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Correio Braziliense BICHOS

Resgate seguro

Especialistas explicam como retirar um animal das ruas com segurança


postado em 27/10/2019 04:20 / atualizado em 28/10/2019 15:30

Théo passou três dias em uma feira até conquistar a mãe de Gabriel e conhecer seu novo lar(foto: Arquivo Pessoal)
Théo passou três dias em uma feira até conquistar a mãe de Gabriel e conhecer seu novo lar (foto: Arquivo Pessoal)
Quando se escolhe retirar um animal das ruas, deve-se pensar imediatamente no bem-estar dele. Mais do que colocar em uma caixa e levar para casa ou ONG mais próxima, o resgate envolve preocupações psicológicas, pois é preciso lembrar que o pet estabeleceu uma relação de confiança com o humano.

Gabriel Henrique, auxiliar notarial, já sabia como era a convivência com um cãozinho quando se deparou com Théo, um lhasa apso. A família guarda as lembranças de seu primeiro pet, uma pinscher, que morreu em 2008. Por conta do trauma, a mãe não queria um novo cachorro, mas não resistiu à fofura que encontrou na feira onde trabalha. “Minha mãe disse que ele já estava dormindo por lá havia uns três dias e, simplesmente, o levou para casa. No início, achei até que era uma brincadeira”, conta.

O cão de porte pequeno a médio não demonstrou oposição e demorou pouco tempo para se adaptar ao novo lar. “No primeiro dia, ele ainda ficava desconfiado, ficava na janela olhando a rua, como se estivesse esperando alguém. No seguinte, já estava super à vontade, parecia que era da família havia anos” relata Gabriel.

Infelizmente, casos como o de Théo, que se acostuma rapidamente ao novo lar, não representam a totalidade. Possivelmente, o bom estado de saúde e os três dias que passou na feira o ajudaram no processo do resgate e na construção da confiança.

Vanessa Negrini, professora da disciplina de mobilização pública e direitos animais da Universidade de Brasília (UnB), explica que alguns salvamentos podem levar dias. “Uma vez, encontrei um cachorro em uma parada de ônibus. Estava sendo comido vivo por larvas numa ferida na cabeça. Tentei me aproximar e ele rosnou. Deixei água e ração, mas ele não tocou. No outro dia, o animal continuava lá e sem deixar eu me aproximar muito. Troquei a água, a comida e fiquei conversando com ele um tempão. No terceiro dia, ele estava bem fraco, parecendo querer desistir da vida. Sabia que tinha que resgatar naquele momento ou ele não sobreviveria. Peguei um cobertor e só pensei: por favor, não me morde”, recorda-se.

A professora conta que Alone sobreviveu e ganhou um lar maravilhoso depois de alguns meses de tratamento. “Mas se eu tivesse me precipitado no primeiro dia, talvez ele tivesse fugido ou me mordido”, destaca sobre a importância de interpretar os sinais que o animal dá.

Para atraí-los

Caso o pet tenha uma reação inesperada e morda ou arranhe, o primeiro cuidado deve ser higienizar o local com água e sabão em abundância. Se notar uma perfuração no machucado, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal indica que vá a qualquer unidade básica de saúde (UBS) para fazer o primeiro atendimento e receber encaminhamento para local de referência.

Um dos artifícios que Vanessa e outros protetores usam para atrair o pet é oferecer água e comida. Em situação de rua, muitos estão famintos e sedentos, e prontamente aceitam pães ou salsichas, no caso de cachorros, e comidas de cheiro forte, como sardinha, para os gatos. Se possível, andar com porções de ração em saquinhos e potes para servir água facilita o procedimento.

“Consegui atrair uma gatinha com perna quebrada e rabo queimado com água e comida. Ela estava assim porque algumas crianças amarraram bombinhas em seu rabo. Por isso, insisto que é preciso investir em educação sobre os direitos dos animais”, diz Vanessa. Hoje, a felina é tratada em um novo lar.

O veterinário Luis Olivio garante que algumas técnicas de psicologia também podem ajudar nesse momento da alimentação. “Nunca vá na direção do cão. Sempre que jogar a comida e ele se aproximar para comer, ande para trás. Dessa forma, o cão sentirá menos pressão e ganhará confiança mais rapidamente. Quando o cão se aproximar, não tente dar um bote nele, vá fazendo carinho, recompense. O elo entre vocês ficará cada vez mais forte.”
Vanessa encontrou a gatinha com perna quebrada e rabo queimado. Apenas a fome e a sede foram maiores que as dores para que ela conseguisse se aproximar da protetora(foto: Arquivo Pessoal)
Vanessa encontrou a gatinha com perna quebrada e rabo queimado. Apenas a fome e a sede foram maiores que as dores para que ela conseguisse se aproximar da protetora (foto: Arquivo Pessoal)
 
 
Doando amor

O dia 15 de fevereiro tem um significado especial para Arthur Lôbo, estudante de 22 anos, foi a data em que resgatou Dália de uma situação de negligência de seu antigo tutor. Ele encontrou a vira-lata depois de ser atingida por pedras na rua e dar à luz 12 filhotes. Além disso, ela estava com a doença do carrapato e espumava pela boca. “Ela estava muito fraca, então não demonstrou nenhuma resistência. Levamos os filhotes até o carro, e a Dália foi atrás”, lembra.

