semana de moda do país. O brasiliense Sam Porto, de 25 anos, fez história na última edição da São Paulo Fashion Week e se consagrou como o recordista da temporada, participando de nove desfiles.

O jovem ingressou no mundo da moda há dois anos e conta que o que o impulsou para engatar na carreira foi a confiança em si mesmo, que sentiu após o processo de tratamento hormonal. Desde jovem, o desejo da família era que ele se tornasse modelo. Porém o sonho de criança de Sam era ser jogador de futebol.

“Eu e minha irmã, que é um ano mais velha, sempre fomos muito magros, e todos falavam que deveríamos ser modelos. Mas, na minha cabeça, isso não se encaixava, porque eu ligava moda às mulheres e tinha medo de ser confundido e não ser respeitado como homem trans. Não queria que me colocassem na fila das meninas. Eu tinha vontade, mas tinha medo.”

Com o apoio da família, o morador de Águas Claras procurou o Hospital Dia, na Asa Sul, e iniciou o acompanhamento psiquiátrico e
psicológico. Depois, com o tratamento hormonal e a mastectomia, Sam começou a ficar satisfeito com o que via no espelho e decidiu investir na própria imagem, aceitando os convites das agências.

Em Brasília, ele fez alguns trabalhos com a agência 3Models, até que foi apresentado à Rock MGT, na capital paulista, quando surgiu o convite de participar da semana de moda. “Foi tudo muito rápido. Logo aceitei o convite para participar dos castings e fiquei muito animado. Mas eu achava que não teria espaço pelo fato de ser trans. A confirmação das marcas foi uma surpresa tremenda, porque eu não esperava conseguir.”

A vontade de Sam era levantar a bandeira e representar os jovens transgêneros em um cenário que proporciona tamanha visibilidade. “A primeira coisa que eu disse, ao chegar à agência, era que eu queria ser apresentado como um homem trans, e o meu pedido foi atendido.”

Sobre as expectativas para o futuro, Sam conta que está vivendo um dia de cada vez, mas planeja, sim, alçar voos mais altos e, quem sabe, até investir em uma carreira internacional. Em Brasília, ele concilia as carreiras de modelo e tatuador e não quer deixar nenhuma das ocupações de lado. E quem sabe até tentar uma chance como ator. “Se surgir uma oportunidade de fazer novelas, tenho bastante vontade também.”

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte
 
 
Três perguntas para Sam Porto

Como foi a recepção neste mundo fashion?
“Eu saí de Brasília com o intuito de levantar a bandeira. Ao chegar à agência, a primeira coisa que eu disse era que queria ser apresentado como um homem trans, e o meu pedido foi atendido. Eles me perguntaram também se eu estaria confortável em mostrar a cicatriz, da mastectomia, e eu enfatizei que era isso o que eu queria. É essa representatividade que eu busco. Eu queria dizer aos meninos trans que têm vontade de estar no mundo da moda e de conquistar qualquer espaço, que não desistam. É difícil, mas não é impossível. Aos poucos, a gente vai conquistando os espaços, e é isso que importa: encontrar forças para lutar para chegar aonde a gente pretende chegar.”

Como se sente sendo o primeiro homem trans a desfilar na SPFW?
“Ser o pioneiro e estar na São Paulo Fashion Week representando os meninos trans é uma grande responsabilidade, que eu carrego com muito orgulho. Estamos quase em 2020, e eu fico sabendo que sou o primeiro homem transgênero a desfilar no evento. Já temos referências de meninas trans, mas, para os meninos, isso está em falta. Eu vim com esse intuito, e espero que as pessoas se sintam representadas. Eu sei que existem muitas outras questões, e que eu não represento grande parte da população por ser branco, mas tudo o que está acontecendo pra mim é de extrema importância, e foi para isso que eu vim.”

Quais os planos profissionais?
“Eu ainda não parei pra pensar no pós, estou deixando as coisas acontecerem com calma. Porém, tenho planos e vontade de focar na carreira internacional. Com tudo que aconteceu, eu só estou com mais ânimo para continuar. Se surgir uma oportunidade de fazer novelas, tenho bastante vontade também.”

Serviço
Hospital Dia da Asa Sul
Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais: atendimento de travestis e transexuais de forma integral
Principais procedimentos oferecidos: acolhimento, avaliação médica endocrinológica, psicológica, psiquiátrica e serviço social
Endereço: EQS 508/509, Avenida W3
Horário de funcionamento: 
das 7h às 12h e das 13h às 18h, às terças e quintas-feiras
Telefone: (61) 3242-3559

Pelo mundo


Laith Ashley iniciou a carreira em uma campanha da Barney’s, em Nova York. O modelo ganhou as manchetes como um dos primeiros modelos masculinos trans a aparecer em uma campanha nacional e é representado pela Slay, a primeira agência de modelos transgêneros. Ele já estampou anúncios e apareceu em revistas como a Vogue e a GQ.


O norte-americano Aydian Dowling recebeu atenção nacional em 2015, quando foi nomeado vencedor do concurso da Revista Men’s Health, o Men’s Ultimate Health, por escolha dos leitores. Esse evento marcou Aydian como o primeiro homem trans a estampar a capa de uma revista fora do segmento.
 

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