A primeira coisa que Arthur fez foi levar a cachorra no veterinário. Foi preciso mantê-la internada para tratar as crises de convulsão e os ferimentos das pedras. Dália foi o terceiro animal resgatado da família, que já tinha um breve conhecimento sobre o assunto. “Todos os casos foram bem tranquilos. Eu cresci com um cachorro bravo dentro de casa, então aprendi a importância de não encurralar, não deixar o animal sob estresse e não pegar no colo de repente, porque ele pode reagir instintivamente e morder.”
 
 
Dália (a frente) foi resgatada pela família de Arthur depois de ser apedrejada na rua e dar à luz aos seus 12 filhotes(foto: Arquivo Pessoal)
Dália (a frente) foi resgatada pela família de Arthur depois de ser apedrejada na rua e dar à luz aos seus 12 filhotes (foto: Arquivo Pessoal)
 
Além de Dália, eles tiraram a Biju, outra cachorra, das ruas, e salvaram um gato pequenininho que encontraram com medo dentro de um motor de carro. Hoje, eles têm um lar onde encontraram confiança e amor.

*Estagiária sob supervisão de Sibele Negromonte



Salvando com segurança

Para garantir um resgate seguro, Vanessa Negrini e Luis Olivio sugerem um passo a passo específico para gato e outro para cachorro:

Gatos
  • O gato é mais desconfiado, então é melhor se aproximar sozinho para estabelecer a confiança.
  • Ofereça uma comida de cheiro forte. Se for manso, ele logo se aproximará.
  • No caso de felinos ariscos, você pode persistir para ganhar a confiança ou optar pela prática do CED (capturar, esterilizar e devolver) para controlar a população de animais nas ruas.
  • Para levá-lo com tranquilidade e segurança, é importante ter uma caixa específica para transporte — você pode conseguir em ONGs ou com grupos voluntários. Caso não tenha ou o resgate não seja programado, uma caixa de papelão, com furos para circulação do ar, pode substituir.
  • Após o processo, leve o animal imediatamente ao pronto-socorro veterinário, principalmente se ele estiver debilitado.
  • Se não estiver ferido e não for possível levar o gato imediatamente, mantenha-o isolado e em observação. A vermifugação pode ser feita na casa por precaução.
  • Se desejar limpá-lo, passe um pano fofo e úmido no sentido dos pelos. Para os olhos, use gaze embebida em soro fisiológico.

Cães
  • Para os cães, o resgate em dupla pode funcionar, principalmente se o animal for de grande porte, para ajudar durante o trajeto até uma clínica veterinária ou residência.
  • Vá jogando comida de longe e deixe o animal vir se aproximando. Quando estiver bem perto, deixe ele sentir o cheiro de sua mão com cuidado e veja se é possível afagá-lo.
  • Entenda os sinais de afastamento emitidos por um cão: orelhas para a frente, boca fechada ou lambendo o focinho várias vezes, musculatura rígida e rabo muito levantado abanando. Orelhas para trás, olhos mudando de posição, lambendo focinho rápido, corpo em posição de U e rabo entre as pernas. Orelhas para trás, cabeça abaixada, branco do olho aparecendo muito, bocejando e com o rabo entre as pernas.
  • Se conseguir a confiança, ainda com a comida, pode atraí-lo para a caixa de transporte de maneira segura ou para o carro — já com o banco de trás forrado.
  • Se não houver resistência, outra opção é colocar a coleira ou guia nele.
  • Se o cachorro estiver machucado, a abordagem da comida pode falhar. O melhor, nesse caso, é ter um pano para cobri-lo, com cuidado redobrado para não encostar na ferida, depois de conquistada a confiança.
  • Assim como para os gatos, o indicado é levar o cão imediatamente para uma urgência veterinária. Se não for possível, também mantenha-o em área isolada e faça a vermifugação da casa.
  • Na hora do banho, pode usar água morna com sabão de coco ou xampu para cachorros. Se detectar pulgas ou carrapatos, lembre-se de informar ao veterinário.


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